Escalas e Destinos - A apaixonante vida de Blair
26 Capítulo 26 - St Petersburg

— Com licença, você fala minha língua? — eu tentei a terceira atendente que se limitou a me olhar e balançar a cabeça de maneira negativa.
Elas estavam me entendendo, eu sabia que estavam, mas por algum motivo as pessoas daquele país se recusavam a se comunicar comigo!
Eu tinha desembarcado no fim da manhã em St Petersburg e fui direto para o endereço do hospital que Masha tinha me passado. Eu tinha enviado uma mensagem avisando que já estava ali, mas ainda não tinha sido visualizada.
— Dimitri Yaroslavovich Voitovich, eu estou aqui por ele — eu tentei falar devagar, torcendo para que elas me entendessem.
Ela se limitou a murmurar algo em russo, não me dando nenhuma atenção especial. Eu peguei meu celular, ativando o tradutor.
— Dimitri é meu namorado, ele estava no acidente do aeroporto — eu insisti.
Elas comentaram algo entre si, rindo em seguida. Eu olhei para a tela do celular, revirando os olhos ao ver a tradução.
"Se namorasse mesmo um russo, no mínimo deveria aprender a falar nosso idioma"
Eu respirei fundo, tudo bem, eu não posso arrumar confusão com elas, eu preciso que elas me ajudem!
— Maria, a irmã dele, me passou o endereço, mas eu não consegui falar com ela — tentei outra abordagem antes de olhar para a tela do celular quando a Mulher de antes começou a cantarolar.
"Não vou cair nessa história, essa gente da imprensa pensa que somos tolas"
— Imprensa? Eu não sou jornalista, meu nome é Blair Ozkan e eu sou namorada dele!
Aquilo era frustrante! Por que de uma hora para outra ninguém acredita em nosso relacionamento?
A mulher respirou fundo, retirando os óculos e me lançando um olhar exasperado.
— Escute garota, eu só vou falar uma vez — ela começou com um sotaque carregado quase incompreensível — deixe essa família em paz, já estão lidando com muito nesse momento. Nós não podemos e não vamos passar informações sobre um paciente para alguém que não é da família!
Eu estava a ponto de gritar e mostrar a ela todas as nossas fotos juntos, mas uma voz me conteve.
— Blair — Masha me chamou, fazendo o alívio tomar conta do meu corpo.
Eu me aproximei da minha cunhada, a cumprimentando com um abraço de apoio, deixando as mulheres da recepção para trás.
— Eu sinto muito não te responder antes, eu estava falando com o Yuri no telefone — ela explicou.
— Tudo bem, eu só…
— Você já conseguiu o passe de visitante?
— Elas não quiseram me passar informação nenhuma, pensam que eu sou da imprensa — eu apontei para a recepção.
— Elas o que? Vem comigo — Masha respirou fundo.
Eu a acompanhei novamente até a recepção onde Masha travou uma conversa em russo com as mulheres. Não me incomodei em acompanhar a tradução, só me importava em conseguir acesso a Dimitri.
A expressão das mulheres mudou lentamente de descrente a pesarosa enquanto me observava. No fim, eu recebi o passe de visitante e o desejo de que tudo melhorasse depressa.
— Você conseguiu convencê-la — eu comentei.
— Bom, eu sou a irmã dele, não teria motivos para mentir. E eu exagerei um pouco na história de vocês — ela me ofereceu um sorriso fraco.
— O que você quer dizer? — eu a olhei desconfiada enquanto caminhávamos pelos corredores do hospital em direção a um elevador.
— Eu disse a ela que ele te pediu em casamento e que vocês tornariam oficial hoje.
Nós embarcamos no elevador que estava parado no andar, e eu pude finalmente encara-la.
— Então nós estamos noivos?
— Eu achei que facilitariam a sua vida assim — ela suspirou.
