Escandalosamente Secreto
11 Beatrice
Notas iniciais
A jovem corria pela calçada, assustada e com medo, mas sobretudo sentindo frio. Londres superava todas as suas expectativas com relação a uma cidade grande e moderna. As buzinas de carros enchiam seus ouvidos e a deixavam com uma sensação particularmente desagradável de calor.
Ela se deparou diversas vezes com prostitutas muito diferentes daquelas em Brighton. Essas tinham joias e usavam roupas luxuosas. Seus clientes se amontoavam na calçada, negociando preços e combinando locais, e não eram como os velhos gordos e carecas que frequentemente via próximos à casa de seus avós.
Esses eram homens de terno, provavelmente maridos, com suas esposas em casa esperando-os chegarem de “uma reunião que acabaria muito tarde”. Talvez tivessem filhos, talvez netos... disso ela não sabia. A única coisa que a jovem poderia tirar como conclusão olhando para seus rostos limpos era que, fossem ou não fossem casados com alguém, não era a primeira vez que procuravam o serviço de prostitutas.
Ela passou por casas enormes, com varandas suntuosas e jardins bem cuidados. Passou por residências simples, mas não eram nada comparadas às residências modestas de Brighton. Assustou-se com um ou outro cachorro pulando no portão; o coração disparou algumas vezes quando chegava em um beco escuro. Embora Londres fosse mais civilizada que a cidade litorânea ainda assim era uma cidade, com pessoas de boas intenções, mas outras revestidas pela maldade.
Deparou-se, então, com uma casa igual a todas as outras. Contudo, essa tinha um ar diferente. Ela não soube dizer o que a empurrou na direção do portão e a fez tocar a campainha. Quando percebeu o que fazia já era tarde, e uma linda mulher de cabelos negros e rosto orgulhoso abriu a porta, esperando que ela falasse alguma coisa.
—Boa noite, senhora... estou perdida. Só preciso de comida e um lugar quente para passar a noite.
A mulher olhou-a de cima a baixo, sem qualquer traço de simpatia. Mas, de repente, como se soasse um estalo em sua cabeça, seus olhos negros ficaram menos hostis e a postura mais relaxada.
—Entre. Temos uma lareira acesa e comida quente.
Era tudo o que a jovem precisava. Entrou, sem graça, na enorme casa. Em um canto estava a lareira com seu fogo acolhedor. Sofás grandes e macios se espalhavam pela sala, e ela sentiu cheiro de carne no ar. Seu estômago roncou. Com toda a confusão nem havia se lembrado de procurar algo para comer.
—Qual é o seu nome? – a mulher perguntou de forma direta.
—Beatrice, senhora.
—De onde veio? – ela não parecia estar fazendo aquilo por intromissão. Seu rosto revelava curiosidade incontida e um desejo tremendo de conhecer mais de Beatrice.
—Vim de Brighton. Meus avós faleceram recentemente e vim para Londres a procura de emprego e um lugar para morar.
—Já tem os dois.
—Como disse, senhora?
—Estou te dando um emprego. A partir de hoje você é minha governanta e dama de companhia.
Beatrice se estarreceu, surpreendida com a confiança instintiva que a senhora tinha com ela.
—Eu lhe agradeço, senhora.
—Meu nome é Andie. Venha, quero que conheça meu marido. Depois você pode se oferecer do quanto quiser de carne e descansar. Não há pertences que gostaria de organizar?
—Nenhum, senhora. Somente a roupa do corpo, um tanto puída.
—Não há problemas. Darei roupas novas e uma cama confortável.
—Não sei nem como começar a lhe agradecer, senhora.
—Chega de formalidades. Se não quiser me chamar pelo meu nome também não há necessidade de ficar falando ‘senhora’ o tempo todo. Estamos combinadas?
Andie sorriu, imediatamente simpatizada por Beatrice, e virou alguns corredores, com a jovem em seu encalço.
