Notas iniciais
Este foi o capítulo mais tenso e bonito que escrevi. Espero que gostem!

—Vamos, Bea! Respire! – Andie orientava, secando a testa da jovem.

Beatrice estava em um trabalho de parto cansativo. O bebê não havia se ajeitado na posição correta, devido a surpresa. A sra. Doherty mantinha os panos úmidos e limpos, e havia se mostrado uma presença reconfortante.

Ela auxiliava Andie na pesada tarefa. Apesar da sra. Marshall não ter qualquer experiência com partos, insistiu em fazer o de Beatrice. Não era trabalho fácil. Ela precisava prestar atenção à posição do bebê, possíveis sangramentos e fazer com que Beatrice permanecesse calma e respirando.

—Ah meu Deus! – Beatrice exclamou, gotas de suor brotando na testa. Os cabelos estavam em desalinho, e a pouca dignidade que lhe restara sumiu quando abriu as pernas. Andie já quase enxergava a cabeça da criança, mas Beatrice estava muito cansada, e tanto Andie quanto a sra. Doherty temiam pela vida dos dois.

Ernest ainda não havia voltado. Enquanto secada novamente a testa de Beatrice e respirava junto a ela para tentar acalmar seus nervos, os pensamentos voavam até ele. Onde estaria? Será que encontrara Charles? E se encontrara, quais seriam as explicações do jovem para sua fuga? Andie esperava sinceramente que Ernest não tivesse piedade do sobrinho, e torcia para que aquela situação não tirasse Beatrice de sua vida.

—Senhora, não acha melhor chamar um médico? – Doherty perguntou, angustiada.

—O bebê já está a caminho! Não vai dar tempo!

—Andie... Andie... – Beatrice sussurrou, tão baixo e com a voz tão fraca que Andie quase não conseguiu escutar. Ela nunca a chamara daquela maneira; seu olhar apagado a assustou.

Andie se aproximou, colocando as mãos ao redor do rosto de Beatrice: — O que foi?

—Eu não posso aguentar muito mais... se eu morrer...

—Não! Você não vai morrer de jeito nenhum! Farei de tudo para que você e seu bebê fiquem bem! – ela tirou as mãos do rosto de Beatrice e voltou para seu lugar de antes, observando o andamento do parto. – Está quase. Mais um empurrão... vamos! – ela instigou.

Beatrice respirou fundo, puxou o restante de sua força e, com um empurrão vigoroso e urros de dor, o bebê escorregou por suas pernas caindo diretamente nos braços de Andie.

O choro preencheu o quarto, deixando Andie em lágrimas. Beatrice levantou a cabeça para olhar melhor seu filho... sua filha.

—É uma menina, Bea. Uma linda menina! – Andie anunciou, chorosa, entregando a criança para Beatrice antes de limpá-la.

—Oh, minha menina! – Beatrice beijou o topo de sua cabeça, feliz. Toda a tristeza com Charles sumiu; a única coisa que importava agora era a vida da filha. – Ela é linda!

—Sim, Bea... muito linda! – Andie não pode segurar as lágrimas. A sra. Doherty percebeu que ela estava muito emocionada para cuidar da criança e, com delicadeza, tomou a menina dos braços da mãe, embalando-a em panos limpos e secos. Limpou o rosto pequenino com cuidado e carinho, cantando uma canção singela e muito antiga.

—Qual vai ser o nome, senhora? – Doherty perguntou, em meio à canção.

—Oh, ainda não havia pensado nisso! – Beatrice se deu conta, surpresa.

—O que acha de Mary? Era o nome de sua mãe. – Andie propôs, enxugando as lágrimas.

—Mary! – o rosto de Beatrice se iluminou. – É perfeito! Olá, pequena Mary! – ela disse, se dirigindo à criança no colo de Doherty. – Dê para mim! – Beatrice estendeu os braços, e a velha senhora colocou Mary em seu colo.

—Que horas são, Doherty? – Andie perguntou, preocupada por Ernest estar demorando tanto.

—Passam das três, senhora.

—Ernest ainda não voltou!

