Escandalosamente Secreto
12 Dor
Assim que Andie entrou na casa, sabendo que nunca mais ouviria a alegre risada de Beatrice, ela desmoronou. Durante todo o tempo que permaneceram no hospital até a hora do enterro ela havia conseguido segurar suas emoções, mas saber que Beatrice não apareceria com suas tiradas espirituosas e não deixaria seu otimismo pelo ar a consumiu.
Ela parou na soleira da porta, carregando Mary nos braços. Ernest vinha atrás, visivelmente abalado. Vendo que Andie desfalecia, pegou a criança com cautela.
Andie se prostrou no chão, gemendo e urrando. A dor parecia dissolver suas células e queimar cada pedaço de pele. O coração estava comprimido, e ela nunca pensou que sentiria tanta tristeza de uma vez só. Nem quando perdeu seus pais havia doído tanto.
—Por quê? Meu Deus, por quê? – ela chorou, olhando para o teto, com revolta e amargura na voz.
—Andie, por favor me escute... – Ernest começou, sendo interrompido pelas lamúrias.
—Justo ela... uma pessoa tão boa, tão meiga, feliz... acabar desse jeito... não pode ser, Ernest, não pode ser! – gritou, puxando os cabelos. – Deus deve estar com muita raiva de mim para ter feito isso com ela.
—Andie, não foi Deus... isso poderia ter acontecido com qualquer mulher. Me escute um pouco, por favor. – ele implorou, com um braço segurando Mary e com o outro puxando Andie para que ficasse de pé. Ela resistiu, puxando seu braço.
Ver Andie caída de joelhos no meio do hall de entrada, com copiosas lágrimas escorrendo pelo rosto e os cabelos em desalinho, Ernest pensou que ela nunca mais voltaria a ser ela mesma. A morte acaba com as pessoas, e a partida de Beatrice deixaria um vazio do qual Andie jamais sairia.
—Não entra na minha cabeça, Ernest, que jamais a verei de novo. Não consigo aceitar isso... não consigo! – ela chorou, segurando a barriga.
Ernest sabia que naquele momento era melhor deixa-la com sua dor. A pessoa devia viver o luto para poder sair dele. Quando Andie se sentisse melhor iria acalmar. Esse tempo pareceu demorar muito, mas antes que se desse conta a viu levantando do chão, secando as lágrimas e voltando a ser a Andie de sempre.
Ela se sentou ao seu lado no sofá, fragilizada.
—Bea sempre me dizia que devíamos levar a vida com leveza e alegria. – Andie falou, de repente, surpreendendo Ernest. Em seguida, mexeu nas mãozinhas delicadas de Mary e continuou: — Eu achava isso uma grande bobagem, mas hoje percebo como me fez falta.
Ela ficou em silêncio, controlando as lágrimas, e logo depois disse:
—Se tivesse sido o contrário... se eu tivesse morrido... Bea seguiria em frente. Ela teria Mary.
—Você também tem Mary. – Ernest constatou.
—Sim. – Andie olhou para ele. – Eu também tenho Mary. Ela é minha filha, agora. Cuidarei com minha própria vida e a defenderei, custe o que custar. – ela estendeu os braços e Ernest lhe entregou a criança.
Mary tinha os olhos de Beatrice. Apesar de serem muito pequenos e de nada terem visto na vida, traziam consigo a paixão pelo mundo e a alegria incontida. Os cabelos eram negros como os de Charles, tão lisos e macios quanto os de Andie. As dobrinhas da mão eram adoráveis, e ela sorriu.
—Mary é linda!
—Como a mãe.
Ela ergueu a cabeça para ele, percebendo só naquele instante a proximidade.
—Sim. Exatamente como a mãe.
—Andie... – ele começou, hesitante, como se não soubesse muito bem como abordar o assunto. -... sei que é difícil... o luto.
A expressão antes encantada de Andie murchou, relembrando de Beatrice.
—Mas ela está aqui com você. A qualquer momento, em todos os instantes de sua vida, ela estará aqui. Pode não ser fisicamente, mas espiritualmente. Nunca fui de pensar no que acontece após a morte, mas de uma coisa tenho certeza: nunca nos deixam de verdade.
Ela o encarou, se perdendo em suas palavras e na profundidade dos olhos azuis. Havia tristeza neles, mas também algo próximo à esperança. Aquilo deixou Andie quase feliz, acreditando que realmente pudesse superar a morte de Beatrice algum dia.