Por um momento eu me imaginei noiva de Dimitri, e para minha surpresa, eu queria que fosse real. Eu me lembrei de todas as vezes que o assunto foi motivo de piadas entre nós dois, o quanto ele tinha zombado de mim pela escolha ridícula do vestido de noiva que minhas amigas separaram para mim quando fomos escolher o do casamento da Abby.
Aquela lembrança fez com que a gravidade da situação recaísse sobre meus ombros. Eu poderia nunca mais ouvir ele falar sobre isso.
Eu fechei os olhos, sentindo aquela sensação sufocante tomar conta do meu peito. Eu não podia perdê-lo, não agora! Não depois de ter passado tanto tempo longe dele!
Masha segurou minha mão, parecendo adivinhar o que se passava em minha mente.
— Como ele está? — minha voz saiu quase em um sussurro.
— Ele sofreu uma laceração no intestino e choque séptico por causa da demora no resgate — ela começou a me explicar — passou a madrugada em cirurgia e agora está em observação na UTI.
— Ele vai ficar bem?
— O médico que falou comigo disse que ele será mantido isolado e sedado por algum tempo, mas que ele está estável. Então acho que isso é um bom sinal — ela garantiu.
Um alívio percorreu meu corpo ao ouvir aquilo. Estável, ótimo, estável é bom. Eu posso lidar com estabilidade!
— Eu não vou poder vê-lo, não é?
— Ninguém pode. Mas tem uma janela de observação e as enfermeiras me deixaram ficar ali um pouco. Eu vou falar com elas para ver se você também pode — prometeu.
Assim que chegamos ao andar onde Dimitri estava, Masha foi até o posto de enfermagem enquanto aguardava na área de espera. Ela retornou após alguns minutos acompanhada de uma jovem enfermeira. Eu me levantei, indo de encontro a elas, ainda arrastando minha mala atrás de mim.
— Blair, eu nem tinha prestado atenção na sua mala, eu cuido dela enquanto você vai com a Nádia, ela vai te levar para ver meu irmão — ela me instruiu.
Eu fiz o que ela falou, seguindo a jovem até uma outra sala, onde uma janela mostrava um quarto bem equipado. Dimitri estava inconsciente em cima da cama, ligado a alguns aparelhos. Ele parecia tão frágil ali, meu maior desejo era entrar, me deitar ao seu lado e não abandoná-lo um segundo sequer. Mas eu sabia que aquele desejo era impossível.
— Sua cunhada nos falou sobre o noivado, parabéns — Nádia comentou me observando.
— Obrigada — mais uma vez eu experimentei aquela sensação nostálgica.
— Você não ganhou um anel — ela olhou para minha mão.
Ótimo, no que a Masha me meteu?
— Ele iria me dar hoje, eu estava cuidando dos meus pais na Turquia nas últimas semanas. Meu pai fez uma cirurgia — eu expliquei.
Aquela explicação parece ter convencido a garota, que se limitou a ficar em silêncio ao meu lado por mais alguns minutos antes de avisar que nós teríamos que voltar para junto de Masha.
Eu lancei um último olhar para Dimitri antes de acompanhar a mulher para fora da sala.
— Não se preocupe, ele é jovem e saudável, ficará bem — garantiu Nádia.
Eu dei um pequeno sorriso para a mulher, me sentindo um pouco melhor após conseguir vê-lo.
Quando cheguei na sala de espera, Masha estava acompanhada de Yuri, e o atualizava sobre o boletim médico do irmão. Eu esperei a uma distância aceitável, dando um pouco de privacidade aos dois, ainda me sentindo constrangida com a lembrança de arruinar o casamento do rapaz.
Minha cunhada se aproximou depois de alguns minutos com uma expressão cansada em seu rosto.
— Pronta para ir?
— Ir? Ir aonde? — eu franzi o cenho.
Eu tinha acabado de chegar e não esperava deixar aquele hospital tão cedo.
— Eu estou com a chave do apartamento do Dimitri, Yuri veio ficar no meu lugar, eu preciso dormir um pouco e imagino que você também!