Beatrice, até aquele momento concentrada em admirar cada detalhe do rosto de Mary ergueu a cabeça, confusa e perguntou: — Para onde ele foi?

—Hummm... eu pedi que fosse atrás de Charles. – Andie queria ter inventado alguma mentira, mas a lealdade a Beatrice e sua própria expressão a entregariam facilmente.

—O quê?

—Quando você estava deitada sofrendo a dor das contrações fui até Ernest e cochichei para que ele encontrasse Charles e o questionasse sobre sua saída repentina. Desculpe, Bea... sei que não tinha o direito de fazer isso, mas não podia deixa-la sem explicações.

—Está tudo bem... – ela abaixou o rosto, parecendo serena. -... agora tenho Mary. Qualquer outra pessoa que me deixar nunca superaria a tristeza de perder Mary. Nunca senti isso por ninguém, Andie... – a dificuldade do parto a deixou mais à vontade com Andie, a ponto de passar a chama-la pelo nome. -... esse amor, essa necessidade de protegê-la a qualquer custo...

—Desculpe... mas você sabe como eu sempre me senti com relação a Charles. Pelo visto, não me enganei. Ele vai pagar por tudo, Bea, eu juro. — Andie levantou da cama, sentindo todos os músculos doerem. – Agora, descanse, eu mesma vou cuidar de minhas necessidades pessoais. Se precisar de qualquer coisa estarei por perto, é só chamar.

—Tudo bem. – ela respondeu. – Andie... – chamou, antes que esta saísse do quarto. -... eu nem sei como começar a agradecê-la. Não a considero somente patroa e amiga... a partir de hoje, a reconheço como irmã.

Andie poderia ter tentado controlar as emoções, mas a súbita declaração, tão verdadeira quanto possível, fez um arrepio percorrer seus braços e enviou uma onda de gratidão e felicidade que transpareceu nos olhos rasos d´água. Ela tinha um nó na garganta, e vendo que não iria conseguir falar se contentou em assentir com a cabeça, e saiu do quarto com o coração mais leve.

Ernest voltou meia hora depois, com desolação no rosto.

Andie levantou do sofá no qual estava descansando. Não pudera pregar os olhos mesmo depois do banho. O esgotamento físico não era nada comparado à exaustão emocional.

—Não o encontrei. Sinto muito. E Beatrice?

—Ela está bem. E o bebê também. É uma menina, aliás. – de repente a alegria por ter trazido uma criança ao mundo não valeu de nada. Sua parte geniosa queria vingança. Se Beatrice tivesse morrido por culpa de Charles ela iria até o fim do mundo para mata-lo, mesmo que isso custasse sua liberdade. – O que descobriu?

Ele fez sinal para Andie sentar e a acompanhou.

—Um mendigo me informou de que viu certo moço muito bem-apessoado pegar um táxi na direção do aeroporto. Não tem como ter certeza de que o moço era Charles.

—Mas precisamos encontra-lo, Ernest!

—Sim, eu sei... – ele esfregou o rosto, cansado. -... acha que estou com menos raiva dele? Andie, acredite, farei Charles pagar. Pelo menos as duas estão bem... não terei de conviver com a morte de um inocente.

—Mas eu não posso viver sabendo que ele está por aí, fazendo sabe-se-lá-o-que com outras mulheres, enganando, se infiltrando em famílias para arrancar a virtude das jovens e abandonando-as à própria sorte. Isso não é correto.

—Não. Mas o que podemos fazer? – ele virou o rosto para ela, parecendo dez anos mais velho.

—Vamos contratar alguém, um detetive, sei lá.

—Não! – ele disse, categoricamente. – Está fora de cogitação!

—Por quê? Do que tem tanto medo, Ernest? – ela indagou, franzindo as sobrancelhas e cruzando os braços.

Ernest ficou embaraçado. Ele cerrou a boca e olhava para tudo, menos para ela. O que quer que temesse com a contratação de um detetive era algo grande demais para Andie convencê-lo do contrário.

