Se alguém dissesse há cinco anos que Andie Marshall iria casar com um importante conde inglês ela pensaria que a pessoa só poderia estar louca.

Andie nunca imaginara uma vida confortável, repleta dos luxos que só existiam para ela nos livros que lia. Mas naquele 14 de setembro de 1952, quando terminara com um desinteressado moço, sentada em um banco sujo na praça e chorando com um sentimento próximo à morte, um jovem ofereceu-lhe um lenço e, sem dizer coisa alguma, Andie o aceitou.

O jovem viria a tornar-se Conde de Buckingham em razão dos inúmeros feitos corajosos servindo no exército e Andie, por consequência, tornou-se Condessa de Buckingham, respeitada e muito bem quista pela sociedade. Seu marido, chamado pelos mais íntimos de Marsh – e por Andie de Paul -, era educado e conservador, defendendo com ardor as leis da Igreja e os mandamentos sociais. Acreditava que as mulheres eram sagradas e, portanto, tinham de ser reservadas e embrulhadas em presentes e carícias. Por isso, nunca faltara paixão e amor na residência dos Marshall.

Cinco meses atrás Paul fora convocado para uma reunião no gabinete do Administrador Geral da Inglaterra e teve de partir à serviço da Igreja. Pelo que Andie conseguira captar do pouco que Paul lhe fornecera era algo relacionado às constantes ameaças da União Soviética e, sendo assim, segredo de justiça.

Andie nunca se sentira tão sozinha. A companhia do marido, mesmo que não tão frequente em virtude das muitas reuniões, assembleias e convocações oficiais, era vista de bom grado por ela, e Andie ansiava pela hora que Paul chegava em casa e poderia enchê-la de mimos. Ela não se interessava muito por joias; gostava dos livros, estatuetas, souvenirs e mapas raros que Paul recebia de superintendentes e ministros estrangeiros. Andie passava horas trancada na biblioteca gigantesca, servida de um chá e bolinhos, tentando desvendar códigos e escalas dos mapas, imaginando quais mãos passaram por eles e quais desventuras lhe foram proporcionadas.

A senhora Marshall era imaginativa. Tinha a cabeça sempre pontilhada de ideias e sonhos que talvez nunca pudessem se realizar. O dinheiro não fazia parte das dificuldades, e sim o trabalho de Paul. Ele tinha que estar sempre preparado para uma convocação ou ameaça iminente de conflito. Mas Andie sonhava com viagens para lugares distantes, imaginava o mundo colorido, vasto e seguido de oportunidades infinitas. Sua personalidade marcante, presente e animada era bem-vinda em qualquer lugar, mas ela tinha suficiente decoro para não fazer papel de ridícula. Sabia qual era o limite das brincadeiras e quando deveria parar de falar. Apesar disso, se algum dignitário ou dama lhe dirigisse uma palavra ou olhar torto ela logo rebatia com argumentos lógicos, racionais e imprevisíveis. Como lia e pesquisava mais que a etiqueta social e o casamento permitiam, sempre tinha uma resposta afiada na ponta da língua e medo nenhum de proferi-las.

Com Paul longe, cabia à sua criada mais fiel, Beatrice, controlar suas explosões de raiva diante de situações inoportunas e inconvenientes. Bea era uma conselheira leal e astuta, dona de uma paciência ilimitada e um coração ainda maior, embora não costumasse demonstrar. Limpava a casa, aconselhava madame Marshall, cozinhava, discutia política e fazia tantos outros trabalhos impossíveis para alguém que nunca estudara. Mal sabia ler e escrever, mas sua persistência e fome por aprendizagem a levaram a suplicar para Andie que lhe desse algumas aulas.

Foi assim que as duas se tornaram grandes amigas. A relação entre patroa e empregada ficou menor e em pouco tempo compartilhavam segredos de cama, de amor e de vizinhança.