— Não, mas…
— Blair, você precisa descansar, não fará bem nenhum a Dimitri se você deixar de dormir.
Eu me via naquele discurso, eu o tinha feito dezenas de vezes nas últimas semanas para minha mãe, e eu sabia que ela tinha razão.
Me dei por vencida, aceitando sua sugestão. Nós pegamos um táxi até o apartamento de Dimitri em um silêncio confortável. Eu não pude deixar de admirar a cidade sem toda aquela neve que a cobria na última vez que a visitei.
Eu daria tudo para tê-lo ao meu lado naquele momento.
Aquele pensamento voltou a me deprimir, eu não conseguia admirar a beleza daquele lugar enquanto ele estava naquele quarto de hospital!
— Como seus pais estão? — Masha puxou assunto quando chegamos ao prédio de Dimitri.
— Bem, meu pai já está em casa. Vão se recuperar — eu sorri.
— Que bom — ela retribuiu o sorriso entrando no elevador.
Eu observei o quanto ela parecia abatida naquele momento, o que me lembrou de como eu fiquei nos primeiros dias depois do acidente dos meus pais, e como todos se focavam apenas nos dois.
— E como você está? — eu perguntei, recebendo um olhar surpreso em troca.
— Eu estou bem, eu…
— Uma vez você me disse que gostaria que eu fosse sincera com você, eu também gostaria disso — eu insisti enquanto aguardava até que chegássemos ao andar.
Masha desviou o olhar, parecendo consternada.
— Sinceramente eu não sei, nós recebemos a ligação ontem a tarde, tivemos que correr até o local do acidente, foi uma agonia, minha mãe passou mal, retiraram ela do lugar e por pouco permitiram que eu continuasse ali — ela começou a falar de uma vez — então eu tive que convencer meu pai a levá-la para casa e cuidar dela, e também convencer meu irmão que seria uma péssima ideia levar a esposa grávida para o meio daquele caos, e eu só queria que tirassem o Dimulya daquela cabine e que ele estivesse bem, e que você conseguisse chegar depressa, porque sei o quanto será importante para ele. Eu estou sem dormir, sem tomar banho, meu celular não para de tocar e eu acho que só agora eu estou percebendo o quanto estou exausta!
Eu soltei uma risada fraca, eu conhecia bem aquela sensação.
— Quando eu vi aquela notícia eu pensei que fosse desmaiar — eu admiti quando as portas do elevador se abriram no nosso andar — foi a segunda notícia do tipo que recebo em menos de um mês e acho que não suporto receber uma terceira.
Nós saímos juntas e caminhamos até nosso destino. Masha destrancou a porta, nos guiando para dentro do apartamento onde eu tinha passado ótimos momentos.
— Deve ter sido terrível, eu sinto muito — ela suspirou.
Eu me limitei a balançar a cabeça, me prendendo em cada lembrança que aquele lugar trazia.
— Eu vou ficar no quarto de hóspedes, vou tomar um banho e dormir. Você deveria fazer isso também, pode ficar no quarto do Dimulya — ela apontou.
Eu observei ela sumir em uma das portas e arrastei minha mala até o quarto de Dimitri. O cômodo estava bem arrumado como eu me lembrava, eu tentei não me atentar tanto aos detalhes, tomei uma ducha rápida e me troquei, me encolhendo em sua cama. Eu duvidava que conseguiria dormir, me virei na cama algumas vezes, até que meu olhar se prendeu em um pequeno objeto na mesa de cabeceira.
A garrafinha de areia rosa estava intacta, estiquei a mão e a peguei, me lembrando de quando a entreguei para ele.
"Um pouco de calor no meio do seu inverno"
Foi o que eu disse. Mesmo depois de tanto tempo ele ainda mantinha por perto. Movida pela curiosidade eu abri a gaveta, prendendo o fôlego em seguida. Ali dentro eu encontrei diversas coisas que eu tinha dado a ele ao longo de nossos meses juntos, meus dedos passaram sobre a caixa de veludo da insígnia que eu lhe dei de aniversário, os ingressos da peça interativa em Zurique. Mas o que chamou minha atenção foram as duas pedras de vidro que reluziam no fundo da gaveta.