—Eu poderei voltar a viver? – ela perguntou, deixando uma lágrima cair.
—Sim. – Ernest limpou a lágrima com as costas do indicador. – Embora você ache que não, a vida voltará aos trilhos. A única coisa é que terá de aprender a conviver com o buraco que Beatrice preenchia. Isso é o mais difícil.
—Sinto tanta falta dela. – sua voz embargou.
—Eu acharia estranho você não sentir. A saudade é o que nos move. No início você lembrará de Beatrice com uma saudade sem tamanho, que te corrói e tira a respiração, mas com o tempo, e só com o tempo, se recordará dos momentos que tiveram juntas com gratidão e felicidade. Agradecerá por tê-la conhecido; agradecerá por todas as vezes em que riram juntas. E a saudade agonizante se transforma em uma saudade gostosa. Eu lhe garanto que isso passa. Agora você tem um ser pequenino para cuidar. – ele mexeu na mão de Mary, e a criança sorriu.
—O que será que acontece após a morte? – ela focou em um assunto mais abstrato para tentar se distrair da dor.
—Acho que não termina aqui... a vida é complexa demais para vivermos somente uma vez. Não digo que haja uma nova vida, mas que haja um novo sentido, um novo tempo psíquico... um universo a mais.
—Só espero que nesse universo eu não case com Paul novamente. – ela zombou, e Ernest percebeu que havia voltado a ser quase a Andie de antes.
—Falando nisso... há algo sobre o qual não lhe falei. – Ernest ficou subitamente tenso e levantou do sofá, colocando as mãos nos bolsos da calça preta de alfaiataria.
Mary se remexeu, nervosa, no colo de Andie, dando a entender que partilhava do desconforto de Ernest.
—O que é? – ela estreitou os olhos com desconfiança. Qualquer que fosse o assunto não era algo muito agradável, e ficou hesitante em escutar.
—Eu estudei com Paul muitos anos atrás e me lembro exatamente de sua fisionomia, de sua personalidade. Ele era calmo, tremendamente inteligente e tinha cabelos loiros. Parecia um anjo.
—Mas Paul não tem cabelos loiros. – ela disse, confusa.
—Exatamente. Paul não tem cabelos loiros. – ele se voltou para Andie, fitando-a, tentando fazê-la entender.
—Você está dizendo que...
—Estou querendo dizer, Andie, que seu marido não é Paul Marshall. O verdadeiro Paul está morto.
O ar sumiu dos pulmões de Andie. Tudo que ela já conhecera na vida era uma farsa. O Paul amoroso e que a respeitava acima de todos não era Paul. Sabe-se-lá quem ele era e o que queria. Estranhamente, ela não duvidou. Devido aos acontecimentos dos últimos meses sua cabeça se recusava a duvidar do que quer que fosse.
Ela levantou do sofá, ajeitando Mary nos braços, e caminhou devagar até Ernest, falando em uma voz contida e pausada:
—Então, Paul não é Paul? Meu marido, aquele homem que dividiu a cama comigo, que me jurou até tarde da noite que me amaria até seu último suspiro e prometeu me proteger com seu corpo... ele não é quem pensei ser?
—Andie, sinto muito dar essa notícia a você, mas é a verdade. Eu conheci Paul Marshall, e ele não era em nada parecido com o homem que diz ser o Paul.
—Então quem meu marido é, na verdade?
—Infelizmente eu não sei, e é isso que estou tentando descobrir há meses, desde aquele dia em que ele apareceu de surpresa em minha porta, logo após termos voltado de Northampton.
—Você disse que está tentando descobrir?
—Sim.
—Como um contador poderia descobrir algo assim?
—Ser contador é um disfarce, Andie.
—Disfarce? Disfarce para quê? – ela estava confusa e com medo.
—Eu desconfiava – ele começou, andando pela sala, a cabeça baixa e os olhos voltados para todo lugar, menos para ela – de quem Paul era, na verdade, por isso quando obtive acesso à contabilidade de vocês imediatamente aceitei o trabalho e me ofereci para consertar sua situação financeira.
Aquilo tudo era demais para Andie. Enlouquecida pela dor e dilacerada pela verdade, mas quase se coçando de curiosidade para saber o restante da história, ela resolveu se sentar. Suas pernas pareciam gelatina.
—Então... quem é você? – ela indagou, temendo pela resposta.
