Escandalosamente Secreto
13 Silêncio
A casa estava silenciosa. Andie não gostava do som que o vazio produzia. Mas também não gostava do barulho. Tudo a incomodava, a inquietava. Quando Mary chorava – o que era raro – ela entrava em um estado de aflição, tentava tampar os ouvidos ou desligar a mente, constatando ser impossível, pois o caos não se mostrava nas coisas, e sim em sua cabeça.
Depois do evento de Honorio ela deitou na cama e ficou encarando o teto até o sol nascer. Mary também havia se mostrado muito perturbada, e Andie percebeu que a criança era intuitiva e os sentimentos dos outros refletiam em seus próprios sentimentos, tal qual Beatrice.
Ernest aparentemente não pregara os olhos. Ficou rondando pela casa e quando ela desceu para tomar o desjejum ele tinha sulcos profundos embaixo dos olhos e suas mãos tremiam sem parar.
Ela ficou o dia todo sem fazer nada que não fosse observar Mary e cuidar da comida, uma vez que Doherty estava débil. Ernest não falara muito, e Andie falara menos ainda. O clima que rondava a casa era de desolação e impotência. Ela tinha dificuldades em chama-lo por Raymund, seu nome verdadeiro, portanto tratou de continuar chamando-o de Ernest.
—Ernest... – ela começou, entrando na biblioteca.
—Diga. – ele não tirou os olhos dos papeis a sua frente, embora não conseguisse se concentrar em nenhuma das palavras.
—Mary não para de chorar. O que pode ser?
Agora ele levantou a cabeça, e Andie percebeu o quanto estava cansado.
—Melhor a levarmos em um médico. Há um excelente pediatra no centro, eu poderia marcar uma consulta para ela.
—Creio que não seja um problema que um médico resolveria. Parece que ela está sofrendo. É como se Mary percebesse nosso estado de espírito e ficasse da mesma maneira.
—Ora, Andie, deixe de bobagens, claro que ela não percebe nada. É apenas um bebê.
—Eu sei, mas estou preocupada. Não sei o que fazer.
Ernest observou Andie e imediatamente se arrependeu por ter sido grosso. Ele suspirou, empurrou a cadeira para trás e caminhou até ela.
—Andie... acho que quem está precisando de um médico aqui é você.
—Eu? Mas estou bem. Não sinto nada, nem dor, nem desconforto.
—Esse é o problema. Você não sente nada. Desde a morte de Beatrice você anda cabisbaixa, sem vontade de viver... não se trata de dor física. Posso ver como seu coração está pesado e dolorido. – ele colocou os dedos em sua nuca, aproximando o rosto.
—Estou inquieta, só isso. Preocupada, aflita que Paul possa aparecer de novo e fazer algo como fez com Honorio.
—Você cismou que ele era o dragão, não é?
—É mais do que cisma, é uma certeza forte, borbulhando ali na superfície, uma intuição, entende?
—Entendo. – ele pensou um pouco. – O que acha de fazermos um passeio? Gostaria de leva-la para um lugar no qual não existe Paul, nem Honorio e nem mesmo Beatrice. Quero fazê-la esquecer do mundo da mesma forma que você me faz esquecer do mundo quando está comigo.
A intensidade de seus olhos misturada à sensação da pele morna junto ao seu rosto a despertou, fez subir um calor que há tempos não sentia... aquele dia em que estiveram juntos parecia ter acontecido há milhões de anos, e desde então ela andara distante, perdida em seus pensamentos, afastada de tudo que a fizera feliz.
—Para onde me levará? – ela perguntou, curiosa.
—Se eu disser não será surpresa. Você aceita ir comigo?
—Esse é o terceiro convite que me faz em meses. Responderei da mesma forma como respondi todos os outros.
Ernest ficou esperando, e Andie falou antes de levar sua boca junto a dele:
—Eu aceito.
Eles marcaram o passeio para daqui três dias. Durante esse tempo Andie tentou se concentrar em cuidar de Mary. Pensar em Beatrice doía demais, e ela duvidava que isso fosse mudar; pensar em Paul ou em Charles a deixava com uma raiva fumegante e cega; e pensar em Ernest fazia seu corpo se acender de tal forma que não conseguia controlar. Por isso deu total atenção em cuidar da pequena Mary e se ocupar com alguns afazeres domésticos.