Eu sequer sabia que ele tinha pego aquilo, na verdade, roubou. É proibido retirar os cristais da praia de vidro!
Detalhes daquela tarde invadiram minha mente, nós estávamos tão felizes, e agora…
As primeiras lágrimas caíram em cima das pedras antes que eu desabasse em um choro sentido. Por que eu perdi tanto tempo com as minhas inseguranças enquanto nós tínhamos tudo o que era necessário para fazer dar certo? Por que não consegui perceber isso antes?
E agora, eu corria o risco de perder tudo, sem sequer ter a chance de dizer a ele o quanto o amo!
Alguns momentos depois Masha abriu a porta com cuidado, entrando no quarto com uma expressão preocupada estampada no rosto.
— Ele guardou tudo — eu solucei diante de seu olhar questionador.
Ela suspirou, se acomodando na cama ao meu lado.
— Ele ficou arrasado quando você foi embora. E com o passar dos dias, era como se ele apenas tivesse ligado o piloto automático, mas ele nunca superou.
Aquela frase só fez meu choro aumentar. Nós passamos meses sofrendo longe um do outro por uma estupidez!
— Eu fiz tudo errado. Fiquei com tanto medo de sofrer que estraguei tudo e acabei sofrendo e o fazendo sofrer — eu solucei, fechando as mãos com as pedras e envolvendo meu corpo em uma espécie de abraço — e agora pode ser tarde demais!
— Não! Não é tarde demais. Dimitri vai ficar bem, e não importa o que você fez antes, o que importa é o que você fará a partir de agora — ela fez com que eu me deitasse.
Eu pisquei, deixando as lágrimas saírem à vontade.
— Além disso, agora vocês estão noivos, então serviu para alguma coisa — ela zombou.
Eu encarei o teto branco acima de mim, imaginando como seria tudo quando Dimitri se recuperasse.
— Como é possível amar tanto uma pessoa e cometer tantos erros?
Masha se deitou ao meu lado, respirando fundo antes de responder.
— Eu não acho que você cometeu tantos erros assim, pelo menos, não sozinha. Você terminou com meu irmão, mas eu vi tudo o que você estava aguentando. Ele concordou que era o melhor a se fazer, então se teve algum erro, foi dos dois.
Eu fechei os olhos diante da sua frase. Nós cometemos muitos erros, mas ainda não é tarde para recomeçar. Pelo menos, eu espero que não seja.
— Vamos dormir, sei que você vai querer voltar para o hospital mais tarde — ela suspirou, me fazendo companhia o tempo todo.
Eu acordei algumas horas depois, com Masha ainda adormecida na cama ao meu lado. Nós não voltamos mais ao hospital naquele dia, Yuri foi substituído por seu pai que nos avisou que não tinha nenhuma mudança no quadro clínico do filho.
As notícias na TV ainda eram as mesmas, a caixa preta do avião havia sido recuperada, mas o conteúdo não tinha sido divulgado, e de alguma maneira, todos estavam ávidos em culpar Dimitri por aquele acidente.
Em certo momento Masha e eu deixamos de assistir a TV, tentando nos ocupar com qualquer outra coisa. No dia seguinte nós fomos cedo para o hospital e eu me recusei a sair de lá até o fim do dia, conseguindo ver Dimitri por alguns minutos através da janela de observação, mas no segundo dia eu não suportava mais aquela situação.
— Nádia, a médica disse que Dimitri já está fora de perigo, certo? — Eu passei a caminhar ao lado da enfermeira.
De alguma maneira eu tinha conseguido fazer amizade com grande parte dos funcionários daquele andar, todos pareciam se comover com a história do nosso falso noivado recente.