—Escute, Andie, eu estou muito cansado. Vasculhei quase Londres inteira, e só obtive a informação do mendigo, nada mais.

—O que está escondendo de mim?

—Por que acha que estou escondendo alguma coisa?

—Sua hesitação, seu medo... olha Ernest, se estiver escondendo de mim o paradeiro de Charles e eu souber disso nunca o perdoarei. Por mais que eu goste de você aprecio a vida de Beatrice e não hesitaria em arrancar cada dedo de sua mão e dá-los de comer para si mesmo. – Andie falou olhando diretamente em seus olhos azuis murchos pelo cansaço, não deixando dúvidas quanto a sua promessa.

—Eu juro, Andie, pela vida de Beatrice, que não escondo nada relacionado a Charles. Estou tão perdido quanto você com tudo isso. – ele se levantou do sofá e foi até as escadas. – Agora, se me der licença, irei ver Beatrice e a criança.

—Mary.

—Como disse?

—O nome da criança é Mary.

—É um bonito nome. – Ernest comentou, parando por um momento, pensativo, e em seguida tornou a subir as escadas.

Andie permaneceu um tempo na sala antes de voltar para o quarto. Ernest aparentemente havia ido dormir sem desejar boa noite. Ela imaginou que estaria ressentido e magoado com a conversa minutos antes, mas ignorou a compressão no peito e se concentrou no bem-estar de Bea e Mary.

A jovem olhava para a criança acomodada em uma pilha de cobertores. Mary dormia tranquilamente, grunhindo de vez em quando. Beatrice tinha um misto de admiração, surpresa e paz no rosto. Não tirou os olhos de sua filha, nem quando Andie entrou no quarto.

—Como ela está? – perguntou, se aproximando com cautela para não acordar a recém-nascida.

—Dormindo desde a hora que você saiu. Ernest veio aqui e a achou parecida com Charles. É uma ironia, não é? – agora que o choque inicial do nascimento havia passado ela pensava em outras coisas. Parte de Beatrice se encantava com cada movimento de Mary, mas a outra parte rachava aos poucos. Uma parte dela que nunca voltaria a se remendar. Mesmo que Charles voltasse e sua vida fosse a mesma, no fundo ela sempre teria aquele vazio, aquela dor causada pelo abandono.

Andie ficou quieta, esperando Beatrice falar.

—Carreguei a criança comigo por quase nove meses. Eu sentia seus movimentos, me conectei com ela de uma forma que nunca pensei existir... acordava pensando nela e dormia imaginando como seria seu rosto, como seria sua personalidade... e, mesmo agora, me pego pensando em como será quando crescer... se ela será uma pessoa boca, se a sociedade será diferente...

—Não imagine isso, Bea. Você estará por perto para ver.

—Quem sabe? Até ontem eu acreditava que teria Mary em meus braços com Charles ao meu lado. Que iríamos trocar fraldas, dar de mamar e ver seus primeiros passinhos juntos. A vida é uma ironia. Mary é a cara do pai...

—Não pense assim, Bea... – Andie puxou uma mala no canto do quarto e a posicionou perto de Beatrice, sentando. -... sua filha é linda! Por mais que seja parecida com o pai, não tem nada dele. Posso ver doçura, alegria e paixão, assim como vejo em você.

—E se ela for... parecida com o pai no outro aspecto? – ela perguntou, aflita, olhando para Andie agora.

—Não é querendo defender Charles, mas Doherty disse que ele saiu sem dar nenhuma palavra, não é mesmo?

—Sim. Ele pegou as malas, suas roupas e pertences, colocou tudo dentro e saiu. Fiquei gritando com ele, já sentindo pontadas na barriga, mas Charles não me respondeu.

—É tudo muito estranho. Ernest me disse que um mendigo o viu pegando o táxi na direção do aeroporto. Por que ele sairia com tanta pressa e sem dar qualquer explicação? Para mim isso está mal contado. Qualquer um que visse vocês dois saberiam o amor que ele tinha por você e pelo bebê. E se ele tinha a intenção de deixa-la, não o faria dessa forma. Ele provavelmente teria saído em algum horário no qual não houvesse ninguém, talvez durante a madrugada...