—Meu nome é Raymund Galloway. Trabalhei para a Scotland Yard durante muitos anos, e recentemente me ofereceram um serviço o qual não pude recusar. Andei observando sua vida e percebi o quanto desconhecia a verdadeira identidade de Paul. Por isso resolvi ajuda-la. – ele falou olhando diretamente em seus olhos. A expressão no rosto anguloso de Ernest... não, de Raymund... pedia desculpas.
—E você me enganou esse tempo todo? Quais eram suas verdadeiras intenções comigo e com Paul?
—Eu precisava saber quem ele era. No início fiquei preocupado com a possibilidade de que você me atrapalhasse, mas depois... acabei me apaixon...
—Não! – ela interrompeu, possessa, protegendo Mary com os braços. – Não diga mais nada! Confiei em você! – gritou. – Podia ter me contato tudo antes! Pensou que eu não acreditaria? Olha, sinceramente, Ernest... Raymund... ah para os infernos com isso!... eu teria acreditado em qualquer coisa! Depois de Northampton tudo que conheci desmoronou! – ela segurou Mary com um braço e com o outro gesticulava. – Perdi Paul, perdi Beatrice... perdi a mim mesma! Não venha me dizer que agora se apaixonou por mim, porque para me fazer acreditar nisso precisará de muito! – ela cuspiu, dando as costas e subindo com Mary para o quarto.
Colocou a bebê delicadamente na cama de Beatrice, fazendo uma barreira com os cobertores para que não caísse. Depois, desceu as escadas com passos duros e um olhar ensandecido no rosto.
—Agora que Mary está segura lá em cima vou poder te socar. – ela avisou, se aproximando de Ernest. Ele deu um passo atrás, assustado com a explosão da mulher, e esticou as mãos como uma ameaça. Se ela tentasse ataca-lo ele se defenderia. – Seu desgraçado, traidor de uma figa... pensou que poderia me fazer apaixonar por você para depois jogar tudo isso na minha cara e achar que está tudo bem? – os olhos negros de Andie estavam ainda mais escuros, vermelhos pela raiva e pela traição. Cuspe voava de sua boca retorcida. Ela parecia um demônio, com o rosto belo deformado.
—Andie, por Mary e por Beatrice! Me escute! – ele implorou.
—Agora vem me falar de Beatrice? Ah, mas isso não vai ficar assim. – ela foi para a frente com os punhos cerrados, sem se importar com o que estivesse no caminho. Tropeçou no pé da mesinha de centro e caiu nos braços de Ernest, frente a frente com ele.
A raiva tentou permanecer, mas olhando para Ernest ficou muito difícil. Lentamente, e contra sua vontade, Andie acalmou, jogando os pensamentos raivosos para o fundo da mente. Ele segurou seus cotovelos, prendendo-a. Andie sentiu cada músculo nele se retesar pelo desejo, e seu próprio corpo cedeu.
Ernest não foi gentil, e nem Andie. Ele devorou sua boca e ela respondeu com a mesma intensidade, passando os braços pelo seu pescoço. Ernest a envolveu pela cintura e a puxou para mais perto. Aquilo não era suficiente, Andie precisava de mais:
—Ernest, por favor... – ela gemeu, suplicando.
Andie prendeu as pernas na cintura de Ernest e ele a levou para a biblioteca, batendo a porta sem se importar com o barulho.
As roupas foram rapidamente para o chão, e quando suas peles se encostaram sem barreiras, sem vergonhas, para Andie foi como o nirvana. Ela sentiu Ernest em cada poro, suas células nervosas respondendo com a energia de uma tempestade, e quando ele empurrou o quadril para baixo ela gritou, explodindo com paixão e um desejo avassalador que corria pelas veias.
—Ernest... – gemeu, com a boca colada a dele.
—Eu sei, Andie... eu sei. – ele se movimentou, e Andie movimentou com ele. Uma onda de prazer percorreu todo seu corpo, e ela não conseguiu mais segurar. Entregou-se por completo a ele, o vórtice atingindo-a. Ernest grunhiu em resposta e os dois ficaram imóveis, com os corpos ainda colados, temendo se mexer e acabar com o momento.
A intensidade do amor que fizeram foi tanta que Andie chorou. Ela não chorou por Beatrice, nem por Mary, nem mesmo por Paul... ela chorou por si mesma. Lamentou sua vida, as incertezas que a acompanhavam... chorou pela Andie que nunca mais existiria e pela Andie que havia se tornado. Ela chorou pela perda de si mesma.
Ernest não falou nada. Ele acariciou seus cabelos e beijou suas têmporas, erguendo o rosto para olhá-la.