— Sim, ele está respondendo muito bem ao tratamento e apesar de sempre estar dormindo quando você o vê, ele tem passado alguns períodos acordado — ela relatou sem diminuir seu ritmo.
— Isso é ótimo, não é? — eu sorri me esforçando para acompanhá-la.
— Sim, é muito bom.
— É bom o suficiente para que eu possa passar um tempo com ele? — eu tentei.
A enfermeira soltou uma risada, me deixando para trás.
— Boa tentativa, Blair.
Eu bufei, olhando em volta antes de avistar minha próxima esperança.
— Bom dia, Anna. Você está especialmente bonita hoje — eu passei a acompanhar outra enfermeira.
— Eu ouvi a conversa e não posso fazer nada — Ela me cortou.
Eu parei no meio do corredor, pensando em quem poderia me ajudar a atingir meu objetivo.
— Natalya, oi. Tem alguma coisa diferente em você, perfume novo? — eu tentei bajular uma das enfermeiras mais mal humoradas do lugar.
— Sim, se chama plantão de doze horas — ela devolveu com uma carranca.
Eu nem me dei ao trabalho de tentar, eu não conseguiria nada com ela. Retornei para a sala de espera, me lançando no sofá, arrancando risos dos irmãos de Dimitri que estavam ali.
— Blair, não é mais fácil você esperar até que liberem o acesso a ele? — Yuri comentou.
— Ou eu posso perturbar cada pessoa desse hospital até conseguir — eu murmurei.
— Você mesmo disse que sua mãe fez isso e não funcionou, o que te faz pensar que…
Eu não esperei que ela concluísse a frase ao ver a médica de Dimitri sair de um dos quartos. Eu me levantei depressa, passando a acompanhar a mulher.
— Bom dia, Srtª Ozkan, posso ajudar em alguma coisa?
Ela foi direto ao assunto.
— Bom, eu não ia pedir nada, mas já que você ofereceu, eu posso ver o Dimitri? — eu ofereci meu sorriso mais simpático.
A mulher parou de caminhar, me lançando um olhar astuto.
— Claro que pode, pela janela de observação, como das outras vezes — ela garantiu.
Ela voltou a caminhar, fazendo eu me colocar em movimento para acompanhá-la.
— Mas doutora Pavlova, você disse que ele está fora de perigo e reagindo bem, e ele já está isolado por dois dias e…
— Existe um motivo para esse isolamento, Srtª Ozkan.
— Eu sei, mas eu só preciso falar com ele, segurar sua mão por um momento — eu insisti — eu tomo banho, uso avental, touca, luvas, máscaras, o que você quiser, apenas…
Ela ergueu uma mão, indicando que eu deveria parar de falar.
— Por favor — eu supliquei.
A médica me encarou por alguns segundos antes de respirar fundo, fazendo sinal para Natalya se aproximar.
— Prepare a Srtª Ozkan para visitar o Sr Voitovich. Ela tem dez minutos — ela avisou a enfermeira para minha felicidade.
A enfermeira revirou os olhos e caminhou em direção a uma espécie de vestiário. Eu corri atrás dela, mal contendo minha excitação. Eu conseguiria vê-lo!
Após muitos minutos me preparando, lavando as mãos e antebraços com esmero e vestindo todo o equipamento necessário, eu entrei em seu quarto, o encontrando inconsciente em cima da cama. Meu coração batia com força em meu peito, e não era tão confortável respirar com a máscara, mas eu estava ali!
— Dez minutos — Natalya avisou.
— Obrigada — eu sorri por trás da máscara.
Aproximando-me com cuidado da cama, eu observei Dimitri, levando minha mão até a dele, sentindo sua pele quente, mesmo através da luva que eu usava.
— Como é bom poder te tocar — eu suspirei, acariciando sua mão.
Foi quando senti sua mão apertar a minha suavemente. Eu ergui o rosto, encontrando o olhar confuso de Dimitri preso em mim.
— Blair?
— Hey comandante, você me assustou — eu levei minha mão até seu rosto, o acariciando.