—Não sei, Andie. Simplesmente não sei. – uma lágrima escorreu por sua bochecha corada e caiu no colo. – Hoje era para ser o dia mais feliz de minha vida.

—E é. – Andie insistiu, pegando na mão de Beatrice. – Mesmo que aquele canalha tenha feito o que fez, essa noite não deixa de ser mágica. Bea, o nascimento de uma criança é sinônimo de luz. Nada no mundo supera a emoção de uma mãe que vê o filho pela primeira vez. Tudo passa a fazer sentido... Deus, a vida, o amor... quem não conheceu o amor até hoje conhecerá com um filho.

—Você fala como se soubesse o que é ser mãe. – Beatrice comentou, confusa, observando Andie atentamente.

—Nunca lhe disse antes, Bea... mas eu tive um filho. – Andie falou olhando para o chão.

—Como? Um filho? Com Paul? – Bea inquiriu, surpresa.

—Sim. Isso foi meses antes de você aparecer em casa. Eu ainda estava sofrendo pelo luto, mas quando apareceu em minha porta imediatamente prometi para mim mesma que, já que não pude proteger meu filho, poderia te proteger.

—Do que ele morreu? Desculpe, não devia ter perguntado. – ela ficou encabulada e virou o rosto para o outro lado.

—Não... está tudo bem. Já se passaram anos, consigo falar sobre isso agora. Matthew morreu dois dias após o parto. Eu pude segurá-lo, sentir seu cheiro, ouvir o som da respiração... mas nem os médicos puderam salvá-lo. Ele nasceu com problemas cardíacos. A parteira me disse que o coração era pequeno demais, não aguentava bombear sangue o suficiente. Nesses dois dias eu conheci um amor que nunca mais tive... e também uma dor tão sufocante... – a voz de Andie falhou, e ela segurou a emoção para poder continuar: — Não desejo uma perda dessas para ninguém. – ela olhou para a janela, pensativa, recordando daquele outubro de 55.

—Não consigo mais imaginar minha vida sem Mary. Ela agora é meu ar, meu coração... como alguém vive sem o coração? – Beatrice chorava, se colocando no lugar de Andie. – Por que Deus permite que algo assim aconteça?

—Não cabe a nós julgarmos. Deus nos dá a vida, e é o único que pode tirá-las. No início fiquei revoltada... não socializava com ninguém, não queria ver nem minha sombra... então você chegou, e enxerguei meu Matthew novamente. Pude sentir a vida correndo em mim novamente. Deus jamais tira uma vida assim, arbitrariamente... para Ele tudo tem um sentido de ser, e a morte não é diferente. Encontrei um novo sentido para mim em você, Bea... e agora isso se intensificou com Mary. Eu juro que, enquanto viver, a protegerei com minha vida se precisar... já que não pude ter meu filho comigo, ao menos terei Mary.

Andie e Beatrice se olharam com amor. Essa é a única palavra que posso usar para descrever aquilo. Você deve amar alguém com tanta intensidade quanto Andie amava Beatrice e esta amava Mary. Era aquele amor de fazer parar o coração... aquele sem condições para existir e, ao mesmo tempo, sendo a própria condição de se existir. Um amor que abala as barreiras do tempo e do espaço... que não tem explicação e não encontra seu fim. Caso ainda não tenha amado ninguém dessa forma é porque a pessoa não entrou em sua vida. Sejam filhos, irmãos, pais... ou um animal de estimação! O amor puro não tem sentido, não tem porquês e não tem começo ou término. Ele existe, e pronto! Creio que o maior mistério do mundo não é a vida nem a morte. Pois o que move o universo é o amor. Deus amou sua criação; Abraão amou o filho; Maria amou Jesus; Buda amou a natureza; Maomé amou seu povo. Quando se ama alguém, se deixa de existir sozinho.

Era isso que Andie sentiu por Beatrice e Mary naquele instante. Vendo a expressão da jovem mãe e o rosto sereno da bebê, Andie não teve dúvidas. Se um elefante surgisse e ameaçasse pisoteá-las, ela o mataria com as próprias mãos.