—Isso é normal? – ela perguntou depois de um tempo.
—O quê?
—Sentir isso. Esse desejo, essa necessidade de ter você... eu nunca havia sentido nem mesmo com Paul.
—Não poderei te dar uma resposta porque também desconheço esse sentimento.
—E pensar que eu já quis te matar. – ela riu, chacoalhando seus corpos unidos.
—Me apaixonei por você desde que quase virou os bolinhos quando dei a notícia de sua falência. Nunca havia conhecido mulher tão impetuosa e ousada, e aquilo me fez amar você.
Ernest era ainda mais bonito de perto. O nariz bem contornado combinava perfeitamente com a boca larga e os dentes alinhados. Observando agora, Andie notou que um canino era mais pontudo que o outro. Finalmente um defeito, ela pensou, rindo.
—Do que está rindo? – ele perguntou, achando graça.
—Estava aqui pensando no quanto você é bonito.
—E isso te fez rir? Olha, está me deixando preocupado.
—Não é isso, seu bobo. Pensei que sua aparência era perfeita, mas seus caninos são desiguais. Gostei deles.
—Gostou do fato dos meus caninos serem diferentes? – ele arqueou as sobrancelhas.
—Gostei. – ela confirmou com a cabeça, passando os dedos pelo rosto de Ernest. – Quer dizer, então, que você é um agente secreto?
—Não diria agente, mas sou secreto sim. – rindo, Ernest beijou a ponta de seu nariz.
—E por que Paul está sendo procurado?
—Geralmente eu não poderia falar sobre isso, mas como refere-se a seu marido acho que posso dizer. Suspeitamos que ele tenha matado o verdadeiro Paul Marshall por motivos políticos. Não temos certeza de suas intenções e nem o que ele esperava com a morte do homem, e é por isso que qualquer informação é bem-vinda. Paul nunca lhe deu motivos para desconfiar dele?
—Nunca. Ele vivia trancado naquele escritório dizendo que estava tomando conta das finanças. Eu não rebatia, afinal confiava nele e sabia que daria um jeito em qualquer problema.
—Mas não tinha nada estranho nele?
—Às vezes ele se irritava por motivos idiotas, como um sapato que eu tivesse esquecido na escada ou uma janela aberta. Ele parecia se transformar em outra pessoa, mas eu o ameaçava e pronto. O mesmo Paul de antes. Para mim isso era normal, só uma questão de conversar. – ela deu de ombros e se aproximou de Ernest. – Agora, por que não esquecemos esse assunto? Hein? – ela beijou sua boca, rolando o corpo até ficar em cima dele.
O clima estava voltando a ficar quente quando eles escutaram o barulho de vidro se partindo.
—O que foi isso? – Andie ficou alarmada e pensou em Mary lá em cima, sozinha e indefesa. Como foi irresponsável! Ela pegou suas roupas e vestiu apressadamente enquanto Ernest pegava a camisa e passava pela cabeça, indo na direção da porta.
—Fique aqui. – ele pediu, abrindo a porta devagar e olhando para todos os lados antes de sair.
O silêncio era demais para Andie. Ela não podia deixar Mary lá em cima, e também não podia sair. Se fossem assaltantes novamente e ela fosse a única na casa que estava em segurança sua única chance era chamar a polícia ou enfrenta-los de algum modo mais furtivo.
Resolveu sair. Fazer algo era melhor que ficar esperando.
Estava tudo muito quieto. O barulho parecia ter vindo da cozinha, mas Andie decidiu olhar Mary primeiro. Subiu as escadas o mais rápido e silencioso que podia, ficando aliviada quando viu o pequeno volume em cima da cama, roncando baixinho.
Ela trancou as janelas e ao sair fechou a porta. Ouviu um farfalhar no andar de baixo, seguindo o som.
No meio do caminho encontrou um castiçal no aparador, que resolveu usar como arma. Virou um corredor e foi até a cozinha, nos fundos da casa. Havia sinais de luta e sua boca secou ao ver sangue no chão.
Tinha alguém no chão. Não era possível ver quem era, estava longe e Andie estava assustada demais. Ao chegar perto descobriu ser a sra. Doherty, com um machucado feio na testa, mas ainda respirando. Andie passou por cima dela e ergueu mais o castiçal.
Na cozinha tinha vidro quebrado e mais sangue. Ela escutou sons de luta e uma pancada surda e forte. Saiu para os fundos da casa e a cena fez seu coração errar uma batida.