— Eu estou sonhando? — sua voz soou arrastada, embargada pelos medicamentos.
— Não, eu estou mesmo aqui — eu soltei uma pequena risada, me esforçando para conter as lágrimas e o desejo de beijá-lo.
Dimitri piscou devagar, tentando se sentar em seguida, mas eu o mantive imóvel.
— Nada de esforço, comandante. Como você está?
— Como se tivesse atropelado outro avião com o meu — ele forçou um sorriso.
Ótimo, ele está bem o suficiente para fazer piadas com o que aconteceu!
— Bom, pelo menos sua memória não foi afetada. — Eu voltei a acariciar seu rosto.
Ele franziu o cenho, levando sua mão até a minha.
— Você está chorando — ele balbuciou.
— Eu pensei que fosse te perder — eu admiti — eu te amo tanto e pensei que nunca mais te veria.
Um sorriso encantado iluminou seu rosto enquanto ele fechava os olhos, respirando fundo.
— Isso foi a melhor coisa que eu ouvi nos últimos dias — ele comentou, me fazendo rir.
— Eu não via a hora de poder te falar isso, acredite. Como você está se sentindo? De verdade.
— A pior parte é ficar sozinho — ele admitiu.
— Eu vou ficar aqui o tempo todo, não se preocupe, você não vai mais ficar sozinho, não vou deixar ninguém me tirar daqui, e…
Eu olhei para a porta, avistando Natalya se aproximando com a mesma expressão fechada de sempre.
— Na verdade, meu tempo acabou, aquela enfermeira mal encarada está vindo me expulsar — eu apontei, tirando dele algo próximo a uma gargalhada dele, que logo se transformou em uma careta de dor.
— Não ria — eu pedi.
— Eu pensei que ninguém poderia te tirar daqui.
— Você já viu o tamanho dela? Se eu tentar encarar com certeza eu perco — eu zombei — mas eu vou perturbar a todos até deixarem eu voltar, e de qualquer forma, eu vou ficar ali do outro lado do vidro.
Ele acenou com a cabeça, levando minha mão até seus lábios, beijando com carinho.
Natalya acenou da porta, fazendo com que eu suspirasse resignada antes de deixá-lo. Nem tive tempo de contar a ele sobre nosso noivado improvisado.
Depois de me livrar de tudo o que coloquei para entrar no quarto, eu voltei para junto de meus cunhados, que estavam presos em uma pequena discussão.
— Onde você se meteu? — Masha perguntou.
— Me deixaram passar um tempo com ele — eu declarei satisfeita.
A informação pegou os dois irmãos de surpresa e logo começaram a me encher das mais diversas perguntas sobre o estado de Dimitri.
— Depois eu vou ficar um pouco lá no vidro, para que ele não se sinta tão sozinho — eu relatei depois de compartilhar tudo o que tinha acontecido — Talvez eu consiga alguns papéis e uma caneta, será que vende na loja do hospital?
— Pra que você quer isso? — Yuri franziu o cenho.
— Para poder falar com ele — eu apontei o óbvio.
— Vamos aproveitar que ele está acordado — Masha incitou o irmão a se levantar, enquanto eu saia em busca de papel e caneta.
Eu demorei alguns minutos para conseguir e subornei as garotas da recepção prometendo algumas guloseimas em troca, mas quando retornei para o andar onde ele estava, Masha e Yuri me contaram que ele havia adormecido novamente.
Eu me sentei desanimada, notando uma matéria sobre o acidente passando na TV.
— O que está acontecendo? — eu perguntei ao notar que Masha estava com o cenho franzido.
Antes que ela pudesse responder, eu reconheci a voz de Dimitri. Ele falava em russo com outra pessoa fazendo com que eu entendesse a situação.
Liberaram o conteúdo da caixa preta!
— O que estão falando?
Yuri praguejou antes de se levantar irritado, se afastando após dar um soco na parede.
— O que está acontecendo? — eu insisti enquanto minha cunhada piscava atordoada.