Ernest havia lhe informado que não estava chegando em lugar nenhum com a contabilidade da família. Ele suspeitava que Paul tivesse feito algo para acabarem daquele jeito; e, aparentemente, o problema era irreversível. Estavam falidos e ponto. Não havia o que discutir ou consertar. O estrago estava feito e Andie se surpreendeu ao perceber que não lamentava. Nunca mais queria saber de Paul nem de nada que fosse dele. Ernest crescera em sua vida de tal forma que ela não o imaginava de outro jeito. Contudo, ainda era esposa de seu marido, e para anular o casamento ela deveria provar as coisas que Paul fizera. Sua situação era dificultada pelo fato de ser mulher em uma sociedade altamente patriarcal e injusta.
Pelo menos ela teve um consolo ao saber que Honorio estava bem e se recuperando da lesão. Ele perdera muito sangue e ela ficou genuinamente preocupada com seu estado de saúde, tanto que lhe enviara uma carta tão logo ficou sabendo de sua melhora.
Honorio respondeu rápido, e Andie tirou como conclusão que ele se sentia bem o suficiente para atende-la. Ernest chegou com a carta nas mãos, esbaforido, o que lhe era incomum:
—Andie, leia isso! É uma carta de Honorio.
Ele lhe entregou o envelope pardo aberto e Andie puxou de dentro um papel muito branco e todo timbrado perfeitamente dobrado ao meio. A carta era sucinta, tal qual era do feitio de Honorio, mas lhe dizia muita coisa:
Cara Andie,
Tenho o prazer de informa-la sobre a melhora em meu estado de saúde. Confesso ter me sentido tão surpreso quanto a senhora com aquele ataque repentino e não estou medindo esforços para encontrar o culpado, apesar de meus instintos saberem exatamente quem é a pessoa por trás disso. Contudo, não conheço as verdadeiras intenções do criminoso e é isso que espero que a senhora descubra para mim.
Dentro deste envelope há o endereço de um amigo. Ele se chama Jay Westfield e pode ajudá-la a encontrar Paul. Espero que a senhora possa contatá-lo o quanto antes. Tanto sua própria vida quanto a de seus familiares e amigos correm perigo enquanto o culpado estiver solto pela cidade.
Também lhe forneço um dinheiro para auxiliá-la em suas necessidades pessoais. O senhor Raytower é um homem muito altruísta, mas como a conheço sei que não gosta de depender de ninguém, portanto este dinheiro é um empurrão inicial para a senhora buscar suas ambições.
Qualquer dúvida ou informação favor me procurar.
Ansiosamente,
Honorio Featherton
Andie vasculhou o interior do envelope, encontrando um papel pequeno com o endereço de Jay e um bolo de notas. Havia muito dinheiro ali, dinheiro demais para uma simples ajuda. Ela prometeu a si mesma que quando tivesse como obter seu sustento iria pagar centavo por centavo do que Honorio lhe dera.
—Ele deu tudo isso a você? – Ernest estava empolgado, e Andie ficou se perguntando o porquê.
—Também acho que seja um exagero. Mas o pagarei em seu devido tempo. – ela pegou as notas e as enrolou na mão. – Quando vamos procurar por esse tal de Jay?
—Hoje mesmo. Quero acabar logo com isso para fazermos nosso passeio amanhã.
Andie estreitou os olhos para ele e perguntou:
—Por que está tão empolgado assim? O que tomou?
—Doherty fez um café e tomei um pouco.
Andie achou graça da forma modesta como ele disse:
—Um pouco quanto?
—Ahh... – Ernest ficou constrangido e olhou para todo lugar, menos para ela. -... umas cinco xícaras.
—Isso é muito para quem disse preferir chá. – ela se segurou para não rir.
—Achei que se tomasse um café iria criar mais coragem para leva-la ao passeio. Pretendia ir hoje, mas com a chegada dessa carta melhor nos apressarmos em encontrar o sr. Westfield.
Ele pegou o casaco no gancho atrás da porta de entrada e olhou para Andie, ansioso, com um brilho diferente nos olhos e balançando para a frente e para trás, impaciente. Vendo que ela não fez nada ele apressou:
—Vamos! O que está esperando?
—Só estou observando sua inquietação. Parece até uma criança. – ela riu, para confusão de Ernest. – Tudo bem, vamos logo.
