Escandalosamente Secreto
14 Enfrentamento
Notas iniciais
No momento em que Andie constatou o sumiço de Mary e percebeu quem estava por trás de algo tão cruel ela não pensou duas vezes. Não se importou com o plano, nem com Ernest, e até os pensamentos sobre Beatrice foram embora. A única coisa urgente era Mary. Se algo acontecesse com a pequena... não queria nem pensar.
Ernest dirigiu o mais rápido possível. Se desviou de semáforos e carros, ziguezagueando pelo trânsito e rezando para não topar com nenhum policial. Não tinham tempo para isso.
A paisagem foi se tornando familiar para Andie. Ela reconheceu as casas, as árvores e os carros estacionados sempre nos mesmos lugares. Sua mente alternava entre lembranças de uma vida passada e voltava para o que tinham de fazer.
—Mais rápido, Ernest, pelo amor de Deus! – ela gritou, roendo a unha.
—Se eu for mais rápido que isso vamos dar com o carro em algum muro. – ele estava nervoso. Seu maxilar retesado e as mãos brancas ao volante, apertando-o como se sua vida dependesse disso.
Embora ambos estivessem nervosos além da conta não tinham dúvidas do que fazer. Andie não pode salvar Beatrice de seu trágico destino, mas poderia fazer tudo diferente com Mary. Pela segunda vez na vida ela rezou, pedindo à alguma entidade divina que deixasse a criança segura, e jurando que, quando tivesse Paul à sua frente, o mataria.
É engraçado pensar que quando topamos com uma situação extrema, na qual devemos decidir entre nossos princípios e nossos instintos mais primitivos os primeiros são completamente negligenciados. Valores? Ética? Caráter? Isso tudo vira pó quando uma mãe percebe o filho em perigo, ou quando damos de cara com um assaltante no meio de um beco escuro. Nos tornamos animais, presos em nossa própria natureza. E Andie estava exatamente dessa maneira quando o carro parou na frente da suntuosa casa dos Marshall.
O que um dia fora uma bela mansão agora se escondia em mato. Os jardins, sempre tão bem cuidados por Beatrice, se rebelavam contra as paredes de tijolos vermelhos. Nas janelas havia pó, e ao se aproximarem o cheiro de mofo encobriu qualquer odor agradável que as plantas ainda pudessem conter.
Andie olhou para cima, na direção da janela da biblioteca. Ali, no parapeito, parecendo espera-la, havia um vaso singelo com margaridas frescas. Ela encarou as flores por tanto tempo que quase ficou vesga. Somente o toque de Ernest em seu cotovelo esquerdo a despertou.
Eles entraram na casa com cautela. Ernest tinha na mão um revólver pequeno e ofereceu outro para Andie. De início ela pensou em recusar, mas Mary veio novamente em um lampejo e ela aceitou, agarrando a arma com medo e raiva.
Um barulho no andar de cima ressoou. Ernest fez sinal para ela avançar atrás dele devagar. Uma tábua rangeu aos seus pés, denotando a falta de uso, e o ar ficou denso. Ela tinha medo de respirar e anunciar sua presença, por isso prendeu a respiração e esperou, esperou, esperou... quem estava lá em cima também aguardava o movimento deles, pois ficou em silêncio.
Ernest aproveitou a passagem de um carro e correu, subindo três degraus de cada vez. Andie foi esperta e o seguiu. Avançaram um lance inteiro de escadas antes do carro se distanciar e aquele silêncio opressor novamente dar as caras.
Ouviram um choro, como de um bebê, que foi reprimido. O coração de Andie saltou no peito e ela não conseguiu mais se segurar:
—Paul? É você? Sei que está aí. Devolva-nos a criança. – sua voz pareceu alta demais naquele espaço claustrofóbico. Ela temeu não obter resposta.
—Acha que eu não sei, Andie? – Paul falou depois do que pareceram horas.
Enquanto conversavam Ernest subia a escada, atento a qualquer sinal.
—Do que você sabe?
—Essa criança... tem seus cabelos negros e os olhos dele... sua vagabunda! Você me traiu! – a voz chegava mais perto conforme eles subiam o segundo lance de escadas, e Andie pode sentir a raiva gotejando pelos degraus apodrecidos.