— Esse tempo todo estavam falando que não sabiam porque o Dimulya foi para aquela pista sem autorização, mas ele foi enviado para lá — ela balbuciou — eles enviaram ele para a pista, o pessoal do aeroporto quase matou o meu irmão.
— O controlador de vôo enviou ele para uma pista que eu estava sendo utilizada para decolagem?
— Sim!
Eu senti um calafrio percorrer minha espinha ao me lembrar de um acidente no início dos anos 2000, onde algo semelhante aconteceu e não houveram sobreviventes de nenhuma das aeronaves. Eu percebi que a matéria tinha atraído atenção especial das pessoas que trabalhavam no local, principalmente as que estavam cuidando do meu namorado.
— Eles tentaram culpar o meu irmão — Masha rosnou — Eles o fizeram parecer um profissional péssimo e irresponsável, quando na verdade tudo teria sido pior se ele não fosse um bom piloto.
Uma das enfermeiras se aproximou da minha cunhada, falando algo em russo para ela. Eu deixei as duas presas em uma conversa inconformada, me sentando para absorver aquela informação. Dimitri, assim como todos os passageiros, poderiam estar mortos agora. O outro piloto não sobreviveu. Dimitri poderia ter morrido.
Eu me levantei, indo até a janela de observação, velando o sono dele, mesmo que a distância.
Recebi outra chance com ele, e eu não desperdiçaria por nada!
Eu permaneci ali parada o tempo todo, aguardando ele acordar. Quando ele finalmente despertou, eu estava ali por ele. Dimitri olhou em minha direção, me oferecendo um sorriso mínimo. Foi quando me lembrei do meu plano inicial. Apoiei a folha na parede, escrevendo em letras garrafais.
"Espero que tenha sonhado comigo"
Ele levou alguns segundos para ler, antes que eu voltasse a escrever do outro lado da folha.
"Se a resposta for não, por favor, minta"
Aquilo fez com que Dimitri sorrisse, acenando afirmativamente com a cabeça.
"Seus pais estão vindo te ver, mas enquanto eles não chegam eu vou te fazer companhia"
Eu passei as horas seguintes contando coisas aleatórias para ele, apenas para distraí-lo. Não queria tocar no assunto do acidente e nem em nada relacionado a nós dois quando ele não poderia me responder.
Quando seus pais chegaram, sua mãe conseguiu passar alguns minutos no quarto com ele, fazendo eu me despedir e retornar para o apartamento de Dimitri com Masha.
Eu tive uma noite melhor que as anteriores, me sentindo mais tranquila por ter visto Dimitri.
Despertei no dia seguinte com Masha batendo na porta do quarto.
— Blair, você já acordou?
— Sim, pode entrar — eu murmurei me virando na cama.
Ela entrou com uma expressão estranha, com um sorriso estampado no rosto, como se tivesse sido pega fazendo algo errado.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Por que?
— Você parece que dormiu com um cabide na boca — eu bocejei, me sentando — O que aconteceu?
— Você sabe que eu sou a sua cunhada preferida, certo?
Eu estranhei aquela conversa. O que está acontecendo com essa mulher?
— Masha, o que você fez?
— Nada que você não soubesse, mas…
Ela fez sinal para que eu a seguisse para a sala, onde a TV estava ligada. Eu me surpreendi ao ver uma foto minha com Dimitri estampada ali, mas não compreendia bem o conteúdo.
— O que está acontecendo?
— Bom, depois de ontem, Dimitri basicamente virou um herói nacional — ela explicou.
Bom, ele é um herói. Mas como eu entro nessa história?
— E por causa disso, decidiram descobrir todos os detalhes sobre ele — ela continuou — e alguém acabou contando a história sobre o noivado de vocês, então…
Eu levei alguns segundos para processar o que ela tinha falado.
Ela quer dizer que todas as pessoas do país, com exceção do suposto noivo, sabem sobre o nosso falso noivado?
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