Eu consegui um belo copo de café na cafeteria do hospital antes de ir para o quarto de Dimitri, me arrependendo imediatamente ao primeiro gole.

Aquilo era a pior coisa que eu já tinha bebido naquele país! Bom, talvez a segunda pior coisa, eu pensei ao me lembrar do Kompot.

Eu joguei o copo quase intocado no lixo antes de ir para o quarto para onde a enfermeira disse que levaria Dimitri, encontrando sua família inteira lá. Antes que eu pudesse cumprimentá-los, Masha me puxou para um canto.

— Você falou com ele? — ela murmurou.

— Sim, já resolvi tudo.

Noiva! Eu não acredito que estou noiva!

— E como vamos contar para meus pais?

— Não vamos. Decidimos manter a história — eu dei de ombros.

— Manter? Como assim manter?

— Eu explico depois — eu a cortei ao ver a enfermeira empurrando a maca de Dimitri pelo corredor.

Entrei no quarto e cumprimentei meus sogros, que pareciam prestes a me banhar com seu entusiasmo, mas a chegada do filho acabou ofuscando um pouco a situação.

Eu me encostei em um canto, observando enquanto ele sorria e recebia atenção de cada membro da sua família.

— Eu estou tão feliz por vocês, eu não fazia ideia — Joanne declarou, fazendo sinal para que eu me aproximasse.

Eu me coloquei ao lado de Dimitri, segurando sua mão, me sentindo constrangida por toda aquela atenção.

— Desculpem não contar, mas iríamos falar quando ela viesse e tudo fosse oficial — Dimitri garantiu tranquilamente.

— Vocês não imaginam como nos deixam felizes — Yaroslav soltou com satisfação.

— Então vocês vão casar mesmo? — Masha arregalou os olhos, recebendo um olhar de alerta do irmão.

— Em algum momento, não sabemos a data ainda — eu soltei em um tom sugestivo.

— Nós te ajudaremos com todos os detalhes, você não precisa se preocupar — minha sogra garantiu.

Antes que pudéssemos nos aprofundar no assunto, Nádia se aproximou com uma bandeja contendo alguns frascos de medicamentos, uma bolsa de soro e seringas.

— Com licença, eu já preparei os medicamentos para aliviar a sua dor — ela informou a Dimitri, para minha surpresa.

— Você está com dor?

Eu perguntei preocupada, me lembrando de seu movimento brusco de antes.

— Sim, mas não se preocupe.

— É completamente natural, tanto que a doutora Pavlova deixou alguns analgésicos receitados — Nádia garantiu.

Ela tinha razão, eu me lembrei do quanto sofri no meu pós cirúrgico, e eu não mexi em nenhum órgão.

— Bom, nesse caso é melhor a gente te deixar descansar — eu comecei a me afastar, mas Dimitri segurou minha mão.

— Não, fiquem — ele praticamente implorou.

Eu franzi o cenho, alternando meu olhar entre ele e a sua família, que parecia dividida sobre o que fazer. Nádia se limitou a preparar a medicação e colocar no acesso em seu braço antes de sair.

— Dimitri, eu já tomei analgésicos pós cirúrgicos, esse tipo de medicamento é bem potente, é melhor você dormir — eu acariciei sua mão.

— Eu já tomei antes e só me deu um pouco de sono. Eu quero que vocês fiquem, eu sinto falta de todos — ele garantiu.

Não pude negar seu desejo, apesar de preferir que ele descansasse.

— Então, o que vocês planejam agora? — Masha retomou o assunto anterior.

— Bom, nós não podemos nos casar até Dimitri se recuperar totalmente, e ainda tem alguns detalhes que precisamos discutir, mas por enquanto vamos nos focar na recuperação dele — eu garanti, olhando para meu noivo que parecia cada vez mais tranquilo.

— Eu vou preparar o seu quarto para quando você tiver alta — Joanne afirmou.

Nós dois trocamos um olhar, sem saber o que falar para os pais dele.

— Na verdade, eu vou voltar para o meu apartamento, Mama.

— Dimulya, você vai precisar de cuidados, pelo menos nas primeiras semanas não dá pra você ficar sozinho — meu sogro interviu.

— Eu vou ficar com ele — interrompi a pequena disputa familiar antes mesmo que se formasse.

— Isso é ótimo, mas e quanto ao seu emprego, Blair?— Joanne sorriu.

