Escalas e Destinos - A apaixonante vida de Blair
27 Capítulo 27 - St Petersburg

— Você está progredindo muito bem, Dimitri Yaroslavovich.
A doutora Pavlova me elogiou após terminar de me examinar pela manhã. Já era o terceiro dia desde o acidente, e como eu disse para Blair no dia anterior, eu estava cansado de ficar naquele quarto sozinho.
— Bem o suficiente para sair do isolamento? — eu tentei, recebendo em troca uma risada.
A mulher, que parecia ter a minha idade, voltou a folhear meus exames, analisando cada ponto.
— Talvez — ela piscou, me fazendo sorrir.
— Você não imagina o quanto é bom ouvir isso — eu suspirei.
— Depois de ontem, eu posso imaginar o seu desejo de ficar com a srtª Ozkan. Ela é uma peça única.
Meu sorriso foi instantâneo ao falar sobre a Blair. Depois de temer tanto nunca mais encontrá-la, ela estava ali. Não que eu ficasse surpreso por ela ter ido, sua atitude não era nada estranha, eu faria o mesmo por ela, mas depois de passar tanto tempo sem ver ninguém além da equipe do hospital, eu comecei a desconfiar que ninguém soubesse onde eu estava, o que era ridículo.
— Ela de fato é.
— Nós não tivemos paz enquanto não permitimos que ela ficasse com você alguns minutos — a mulher continuou enquanto anotava algumas coisas no prontuário — vou prescrever mais alguns medicamentos, como está a dor?
Um sentimento diferente começou a crescer em meu interior ao saber de tudo o que Blair fez para ficar perto de mim. Ela de certo seguiu o exemplo de sua mãe, e se isso significar que sente por mim pelo menos um pouco do que sua mãe sente pelo seu pai, então com certeza nós superaremos nossos problemas.
— Está melhor do que ontem. E a Blair é incrível, eu tenho sorte por tê-la ao meu lado — tecnicamente nós ainda não tínhamos reatado, mas eu considerei seguro tomar por certo nosso relacionamento. Principalmente depois de tudo o que ela me disse ontem.
— Vocês já escolheram uma data? A primavera é a melhor escolha, tem as melhores flores — ela tagarelou — aliás eu não te parabenizei ainda.
Eu não soube exatamente como reagir diante do rumo que aquela conversa estava tomando, mas antes que eu pudesse responder, uma batida no vidro chamou nossa atenção. Eu olhei, encontrando Blair parada do outro lado, com um sorriso estampado no rosto.
— Ela está ansiosa para te ver — a médica comentou enquanto Blair escrevia algo em um papel.
"Bom dia, comandante" ela escreveu em turco.
Eu sorri, acenando em resposta. Ela tinha encontrado uma maneira de diminuir minha solidão, era uma pena que eu não tivesse como responder.
— Que língua é essa? — a médica perguntou.
— Turco, ela gosta de falar no idioma para que eu treine, quer dizer bom dia — eu expliquei.
" Achei que você gostaria de saber que estamos noivos"
Eu franzi o cenho enquanto lia a frase pela segunda vez. Aquilo não fazia sentido algum!
— Você fala turco também? — ela começou a se preparar para sair, deixando o prontuário de lado.
— Não tanto quanto pensei que falasse. Você pode pedir para ela escrever em inglês? Eu não consegui entender.
— Eu posso fazer melhor, posso deixar ela ficar aqui com você enquanto dou as instruções para que te transfiram para um quarto. O que me diz? — ela piscou para mim.
— Isso quer dizer…
— O tratamento foi efetivo e você está fora de perigo — ela garantiu.
Minha única reação foi um sorriso logo após um suspiro aliviado. Eu não podia acreditar que parte daquele pesadelo estava finalmente terminando.
— Eu vou pedir para ela entrar — a doutora avisou, ao notar que Blair estava escrevendo sem parar pelo último minuto.
Eu observei enquanto ela se aproximava da minha namorada, já do lado de fora, estranhando o quanto Blair estava agitada.
Quando ela entrou no quarto, minha suspeita se confirmou. Blair parecia ter tomado um litro de energético no café da manhã, ela praticamente correu até minha cama, segurando minha mão e a levando até os lábios, se segurando para não pular.
— Blair, você está bem? — a olhei com desconfiança.
— Eu estou ótima, eu tentei esganar sua irmã antes do café da manhã, eu pedi demissão, no seu closet definitivamente não tem espaço para as minhas roupas, você vai ter que dar um jeito nisso, a propósito, nós estamos noivos, você me deve um anel — ela soltou todas as informações de uma vez, sequer parando para respirar e não me dando tempo de processar tudo o que ouvi.