O marido de Andie estava sentado em uma cadeira de espaldar alto e reto, com a cabeça baixa, examinando uma pilha de papeis. Ele levantou o olhar e perguntas surgiram em seu rosto anguloso e comprido. Os cabelos castanhos estavam em desalinho e a camisa amassada. Ele parecia preocupado com alguma coisa.
—Paul, querido, esta é Beatrice. Acabei de contratá-la como governanta e dama de companhia.
—Andie, mas o que significa isso? – ele não estava surpreso. Talvez tivesse se acostumado com as decisões impetuosas da esposa ou só estivesse cansado demais para contrariá-la.
—Ora, eu simpatizei com a garota. – ela deu de ombros.
—Quando você enfia algo na cabeça não há nada que tire. – um lampejo de frustração passou por seus olhos verdes, mas ele tratou de alterar para algo próximo à resignação. – Tudo bem, Andie... faça o que quiser. – ele tornou a examinar os papeis, alheio à irritação da esposa.
—Já fiz. Venha, Beatrice, vou lhe mostrar seu quarto e depois você pode ir comer. – ela deu as costas ao marido e as duas foram para o andar de cima.
A casa era toda em madeira envernizada. Havia uma escada com três lances, cada patamar se abrindo para um cômodo. Ele deve ser algum empresário importante, Beatrice pensou, analisando os vasos caríssimos e as pinturas gigantes nas paredes.
Andie apontou para uma porta verde e disse:
—Aqui está seu quarto. Providenciarei para que tenha cobertores limpos e água no jarro. Os empregados obedecerão suas ordens e você obedecerá às minhas. Estamos entendidas? – Andie era grossa, mas de forma alguma deseducada. Parecia gostar genuinamente de Beatrice. Talvez esse fosse seu jeito de demonstrar carinho ou amor.
—Sim, senhora.
Andie abriu a porta verde e Beatrice ficou surpresa com o tamanho do quarto. Maior do que aqueles destinados aos empregados, ou até mesmo às governantas. Havia uma claraboia no teto que possibilitava uma vista panorâmica da cidade. Dali era possível ver parte do rio Tâmisa e mais ao longe a Torre de Londres.
—Sinta-se à vontade. Explore o quarto. Estarei na biblioteca se precisar de mim. – Andie saiu.
Beatrice tinha a sensação de que poderia construir um lar verdadeiro ali. Tudo era questão de compreender a personalidade da patroa e cair nas graças do marido. Não seria nada difícil. Contudo, permanecia dentro de si aquele medo de acontecer exatamente como em seu lar adotivo. Ela não sabia as intenções de Paul, e pelo que pode perceber ele era muito atarefado e não gostava de acatar as decisões da esposa, apesar de respeitá-las. Andie impunha esse respeito, da mesma forma como Beatrice impunha compaixão.
Em sua nova casa havia sensação de segurança. Ela estava em todo lugar, desde o carpete macio na sala principal até a cor dos lençóis em sua cama. Se dependesse de Beatrice, aquele seria seu lar.
Os anos passaram voando para Beatrice. Ela vivia ocupada com as organizações da casa, decorando a sala para eventos e escolhendo o cardápio para os jantares nos quais o casal recebia amigos e pessoas a negócios.
Andie havia se tornado uma verdadeira amiga. As duas tinham momentos de risada, de conversas à frente da lareira. Compartilhavam histórias, fofocas e conselhos. Paul mesmo acabara se mostrando muito gentil. Ele considerava Beatrice como parte da família e agora não mais hesitava em confiar na jovem.
Em uma noite fria de 1957, chegara uma carta endereçada a Paul. Ele ficou visivelmente nervoso, e foi lê-la na intimidade de seu escritório. Saiu de lá com uma expressão aflita e angustiada. Pelo que Beatrice entendera ele sairia a serviço do governo britânico para descobrir algo além da compreensão de Andie. Ela queria saber dos detalhes, mas o sigilo da profissão não o deixara contar.