—Acha que Mary é minha? – ela perguntou, indignada, com muito medo do que ele poderia fazer. Se é que já não havia feito. – Como pode pensar isso de mim?
—Eu vi! Vi vocês dois na festa de São Jorge. Estavam juntos, parecendo um casal... o jeito que ele te olhava e essa menina em seus braços... juro por Deus, Andie, que matarei a criança e matarei esse filho da puta que está aí com você.
—Não! Paul, não, por favor... – ela choramingou, furiosa consigo mesma por permitir que ele soubesse o quanto estava abalada. – Acredite em mim, esse bebê não é meu!
—Se não é seu de quem seria? – ela percebeu a dúvida e a descrença nele.
Andie e Ernest já atravessavam o corredor depois das escadas. Ela sabia que Paul estava na biblioteca. Aquele era seu lugar preferido, e ele não poderia ter escolhido local melhor para um embate que aquele no qual ela passava horas e horas contemplando a rua e desejando ser quem sempre quis ser.
—Beatrice.
Ele riu. Um som alto e venenoso, sem um pingo de humor, que arrepiou os cabelos de Andie.
—Ah, por favor, Andie, acha que nasci ontem? Então se é de Beatrice por que ela não aparecia com a criança o tempo todo?
As palavras seguintes foram as mais difíceis que Andie já havia dito.
—Porque Beatrice está morta.
Paul ficou em silêncio. Ela não sabia dizer se era porque ele lamentava a notícia ou se deliciava com o fato de Andie ter perdido sua melhor amiga. Quando falou a voz saiu neutra, como se ele controlasse as emoções:
—Morta? Como?
—Logo após o parto. Foram horas longas e difíceis. Ela não resistiu.
—Sinto muito por ela. Gostava de Beatrice.
—Você? Gostar de alguém? – Andie ficou mais ousada. Já se aproximava da biblioteca. — Não consigo imaginá-lo sentindo algo genuíno por uma pessoa. – ela desdenhou.
—Eu a amei, Andie. Ainda amo. É por isso que deve vir comigo. Prometo que se aceitar fugir da cidade deixo a criança e esse aí vivos... eu juro!
A parte de Andie que se recordava de estar nos braços de Paul quase acreditou, mas ela estava no modo de defesa, e entrou no aposento pegando fogo.
—Eu não acredito em você.
Paul estava em pé, próximo à janela, com Mary adormecida em seus braços. Ele encarava o vidro, não dando atenção à presença doce das margaridas. Havia livros jogados no chão, abertos, rasgados e empoeirados. Andie ficou ainda com mais raiva.
—Me entregue Mary. – ela ordenou.
—Primeiro você deve prometer, aceitar ir comigo para longe daqui. Senão... – ele ergueu Mary nos braços, esticando-a para fora da janela, em uma ameaça silenciosa.
—Não faça nada com Mary. Você vai se arrepender disso. – Andie não tinha tempo para se desesperar, precisava agir friamente, pensar no próximo passo.
—O que você vai fazer, querida? Me diga. ME DIGA! – ele berrou, balançando Mary. A criança começou a despertar e grunhir com o balanço. Paul estava completamente ensandecido. Em seus olhos cinzentos havia loucura e sadismo. Ele jogaria Mary pela janela sem pensar duas vezes, e Andie soube que mesmo prometendo ele não desistiria de praticar o ato.
Ela apontou o revólver para ele, segurando a tremedeira.
Paul riu, gargalhou, como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.
—Vai atirar em mim? É isso? Querida, você nunca pegou em um revólver, não sabe nem segurá-lo direito... como pretende atirar em mim? Vamos ser racionais, por favor!
—Você não tem o direito de exigir nada de mim! Durante cinco anos fui uma esposa adorável, procurava não contrariar suas ordens e ia para a cama com você todas as noites.
—Isso nunca foi suficiente! – ele cuspiu.
—O que mais você queria?
—Eu queria alguém que me amasse, que trocasse tudo por mim... – havia dor e súplica em seu semblante, mas Andie tinha desligado sua parte emocional, portanto não sentiu pena dele, nem compreendeu seus desejos. Ela só conseguia enxergar um homem desvairado prestes a tirar a vida de uma garotinha friamente. Aquele não era seu Paul.