A casa de Jay ficava em subúrbio ao leste de Londres. As ruas estavam silenciosas, e passaram várias vezes por pessoas mal-encaradas. Homens de gorro e mulheres com roupas para lá de reveladoras se amontoavam pelas calçadas e o cheiro de substâncias inomináveis preenchia o ambiente do carro.
—É aqui??? – Andie perguntou, assustada, quando pararam em frente a algo semelhante a uma casa, mas cujas paredes estavam cheias de plantas selvagens e teias de aranha cobriam as vigas na varanda. – Quem consegue morar em um lugar deste?
—Achei muito legal a decoração.
Andie virou a cabeça tão rápido para Ernest que o pescoço estralou.
—Você não pode estar falando sério.
—Ah vai, admita que é muito criativo e único ter teias de aranha penduradas na varanda. E essas plantas cobrindo tudo? Nem minhas trepadeiras são páreas para a maravilha desses vegetais. É tudo muito rústico e ao mesmo tempo moderno!
Andie revirou os olhos. Com certeza o café não lhe fizera bem mesmo.
Ela se aproximou da casa com cautela. Se por fora era daquele jeito não queria nem imaginar seu interior. O calçamento balançava sob seus pés e umas duas vezes ela precisou se segurar em Ernest para não cair.
Durante o caminho até a porta ela ficou se perguntando de que forma aquele tal de Jay poderia ajuda-los a encontrar Paul. Seu marido aparecia quando lhe dava vontade, e não parecia ser do tipo fácil de achar.
Andie bateu na porta, mas assim que sua mão fechada socou a madeira carcomida a porta se abriu sozinha, rangendo. A casa cheirava a mofo e umidade, totalmente fechada pelas janelas verdes com musgo escorrendo até o chão. Uma ou outra fresta saía, mas a luz era tão rara que não adiantava muito.
Ela andou tomando cuidado no que pisava. Pelo chão havia utensílios espalhados e líquidos que ela não queria descobrir o que eram. Ernest, atrás de si, parava para admirar os objetos jogados. Alguns ele cutucou com os dedos, outros pegou e cheirou, mas a maioria mostrou para Andie, quase colocando-os em contato com o rosto da mulher.
—Pare com isso, Ernest! Não sabemos se há alguém aqui, fique quieto.
Ele se aborreceu por uns instantes que não duraram muito, tanto que continuou parando e se distraindo com as coisas que encontrava. Andie foi reto pelo corredor principal, olhando os cômodos. Não havia nada em nenhum deles além de mais sujeira e mofo. Um lhe cheirava particularmente mal, e foi nesse momento que soube que ali estava Jay.
Em um canto tinha uma cadeira de balanço muito velha e rasgada. Nela balançava um homem horrendo, com pústulas no rosto sujo e macilento, trajando roupas que poderiam ter saído de Os Miseráveis. Ele descansava os braços magros nas coxas, e parecia espera-los.
—Ah, olá, queridinha. – sua voz saiu arrastada e rouca, devia estar bebendo a julgar pelo odor de vinho barato e pelas garrafas quebradas no chão. – Eu estava esperando por vocês.
Apesar de seu estado, de sua casa e da aparência, Andie confiou nele. Em seus olhos havia diversão, simplicidade e honestidade. Nem um por cento dos nobres que conhecia tinha a bondade daquele homem, e Andie teve certeza de como a aparência não dizia nada, realmente.
—Honorio nos informou de que poderíamos encontra-lo aqui.
—Aquele velho desprezível e irritante. Como sinto falta dele. Ora, mas sentem-se. – ele apontou para um sofá de frente para a cadeira, com espuma saindo pelo estofado e garrafas espalhando seu conteúdo, manchando as almofadas puídas de vinho.
—Não, obrigada! Prefiro ficar em pé. Honorio nos disse que o senhor poderia me informar a localização de Paul. – ela disse, ávida por respostas.
Jay esticou as pernas e se espreguiçou, levantando no ar um cheiro nauseante de suor.
—Ahhhh... isso. Bem, posso dar pra senhora informações que precisa, mas não trabalho sem algo em troca. – ele sorriu, malicioso, expondo um buraco onde deveriam estar os dentes.
—O que quer?
—O que a senhora pode me dar?
—Café! Podemos dar café! – Ernest gritou, levantando o dedo.
—Ele tá chapado ou é impressão minha?
—Bebeu café demais. Ignore-o. Antes de lhe oferecer um pagamento pelas suas informações gostaria de fazer outra pergunta.