— Você pediu… noivos? — eu balbuciei sem saber em qual informação me focar primeiro.
Por um momento eu me forcei a me lembrar de nossa última conversa antes do acidente.
— Eu tive algum tipo de amnésia e não me contaram? — eu franzi o cenho, encarando o vazio.
Ela gemeu, se sentando na beirada da cama antes de esconder o rosto com as mãos, parecendo exausta.
— Eu sinto muito, isso tudo está uma confusão.
— Vamos por partes, você disse que eu te devo um anel? — eu acariciei seu braço.
Ela respirou fundo, se ajeitando em uma posição mais confortável no pouco espaço ao meu lado.
— Quando eu cheguei aqui, você tinha acabado de sair da cirurgia. Ninguém queria me autorizar a entrar ou me dar nenhuma informação ao seu respeito porque pensaram que eu era da imprensa — ela acariciou minha mão, não me olhando diretamente enquanto narrava sua história — então, sua irmã chegou e falou para elas que eu era sua noiva, que você me daria o anel no dia do acidente.
— E assim, nós ficamos noivos — eu concluí.
Ela balançou a cabeça de maneira afirmativa antes de voltar a falar.
— Mas isso não é tudo.
— Não? O que mais? Nós temos algum filho falso também — não pude deixar de provocá-la.
— Ontem divulgaram a caixa preta do seu avião, e você virou um herói nacional e quiseram saber todos os detalhes da sua vida — ela narrou — hoje eu acordei com essa história do noivado estampada na tela da TV.
Eu absorvi aquela informação, compreendendo o seu desespero em me contar.
— Então o país inteiro soube sobre o nosso noivado antes que eu?
— Todo mundo tem me parado para me parabenizar e tudo mais, e eu entrei em pânico, por que se fizessem o mesmo com você, você poderia desmentir, já que era o único que ainda não sabia, então achei melhor eu te contar — ela concluiu com um beicinho.
— Obrigado pela consideração — eu zombei.
Blair parecia mortificada pela situação geral, mas eu não me importei nem um pouco com tudo aquilo, até que algo passou pela minha mente.
— Blair, sobre esse plano maluco de vocês, vocês por acaso contaram para minha mãe? Ou ela vai ficar sabendo com o resto da Rússia que nós dois supostamente estamos noivos?
Minha namorada, ou melhor, noiva, arregalou os olhos, parecendo só então ter se lembrado do resto da minha família.
— BLAIR!
— Em minha defesa, sua mãe veio te ver pouquíssimas vezes porque ela desmaiou durante o seu resgate e seus irmãos tinham medo que o ambiente fizesse mal para ela!
Eu pisquei atordoado. Como eu explicaria isso para minha família? Eu entrei naquele avião pensando que nós reatariamos nosso relacionamento na próxima vez que nos víssemos e não ficaria noivo.
Mas, pensando bem, qual a dificuldade? Não é como se fosse uma coisa ruim, eu a amo, e depois do que passei, eu tenho certeza que não quero mais viver longe dela.
— Você ficou irritado — Blair comentou cabisbaixa.
— Eu nunca poderia ficar irritado com você — eu garanti entrelaçando nossos dedos — eu posso te ajudar a esganar minha irmã depois, mas eu não tenho motivo nenhum para me irritar.
Ela me lançou um olhar incerto, e eu logo levei sua mão até meus lábios, beijando seu dorso.
— Na verdade, se a grande questão é a falta de um anel, eu posso cuidar disso — eu propus.
Blair me encarou boquiaberta, sem saber como responder.
— Você está falando sério?
— Blair, esse tempo que passamos separados só me fez perceber que eu não quero mais ficar longe de você. Eu não tenho um anel agora, mas posso conseguir um, caso você aceite.
Ela se inclinou, colando nossos lábios em um beijo carinhoso. Eu levei uma mão até sua nuca e a outra para sua cintura, a puxando para perto de mim na tentativa de aumentar a intensidade do beijo. Já faz seis meses que eu não a beijava e era como se eu estivesse em meio a uma crise de abstinência. Eu tentei ignorar a dor que surgiu em meu abdômen, mas Blair se afastou, com certo esforço, soltando uma contida risada.
— Calma lá, comandante, você acabou de sofrer um acidente aéreo, fazer uma cirurgia, e passar dias em isolamento, eu nem sei se podia ter te beijado — ela riu, se levantando para que eu não a alcançasse.