—Como Paul ficou depois da morte de Matthew? – Beatrice perguntou, recuperando a compostura.

—Ele parecia arrasado. Se bem que, pensando nisso agora, Paul estava estranhamente animado naqueles meses. Mesmo me vendo para baixo, não tentava me confortar. Pensei que ele estivesse tão cabisbaixo quanto eu, mas talvez simplesmente não sentisse por Matt o mesmo que eu sentia. Passei tantos anos ao lado de Paul e nunca percebi sua verdadeira personalidade. As pessoas podem nos enganar facilmente.

—Eu também pensei que conhecia Charles muito bem, mas se você passou anos com Paul e se surpreendeu, o que eu poderia esperar em meses? – ela deu de ombros. – Já que estamos falando disso, Andie, acho que nunca lhe contei minha história.

Andie se aprumou na mala, curiosa.

—Nasci em Brighton e fui criada pelos meus avós maternos. Nunca conheci meu pai, e minha mãe morreu de tuberculose meses depois do parto. Posso dizer que tive uma vida sossegada até por volta dos meus dezessete anos, quando eles morreram atingidos por um bombardeio alemão. Milagrosamente eu sobrevivi, indo parar em um hospital de campanha. Como ainda era menor de idade fui encaminhada para um orfanato e adotada por uma família rica. Gostaram de mim imediatamente, mas eu não me sentia em casa, sabe? – Andie meneou a cabeça. –A mulher era gentil, contudo o marido me incomodava. Certa noite, ele tentou me estuprar. Na época eu não tinha ideia do que era um estupro, mas hoje sei, e isso me assombra. – o rosto de Beatrice estava atormentado, retorcido em uma máscara de nojo e trauma.

—E o que você fez?

—Me defendi como podia. Com um canivete.

Andie estava surpresa. Nunca pensou que alguém tão doce como Beatrice, ingênua o bastante para acreditar na bondade das pessoas, pudesse ter tido coragem de se defender daquela maneira. Mesmo nas piores situações, é preciso determinação e senso de autopreservação o bastante para matar alguém.

—Tinha sangue demais. Assim que percebi o que havia feito, fugi. Me embrenhei no mato e, quando enfim encontrei um rio, lavei minhas roupas da melhor forma que podia. As piores manchas de sangue saíram.

—E como veio parar em Londres? Brighton não é tão longe, mas é muito para uma pessoa caminhar.

—Embora eu estivesse desgrenhada, ainda atraía os olhares masculinos, e foi com muito medo que pedi carona para um senhor na estrada. Ele tinha outras intenções comigo, e imediatamente percebi. Digamos que... o soco foi um pouco forte demais. Deixei ele desmaiado na estrada.

Andie colocou a mão na boca, com uma cara engraçada. Quem pensaria que uma mulher tão adorável quanto Beatrice tinha uma ousadia dessas?

—Depois peguei o carro e dirigi até Londres. Achei que vender seria arriscado demais, mesmo necessitando do dinheiro, por isso o abandonei em uma trilha na estrada e andei quase Londres inteira antes de ser atraída para sua casa.

—O que a atraiu?

—Não sei. Meu coração dizia que ali me receberiam de braços abertos, e eu não me enganei. Era como se eu pudesse sentir que a senhora estava sozinha, abandonada. Nem pensei duas vezes. – Beatrice se remexeu desconfortavelmente na cama.

—Puta merda, Beatrice! – Andie soltou, fazendo a jovem rir e em seguida resmungar de dor. O parto exigira muito de si, ela precisava descansar. – Estou admirada de verdade. Quem diria que alguém como você era capaz disso?

—Minha sobrevivência falou mais forte. Era isso ou morrer. Quando a morte bate na nossa cara devemos revidar. Senão, ela nos pega de jeito. – Beatrice contorceu o rosto, parecendo sentir dor.

—Está se sentindo bem? – Andie perguntou, subitamente preocupada.