Paul saiu de manhã, quando o sol ainda estava preguiçoso e os pássaros piavam baixinho, despertando. Andie não chorou, mas foi por pouco. Ao vê-lo das as costas e entrar no carro, acenando um adeus antes de virar a rua, a mulher tinha lágrimas nos olhos e cerrava os dentes com força.
Durante todo o tempo em que Paul ficou fora elas tinham somente uma a outra. Os empregados eram quietos e impassíveis, mas Andie os tratava com carinho. Não o mesmo carinho dirigido a Beatrice; só que ainda assim um carinho inquestionável.
Quando a campainha tocou e Andie abriu a porta, ficando quieta, Beatrice pensou que fosse Paul retornando, mas em seu lugar havia um homem bonito, de compleições robustas e olhos azuis demais. Gostou dele, ao contrário de sua patroa, que foi estranhamente rude.
Beatrice percebeu que ele ficara encantado com Andie. E ela, embora não quisesse compreender nem demonstrar, ficou intrigada com o homem. Andie explodiu quando soube da condição financeira pela qual passavam. Devia ser por isso que Paul ficara horas trancado no escritório, todas as noites durante dois anos.
O tempo na casa de Ernest foi agradável, cheio de surpresas. Mas a maior satisfação daquele período foi ter conhecido Charles. O jovem advogado tinha amor pela profissão. Era estudioso e espirituoso, e não se deixava abalar por dificuldades. Andie não confiava nele, mas com o passar do tempo confessara para Beatrice que gostava do garoto.
Então ela engravidou. O amor com Charles foi intenso a esse ponto. Beatrice estava nervosa, com medo do parto, mas ao mesmo tempo explodia dentro de si uma felicidade tão absurda que ela achou que fosse morrer de amor. Andie vivia radiante. Cantava, dançava e se aproximou mais ainda de Beatrice. Ela suspeitava que havia algo rolando entre a patroa e o sr. Raytower, mas não teve ousadia o suficiente para perguntar de forma direta.
Sua barriga crescia, e com ela o amor pelo bebê. Tinha certeza de que era menina. Algo no seu coração lhe dizia isso, e nem o médico – que suspeitava ser menino – lhe dissuadia do contrário.
Então aconteceu o que ela mais temia: Charles a deixou.
Andie lhe dizia para respirar, mas era extremamente difícil com a dor rasgando seu ventre e sua coluna. Ela sufocava, e havia sangue demais. Nunca imaginou que a sensação seria tão intensa. Nunca pensou que ter um filho era trabalhoso. Mas assim que pegou sua pequena Mary nos braços, não imaginou, por um segundo sequer, sua vida sem ela.
Mary agora era seu coração. Se Andie havia sido durante todos aqueles anos os seus braços e ombros, feitos para ajudá-la e apoiá-la, a criança era o órgão mais importante do corpo. Charles não estaria ali para vê-la, contudo nada disso importava agora, pois tinha Mary ao seu lado.
Nesse dia resolveu contar sua história de vida para Andie. A expressão da patroa e amiga lhe deu vontade de rir, mas ela segurou pelo bem de seu corpo exausto.
Era normal sentir tanto cansaço daquele jeito? E a dor no útero? Por que não se sentia bem? Estava com náusea, e teve de se esforçar para permanecer acordada enquanto dava de mamar a Mary. Não deixaria transparecer o mal-estar com Andie por perto. Devia ser só resultado do parto difícil e demorado.
Assim ela entrou em um sono inquieto, perturbado por visões de Mary morrendo, Andie queimando e Ernest caindo de uma escada. A dor consumia cada poro de seu corpo fragilizado; ela acordou por uns instantes e observou os traços pequenos e delicados de Mary, o rostinho amassado e vermelho mergulhado na inconsciência típica das crianças. Depois, sua vista escureceu e ela entrou em um sono diferente, no qual tudo ouvia e sentia, mas do qual não conseguia sair.
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