Ele a olhou, esperando, e bebeu outro trago de vinho, arrotando em seguida.
—Como sabe onde meu marido está? – Andie cruzou os braços.
—Eu sei onde todo mundo está, queridinha. Moro mais na rua que em minha própria casa. Vejo pessoas entrando e saindo, indo e voltando, felizes e tristes... eu vejo tudo. Ofereço informações em troca de coisas úteis. Ninguém faz nada de graça hoje, não é mesmo?
Uma lâmpada acendeu na cabeça de Andie. Talvez ele fosse o mendigo que vira Charles entrar no táxi na noite em que voltaram de Northampton. Ela resolveu perguntar a ele:
—Você viu, há meses atrás, mais especificamente na noite de 30 de julho do ano passado, um jovem de cabelos negros e olhos cinzentos subir em um táxi rumo ao aeroporto? Ele tinha mais ou menos essa estatura – ela demonstrou – e carregava uma mala vermelha.
Ele pensou um pouco, e de repente falou:
—Ahhhh... lembro, lembro sim... um jovem muito chique... parecia todo tonto, arrependido... tenho quase certeza ter visto ele chorar, não pude ver direito... estava mais focado em comer um lanche que achei no lixo.
Arrependido? Teria Charles se arrependido da sua decisão tão logo deixou a casa do tio? Andie queria muito acreditar nisso, mas conhecendo as pessoas e o que elas eram capazes de fazer toda sua crença esperançosa foi por água abaixo.
—Por que, madame? Tá procurando por ele também?
—Não. De forma alguma. Foi só... curiosidade. – ela abanou a mão para esquecer do assunto. – Agora, posso oferecer algo em troca para o senhor. – Andie puxou o bolo de notas dadas por Honorio e mostrou para Jay.
O homem pareceu tremendamente ofendido. Arregalou os olhos remelentos e pulou na cadeira como se tivesse espetado o traseiro com pregos.
—Saaaaiiiii... eu não quero dinheiroooo.... nãoooo... – gritou, lamuriando.
Andie temeu que tivesse outras reações piores e tratou de guardar rapidamente o dinheiro no bolso da calça preta.
Ernest, que até aquele momento estivera quieto e distraído, pareceu voltar a si e olhou para Jay com estranhamento e confusão.
—O que deu nele?
—Surtou quando mostrei o dinheiro de Honorio. – ela se aproximou de Jay. – O senhor está bem?
Ele se encolheu, temeroso. Parecia uma criança.
—Calma, não vamos oferecer dinheiro para você...
À simples menção da palavra ele resmungava. Andie pensou que ele devia ser a única pessoa no mundo que detestava dinheiro.
—Podemos dar outra coisa.
Jay imediatamente olhou para a aliança de casamento cravejada de pedrarias no dedo anelar de Andie, e suas feições relaxaram. Ela acompanhou seu olhar e percebeu o que ele desejava.
—Então quer minha aliança? – parte dela ficou relutante em dar algo tão precioso assim, mas a outra parte se recordava das coisas que Paul havia feito, e ela tirou o anel com alguma dificuldade, entregando-o a Jay.
O homem admirou a joia, deslumbrado pelas incrustações de rubis e safiras. Para que ele usaria Andie não tinha ideia. Se fosse qualquer outra pessoa teria pego para vender e com isso adquirir uma quantia considerável de dinheiro, mas no caso de Jay aquela hipótese estava fora de cogitação.
—Agora o senhor pode me falar sobre meu marido?
—Siiim... seu marido! – ele guardou o anel no bolso da calça rasgada. – O que você sabe sobre ele?
—Bem, ele é meu marido... sei que gosta de panquecas frias com geleia de amora, suco de limão e filmes de guerra...
—Não isso, o que a madame sabe sobre o paradeiro dele?
—Ele apareceu em casa há uns dois dias, mas não me deu nenhuma informação valiosa. Ele pode estar em qualquer lugar.
—Qual o nome dele?
—Hummm... você me disse que ele não era o verdadeiro Paul Marshall – ela se virou para Ernest, concentrado em admirar um quadro muito peculiar. – então quem é?
—Eu disse que ele não era o verdadeiro Paul Marshall. Ele se chama Paul, sim. Só não é o Paul que conheci. – ele deu de ombros, sem tirar os olhos da tela.