Beatrice espanava pó do quarto de Andie naquela manhã, exatamente cinco meses depois da partida de Paul. Ela andava distraída com os parágrafos que lera mais cedo em um livro que Andie lhe emprestara para treinar a leitura e interpretação, e não percebeu a distração da própria patroa até esta suspirar, dolorida.

—O que aconteceu, senhora? – questionou, preocupada com a amiga, deixando o espanador na mesinha de canto para se aproximar de Andie, colocando a mão delicada em seus ombros fortes e rijos. – Anda tão dispersa esta manhã. Saudades?

—Ah, minha querida Bea. É sempre ele que povoa meus pensamentos. Estava aqui pensando nesses cinco meses que passamos long. Será que algo mudou? – Beatrice viu a preocupação e o desespero nos olhos negros de Andie quando ela se virou para ficar frente a frente com a amiga.

—A senhora sente algo diferente por ele?

—Bem, não, mas...

—Então não há com que perder seu sono, senhora. Se de sua parte nada mudou, jogaria meu braço fora que da parte de Paul continua do mesmo jeito. Ele a ama, e olha que entendo pouco do amor para poder afirmar isso. Mas qualquer um que visse o jeito como o senhor a olha saberia.

—Eu só estou apavorada. Não tenho notícias dele há semanas, nem sequer uma carta. Pode ser que tenha acontecido alguma coisa?

—Acredite em mim, patroa, as notícias ruins chegam voando, enquanto as boas se arrastam. Caso tivesse acontecido algum infortúnio com o senhor Marshall a senhora seria a primeira a saber. Não fique ocupando a cabeça com pensamentos ruins, eles são atraídos feito imã.

—Tem razão, Beatrice. É só essa saudade que me mata.

—Eu bem sei. Logo ele estará conosco, se servindo de um copo de whisky e fumando aquele charuto malcheiroso. – Beatrice brincou, para delírio de Andie.

—O que seria de mim sem você? Minha amiga. – Andie segurou nas duas mãos de Beatrice, avaliando-a. – Anda meio cansada, posso ver. Tomar conta da casa é extremamente exaustivo, não é?

—Um pouco. Nada que uma boa noite de sono não resolva. Agora, se me der licença, tenho pó a tirar. – elas largaram as mãos e Beatrice se ocupou novamente com o espanador.

Antes que Andie se virasse para a janela e continuar observando as margaridas desabrochando no peitoril a campainha soou. As duas se entreolharam, apreensivas e curiosas, e correram juntas para o patamar de baixo, no hall de entrada opulento, parando ao mesmo tempo na frente da porta de vidro fosco e madeira entalhada de arabescos.

Deram uma última olhada e, criando coragem, Andie abriu a porta.

Um homem alto, trajando um casaco grosso e escuro, estava parado na soleira. Na mão esquerda segurava uma valise gorda de couro gasto, mas a mão direita estava livre e foi esta que ele esticou para cumprimenta-la.

—Senhora Marshall? – sua voz era rouca e baixa.

—Eu mesma. – pela etiqueta somente ela esticou a mão de volta, apertando-a com um pouco mais de força que o necessário. A mão do homem era macia e quente. – Quem é o senhor e o que deseja? Meu marido não se encontra e creio não poder convidá-lo a entrar.

—Não se aflita, senhora. Meu nome é Ernest Raytower. Sou um amigo de Paul Marshall, seu marido.

—Amigo? Ele nunca me falou de você.

—Deve ser porque estudamos juntos no jardim de infância. Mal sabíamos escrever nossos nomes quanto mais lembrarmos dos nomes de outras pessoas. Tivemos menos de um ano de amizade, se é que podemos chamar assim a relação que se construiu entre nós em uma época tão conturbada. A Crise de 29 havia acabado de estourar e meus pais não puderam pagar pelos meus estudos. Paul continuou, mas eu tive de encontrar meios de sustento aos sete anos.

—Entendo. E quais circunstâncias o trazem por aqui?

—Fui informado de que seu marido está a serviço do Estado e, como contador, preciso cuidar de determinados assuntos que são de seu interesse.