— Ela pediu demissão — Dimitri explicou, parecendo um pouco sonolento. Talvez o medicamento já esteja fazendo efeito.

— Eu vou mudar para o apartamento dele — completei.

— Oh, então vocês vão morar juntos? — seu pai alternou o olhar entre nós dois.

Aquela informação não parecia ter agradado meu sogro, e Dimitri respondeu com a voz cada vez mais lenta.

— Eu sei o que você está pensando, pai. Mas é diferente.

— Sim, será. E de qualquer forma, agora não é hora de discutir isso — Joanne devolveu.

Nós ficamos em silêncio por alguns segundos. Eu observava meu noivo cada vez mais sonolento, lutando para se manter acordado. Estava prestes a pedir que ele dormisse quando ele voltou a se manifestar.

— Blair, você comeu?

— O que?

— Você está se alimentando? Ela está se alimentando? — ele se virou para a irmã, soltando as frases em um ritmo cada vez mais arrastado.

Seus pais franziram o cenho diante da súbita mudança de assunto. Eu mesma não compreendia o que ele queria.

— Estou, apenas não comi hoje. Eu tentei comprar um café na cafeteria, mas é horrível.

Dimitri fechou os olhos, e por um segundo eu pensei que ele tinha adormecido, mas não demorou até que voltasse a falar.

— Você não pode fazer como sua mãe. Ou eu vou ter que fazer o mesmo que fiz com ela — ele murmurou, começando a fitar o vazio sem sequer piscar.

O que ele fez com a minha mãe? Pensei que ela tivesse voltado a comer por causa da salada!

Sua família parecia cada vez mais perdida naquele assunto, mas não pude deixar de perguntar.

— O que você quer dizer? O que você fez?

Ele me ofereceu um sorriso lateral, respondendo em um sussurro nem um pouco baixo, como se quisesse manter um segredo.

— Eu prometi jogar aquela salada no lixo se ela voltasse a comer, ou então nós dois cozinharíamos para ela todos os dias.

Eu o encarei boquiaberta. Ele jogou a salada no lixo!?

— Dimitri, eu acho que é melhor você parar de falar e dormir — Masha aconselhou.

— Ou você pode continuar falando para eu poder filmar — Yuri gracejou, recebendo um olhar pouco amigável da mãe.

— Como assim você jogou a salada no lixo? Nós fizemos a salada para animar minha mãe!

— Eu tive que jogar, se sua mãe comesse aquilo ela seria internada, e nós seríamos presos por envenenar a coitada — ele devolveu, me chocando ainda mais — Aquilo foi de longe a pior coisa que eu já comi, superou o almoço de aniversário que a Masha fez para a minha mãe ano passado.

— Hey! — Minha cunhada exclamou ofendida.

— O que? Até hoje eu não sei o que eu comi. Aquilo tinha gosto de pé sujo e a mama não deixou ninguém te contar — ele devolveu, fazendo Yuri quase chorar de rir da indignação da irmã.

Eu não pude conter minha própria risada enquanto todas as peças se encaixavam em minha mente.

— Ah meu Deus, foi por isso que minha mãe decidiu me dar aulas de culinária, porque a salada ficou horrível!

— Horrível é um elogio — ele divagou — Nós dois deveríamos ter aula de culinária, ou nunca teremos filhos. A não ser que eles venham com uma cozinheira incluída.

Foi a vez da minha sogra de rir da situação.

— Se a situação foi tão ruim assim, eu mesma vou cuidar de ensinar os dois a cozinhar — ela gracejou.

— Se você não comer, Blair, eu juro que vou levantar dessa cama e cozinhar para você — Ele fechou os olhos por um momento, me fazendo sorrir.

Apesar do ataque de sinceridade, ele era adorável dopado. Isso porque ele disse que sentiria apenas um pouco de sono.

— Pelado…

Eu me surpreendi quando ele voltou a falar.

— O que?

— Eu vou cozinhar pelado pra você, lembra que você queria? — ele voltou a abrir os olhos, fazendo com que eu engasgasse.

O QUE ESSE IDIOTA PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?

— Dimitri!

— Uou, informação demais — Masha zombou enquanto Yuri se sentava em uma das poltronas, já se curvando de tanto rir e meus sogros pareciam constrangidos.