—É só uma dor no ventre. Não deve ser nada. Estou exausta.

—Vou te deixar descansar agora. Estarei bem aqui caso precise. Partos são cansativos, eu bem sei. O mais engraçado é que esquecemos a dor tão logo ela acaba.

—Sim. Eu teria outro filho agora se tivesse forças. Tudo que passamos vale a pena quando olhamos para isso. – ela observou Mary, dormindo feito um anjo.

—Descanse. – Andie levantou, colocou a mala no lugar e voltou para beijar a testa de Beatrice. – Agora você é mãe, e deve aproveitar enquanto Mary ainda é bem pequena. Depois que ela crescer não terá mais um minuto de sossego. – ela riu, sendo seguida por Beatrice.

—Boa noite, Andie. – Bea falou antes de fechar os olhos.

—Boa noite, Beatrice.

Na manhã seguinte Andie saiu da cama cedo. Olhou Beatrice e Mary. Ambas dormiam profundamente. O rosto da jovem mãe estava marcado pelo cansaço, mas havia um brilho nele que Andie não tinha visto nem quando Charles ainda rondava pela casa.

Ela foi para a cozinha após se lavar e trocar de roupa. Ernest já fazia o desjejum e a sra. Doherty organizava a cozinha.

—Bom dia. – ela cumprimentou, sem graça, as memórias da noite anterior vindo à superfície.

—Bom dia, Andie. Como está Beatrice?

—Parece bem. Um pouco cansada, é claro, mas tão bem quanto poderia estar. Terminando o café trocarei os lençóis de sua cama, se ela já estiver acordada.

—Foi dormir bem tarde ontem, não foi? – ele perguntou pegando um pão e o abrindo com a faca.

—Eu e Beatrice ficamos conversando. Ela me contou sobre sua vida antes de começar a trabalhar para mim. – silêncio. – Mas acredita que Beatrice matou um homem? – ela acrescentou, subitamente.

Ernest levantou a cabeça, surpreso tanto pelo fato da doce Beatrice ter matado alguém quanto pelo fato de Andie ter falado por vontade própria.

—Por que?

—Ele tentou estupra-la. Era seu pai adotivo. Ela usou um canivete. Depois foi atacada por um homem ao qual pediu carona para vir até Londres e o socou. Me disse que o abandonou na estrada.

Andie evitou olhar para Ernest, senão acabaria rindo de sua expressão engraçada. Concentrou-se na aparência dos biscoitos amanteigados, fingindo prestar atenção nos detalhes em chocolate por cima do doce.

—Puxa vida! – ele exclamou colocando a mão no queixo, pensativo e atordoado. – Pelo visto as mulheres que parecem mais dóceis são as piores. Com exceção de você, é claro. – tão logo falou se sentiu arrependido. A expressão de Andie não era das mais felizes, mas ela entortou a boca em um sorriso.

—O que faremos a respeito de Charles?

—Ainda estou pensando nisso. Conheço pessoas do governo que poderiam me informar sobre os passageiros do voo que saiu ontem para a Itália. Charles pode ser um deles.

—Itália? Tem certeza que ele foi para lá?

—Charles sempre teve o sonho de morar na Itália, e só saiu esse voo ontem a noite depois da confusão toda. Considerando o que o mendigo me dissera sobre ele ter pego um táxi para o aeroporto o mais provável é que tenha saído do país, não acha?

—Pode ser. Ajudarei no que precisar. Charles deve dar uma explicação.

—Sim. – ele parecia esconder alguma ideia.

—Fale.

—Falar o quê?

—No que está pensando.

—Não é nada, uma ideia absurda...

—Vamos! Desembucha. – Ernest às vezes se esquecia de como era poderia ser bem... convincente.

—Será que Paul está por trás disso?

—Paul? Por que ele mandaria Charles para outro país? Você está tentando tirar seu sobrinho da reta, é isso? Porque se for...

—Claro que não! Sou um homem de princípios. Se Charles fez, Charles pagará. Mas você não acha muito estranho ele não ter dado qualquer indício de seu plano de fuga e de repente sair daqui? Pensa bem: ele saiu de manhã completamente normal, sem parecer nervoso ou arrependido, ou mesmo aliviado.