—Que assuntos seriam esses? – a desconfiança crescia no íntimo de Andie, desconfiança esta compartilhada por Beatrice.

—Seu marido deixou um plano de contingência preparado caso algo acontecesse com ele nesse tempo fora. Ele contatou-me antes de sair a serviço, mas disse que se não desse notícias durante um tempo consideravelmente preocupante era para vir em sua residência e informar a esposa das finanças e dívidas.

—Como sabe que ele não se comunica comigo há semanas?

—Por que ele não estava se comunicando apenas com a senhora. Paul estima e muito meu trabalho como contador e me mandava cartas frequentes informando seus gastos e ganhos, pedindo conselhos e dando ordens. Tenho aqui comigo cada carta, se a senhora quiser tirar a dúvida.

Andie ficou subitamente calada. Não sabia se confiava no homem, mas ela se lembrava de Paul ter mencionado certo amigo contador e resolveu lhe dar o benefício da dúvida.

—Não precisa. Vou confiar no senhor. Mas se por um acaso estiver tentando me enganar arranco seus braços. – Andie tinha certeza de que não conseguiria arrancar aqueles membros grossos e sólidos sem a ajuda de pelo menos um cutelo, mas tentou convencer-se de que era capaz de meter um pouco de medo no homem.

Um pouco surpreso, ele assentiu.

—Tudo bem, madame. Se me permite entrar, gostaria de mostrar a contabilidade de Paul e orientá-la.

Andie hesitou durante um ínfimo segundo, mas Beatrice a cutucou nas costelas discretamente com a ponta do indicador e ela assentiu rápido com a cabeça, convidando-o a entrar.

—Mas estamos à beira da falência! – Andie gritou, levantando do sofá com a mesma rapidez de uma serpente dando o bote, quase derrubando o prato com bolinhos de baunilha repousando intocado em cima da mesa. – Como o senhor ousa vir aqui me dizer que estamos falindo?! – ela estava fora de controle, e mesmo Beatrice não conseguia dar um fim na sua explosão.

—Minha senhora, quem está falindo é seu marido, eu só vim dar a notícia e orientá-la. Além do mais, ainda não é o fim. Existem maneiras de levantar renda e recuperar dívidas.

—Como? – ela estava desesperada e faria qualquer coisa para reverter sua situação. Por que Paul tinha de estar tão longe numa hora dessas?

—Primeiramente é mister levantar toda a renda que ainda possui e saldar as dívidas mais urgentes, aquelas prestes a vencer. Depois, sugiro ir ao Posto do Exército mais próximo e solicitar uma pensão pelos serviços que seu marido está prestando. Isso a deixaria com uma quantia suficiente para aplicar em alguma ação ou guardar em uma poupança para render. Os juros não estão muito altos, mas seria só até seu marido aparecer ou encontrarmos outras soluções.

—Mas e a casa? Como vou mantê-la? – ela abriu os braços, abarcando o cômodo, desesperada e desconsolada.

—Sinto dizer que precisará hipotecar ou leiloar. Algum comerciante rico ou nobre pode se interessar em sua residência. Ela é organizada, limpa e esbanja luxo.

—É uma boa ideia, senhora. – Beatrice, até aquele momento sem dizer uma palavra, interviu.

—Mas se Paul voltar e eu não estiver em casa como ele saberá onde estou?

—Preocupe-se com isso depois. O mais importante agora é liquidar suas dívidas e sair daqui o mais depressa possível. Mesmo que a senhora seja inocente da má administração que Paul tenha feito ainda paga pelos seus erros e, no momento, é a única responsável legal. Todas as contas recaem sobre a senhora.

—E onde vou morar?

—Possui parentes nos arredores? Alguma tia, irmã, avó? Qualquer conhecido que possa abriga-la ao menos por enquanto?

—Ninguém. – Andie deixou os ombros caírem, lágrimas turvando sua visão.

—Posso emprestar minha casa por algum tempo, até se estabelecer em algum lugar. Não cobraria nada pela estadia das duas.