Paul e Ernest se atracavam. O primeiro agarrava a camisa do oponente e tentava rasgar sua garganta com um caco de vidro. Ernest era mais alto e mais forte, mas Paul era esperto. Andie sabia quem ia ganhar, e por isso correu até Paul e bateu o castiçal com força em sua cabeça.
Ele caiu de costas na grama seca, surpreso e furioso. Olhou para Andie com incredulidade.
—Sua vagabunda, o que pensa que está fazendo?
—Saia daqui, Paul! – gritou, puxando Ernest consigo.
—Se pensa que a deixarei aqui com esse canalha para transar com ele está muito enganada! Olha seu estado... – ele apontou com desdém, olhando-a de cima a baixo. -... parece uma puta! – cuspiu sangue na grama aos seus pés.
—Você não tem o direito de falar assim com ela. – Ernest avançou, de punhos cerrados, mas foi impedido por Andie.
—Ernest, deixe. Não se rebaixe ao nível dele. O que quer aqui, Paul?
—Estou te dando uma última chance para vir comigo, Andie. Da próxima vez posso fazer algo bem pior do que invadir a casa.
—Não irei com você, e já disse o porquê. Desista, Paul. Dê por vencido.
—Não darei por vencido até mata-lo. – olhou para Ernest, com um ódio que fez Andie tremer. — Juro por Deus, Andie, que voltarei para busca-la. – ele prometeu, olhando a sua volta como se procurasse uma rota de fuga.
—Desista! – ela gritou, brandindo o castiçal.
—E você pretende me mandar embora com isso? – zombou, desdenhoso.
—Não! Você vai embora por bem ou por mal.
—E o que ganho com isso?
Andie inspirou fundo, pensando em suas possibilidades.
—Se você for embora e não voltar para ameaçar Ernest ou qualquer outra pessoa que viva aqui, prometo que irei com você.
—Não! Andie, não! – Ernest gritou.
—Sim, Ernest... se para mantê-los salvo eu devo ir com ele então é isso que farei. – ela olhou para Ernest e depois de volta para Paul, que se levantava com dificuldade. – Você sabe que cumpro minhas promessas.
—Sim. Eu sei. – por um momento ele parecia seu Paul, e ela teve de se esforçar para manter a compostura.
—Agora, por favor vá. – ela o ameaçou com o castiçal.
Paul ficou de pé e falou antes de sair correndo e pular o muro baixo de concreto e trepadeiras:
—Eu vou, Andie, mas voltarei para busca-la.
—E eu estarei esperando por você. – ela jurou, sabendo que, no fundo, teria de enfrentar Paul uma última vez.
Depois do ataque de Paul Andie correu para o quarto a fim de verificar o estado de Mary. A criança dormia tranquilamente, e ela invejou a capacidade infantil de se desligar do mundo e impedir que qualquer coisa perturbe sua paz.
Ernest cuidou de Doherty enquanto Andie dava de mamar à Mary, pensando mais uma vez na sucessão de acontecimentos. Primeiro Northampton e os assaltantes, depois a gravidez de Beatrice, a chegada de Paul, o abandono de Charles, o parto e o que veio em seguida. Por pior que fossem as circunstâncias, Andie lamentava tremendamente e de forma distinta a morte de Beatrice. Se ao menos tivesse sua amiga ali com ela... mas talvez tivesse sido melhor assim. Com Paul no caminho e as ameaças constantes ela não conseguiria proteger a criança e a mãe. Beatrice estava no lugar certo, apesar de ter ido cedo demais. Pensar naquilo trouxe um pouco de calmaria à mente tão perturbada de Andie.
Ela ia devaneando quando Ernest anunciou sua presença com um pigarro.
—Melhor separar a melhor roupa que tiver.
—E por qual motivo? – ela perguntou se virando para ele com Mary nos braços.
—Hoje iremos a um jantar em comemoração ao Dia de São Jorge.
Andie bateu na testa com a mão livre, cerrando os olhos: — Nossa! Com tudo isso acabei me esquecendo. Todos os anos Paul dava uma festa em nossa casa. Eu decorava a sala de jantar com pequenos dragões de papel de seda e colocávamos nossa estátua de São Jorge em um altar no hall. Nem tenho cabeça para uma festa a essas alturas.
O clima entre os dois alternava de tenso para desconfortável. Enquanto estavam no fogo da paixão não havia reservas ou vergonhas, mas com o ataque de Paul e o esquecimento da normalidade eles tinham entrado novamente naquele estado de estranheza.