—O diabo tem muitas máscaras. – Andie comentou, seca, bebendo um gole de café.

—Sim, disso não podemos duvidar... mas conheço Charles bem o suficiente para saber que ele não faria uma coisa irresponsável como essa sem ter um bom motivo por trás.

—Às vezes achamos que conhecemos alguém, mas na verdade não sabemos nada.

—Eu não desistirei, Andie. Meu sobrinho fez algo completamente errado, imperdoável, mas ele é minha família... se há alguma chance de que ele tenha sido forçado a isso e que seja inocente, eu irei atrás de descobrir. Te prometo que terá as respostas das quais precisa.

—Se você está dizendo. – embora Andie não demonstrasse acreditar ou mesmo dar credibilidade às palavras dele, uma parte esperançosa dentro dela se recusava a lavar as mãos para o problema e deixar aos cuidados de Ernest. – Agora, se me der licença, vou ver se Beatrice e Mary já acordaram.

Andie subiu as escadas ainda refletindo sobre a ideia de Ernest. Será que Paul teria coragem de fazer algo contra Beatrice? Bem, ele tinha tentado fazer mal à própria esposa, por que não tentaria o mesmo com uma jovem sem grau de parentesco?

Beatrice ainda dormia, mas Mary começava a se remexer, choramingando. Bea devia estar mesmo muito cansada, pois os sonos de mães são leves e inconstantes. Se aproximou da cama e tocou de leve em Beatrice para que acordasse.

Ela não se mexeu. Andie franziu as sobrancelhas. Beatrice respirava normalmente, então por que não acordava? Andie mexeu mais uma vez, sem resposta. O movimento na cama acabou revelando um pouco do lençol por baixo de Beatrice. Estava vermelho. Aquilo era sangue?

—Bea! Acorde! – ela gritou, escutando passos na escada.

—O que está acontecendo? – ele perguntou, aflito.

—Ela não acorda, e há sangue no lençol. – Andie se desesperou, chorando. – Ernest, me ajuda aqui!

Ele foi para o lado de Andie e a ajudou a acordar Beatrice. A sra. Doherty apareceu instantes depois e pegou Mary no colo, temendo que com aquele rebuliço ela acabasse sendo esmagada contra a parede ou sufocada no meio dos cobertores.

—Vou ligar para a emergência. – ele avisou, correndo escada abaixo.

—Doherty, por que ela não acorda? – Andie urrou, sentindo dor no peito, nos músculos, a tensão se acumulando ao redor do pescoço e dos ombros. Estava apavorada. Beatrice havia passado a noite tão bem! Como não vira aquele sangue antes? Ele se espalhava em uma rodela grande no lençol e se acumulava embaixo de Beatrice. O cheiro era forte, e o tom não era de vermelho. Estava muito mais escuro, e fedia insuportavelmente. Ou Beatrice começara a sangrar agora ou toda a emoção da noite apagou as sensações de Andie, impedindo-a de perceber antes.

—Senhora, se acalme! O sr. Raytower já está vindo!

—Já chamei a ambulância, eles estão chegando! – avisou, segurando os braços de Andie para acalmá-la. – Vamos, venha aqui! Fique tranquila, Beatrice ficará bem. – ele a envolveu em seus braços, deixando que chorasse e extravasasse toda a angústia e preocupação.

—Isso é tudo culpa dele. – falava, em meio aos soluços. – Se Charles não a tivesse deixado ela teria um parto tranquilo! Mas o bebê estava do lado errado... não era hora de nascer.

A ambulância chegou. Eles escutaram a sirene, e Ernest correu para atendê-los, indicando onde ficava o quarto. Levaram Beatrice com rapidez e eficiência, aparentando calma e confiança.

—Eu irei junto! – Andie parou de chorar e assumiu novamente sua personalidade de sempre. Acompanhou os paramédicos até a ambulância e subiu, fazendo no caminho todo algo que nunca havia feito antes: ela rezou.