Escandalosamente Secreto
15 Calmaria
Notas iniciais
Andie atravessava a rua, voltando para casa após as aulas na faculdade. Ela estava no segundo ano e completamente apaixonada pelo curso. A bela mulher observava as nuvens brancas no céu roxo do entardecer e sentiu saudade.
Todos os dias acordava pensando em Ernest, e sempre que carregava Mary o rosto de Beatrice aparecia. Depois daquele fatídico acontecimento ela procurou se recuperar como podia. Charles veio para o enterro do tio, e eles conversaram. Andie o convidou para morar em Londres, e ele aceitou de muito bom grado. Poderia construir carreira na cidade grande e fazer companhia para ela, além de estar perto da filha, é claro.
Andie teve de prestar depoimento à polícia. Embora tivesse agido por legítima defesa, o tiro na cabeça de Paul foi premeditado, e ela precisou fazer serviço comunitário. Na verdade, pouco se importava com as consequências, pois Paul estava morto.
Mary crescia em graça e beleza. Já dava os primeiros passinhos e sorria o tempo todo. Ficava a cada dia mais parecida com a mãe, e Andie percebeu que, mesmo Beatrice não estando mais ali com eles, permanecia sempre por perto.
Andie administrava a casa. Ernest havia deixado um bom dinheiro, e ela resolveu investir na Bolsa de Valores de Nova York, recebendo um retorno muito lucrativo. Charles a ajudava na contabilidade e na burocracia do tio. Tiveram de fazer o inventário tanto de Ernest quanto de Paul. Andie acabou herdando a sua antiga casa, escolhendo reformar e vender.
Manteve a tradição das margaridas na janela. Vivia em intensa felicidade com Charles, Mary e Doherty. Esta se tornara uma amiga muito fiel, principalmente no cuidado com o filho de Andie.
Ela descobriu estar grávida uma semana depois da morte de Ernest, quando precisou fazer exames por estar se sentindo mal. A criança nasceu no ano seguinte, e agora estava com quatro meses. Um menino, chamado Raymund. Ela não quis colocar Ernest, ficaria óbvio demais, então escolheu o verdadeiro nome daquele que amara.
Andie vivia em boas condições, não tendo luxos como aqueles que tinha com Paul, mas sendo imensamente feliz. Ela precisou se acostumar a viver sem Ernest e Beatrice. Cada dia era mais fácil. Sempre teria aquele buraco, mas agora já não era tão fundo e nem tão dolorido.
Chegou em casa com um céu azul escuro acima de sua cabeça. As primeiras estrelas pontilhavam a noite e a lua aparecia, brilhante. Escutou as risadas de Mary antes de vê-la.
—Cheguei. Como meus amores se comportaram hoje? – ela perguntou à Doherty, carregando Mary e Raymund no colo. Charles estava sentado no primeiro degrau da escada, relaxado.
—Raymund fez birra de novo. – ele informou. – Se parece muito com a mãe.
—Não escute o que o titio diz, viu filho. – ela falou para o menino gorducho de olhos azuis como os do pai. – E você, Mary? Minha mocinha falou alguma palavra hoje?
—Ainda não. – Charles se levantou, pegando nas mãozinhas inquietas da filha. – Anda meio preguiçosa, né filha?
A menina resmungou algo incompreensível, agarrando os cabelos do pai.
Andie colocou Mary no chão e deitou Ray no cesto próximo ao sofá. A lareira estava acesa, mesmo a noite não sendo tão fria. Estava quente para essa época do ano, e Andie tirou o casaco.
—Vou subir tomar um banho. Logo desço para o jantar.
Ela se arrumou rápido, voltando para a sala de jantar. Sentou na cadeira que antes Ernest ocupava, tendo Charles na outra ponta e Doherty ao seu lado. Mary e Ray tinham cadeirinhas próprias, mas faziam muita sujeira para comer. A filha de Beatrice tinha molho no cabelo.
—Olha isso, filha. Que melequeira. – Charles exclamou limpando a menina com um guardanapo.
A campainha tocou, e Andie franziu a testa: — Estamos esperando alguém hoje?
—Que eu saiba não, senhora. – Doherty respondeu. Ela se levantava, mas Andie foi rápida e disse que ia atender.
Teve uma surpresa.
—Benedict, Zélia! Que surpresa agradável! – ela deu um abraço nos dois, sentindo os olhos pinicarem com a saudade. – Entrem, nos acompanhe no jantar.
Os dois ficaram absurdamente felizes com os netos. Mary mordia a bochecha do avô e Ray agitava os bracinhos para Zélia. Andie nunca havia se sentido tão feliz. Pensando em tudo pelo que passara agradeceu. Agradeceu pela vida, pelo filho, por Mary, por Charles, por Doherty e pelos pais de Ernest. Agradeceu por Beatrice, pelo tempo que passaram juntas. E agradeceu principalmente por Ernest, um amor que nunca esqueceria.
Olhou para a mesa cheia e uma lágrima correu por seu rosto. Não estava triste pelos que havia perdido, mas feliz por aqueles que ainda tinha. Enxugou o rosto discretamente, olhou para as margaridas no centro da mesa e apontou para a bandeja de bolinhos, dizendo:
—Quem encontrar o boneco de biscuit pode fazer um pedido.
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