— Eu me sinto ótimo, vem aqui que eu te mostro…
— Eu tenho certeza que vai demorar um pouco mais para que você possa voltar a ativa, comandante Voitovich — ela balançou a cabeça.
Apesar de insistir para que ela voltasse, não podia ignorar o desconforto causado pelo esforço. Talvez ela tenha razão.
Ela voltou a sentar ao meu lado, pronta para fugir a qualquer tentativa minha. Mas eu me mantive parado, tentando não demonstrar a ela a dor que estava sentindo.
— Então vamos manter a história da Masha?
— Peça para ela não contar a ninguém a verdade, e se te perguntarem sobre o anel, diga que estava comigo no acidente e eu o perdi — eu dei de ombros.
Ela acenou em entendimento, voltando a entrelaçar nossos dedos.
— Noivos então — ela suspirou.
— Sim. Noivos. Eu devia saber que você não me deixaria escapar desde aquele dia que você me ligou vestida de noiva — eu a provoquei.
— Calado antes que eu te sufoque com o travesseiro — ela riu.
Noivo. Nós estamos noivos!
Aquela constatação fez um sorriso surgir em meu rosto. Nós passamos alguns segundos em silêncio até que eu me lembrei de algo que ela tinha falado antes de toda essa história de noivado.
— Você disse que se demitiu?
Ela soltou um longo suspiro antes de se ajeitar para olhar para mim.
— Sim, eles me ligaram pela manhã e eu avisei que não voltaria — ela forçou um sorriso.
— Mas por que?
— Ligaram para me avisar que minha licença tinha terminado e eu precisava voltar para o país imediatamente. Eu tentei argumentar sobre nossa situação, mas não me deram escolha.
Eu a encarei chocado, aquele nunca tinha sido o meu desejo, ela não deveria ter tomado aquela decisão!
— Blair, eu nunca te faria escolher entre sua carreira e eu!
— Mas você não fez — ela franziu o cenho — eles me colocaram contra a parede e me fizeram escolher entre a pessoa que eu amo e um emprego.
— Mas…
— Você é minha prioridade agora. Eu já tomei minha decisão, eu vou precisar voltar para pegar minhas coisas, vou alugar meu apartamento e eu posso conseguir outro emprego — ela explicou seu plano.
— Então, quando você disse que estava procurando espaço no meu closet, você quer dizer que está mudando para a Rússia? — eu a encarei desconfiado.
— Sim, eu imaginei que poderia morar com você, mas se você acha muito cedo, eu posso tentar alugar algum lugar pra mim — ela se mexeu desconfortável, fazendo com que eu arregalasse os olhos diante de sua conclusão.
— Não! Não é esse o problema!
— E nós temos um problema? — Blair parecia confusa.
— Sim, você está abrindo mão de tudo, não é o que eu quero!
Blair se endireitou, parecendo ainda mais confusa com tudo o que estava acontecendo.
— Pensei que você queria que ficássemos juntos. É o que estou fazendo — ela balbuciou.
— Não desse jeito, eu…
Eu não soube mais o que falar para ela. Eu apenas não pensava que ela tomaria uma atitude tão extrema.
— Você está desistindo? — ela levantou.
— Não! — Eu ergui a voz, me sentando em um pulo, sentindo uma fisgada em meu abdômen.
— Cuidado — ela voltou a se aproximar diante da minha careta de dor.
— O que eu quis dizer é que eu esperava que nós dois pudéssemos escolher um lugar juntos. Quero dizer, em alguns meses, quando eu puder viajar — eu expliquei — Se você está disposta a abrir mão da sua vida pra ficar comigo, eu também estou. Nós podemos recomeçar em qualquer país!
Ela se sentou de novo, segurando minha mão antes de levá-la aos lábios.
— Eu não acho que seja necessário, mas nós podemos falar sobre isso em outro momento — ela garantiu.
Eu estava prestes a rebater, quando uma das enfermeiras entrou.
— Dimitri Yaroslavovich, pronto para ir para o quarto? Sua família já está te esperando — ela sorriu.
Meu sorriso foi completo, eu não aguentava mais ficar ali sozinho, não via a hora de rever a todos.
— Srtª Ozkan, por que você não vai comer alguma coisa enquanto eu preparo tudo? Eu não vi você passar pela cafeteria hoje — a mulher pediu.
Eu franzi o cenho quando Blair aceitou, se inclinando e beijando minha testa antes de sair.
Aquilo fez com que eu me lembrasse de sua mãe, será que ela está se alimentando bem? Talvez eu deva checar isso mais tarde, mas agora meu único desejo é reencontrar minha família!
Fale com o autor