—De jeito nenhum! – Andie cuspiu, a indignação deixando sua pele morena três tons mais claros. – Mal o conheço!

—Se eu jurasse pela minha falecida mãe que não tenho segundas intenções com o convite a senhora acreditaria?

—Palavras são só palavras. Não posso contar com a sorte de confiar em você! – Andie estava tão alterada que nem se preocupou em chama-lo pelo nome de tratamento correto.

—Eu mal fico em casa. Trabalho muito e falo pouco. Nem saberiam da minha existência. Minha moradia é simples, mas espaçosa. Tenho dois quartos e, se isso as fizer se sentirem mais confortáveis, durmo na sala. Qualquer coisa para deixarem-nas melhor acomodadas.

Andie assentiu de forma curta e breve para Beatrice e se juntou a ela em um canto.

—O que acha, Bea? – sussurrou.

—Senhora, creio não ser muito inteligente aceitar uma oferta dessas, mas ou engolimos o medo e o orgulho e moramos com ele ou podemos nos considerar na rua. Pelo menos com o senhor Raytower teremos comida, um teto e uma cama. É o melhor que poderíamos arranjar dada nossa atual situação.

—Como sempre você está certa. – Andie apertou as mãos pequenas de Beatrice entre as suas, dividindo sua aflição. – Nós aceitamos. – ela disse, virando-se para Ernest.

Um brilho de satisfação passou fugaz pelos olhos claros do contador, mas se apagou antes de dizer.

—Perfeito. Ajeitem tudo que precisam levar, todos os pertences indispensáveis e aquilo que considerarem importante. Enquanto isso eu vou atrás de toda a papelada da casa e tratarei de liquidar suas dívidas. Paul deixou tudo comigo, todos os dados e orientações. Sei o que fazer. Não precisam se preocupar com nada. Amanhã venho busca-las em torno do meio dia, dando-lhes o tempo do desjejum e do almoço. – ele tirou o chapéu coco e o abaixou em um adeus educado e formal. – Senhora e senhorita.

—Adeus, senhor Raytower. – Beatrice se despediu.

—Até amanhã, senhor. – a despedida de Andie foi fria, apesar de cortês.

Ernest piscou e se virou para sair.

No dia seguinte a chuva caía. Quando digo chuva não me refiro às gotas cálidas que despejam e escorrem vagarosamente pelas ruas. Essa era uma chuva torrencial, daquele tipo que deixa os cabelos pegajosos mesmo dentro de casa e encontra buracos em qualquer telhado. Por esse motivo a mudança foi conturbada e aparvalhada. Embora Ernest fizesse a maior parte Beatrice e Andie tiveram dificuldades com suas roupas e pertences delicados.

A primeira coisa que repararam na casa de Ernest foi a total falta de decoração. As mobílias eram cruas, em tons neutros, e não havia retratos ou quadros que denunciassem algum traço da personalidade do contador. A única coisa perceptível era sua organização minuciosa. Tudo tinha seu lugar e, assim que Ernest pegava algo a colocava exatamente onde estava antes.

—Será que ele faz demarcações nos locais em que cada objeto deve ficar? – Beatrice perguntou, zombeteira.

—Provavelmente.

—Capaz de o sr. Ernest criar problemas até mesmo se precisarmos comer algo e não pudermos colocar no lugar depois.

—Não duvido. Se bem que ele deve comer. Não existe alguém tão estranho e pragmático que deixe de comer só para não tirar nada do lugar.

Ernest percebeu que elas falavam dele e se virou para questionar:

—As madames gostariam de dizer algo?

Beatrice ficou embaraçada para explicar:

—Ééé... hum... estávamos contemplando a simplicidade e organização de sua casa.

—Na verdade eu estava dizendo como o senhor é metódico.

Beatrice cutucou a patroa com o cotovelo, lançando olhares indignados em sua direção, mas Andie ignorou e prosseguiu:

—Tudo tem que ter seu lugar e nada pode ficar fora.

—É, sou realmente metódico. Um contador precisa organizar sua casa, senão como ele organizará seu trabalho? – ele retorquiu, presunçoso.