— Você disse que depois de uma reconciliação eu tinha que cozinhar pelado para você, e essa foi uma grande reconciliação, nós ficamos até noivos — ele prosseguiu, para meu desgosto.

— Dimitri, você precisa mesmo parar de falar — eu supliquei com um sorriso envergonhado no rosto.

— Dimulya, é melhor você dormir um pouco, e é melhor você guardar esse celular, Yuri — Joanne pediu antes de ralhar com o outro filho.

Mas, Dimitri parecia pouco disposto a seguir nossas recomendações, erguendo a mão para acariciar meu rosto, o acertando sem nenhuma delicadeza no processo.

— Você fica tão linda quando está vermelha. Ela não é bonita? — ele olhou para os pais em busca de confirmação.

— É muito bonita, filho. Por que você não dorme? — Yaroslav tentou argumentar.

Ele fechou os olhos, e por um momento eu me senti aliviada, pensando que ele realmente dormiria.

— Eu vou ficar com uma cicatriz na barriga — ele voltou a falar.

— Você fez uma cirurgia, é normal, agora durma — eu garanti.

— E se você não gostar quando me ver pelado?

Dessa vez eu realmente precisei me segurar para não sufocá-lo com um travesseiro.

— Dimitri, esquece isso, por favor — eu gemi.

— Esquecer? Blair já faz seis meses que eu não…

— Tudo bem, esse é meu limite, eu estou fora daqui! — Masha ergueu as mãos, saindo do quarto.

— Onde ela foi? — Dimitri perguntou.

— Mama, você precisa me deixar filmar!

— Dimitri, se você não dormir agora, eu vou te esganar — eu o ameacei em turco.

— Seu pai!

— O que tem o pai dela? — meu sogro se surpreendeu.

— Essa é uma excelente pergunta! — eu rosnei.

— Seu pai pode operar minha barriga para tirar a cicatriz, assim você não…

— Pela última vez, Dimitri, eu não me importo com a droga da cicatriz! — Eu tentei evitar que ele repetisse a palavra "pelado" mais uma vez.

— Mas e se você não gostar de me ver…

— Tenho certeza que ela vai gostar, Dimitri. Agora durma! — Joanne foi categórica.

Ele alternou o olhar entre todos, e para nossa frustração, voltou a falar.

— Vocês querem ver? Vai ficar uma cicatriz grande — ele começou a se mover, tentando erguer a camisola hospitalar que ele usava.

— Ok, eu não estou afim de ver nada — Yuri se levantou depressa, saindo do quarto como a irmã.

Eu segurei suas mãos, forçando um sorriso na tentativa de dissuadi-lo do que quer que estivesse passando por aquela mente perturbada pela morfina.

— Blair, querida. Eu acho melhor…

— Podem ir, eu faço ele dormir — eu não esperei minha sogra terminar de falar.

Os dois se apressaram para fora do quarto, me deixando para trás com o filho, que mantinha uma expressão decepcionada.

— Por que eles foram embora? Eu queria que eles ficassem.

Toda a frustração que eu sentia sumiu ao ver seu rosto. Era evidente que ele queria a companhia da família, e aquilo aplacou um pouco a irritação por toda a sua indiscrição.

— Bom, então você devia ter deixado o papo naturalista de lado. Eu era a única pessoa do quarto com o mínimo interesse em te ver pelado — eu entrelacei nossos dedos — e antes que você diga qualquer coisa, eu tenho certeza que vou gostar da cicatriz.

Ele suspirou, recostando a cabeça no travesseiro, parecendo deprimido. Ótimo, agora que estamos sozinhos ele não quer mais falar nada que me envergonhe,

— Hey, qual o problema?

— Eu não quero ficar sozinho — ele declarou com simplicidade, fazendo com que eu compreendesse o que estava acontecendo em sua mente.

Nos últimos dias foi péssimo ficar longe dele e só poder vê-lo através daquele vidro, mas não consigo sequer imaginar como deve ter sido assustador para ele acordar sozinho, sem nenhum rosto conhecido para lhe confortar.

— Você não está sozinho, comandante, eu estou aqui. Você pode dormir e quando você acordar, eu ainda vou estar bem aqui — eu garanti antes de me inclinar, beijando sua testa.

Dimitri se deu por vencido, fechando os olhos e deixando seu corpo relaxar. Eu estava crente que ele tinha adormecido quando sua voz, ainda de olhos fechados, chamou minha atenção.