—Eu o amei, Paul, amei muito.
—Amou tanto que não foi capaz de fugir comigo quando pedi pela primeira vez. Quando apareci na casa de Raymund Gallaway e implorei que viesse comigo.
—Você nos ameaçou com uma arma!
—Não é muito diferente do que está fazendo agora.
—Como queria que eu fosse com você se apontou uma arma para o homem que me abrigou quando me deixou sozinha?
—Eu precisei ir, Andie... – ele falou, cansado. – Tinha assuntos a resolver.
—Que assuntos eram esses? O que era mais importante que eu?
Ele suspirou resignado, e confessou: — Não fui a serviço do governo, Andie. Pelo menos não do governo inglês.
—Como assim? – ela abaixou um pouco a arma, totalmente atenta às palavras de Paul.
—O comandante do exército soviético havia me contatado. Ele queria meus serviços, tinha interesses em pessoas importantes da Inglaterra, e queria que eu investigasse. Eu sou um espião russo, Andie.
Ela quase deixou cair a arma. Sua mente se transformou em uma bola de neve. Cada coisa se acumulando e rolando pelo abismo que sua vida tinha se tornado. Suas pernas amoleceram, e ela teve de se concentrar para não parecer fraca diante dele.
—Um espião russo?
—Meu verdadeiro nome é Paulice Mashlenko, sou espião russo há dezessete anos e trabalho para o exército soviético. Eu sabia quem Raymund Gallaway era assim que coloquei os pés em sua casa. O reconheci imediatamente e precisava leva-lo vivo para Moscou, onde ele seria fuzilado pelos seus crimes.
—Crimes?
—Sim, Andie, eu sou um procurado muito famoso na Rússia. – Ernest falou atrás de si, com a arma abaixada.
Ela alternava entre Ernest e Paul.
—Procurado? Você? Pelo quê?
—Há anos, logo após a Segunda Guerra, fui feito prisioneiro na Rússia. Eles iam me fuzilar, mas consegui fugir e no meio de tudo isso matei o general deles. Nunca me perdoaram. Honorio abriu os braços para mim e me contratou para ser investigador na Scotland Yard.
—Tinham papeis, na pasta vermelha em seu quarto em Northampton... – ela confessou, um tanto envergonhada, mas sentindo ser de grande importância aquele documento encontrado ao acaso. -... havia uma sigla, SY... Scotland Yard, não é?
Ernest assentiu, parecendo não estar surpreso por Andie ter remexido em seus papeis.
—Tinham mais duas siglas: HF e ER. Este último é você... e agora sei que HF é uma sigla para Honorio Featherton. Aquele era seu contrato de serviço?
—Sim. Há alguns meses eu encontrei um homem na Estação. Ele me entregou uma carta de Honorio. Queria que eu fosse falar com ele, e o fiz. Ele estava me contratando para encontrar Paulice Mashlenko, que estava sob o nome Paul Marshall, e acabei chegando em você.
—Então você mentiu? Sobre estarmos falidos?
—Não. Vocês estavam realmente falidos. Eu apenas tive a sorte de topar com uma situação dessas, e convidá-la para vir morar comigo acabou se mostrando a melhor das decisões.
—Você me usou? – ela se sentiu traída.
—No início eu estava apenas interessado em descobrir mais sobre Paul... quando ele apareceu naquela noite em que voltamos de Northampton foi como um sopro de ar fresco. Cheguei a contatar Honorio, mas Paul fugiu antes que pudesse responder. Só que houve algo que eu não programei... – ele abaixou a cabeça e depois olhou para Andie. – Me apaixonei por você.
Todas as defesas que Andie vinha mantendo até agora ruíram. Seus olhos ficaram cheios de lágrimas, e naquele cômodo tudo desapareceu, restando somente ela e Ernest. Durou poucos segundos, mas foram intensos e verdadeiros. Ela voltou à realidade quando ouviu um resmungo atrás de si.
—Filho da puta! Minha mulher! Como ousa? – ele chacoalhou Mary mais forte, esticando-a para longe da janela.
—Eu não escolhi isso. Andie me conquistou. Ela é uma mulher incrível, mas você não soube perceber isso. Sabia que ela sonha em cursar Literatura?