—O senhor tem razão, perdoe a senhora Marshall, ela está muito estressada com toda essa situação. – Beatrice falou, colocando as duas mãos no peito em sinal de desculpas.

—Perdoado. Agora, se ambas estiverem adequadamente acomodadas peço licença para tratar de negócios. – ele abaixou a cabeça como despedida e foi para uma das entradas ao lado da lareira de tijolos discretamente disposta na extremidade da confortável sala.

Beatrice e Andie esperaram alguns instantes para subirem as escadas e alcançarem o segundo patamar.

Ernest lhes preparara um quarto para dividirem, com duas camas estreitas de cabeceiras altas e retas de madeira crua e uma cômoda branca de porcelana, comportando apenas dois copos de água e uma jarra de metal.

—Qual cama a senhora prefere? – Beatrice perguntou, colocando a mala no chão, sentindo o alívio instantâneo ao descansar os braços do peso incômodo.

—Por mim tanto faz, desde que eu possa dormir sem ter de me preocupar com a posição dos lençóis está tudo bem.

Beatrice riu com gosto, mostrando seus dentes pequenos e brancos, tão álveos quanto sua pele e tão lisos quanto seus cabelos castanhos. Andie às vezes se surpreendia com a beleza da amiga. Se tivesse poder para tanto, tornaria Beatrice sua dama de companhia, e não sua empregada. Mas pagar um salário maior agora estava fora de cogitação.

—Ah, Bea... se eu não tivesse sua companhia estaria perdida. – Andie desabafou, sentando com força no colchão duro, dando um suspiro em seguida. – Nossa, nem sei como vou conseguir dormir nesta cama dura.

—Se a senhora pensar bem – Beatrice começou a dizer, afofando o colchão – não é tão dura quanto o coração do senhor Ernest.

Andie riu a contragosto, sentindo-se culpada por caçoar de Ernest quando ele havia sido tão gentil em ceder a casa sem cobrar nada.

—Beatrice, você está terrível hoje.

—Só preocupada, madame. A senhora é minha única família, e ver quem amamos com problemas nos destrói.

A gentileza e bondade de Beatrice pegou Andie de surpresa, e lágrimas ameaçaram brotar, mas como sempre ela engoliu sua fragilidade e adotou a postura de antes.

—Acho melhor arrumarmos nossas coisas e descansar, foi um longo dia e já passa das seis.

—A senhora não precisa perder seu tempo arrumando seus pertences. Deixa que eu arrumo. – Beatrice andou rapidamente até onde estava a mala de Andie e a abriu, despejando as roupas da forma mais organizada que alguém poderia despejar e guardando com praticidade nas gavetas de uma cômoda grande e quadrada na parede ao lado da porta.

—Acha que conseguiremos reverter nossa miséria, Beatrice?

—Deixa de ser exagerada, patroa. Estão muito longes da miséria. Posso garantir que não há perigo de morarem na rua.

—Você fala como se soubesse o que é a miséria, Beatrice. – Andie estreitou os olhos, com desconfiança, pensando nas muitas coisas que sua empregada nunca havia lhe dito.

Quando Beatrice chegou na casa de Andie, sob recomendação de uma amiga da família Marshall, era uma mulher no auge de seus vinte anos, com olheiras profundas e um olhar de alguém muito jovem e que já carregou o mundo. Apesar de terem consolidado uma amizade genuína, Andie nunca tivera coragem de perguntar qual vida Beatrice levava antes de ser agraciada com a empatia e piedade dos Marshall. Esse era uma daqueles assuntos sobre os quais nem melhores amigos ou almas gêmeas conversam. Aqueles tipos de segredos que carregamos até o túmulo e estão guardados profundamente em nossos pedaços mais escondidos.