— Blair…

— Eu estou aqui.

— Depois que eu dormir, vá comer alguma coisa — ele pediu, me fazendo rir.

Eu fiquei ao seu lado, velando por seu sono por alguns minutos até decidir cumprir o seu desejo. Quando abri a porta, dei de cara com Masha, que estava sentada na poltrona do lado de fora.

— Ele dormiu?

— Felizmente sim, infelizmente não dormiu rápido o suficiente para evitar que eu passasse vergonha — eu suspirei.

Aquele comentário arrancou risos da minha cunhada, que se levantou, passando a me acompanhar até a cafeteria.

— Eu poderia te animar e falar que não foi tão ruim, mas se eu fosse você, eu estaria procurando uma maneira de me teleportar daquele quarto direto para o avião mais próximo.

— Isso é muito encorajador!

Eu respondi com um sorriso no rosto.

— Vamos, é melhor você comer alguma coisa antes que ele acorde e queira cozinhar para você.

— Por favor, não toque nesse assunto — Eu gargalhei ao seu lado.

— Eu nunca vou te deixar esquecer isso — ela me garantiu.

Após conseguir alguns pacotes de Chips de alho poró e duas caixinhas de suco, eu retornei para o quarto de Dimitri, velando seu sono enquanto comia.

Algumas horas depois, alguém bateu na porta, entrando em seguida. Senti meu rosto esquentar ao ver Joanne, não pude evitar as lembranças de tudo o que Dimitri dissera antes.

— Ele ainda está dormindo, pensei que conseguiria vê-lo acordado antes de ir — Ela declarou, o observando com um olhar amoroso.

Minha sogra se aproximou da cama do filho, acariciando sua cabeça enquanto falava algo em russo para ele. Eu me senti um pouco deslocada, como se estivesse invadindo um momento íntimo, estava prestes a me levantar e dar aos dois um pouco de privacidade quando ela se virou para mim, vendo o pacote de Chips que eu tinha deixado pela metade em cima do aparador.

— Ótimo, você comeu. Dimitri não vai precisar cozinhar — ela zombou.

Se antes eu me sentia sem graça, agora era como se eu fosse literalmente explodir de tanta vergonha!

— Joanne, eu sinto muito.

— Eu só estou pegando no seu pé, Blair. Não se preocupe, não é como se imaginássemos que não aconteceu nada entre vocês — ela procurou me tranquilizar.

Bom, mesmo que eles imaginassem, não precisavam ouvir aquilo. Eu assenti, não desejando acrescentar nada naquela situação, e Joanne logo voltou sua atenção para o filho.

— Apesar de preferir não saber de certos detalhes revelados, eu fiquei feliz — ela declarou depois de alguns segundos.

Ótimo, a mulher enlouqueceu!

— Ele ficou devastado quando você partiu — ela declarou sem desviar o olhar do rosto do filho — o meu menino sorridente e brincalhão deixou de existir no momento que você entrou naquele táxi.

Eu desviei o olhar, sentindo o peso de suas palavras sobre mim naquele momento.

— Eu vejo que ele não foi o único que sentiu — ela suspirou, se afastando da cama e vindo em minha direção — eu tenho algo para você.

Eu me coloquei em pé, franzindo o cenho ao ver a mulher retirar o pequeno ponto de luz que ela sempre usava ao redor do pescoço.

— Aqui, eu quero que você fique com isso e me devolva depois do seu casamento — ela estendeu o colar

— Como?

— Esse colar foi o presente que Yaroslav me deu no nosso primeiro dia dos namorados depois que nos casamos. Eu quero que seja o seu "algo emprestado" — ela colocou a fina corrente na palma da minha mão e a fechou.

Eu a encarei boquiaberta, sem saber como responder.

— Joanne, isso deve ter um grande valor sentimental, eu não poderia…

— Eu quero que aceite! Sei que você vai cuidar bem, além disso, será um símbolo de boa sorte, quem sabe assim você esquece o fiasco que foi o primeiro dia dos namorados dos dois — ela piscou para mim antes de se afastar.

— Obrigada — não pude fazer nada além de agradecer.

— Yuri vai levar Masha e eu para casa. Você pode vir com a gente se quiser, meu marido vai passar a noite com ele hoje — ela propôs.