—Mulher minha não tem liberdade para ficar saindo por aí. Quando casa passa a ser sustentada pelo marido. – ele grunhiu, rangendo os dentes.
—Essa é a diferença entre nós dois.
—Gente, espera aí... – Andie pediu, fazendo um gesto para acalmá-los. — Foi você quem atacou Honorio Featherton? – ela apontou para Paul.
—Quem mais seria, meu amor? Honorio representava problema para mim. Ele colocou Raymund para descobrir meu paradeiro e arranjou para que eu ficasse o mais longe possível de vocês. Mas mesmo ele não foi páreo para perceber meus comparsas em Northampton.
—Northampton? – Andie se apoiou em uma estante, atordoada. – Então aqueles homens... você os contratou! O que desejava com isso?
—Capturar Ernest e trazê-lo para mim. Só não contava com Benedict. Não achei que ele ainda estivesse na ativa.
—Benedict é espião?
—Sim. – Ernest respondeu. – Meu pai foi espião do FBI, mas está aposentado há mais de dez anos. Achou que ele seria burro de não ter uma arma em casa?
—Mas não foi Benedict quem matou seu comparsa. – Andie falou, esperando ter toda a atenção para si. – Fui eu.
Paul ficou tão em choque que voltou os braços com Mary para dentro do aposento, apoiando-a no parapeito. – Você?
—Sim. Benedict lutava contra ele, ambos armados, então cheguei pela lateral e enfiei uma faca de cortar carne em sua jugular. – as lembranças lampejaram nos seus pensamentos. Ela se recordou do sangue quente escorrendo por suas mãos e da sensação da vida deixando o homem.
—Mas, mas... você nunca seria capaz de matar alguém.
—Você não me conhece direito, Paul. Por aqueles que amo eu faria qualquer coisa. Não pude salvar Beatrice, e me culpo frequentemente por isso.
—Não precisa se culpar, Andie. Eu coagi Charles a ir embora e largar Beatrice para trás.
O rosto de Ernest se retorceu em uma máscara rubra de fúria, e ele levantou o revólver, tremendo. Andie tinha uma miscelânea de sentimentos. Raiva, dor, tristeza e uma coisa que crescia dentro dela da mesma forma como o câncer cresce no corpo humano: vingança.
—Você fez o quê? – ela perguntou, com uma calma assustadora.
—Reconheci Charles em um dos jornais locais. Jovem advogado, sobrinho de Ernest Raytower, comparece à evento. O procurei e fui ao seu escritório quase ao anoitecer. O ameacei com uma arma... disse que se ele não fosse embora imediatamente da cidade mataria sua querida Beatrice e o bebê que carregava. Ele ficou muito convencido.
Andie lembrou do que Jay havia falado: um jovem muito chique... parecia todo tonto, arrependido... Charles não queria ter saído da cidade. Ele foi forçado.
—Por quê?
—Porque se eu fizesse Beatrice sofrer faria você sofrer, e se não vai ser feliz comigo também não será feliz com mais ninguém. Pensa que pode lutar contra a ordem social? Pensa que é forte o suficiente para ter uma formação e viver por conta própria? A sociedade não deixa, e não há nada que você possa fazer. – havia satisfação voraz nos olhos dele. – Só tem duas escolhas, Andie: vir comigo e proporcionar que todos vivam ou escolher ficar e perder tudo que tem.
Andie não precisava escolher. Ela não deixaria que Paul fizesse mal a Mary nem a Ernest. Se para mantê-los vivos deveria fazer esse sacrifício, ela o faria de boa vontade. Estaria feliz se estivessem bem. E só. Quando se ama não se mede as consequências. Somos capazes de fazer qualquer coisa que estiver ao nosso alcance para ver quem amamos feliz. Mães levantam carros para salvar seus filhos, irmãos são capazes de matar um crocodilo com as mãos só para salvar a vida do irmão, e Andie poderia perfeitamente viver o resto da vida com um homem desprezível só para ter a certeza de que Ernest e Mary estariam bem.
—Eu vou você, Paul. – ela evitou olhar para Ernest, mas sentiu a tristeza emanando dele. – Agora, solte Mary.