—Onde será?
—Na residência de Honorio Featherton.
Andie piscou, surpresa. Agora ela havia se interessado pelo evento. Honorio lhe intrigava, e não gostaria de perder a oportunidade de conversar novamente com ele.
Ela acenou com a cabeça, e Ernest entendeu a deixa para sair do aposento.
Andie percebeu que, com a sra. Doherty assustada e machucada, não poderiam pedir que cuidasse de Mary, por isso resolveu leva-la consigo. A criança era calma e tinha uma personalidade doce como a da mãe, e prometeu para si mesma que não demorariam na festa. Sairiam na primeira oportunidade.
Andie escolheu um vestido particularmente belo. O tom de bordô ressaltava o negro de seus cabelos presos em uma trança que lhe escorria pelas costas. O decote era ombro a ombro, muito ousado para a época, mas ela não se incomodava e Ernest não pareceu se incomodar tampouco. No paletó marinho – será que ele só tinha essa cor? – os olhos azuis ficaram ressaltados. Por baixo vestia uma camisa social cinza, e na lapela trazia a figura de um dragão vermelho. Andie vestira Mary com uma roupinha de renda vermelha e preta, como era o costume, e a criança sentia o coração da mulher retumbando contra seu peito frágil quando os olhares de Andie e Ernest se encontraram.
Ele a bebia, saboreava cada detalhe de seu figurino, e a voz saiu rouca:
—Vamos? Está na hora. – ele lhe ofereceu o braço, mas no mesmo instante recuou ao lembrar que Mary tomava o colo de Andie e não lhe sobrava mãos livres.
Eles entraram no carro, e Andie se lembrou do dia em que foram para Northampton. Se soubesse o que aconteceria lá e depois teria pensado em maneiras melhores para evitar. Afastou o pensamento, querendo ter algumas horas de felicidade que fossem.
—Será que Doherty ficará bem? – ela indagou, preocupada, após minutos de silêncio.
—Pedi que um vizinho a abrigasse em sua casa durante o tempo que estivermos fora. Não quero arriscar a vida de Doherty deixando-a sozinha. Paul pode estar em qualquer lugar.
Andie assentiu e olhou pela janela do carro, não prestando atenção em nada do que passava. Ela estava quieta, muito quieta desde Beatrice. Não parecia a mesma Andie de antes. Ernest nunca imaginou que sentiria saudades daquela mulher geniosa e que não tinha papas na língua. Com o tempo ela voltaria a ser aquela pessoa, mas somente com o tempo.
A noite estava fria, mas assim que adentraram na mansão de três andares pertencente a Honorio Featherton Andie se sentiu aquecida. A sala principal havia sido transformada em salão de bailes, os móveis tirados de seus lugares e apenas uma mesa comprida com aperitivos, pratos cheios de guloseimas e caldeirões de bebidas ocupava o canto mais distante do salão, próxima aos músicos. Pendurados ao teto havia dragões e minúsculos São Jorges montados em cavalos brancos. O lugar cheirava a vinho, champanhe e conhaque. Risadas preenchiam o ambiente, e Andie tentava absorver cada detalhe.
—Ora, mas que surpresa agradável! – Honorio Featherton se aproximou deles, os olhos brilhando mais que o normal em decorrência da quantidade de bebida ingerida a julgar pelo hálito forte quando se aproximou de Andie para cumprimenta-la com um beijo no rosto. – Não imaginava que a senhora daria a honra de aparecer por aqui! Fiquei sabendo de sua amiga, Beatrice, não é? E essa pequenina aqui deve ser filha dela. Oi, coisinha. – ele passou a mão nos cabelos de Mary. A menina o encarou com os olhos arregalados e sorriu. – Pois bem, fiquem à vontade. Temos comida aos montes e bebida de todos os tipos. Circulem pelo salão, há pessoas interessantes aqui com as quais a senhora teria conversas muito eloquentes... – ele falava gesticulando, sem respirar e nem dar brecha para Andie ou Ernest responderem. -... distraiam-se antes do espetáculo...
—Espetáculo? – Andie foi rápida em perguntar.
—Todo ano, nesta mesma data, eu organizo um show de dança. Homens das mais variadas etnias e lugares se fantasiam com a cabeça do dragão e eu me visto de São Jorge montado no cavalo, portando uma lança de plástico e desviando dos dragões que tentam me pegar. É muito divertido – ele soluçou – mal posso esperar para que vejam! – dito isso ele saiu subitamente, indo na direção de dois cavalheiros distintos que conversavam próximo à lareira.