—Eu já a vi, madame. – embora Beatrice tivesse se virado para olhar nos olhos de Andie, ela pode perceber que a moça omitia alguma informação – Crianças fuçando no lixo para procurar o que comer e mães desesperadas pedindo por misericórdia e benção de algum patrono rico que pudesse abrigar seus filhos, mesmo que isso as deixasse longe deles. O desespero e a fome mudam uma pessoa, mais do que os acidentes e a morte. Para os miseráveis, senhora, a morte é o descanso. A morte não se torna o fim, e sim o começo.

—Começo de quê, exatamente? – Andie perguntou, baixinho, tão baixo que não passou de um sussurro.

—Enquanto estão vivos tem de conviver diariamente com a fome, a pobreza e a desesperança, precisam ver seus filhos, maridos e pais morrendo sem poder fazer nada para ajudar. Mas quando morrem não sentem dor, nem fome, nem qualquer outra coisa. Ficam em paz, escutam a sonata dos anjos e podem matar a saudade dos que foram. A morte é uma salvação.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral, e Andie julgou ter visto os olhos de Beatrice marejando, a dor de uma saudade e a miscelânea de lembranças antigas e feridas ainda abertas deixando-a pálida como um cadáver. Teve medo de falar e quebrar aquele momento tão raro e tão desconcertante. Uma angústia lhe exprimia o peito e ela o esfregava com lentidão vigorosa quando Beatrice rompeu o silêncio e voltou ao seu jeito alegre e otimista de sempre.

—O que será de jantar? Estou morrendo de fome. – a dor desanuviou e Beatrice riu, puxando Andie consigo para juntas descerem as escadas à procura de algo para comer.

O jantar transcorreu sem problemas incomuns. Andie derramou um pouco de vinho na toalha branca sem desenhos, mas Ernest não se transtornou nem perdeu tempo tentando tirar o excesso da bebida.

O sr. Raytower mostrou-se um homem bastante inteligente e culto. Conhecia noções bem específicas de cartografia, literatura e culinária. Apesar de ter uma ajudante que preparava suas refeições, neste dia ele mesmo quis planejar algo para comer, atentando-se ao sabor e à primazia da comida. Isso surpreendeu Andie e Beatrice, mas somente esta última elogiou:

—Que jantar maravilhoso, sr. Raytower.

—Ora, não foi nada. Qualquer um sabe colocar um bom peixe no forno e temperar com algumas ervas. O mais difícil foi encontrar as nozes que coloquei no arroz e acertar o ponto do sal.

—Não é qualquer um. – Beatrice retrucou.

—Como disse? – Ernest questionou, franzindo as sobrancelhas e inclinando-se na mesa, intrigado.

—Não é qualquer um que sabe preparar uma refeição, por mais simples que seja. Minha senhora, aqui, por exemplo, queima até água.

Se Beatrice ficou incomodada com o olhar de Andie não demonstrou.

—Quer dizer que madame Marshall não é dada à cozinha? – ele perguntou, retoricamente, um sorriso travesso puxando os cantos de sua boca para cima.

—O que eu faço ou deixo de fazer não lhe interessa, senhor Raytower.

—Não estou me sentindo incomodado pela sua total falta de habilidade culinária, senhora. Na verdade, isso é completamente natural.

—Então por qual motivo achou tão engraçado?

—Porque a senhora parece ser do tipo de pessoa que se orgulha por saber de tudo e nunca fica despreparada.

As fagulhas saindo dos olhos de Andie deveriam alertá-lo de estar percorrendo um caminho muito instável, mas Ernest não parecia ter medo de muita coisa e continuava suas zombarias educadas.

—A que a senhora é dada?

—Apesar de me considerar uma inútil rica que só se preocupa com o valor de suas joias ou com o restaurante mais caro, sou dada a muitas coisas, meu caro sr. Raytower.

—Por exemplo?

—Escrevo, costuro, discuto política melhor que um político, administro finanças, gerencio minha casa... minha falência iminente nada tem a ver com minha administração, pois as tarefas que executo são meramente substitutivas e tenho orgulho de dizer que são muito bem-feitas, obrigada. – ela cerrou os maxilares, ressaltando seu orgulho.