—Com prazer. – ele pegou Mary e tudo aconteceu muito rápido. Colocava a criança para fora da janela quando Andie ergueu o revólver e puxou o gatilho. O som de tiro reverberou pela biblioteca, quase estourando seus tímpanos. Ela acertou a barriga de Paul, e seu marido se encolheu, caindo no chão e levando Mary consigo.
—Você não vai mais ferir ninguém que eu amo. – ela prometeu. Seus olhos ficaram ainda mais negros, e ela arreganhou os dentes, ameaçadora. Ernest olhava com deslumbramento e assombro. Paul pareceu ficar ofendido, mas talvez fosse outra forma de manipulação. Andie se preparou para puxar o gatilho, porém Paul a interrompeu:
—Não, Andie, por favor! Você me ama.
—Eu amei um dia. Mas isso que você sente por mim não é amor. Quando olho para você, agora, sinto nojo e um ódio tão grande que se matá-lo sei que nunca terei qualquer remorso. Vou para a cadeia feliz sabendo que nunca mais o verei.
—Sua vagabunda imprestável! – ele pegou o revólver muito rápido, mirando a esmo e atirando. Andie não sentiu nenhuma dor ou queimação, e pensou que ele tivesse errado.
—Andie... – Ernest chamou às suas costas, e quando ela se virou sentiu o estômago embrulhar.
Ernest estava encostado na parede, segurando o peito ensanguentado. Ele deixou a arma cair no chão, e naquele momento Andie não sentiu nada além de fúria irracional. Ela ficou cega para qualquer coisa, e não hesitou ao voltar para Paul e dizer:
—Adeus, Paul. – ela puxou o gatilho, explodindo os miolos daquele que um dia foi seu marido.
Andie correu para Ernest, pegando folhas de papel dos livros jogados no chão para tentar estancar o sangramento. Sua roupa ficou encharcada em segundos e tudo ao redor estava vermelho. Saía sangue da boca de Ernest e ele se enrolou para falar:
—Andie, não há o que fazer. Eu já estou morto.
—Não, não diga uma coisa dessas. – uma lágrima caiu no rosto de Ernest. – Por favor, fique comigo. – o desespero tomou cada poro de seu corpo, preenchendo-o com uma impotência familiar.
—Você ficará bem. Tem Mary.
—Eu quero você. Por favor, Ernest, resista. – suplicou, escutando vagamente as sirenes da polícia. – Não sei o que vou fazer se perder você. Pelo amor de tudo que é sagrado, não morre!
—Estou cansado. Quero dormir. – ele começou a fechar os olhos.
—Não durma! Por favor. Alguém me ajuda! – gritou. Passos surdos e apressados subiam pelas escadas.
—Andie, só me escute. – ele teve um último momento de lucidez. – Eu te amo... – ela aproximou o rosto dele. – Nunca vou deixar de te amar. Quero que seja feliz, que crie Mary e busque seus sonhos. Deixei minha propriedade e meus bens em seu nome. A partir de hoje receberá uma pensão do governo, por todos os serviços que prestei. Vá e faça o que sempre quis.
—Oh, Ernest, sentirei sua falta. – era difícil de falar, as palavras engrolavam e os soluços vinham com frequência. – Eu também te amo. – beijou-o uma última vez, aproveitando o momento para nunca esquecer da sensação de seus lábios nos dele, do conforto que encontrava em seus braços fortes e dos momentos nos quais sentia pertencer à vida dele, quando pareciam estar ligados pelo coração...
Ele devolveu o beijo, Andie se afastou após alguns segundos e acariciou sua testa. Ernest a olhou com paixão e amor profundos, suspirou e fechou os olhos.
Os policiais entraram. Andie levantou com sangue pingando no chão e foi pegar Mary, que ainda dormia no parapeito. Teve inveja da serenidade no rosto da bebê e desejou poder esquecer. Mas isso significaria esquecer Ernest e Beatrice, e saberia nunca estar pronta para tal coisa.
Ela olhou o corpo de Ernest sendo carregado para fora da biblioteca, acompanhado pelo de Paul. Recortada contra a janela, segurando Mary, Andie sentiu que, no fim, ela ainda seria feliz.
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