Por um momento a decepção tomou conta de mim, eu esperava passar a noite ali com meu noivo, mas não poderia ser contra ao plano do pai dele.

— Não, eu vou pro apartamento do Dimitri… em breve nosso apartamento. Vou tentar arrumar um pouco de espaço para as minhas coisas, seu filho tem muitas roupas — eu brinquei.

— Quando você se muda?

— Agora que ele está fora de perigo, eu vou embarcar no primeiro voo que conseguir, preciso empacotar as minhas coisas e tentar arrumar um inquilino — eu comecei a narrar meu plano — quero estar de volta antes que ele tenha Alta.

— Parece um bom plano. E não se preocupe, eu vou vir uma vez por semana para cozinhar para os dois — ela piscou, me fazendo rir.

Joanne deu um beijo na testa do filho adormecido e saiu depois de se despedir de mim. Após alguns minutos Dimitri começou a ficar agitado em seu sono, despertando ofegante olhando em volta.

Eu me levantei, me colocando ao seu lado para segurar sua mão.

— Hey comandante, você dormiu bastante — eu entrelacei nossos dedos, franzindo o cenho ao ver seu olhar assustado fixo em mim — Dimitri, você está bem?

Ele balançou a cabeça devagar, fechando os olhos e encostando a cabeça de volta no travesseiro.

Apesar de estranhar sua atitude, eu decidi lhe dar um tempo, me contentando em acariciar seu rosto na tentativa de confortá-lo. Demorou um pouco até que ele estivesse disposto a falar comigo.

— Eu posso te fazer uma pergunta?

— É claro que sim — eu garanti.

— O quão grave foi o acidente? Ninguém quis me falar nada sobre o assunto depois que eu acordei da cirurgia — ele olhou para mim, me fazendo respirar fundo e soltar sua mão.

Depois de arrumar espaço para me acomodar na beira da cama ao seu lado eu voltei a segurar sua mão, pensando em como começar a contar tudo o que aconteceu.

— Em uma escala de 1 a 10, eu diria que foi um quatro.

— Quatro…

Por um momento eu pensei em mudar de assunto, mas ao olhar para Dimitri eu soube que ele precisava saber.

— Muitas pessoas se feriram, outras não resistiram, mas o acidente poderia ter sido muito pior se você não fosse um bom piloto.

Ele desviou o olhar, parecendo não concordar muito com o que eu disse.

— Um bom piloto não teria cometido um erro daqueles.

Eu franzi o cenho sem compreender o que ele queria dizer. Ele pensa que ele foi para a pista errada?

— Erro? Você não cometeu erro algum, Dimitri.

Ele me lançou um olhar confuso.

— O controlador de voo os enviou para uma pista que já estava sendo utilizada. Se não fosse pelas suas habilidades como piloto, o acidente poderia ter sido um dez, onze talvez. Mas você conseguiu evitar o pior — eu expliquei, me inclinando e beijando seu rosto.

— Eu sonho com os gritos e pedidos de ajuda dos passageiros — ele me lançou um olhar desesperado — eu os ouvia gritando e não podia ajudar!

Eu senti meu peito se apertar, deitei minha cabeça em seu ombro, acariciando sua mão. Eu não podia imaginar como foi traumático para ele passar por aquela situação.

— Você disse que algumas pessoas não resistiram.

— Não houve nenhuma perda entre os passageiros — eu respirei fundo, tentando me manter firme ao dar a notícia da morte de seus colegas.

— Entre a tripulação? — ele perguntou.

Eu me limitei a balançar a cabeça de maneira afirmativa, não tendo coragem de olhar em sua direção. Ouvi Dimitri respirar fundo antes de fazer a próxima pergunta.

— Quem?

— Duas comissárias e o seu co-piloto — eu declarei fitando a parede à nossa frente.

Dimitri permaneceu sem reação, eu olhei em sua direção quando percebi sua respiração alterada o encontrando derramando lágrimas silenciosas.

Fechei os olhos, voltando a deitar minha cabeça em seu ombro, impedindo minhas lágrimas de saírem.

— Era apenas o terceiro voo dele — ele desabou.

— Eu sinto muito, Dimitri.

Foi a única coisa que consegui pensar para confortá-lo, eu permaneci ali, abraçada com meu noivo, esperando que ele derramasse todas as lágrimas que precisasse derramar para superar o que aconteceu.