—Só não entendo por que ele se daria o trabalho de passar por outra pessoa. O que aconteceu com o verdadeiro Paul? Por que meu marido precisaria que acreditássemos ser ele o Paul Marshall? O que esse Paul tinha para despertar seu interesse? – Andie estava ficando com dor de cabeça, então tratou de se acalmar e esperar que Jay falasse.
—Isso eu não sei não, madame. Mas juro pela memória da minha falecida mãezinha que vou descobrir onde esse Pou tá e trazer ele pra você.
—Acredito no senhor. Qualquer coisa que precisar só pedir para mim. Creio que não preciso falar meu endereço, pois o senhor descobre sozinho.
—Sim, senhora... agora, se puderem sair da minha casa, tenho muita coisa pra fazer e não consigo fazer se tiver duas pessoas grudadas em mim.
—Claro! Ernest, vamos. – ela o puxou pelo braço e se despediu de Jay antes de seguirem pelo corredor. – Senhor Jay, foi um prazer conhece-lo. Quando podemos voltar a nos comunicar?
—Amanhã mesmo! Vou sair agora procurando pelo seu marido. Vão! – ele os enxotou do cômodo e os dois saíram da casa, em silêncio.
—Será que vamos encontra-lo? – Andie perguntou, roendo o polegar.
—Andie – Ernest falou, se aproximando dela e segurando seus ombros. – Prometo a você que iremos achar Paul, nem que isso custe minha vida. Ele vai pagar por tudo que fez, ouviu?
Ela assentiu, mais aliviada. Com certeza, Paul pagaria por tudo que fez.
Jay havia se mostrado extremamente competente. Em questão de horas um bilhete sujo e um pouco rasgado apareceu debaixo da porta de Ernest. Ele dizia apenas uma coisa:
Margaridas.
—Margaridas? – Ernest perguntou, olhando com as sobrancelhas franzidas para o papel em sua mão. – Que diabos isso significa? Sério que tivemos de ir naquela casa imunda conversar com um cara mais doido que minha tia-avó para ele nos dizer bobagens?
—Espera! – Andie pediu, procurando em sua mente algo que a fizesse recordar do significado daquela palavra. – Acho que sei onde ele está. – eles ficaram em silêncio. Andie se virou para olhá-lo e hesitou antes de dizer: — Nossa antiga casa. Havia margaridas no peitoril da janela, mas elas já teriam morrido há essa altura sem alguém para cuidar. A menos que...
—Que Paul tenha ficado lá esse tempo todo... – o rosto de Ernest se iluminou. – Vamos até lá. – ele foi pegando o casaco no gancho atrás da porta e já saía quando Andie o puxou pelo braço.
—Não acho uma boa ideia. Não temos reforços e Paul tem se mostrado muito perigoso. Não sabemos se ele está armado ou se tem comparsas. Melhor informarmos a polícia.
—Andie, se chamarmos a polícia ele saberá e pode acabar fazendo coisas muito piores. Precisamos ir até Honorio Featherton. Ele saberá como proceder. – a certeza nos olhos de Ernest acabou convencendo Andie, mesmo que contra sua vontade.
Ela assentiu, olhou para o chão e finalmente suspirou, resignada. Não suportava ficar parada esperando os outros fazerem o que devia ser feito. Ela gostava de agir, de colocar a mão na massa. Inércia nunca foi uma de suas características. Mas nesse caso era melhor confiar em Ernest. E em Honorio.
—Tudo bem. Me dê cinco minutos. Vou ver Mary e explicar a situação à sra. Doherty.
Andie demorou um pouco mais que cinco minutos. Estava com dó de deixar Mary sozinha novamente. Embora Doherty cuidasse dela perfeitamente, não era a mesma coisa. Andie sentia que havia passado a ser mãe da pequenina. Sempre que saía sem ela era como se deixasse seu coração para trás e não conseguia curtir os momentos da forma como deveria.
Entraram no carro e Ernest deu a partida. Chegaram à casa de Honorio com rapidez. O tempo era precioso agora, se deixassem que Paul soubesse terem conhecimento de seu esconderijo ele poderia tentar alguma coisa. Andie não o deixaria machucar novamente alguém que ama. Se tivesse acontecido conforme ela suspeitava, Charles não havia ido embora por livre e espontânea vontade.
Honorio os recebeu com surpresa.
—Ora, o que fazem por aqui? E essas caras? O que aconteceu? – ele ficou alarmado, permanecendo na soleira da porta.
—Precisamos falar com o senhor. – Ernest respondeu.