—Consegue imaginar Honorio Featherton vestido de Jorge e montado em um cavalo? – Andie perguntou, zombeteira.
—Todos os anos ele faz isso. E todos os anos os dragões o derrubam. Mas Honorio leva na esportiva.
—Não poderia ser diferente... tenho dificuldade em imaginá-lo nervoso por qualquer motivo que fosse. Desde que nos conhecemos ele se mostrou simpático e expansivo, disposto a ajudar e defender qualquer um de injustiças.
—Ele sempre foi assim. Dizem por aí que quando era mais novo fugiu de casa e vendeu todos os seus pertences. Depois viajou para a Alemanha e tirou muitas pessoas de situações terríveis. Se não fosse por ele garanto que o número de mortos na Primeira Guerra teria sido muito maior.
Andie ficou boquiaberta.
—Isso é sério?
Mary resmungou como se respondesse, e os dois riram, contemplando o rostinho delicado.
—São suposições, mas vindo de Honorio não duvidaria.
—Fala como se o conhecesse muito bem. – Andie constatou, desconfiada.
—E conheço. Honorio contratou meus serviços para ir atrás de seu marido. Confio minha vida a ele.
—Honorio? Quer dizer que...
—Sim, Andie, quer dizer que Honorio não é só um excêntrico político e importante empresário, como também comanda o esquadrão investigativo na Scotland Yard.
Ela não conseguia acreditar. O simpático homem dos correios que a defendeu contra um idiota era na verdade o maior investigador da Inglaterra.
—Há mais alguém aqui que seja um investigador? – ela perguntou, irônica.
Para sua surpresa Ernest respondeu, sério, apontando discretamente com a cabeça as pessoas cujos nomes ia falando:
—Aquele é Ulisses McHart, primeiro investigador de Londres. Ele comanda o esquadrão investigativo da cidade, ficando atrás somente de Honorio. – apontou o senhor careca e muito charmoso conversando com uma senhora nariguda e bem-vestida. – Aquela é sua esposa, Melissa McHart, aliás a primeira mulher investigadora da Inglaterra. Um casal muito peculiar, posso dizer. São criadores de mariposas. Na fazenda deles em North Yorkshire contabiliza cerca de trezentas mil mariposas.
—Mariposas? – Andie não imaginava que pessoas de classe tivessem hábitos estranhos, mas não se surpreendeu muito, apenas estranhou.
—Sim. Segundo eles as mariposas possuem um forte poder de empatia. Quando convidam as pessoas a visitarem a propriedade as mariposas percebem de longe se o visitante é confiável ou não. Está vendo aquela outra mulher mais para a frente? A que está apoiada na lareira?
Andie a viu. Ela tinha uma rica cor de chocolate e lábios grossos. Trazia uma taça na mão e a virava de pouco em pouco, não deixando de circular os olhos pelo salão.
—Ela é Jamilli Chepato, correspondente jamaicana na Inglaterra. É a melhor investigadora que já conheci, e tivemos um romance muito duradouro anos atrás. Ela faz um negócio muito gostoso com os dedos...
—Cala a boca. – Andie mandou, firme. Contra sua vontade uma insinuação de sorriso passou pela boca, e ela se apressou em desmanchar antes que Ernest visse e a enchesse. – E aqueles dois? Os japoneses.
—Eles são chineses. Não mexeria com nenhum dos dois se fosse você. Os irmãos Morte, é como o chamamos. Sha Mang e Sai Mang não são investigadores, fazem parte de toda a estrutura, digamos... tática. Se mandasse arrancar suas roupas teria cerca de dez quilos de armas e instrumentos afiados escondidos. Eles fazem o trabalho sujo. Até hoje não sei se me odeiam ou são apenas reservados. Ninguém ousa se aproximar muito.
Andie tomou aquilo como um desafio. Quando tivesse a oportunidade conversaria com os irmãos. Antes que pensasse em contar sua ideia para Ernest a voz de Honorio ribombou no ar, amplificada por um megafone.
Não era possível vê-lo, porém Andie reconheceu de onde vinha o som.
Do outro lado do salão, ao lado da mesa de aperitivos, havia uma enorme porta de carvalho pelo qual saía o som forte da voz de Honorio.