—Nossa, mas é muito para uma dama tão refinada que nem a senhora. – seu tom era de assombro, mas o brilho nos olhos azuis dizia que ele zombava de Andie.

Isso não passou despercebido pela madame.

—Por que o senhor está tão interessado em minha vida? É um jornalista ou espião por acaso?

—De jeito nenhum, só quero certificar-me de que a senhora saberá administrar minha própria casa quando eu não estiver. Saio muito e trabalho ainda mais, portanto preciso de alguém em quem confie para executar das atividades mais básicas como inspecionar a limpeza até as mais elaboradas, como receber visitas e deixa-las confortáveis em qualquer situação.

—Muito bem. Eu sou capaz de fazer tudo isso e muito mais.

—Eu não duvido, sra. Marshall, não duvido mesmo. Desculpe minha total falta de tato, mas eu estou tão preocupado com a situação financeira dos senhores quanto é possível. Afinal, as tarefas mais difíceis recaem sobre mim, e minha reputação depende de suas avaliações.

—Entendo. Não há motivos para duvidar de mim ou de Beatrice.

—Eu nunca duvidei de Beatrice. Nunca duvidei nem da senhora. Só estou me certificando de ter colocado duas mulheres de caráter dentro da casa de um contador que guarda documentos importantes e dinheiro em espécie. Hoje em dia não podemos confiar cem por cento em ninguém.

—Eu que o diga... – Beatrice falou, em um muxoxo que ela pensou não ter sido percebido.

—Aconteceu algo, Bea? – Andie perguntou, preocupada, colocando sua mão no antebraço de Beatrice, tirando-a do torpor que seu pensamento repentino lhe causou.

—Não, senhora... falei sem pensar. – Beatrice colocou o guardanapo sobre a mesa e empurrou a cadeira, levantando-se – Se me derem licença, vou me retirar. Foi um dia longo e cansativo. Boa noite, sr.

—Boa noite, senhorita. Foi um prazer tê-la conosco no jantar. – ele assentiu com a cabeça, observando com respeito Beatrice subir até o patamar superior. Depois que ele escutou a batida da porta e o silêncio se instalou, voltou sua atenção para Andie. – Beatrice é muito companheira da senhora, não é?

—Ela é muito mais que minha empregada. Tornou-se uma amiga. Quando chegou em minha casa não sabia ler nem escrever, e me alegro de ter feito parte de seu aprendizado.

—Hmm... – ele apoiou o queixo na mão e observou Andie em toda a profundidade de seus olhos azuis. Naquele momento Ernest percebeu como a senhora sentada a sua frente, fuzilando-o, era bela. Suas feições marcantes denunciavam a personalidade, assim como a teimosia acentuada no queixo e a dureza dos olhos negros. Como não era alta, tinha de colocar toda sua altivez na postura e na imposição da voz, e o fazia perfeitamente. – A senhora vem de família nobre? – na hora em que perguntou já sabia a resposta. Uma mulher como ela, cheia de opiniões e carregada no tom, negligenciando as etiquetas, não poderia ter sido criada em família rica, e ele acertou na suposição.

—Não. Meus pais eram pequenos comerciantes. Tinham um negócio de perfumes e essências na Baixa Londres.

—Eram? Já são falecidos?

—Minha mãe faleceu de tuberculose em 52, no mesmo ano em que conheci Paul, e meu pai foi atingido por uma explosão de gás quando passeava por Nottingham. Isso foi há dois anos, e ainda sinto a dor da perda como se tivesse sido ontem.

—E como conheceu Paul? – ele se serviu de outra taça de vinho, e por educação encheu a taça de Andie, mesmo ela não tendo pedido.

—Eu estava em um banco no parque, chorando pelo término de um romance que pensei ser para sempre, e Paul me ofereceu um lenço. Apaixonei-me imediatamente.

—O que fez a senhora se apaixonar dessa maneira? – ele parecia realmente interessado na história.

—O lenço de Paul era cheio de pequeninas margaridas desenhadas. Era uma peça de mulher, mas posteriormente ele me explicou que era de uma tia querida e ela o deixara de herança para Paul.