—É urgente. – Andie completou, encarando-o.
Honorio cedeu e, preocupado, mancou até o interior da suntuosa casa. O pé direito era absurdamente alto, e Andie quase não conseguiu ver os lustres. Cerca de cinco sofás enormes e confortáveis se estendiam por uma sala toda revestida em madeira, com uma lareira encostada à parede e abajures em cada mesinha. Andie imaginou que a casa de um lenhador fosse dessa maneira, e teve a engraçada impressão de que não era a única parte gigante da casa.
—Sentem-se. – ele ofereceu, acomodando-se em uma poltrona verde de couro e chamando um empregado. – Por favor, – disse assim que a moça pálida apareceu vinda de uma porta lateral – traga algo para beber e algumas bolachas. A senhora Marshall não consegue ficar tanto tempo sem comer. – ele riu, mas logo parou ao perceber que nem Ernest nem Andie riam de volta. Estavam nervosos, e não podiam controlar o sentimento de inquietação. – Muito bem, por que vieram aqui?
—Nós contatamos Jay na tarde de ontem, e ele nos deu uma informação valiosa por meio de bilhete esta manhã. – Andie puxou o papelzinho do bolso do casaco vermelho e o entregou a Honorio.
O senhor Featherton o leu e coçou a cabeça, confuso.
—Margaridas? Sei que Jay não é muito certo da cabeça, mas aí já é demais. O que raios isso significa? – ele virou o papel na mão com a esperança de que contivesse mais informações em seu verso.
—Andie me disse que em sua antiga casa havia margaridas nos peitoris das janelas.
—Sim. – ela abaixou a cabeça, recordando de um tempo mais fácil. – Beatrice insistia em deixa-las nas janelas para refrescar e perfumar a casa. Quando nos mudamos ela manteve um pouco da tradição, mas a sra. Doherty tinha alergia e Beatrice procurava deixar as flores somente no peitoril da janela de nosso quarto. Eram suas preferidas. – ela abaixou o tom de voz, pigarreando para clarear os pensamentos e focar no problema mais urgente. – Nós achamos que ele pode estar na antiga casa.
—Mas o governo não a tomou?
—Consegui a suspensão da hipoteca. – Ernest avisou. – Vai vencer mês que vem. Por enquanto a casa ainda está no nome de Paul. O senhor acha que ele realmente está lá?
—Hummm... – ele colocou a mão no queixo. – Pode ser. Imaginei que não quisessem chamar a polícia para não levantar nenhuma suspeita. Paul certamente desconfiaria se chegassem acompanhados de civis. Foi muito inteligente ter me chamado. Eu já sei o que podemos fazer para emboscar Paul e atraí-lo para um lugar mais seguro, chamar a polícia e colocá-lo atrás das grades por lesão corporal e tentativa de assassinato.
—E coação. – Andie falou de repente.
—Coação? – Ernest estranhou, não acompanhando o raciocínio dela.
—Pelo jeito que Jay falou Charles estava muito arrependido quando entrou no táxi. Acredito que Paul o coagiu a sair da cidade sob alguma ameaça. Só não imagino o porquê.
—Você acha mesmo? – havia descrença nos olhos de Ernest, mas também esperança. Ele conhecia Charles há muitos anos, e às vezes se recusava a acreditar mesmo que seu rapaz houvesse feito o que fez com Beatrice por pura maldade e sem motivos por trás.
—Jay pode ser meio maluco, mas tem uma inteligência fenomenal. – Honorio falou. – Deixe os bolinhos e o chá ali, sim? – apontou para a mesa mais próxima quando a empregada chegou trazendo uma bandeja com bolinhos apetitosos de chocolate e blueberry e um canecão de chá. Antes que ele oferecesse Andie esticou o braço e pegou um bolinho. Pegou metade com uma mordida. Em seguida olhou para Honorio, com a boca cheia de chocolate e o viu rindo. – Nem preciso oferecer para a senhora. Aceita uma xícara de chá? – ele pegou o canecão com uma mão e ia despejar na xícara, mas Andie fez que não com a cabeça. – Não quer? Finalmente encontramos algo que a senhora Marshall recusa.
—Prefiro café. – ela informou, a boca tão cheia que um pedaço de bolinho quase escapou.
—Admiro sua franqueza, Andie. Se mais pessoas fossem assim.
—Franca até demais, não acha? – Ernest questionou, sem amargura ou repreensão.