—Senhoras e senhores, senhoritas, amigos, parentes e aduladores do diabo... eu, Honorio Featherton, tenho o prazer de estar aqui hoje para apresenta-los meu espetáculo. Todos vocês, apreciem o poder do Show de São Jorge na Lua Montado em seu Cavalo Branco Lutando Contra o Poderoso Dragão Vermelho! – todos os convidados bateram palmas e Andie não viu alternativa senão acompanhar.
A porta de abriu, revelando um Honorio montado em um cavalo branco de verdade, trajando armadura autêntica e tendo na cabeça um capacete do qual saía uma crina vermelha, amarela e preta. Em uma mão trazia a lança, e com a outra puxava as rédeas do imponente garanhão. Havia uma espada que Andie desconfiou não ser artificial presa na bainha da armadura.
A orquestra iniciou uma balada heroica, com os violinos fazendo a primeira voz, acompanhados de violoncelos, oboés, trompas e banjos. A música se intensificou com a entrada dos dragões. Homens de roupas vermelhas e o rosto coberto pela máscara horrenda de um dragão com olhos de fogo fizeram um círculo em volta de Honorio, dançando de forma macabra e ao mesmo tempo ridícula.
Todos se divertiram com a dança, algumas mulheres até ousando imitar. Os dragões chegavam mais perto de Honorio a cada refrão, e o senhor montado no cavalo os afastava com a lança.
Andie observou os dragões com inquietação. Algo na forma como eles dançavam e pareciam olhá-la a incomodou. Um dos dragões, em nada diferente dos demais, lhe parecia familiar. Fosse no jeito como ele se movia ou fosse na postura, mas Andie tinha quase certeza de conhecer a pessoa por baixo daquela máscara. A música ficou mais lenta, as pessoas se mexiam mais vagarosamente e mesmo Mary estava distante, ainda que permanecesse em seus braços. Honorio empinava o cavalo e brandia a lança. Um dos dragões deu um salto, encontrando brecha na defesa, mas no último minuto Honorio o afastou, e ele caiu no chão.
Cada dragão que caía se afastava do círculo e aguardava o final do espetáculo junto aos outros convidados. E foi assim até restar somente um dragão, justamente aquele que a incomodou tanto. Tudo aconteceu de forma rápida demais para que pudesse acompanhar. Em um minuto Honorio estava montado no cavalo, seguro e confiante de si mesmo, sendo aplaudido e incentivado pelo público, e no outro jazia caído no chão, com uma poça de sangue embaixo de seu corpo roliço e segurando a barriga.
Houve um grito coletivo seguido de choque. Jamilli, ainda apoiada na lareira, retesou levemente o corpo e saiu do aposento. Sha Mang sacou uma adaga de aspecto assustador, e sua irmã tirou uma faca incrustada de joias, ambos se posicionando de forma defensiva. O casal McHart pegou um pote de vidro e soltou mariposas no ar. Elas saíram do salão e voaram até a porta de carvalho. O dragão restante não estava em parte alguma, e Andie sentiu o sangue gelar.
—Melhor sairmos daqui. Vamos! – Ernest a puxou pelo braço e eles correram para sair daquele inferno. Outras pessoas faziam o mesmo, e antes que chegassem às escadas que davam para a rua Andie chamou a atenção de Ernest:
—Espere! E Honorio? Não vamos ajuda-lo?
—Andie, há outras pessoas lá, elas o ajudarão.
—Não, não podemos deixa-lo! – ela falou, voltando para a casa, porém Ernest a impediu.
—Andie... confie em mim. Ele ficará bem! Agora precisamos ir embora daqui.
—É seu trabalho descobrir quem era aquele dragão. – ela bateu o pé, uma parte de Ernest ficando aliviada por ter a antiga Andie de volta e a outra parte se sentindo contrariada.
—Meu trabalho é manter você e Mary seguras e depois descobrir quem era.
—Tenho certeza que foi Paul.
—O que a faz ter tanta certeza disso?
—Eu reconheci sua postura. Ernest, convivi com Paul durante cinco anos, conheço cada aspecto de seu corpo. Só pode ter sido ele.
—Geralmente o culpado é aquele de quem menos desconfiávamos.
—Quem mais faria algo desse tipo? – eles entraram no carro, e Andie bateu a porta com força, protegendo Mary com os braços.
—Eu não sei. Isso que tentarei descobrir. Agora, vamos! – ele pisou no acelerador e o carro saiu em um rompante, deixando para trás uma cena de dor e destruição de tudo aquilo pelo qual Andie almejara um dia.
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