—Foram as margaridas que a encantaram?

—Sim. São minhas flores preferidas. Fortes e belas. Gosto de pensar que elas se abrem para mim. – Andie imaginou estar se abrindo demais para uma pessoa a quem acabou de conhecer, e se arrependeu, ficando mais reservada e bebericando o vinho para evitar falar mais. Bebidas a deixavam solta. Andie já tinha dificuldades em controlar a língua e suas ações, e o álcool intensificava esse obstáculo.

—Prefiro as rosas.

—E por qual motivo? – essa confissão a pegou de surpresa.

—São bonitas, mas todos têm receio de pegá-las por causa dos espinhos. Gosto da maneira que elas criam essa barreira, se isolando do mundo, assim só aqueles mais preparados e cautelosos podem tocar seus botões. Admiro mulheres recatadas, que se fecham para os escândalos do mundo e guardam sua pureza e inocência. As escandalosas não passam de vulgares. – aquilo pareceu ter sido dirigido especificamente para ela, e Andie não pode deixar barato.

—Mulheres mais fortes podem se defender melhor de homens como o senhor.

—Homens como eu? O que quer dizer com isso?

—Já sei o que está tentando fazer. O senhor fica procurando minhas rachaduras, minha quebra nessa muralha que construí ao meu redor, para descobrir meus pontos fracos e trabalhar com eles. – Andie inclinou-se por cima da mesa para ficar cara a cara com Ernest. Ele não se encolheu, mas uma pitada de diversão e incredulidade deixou seus olhos brilhantes. – Pois fique sabendo, sr. Raytower, que não sou do tipo que vacila. Se o senhor me derruba, te derrubo com mais força. Se me bate, bato com mais vigor. E se me desafia, eu ganho.

—Está insinuando que quero lhe machucar?

—É o que parece. Fica falando em rodeios, dando indiretas e me humilhando na frente de Beatrice. Se isso não é um joguinho sem graça de um homem amargurado pela solidão então não sei o que é.

Aparentemente Andie tocara em alguma ferida delicada, pois Ernest se encolheu e suas feições endureceram.

—Eu não tenho paciência para mulheres que se acham superiores, senhora. Uma esposa deve ser recatada e submissa, do contrário acaba virando a cabeça de um homem e acontece a mesma coisa que aconteceu com seu marido. Fica sem dinheiro, sem casa e sem perspectiva. Dou-lhe um conselho sagrado, minha cara: controle sua língua, ou não poderá controlar sua vida. A vida, diferente de mim, não aconselha. Ela dá uma bofetada na cara sem avisar.

Andie ficou por uns instantes sem dizer nada, observando a frieza dos olhos azuis, o maxilar bem definido e a boca carnuda, tentando desvendar o que se passava na mente daquele homem tão intrigante. Para um contador, Ernest era jovem e bonito, muito diferente dos contadores que ela conhecera. Os outros eram velhos, magricelas e usavam óculos redondos, e a maioria não tinha cabelos, ou estes lhe eram muito raros. No caso de Ernest, os cabelos negros lhe caíam contornando a testa, chegando na base do pescoço e se enrolando graciosamente em alguns pontos. Andie se pegou admirando-o, a contragosto. As batidas do relógio indicando dez horas foram o motivo de seu despertar, e ela agradeceu a qualquer entidade divina intimamente ligada ao tempo pela pequena e conveniente intervenção.

—Em todo caso, obrigada pelo conselho. Saiba que não deixarei de expressar minhas opiniões, mas tomarei cuidado com o que diz em respeito ao seu trabalho e em agradecimento pela sua hospitalidade, mas peço ao senhor que também pondere suas palavras. – Andie ficou novamente ereta e assentiu com a cabeça, desejando boa noite em seguida.

—Boa noite, senhora.

Ernest acompanhou seus passos com o olhar, sentindo conhecer Andie pela primeira vez.

Notas finais
Estão gostando? Me falem!