—Danica, traga um pouco de café para a senhora. – a empregada fez cara de poucos amigos e saiu com o nariz empinado. – Não ligue para ela. Danica veio da Alemanha fugindo da guerra. É mais velha do que parece. Mas voltando ao assunto: se Paul estiver escondido em sua antiga casa não há muito que possamos fazer além armar uma emboscada.
—E como faríamos isso? – Ernest perguntou no lugar de Andie, pois ela estava ocupada mastigando um bolinho atrás do outro. Ele a olhou, incomodado, se perguntando quanto uma pessoa podia comer antes de explodir.
—A única pessoa que poderia chegar perto dele sem correr o risco de ser atingida por uma arma é Andie. – Honorio virou a cabeça para ela e Andie cessou com a mastigação, encarando-o de volta.
—Eu?
—Sim. Você é boa em mentir, Andie?
—Andie mentir? Pff. – Ernest desdenhou, bufando. – Ela é a pessoa mais sincera e verdadeira que já conheci. Não consigo imaginá-la enganando alguém deliberadamente.
—Se precisarem que eu faça isso, e se for para fazer Paul pagar eu aceito. – ela não pestanejou, limpou a boca com o dorso da mão e a passou no casaco, manchando-o de chocolate. – Qual seria o plano?
—Precisamos que a senhora interprete o papel de uma mulher arrependida, triste pela falta de contato com o marido. Se a senhora for até a casa em que moravam com a cabeça baixa e com lágrimas nos olhos garanto que ele cai. Paul é do tipo de homem que não deixaria uma mulher chorar por sua causa, fosse ela qual fosse.
—Então você não o conhece nem um pouco. – Andie sussurrou, mais para si mesma.
—Como disse? – Honorio se aprumou na cadeira.
—Paul não deixa uma mulher chorar porque é covarde demais para consolá-la. Ele gosta de ver as pessoas sofrendo, mas não chorando. Somente um homem com coragem e um pouco de decência oferece seu ombro para uma mulher derramar lágrimas. Se Paul me ver chorando não vai fazer nada além de ordenar que eu pare.
—Então o que sugere, Andie. – Ernest perguntou.
—Bem... sugiro que eu vá até lá e o convença de que estou ao lado dele, de que quero fugir com ele e ir embora daqui. Preciso fazê-lo acreditar que largarei tudo para trás. Ernest, Mary... sei como fazer isso. Durante cinco anos o convenci a fazer o que eu queria, e para isso precisava abrir mão de outras coisas. Às vezes, quando desejava muito um vestido, ou um livro raro, eu dizia para ele que iria me desfazer de outros vestidos e outros livros.
—Parece um plano com falhas... – Honorio falou.
—Pois eu acredito em Andie. – Ernest pegou em sua mão e a apertou, olhando para ela.
A confiança de Ernest a deixava cheia de confiança em si mesma. Naquela hora se sentiu capaz de fazer qualquer coisa, de pular qualquer precipício ou navegar qualquer mar... com Ernest ao seu lado não haveria o que temer. E mais: ele não a deixaria ir sozinha.
—Irei com você.
Andie até pensou em resistir, mas por fim cedeu, sabendo que caso algo desse errado somente Ernest poderia tirá-la de lá.
—Perfeito. Quando estaria pronta para fazer isso, senhora Marshall?
—Preciso de um dia, no máximo. Não é muito fácil fazer o papel de mulher arrependida quando não me sinto nem um pouco arrependida por ter escolhido Ernest. Acho melhor eu me preparar psicologicamente hoje e amanhã, logo de manhã, ir em busca de Paul.
—Tem certeza disso? Não é arriscado demais esperar até amanhã? – Honorio perguntou, incerto.
—Tenho certeza. Confie em mim, Paul irá me esperar. E estaremos prontos para ele.
Voltaram para casa nervosos e empolgados. Andie tinha dentro de seu coração a esperança e a confiança, acima de tudo. Ernest compartilhava desses sentimentos e ainda trazia com eles uma bagagem de estratégias para uma possível falha no plano.
Jamais deixaria Andie ir sozinha. Com Paul distraído não havia o perigo de invasão à casa, e por isso ele estava mais aliviado. Não arriscaria a vida e a segurança de Doherty e muito menos de Mary. Em todos aqueles meses teve como se acostumar com a criança crescendo na barriga de Beatrice, e quando ela nasceu o mundo se abriu para ela da mesma forma como abriu quando Andie e Beatrice chegaram em sua casa.
Durante o trajeto ele dirigiu pensando na jovem mãe, cuja memória guardaria para sempre consigo. Beatrice tinha a alma pura e bondosa de pessoas que não desejam o mal a ninguém, e embora Andie também não quisesse o sofrimento de um ser humano ela era em muito diferente da amiga. Andie tinha intensidade, tinha confiança e acreditava nas suas ações. Ela não se deixava abalar por nada nem por ninguém. Não abaixava a cabeça, mas tampouco era esnobe. Não ficava quieta, mas também não acabava sendo grossa. Para ele, Andie era a vida.
Perdido nesses pensamentos e na constatação inequívoca de que a amava, Ernest parou o carro no meio-fio e soltou o cinto.
—Por que paramos?
Ele não a deixou falar mais. Segurou seu rosto com as mãos e a beijou, feroz. Ela correspondeu o beijo sem hesitar, e ficaram assim por vários minutos. Quando finalmente se desgrudaram ela o olhou com admiração e o desejo queimava em sua íris.
—Ernest...
—Não fale nada. Eu te amo, Andie Marshall, de uma forma que nunca imaginei ser possível. Você é minha alma, meu coração, e a amarei até o fim dos dias. Amo sua risada, seus cabelos, – ele enroscou os dedos nas madeixas negras de Andie, inspirando o aroma de jasmim no ar. – sua voz... amo até mesmo o jeito como me irrita. Amo suas manias, seus tiques... a forma como arregala os olhos quando está concentrada e a curva de seu sorriso quando pega Mary nos braços.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Andie, e Ernest a enxugou com tanta suavidade quanto o toque de uma pétala.
—Preciso tê-la comigo. Se amanhã acontecer alguma coisa, deve saber o quanto a desejo e a amo. Se me permitir estar com você prometo enchê-la de beijos, mimos e comida, é claro. – eles riram. – Por favor, Andie, diga que sim. Que ficará comigo, que acordará ao meu lado todos os dias e envelheceremos juntos. – ele esperou.
—E Paul? Ainda sou casada com ele.
—Depois de nosso plano ele não representará nenhum obstáculo. Podemos ficar juntos e você pode pedir anulação do casamento. Eu tenho contatos na Igreja, posso ajuda-la com isso. Conheço pessoas que formalizariam a anulação antes que você pudesse dizer ‘eu discordo’.
—Eu não diria isso.
—Eu sei, mas é o que você mais fala quando começamos a discutir.
—Vou falar pela quarta vez, Ernest: eu aceito.
Ernest parou o carro em frente à sua casa, e ele e Andie entraram aos beijos, não conseguindo mais refrear a paixão, a necessidade.
Antes que pudessem subir as escadas, no entanto, a sra. Doherty apareceu, assustada. A expressão em seu rosto redondo deixou Andie com as pernas moles, e ela se desvencilhou de Ernest.
—O que aconteceu, sra. Doherty? Onde está Mary?
—É isso que eu ia dizer para a senhora... eu estava cuidando do jantar e a deixei na cozinha dentro do cesto por um instante e... – ela estava confusa. Ernest se aproximou para acalmá-la.
—Fale! Pelo amor de Deus fale.
—Escutei um barulho e pensei que pudesse ser o senhor e a senhora. Não havia ninguém... – ela começou a chorar. -... quando voltei Mary... ela, ela não estava mais lá! – escondeu o rosto nas mãos e soluçou, aos prantos.
—Está me dizendo que Mary sumiu?
Doherty se limitou a balançar a cabeça afirmativamente.
—Sabe para onde ela foi?
—Não, senhor, não faço a menor ideia. Desculpe, eu não imaginei que...
—Acalme-se, Doherty, vamos encontrá-la. – Ernest se virou para Andie. Ela estava apoiada no corrimão da escada, com uma das mãos sobre o coração e o rosto lívido. Parecia ter envelhecido dez anos em dez segundos. – Está pensando o mesmo que eu, Andie? – ele indagou, sua expressão se distorcendo em uma massa disforme e demoníaca. Ele nunca havia se sentido tão possesso, nunca desejou tanto fazer outra pessoa sofrer como faria com ele.
Ela assentiu e quando falou sua voz saiu diferente, como se tivesse engolido mil lâminas de barbear: — Paul.
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