Eu estava deitada em minha cama olhando para o teto com o celular em cima da minha barriga, esperando Dimitri me ligar ou mandar mensagem para avisar que já tinha pousado. Mais uma vez aquela necessidade que nos dominava no início de nosso relacionamento tinha tomado conta de mim. Eu precisava falar com ele o tempo todo, e quando não podia, sentia um vazio.

Tinha demorado um pouco para enfim criar coragem e dar o primeiro passo para recuperar nossa relação, mas não podia mais negar, eu não queria viver longe dele, e se para isso funcionar eu tivesse que mudar para a Rússia, eu me mudaria para a Rússia!

Pelas minhas contas ele deve ter pousado há pelo menos uma hora, será que o voo atrasou de alguma maneira?

Eu fechei os olhos decidida a dormir um pouco. Finalmente minha vida estava se resolvendo, meu pai estava se recuperando em casa, minha mãe tinha voltado ao seu normal, inclusive decidindo me ensinar a cozinhar para que eu não sofresse tanto em "situações de emergência". Eu não entendi bem o motivo de seu súbito interesse nesse assunto, mas decidi não discutir.

Eu estava quase adormecendo quando sua voz carregada de puro terror me despertou.

— BLAIR!

Eu saltei da cama com os piores pensamentos em minha mente. Meu pai infartou outra vez, os pontos se romperam. Ele caiu da cama. Minha mãe quebrou o outro pé!

Corri em direção à sua voz, a encontrando na sala, sentada ao lado do meu pai que estava repousando com a perna apoiada em um banquinho.

— O que aconteceu? — eu alternei o olhar entre eles, que estavam vidrados em alguma reportagem da tv.

Minha mãe se limitou a apontar para a tela, eu olhei, encontrando a manchete "Acidente aéreo em Aeroporto Russo deixa cerca de 80 pessoas feridas e três mortos"

Eu franzi o cenho, reconhecendo o aeroporto em que estive algumas vezes. Tudo bem, eu entendo o susto deles, mas isso não significa…

Foi quando meu coração falhou. O rosto de Dimitri apareceu ali, sendo noticiado como o comandante do voo.

Não…

Uma sensação sufocante começou a crescer em meu peito, eu me sentia gelada, como se todo o sangue tivesse fugido do meu corpo.

Isso não está certo! Eles se enganaram!

— Ayeleen — meu pai me chamou.

— Ela vai desmaiar. — Minha mãe avisou antes de gritar pela cuidadora — Seva, vem aqui!

— Ayeleen, se senta! — meu pai ordenou.

Eu o obedeci mecanicamente sem desgrudar o olhar da tela da TV.

Aquilo era um pesadelo, não podia estar acontecendo. Minha atenção estava presa na tv enquanto meus pais conversavam entre si. A imagem dos dois aviões era chocante, um deles tinha sido atingido na cauda e parecia não ter sofrido maiores avarias, mas o outro… a cabine se resumia a ferros retorcidos. Ao redor, inúmeras ambulâncias e tendas estavam montadas para prestar atendimento aos feridos.

Em qual dos aviões ele estava?

— Ainda não se sabe o que levou o comandante Dimitri Voitovich a realizar o pouso em uma pista que já estava sendo utilizada, as autoridades locais estão esperando pela recuperação da caixa preta para determinar o que aconteceu — a jornalista que cobria o caso relatou.

Eu fechei os olhos diante da frase, sentindo uma dor lacerante consumir meu interior.

— Ele estava no avião que atingiu o outro — eu balbuciei, sentindo que realmente poderia desmaiar naquele momento.

— Blair, aqui, Seva preparou um chá para você — minha mãe me estendeu uma xícara que eu aceitei instintivamente, apesar de não beber.

— Eles não tem informação nenhuma sobre ele — eu segurei o choro que ameaçou chegar.

— Eu sinto muito, querida — meu pai me encarou com preocupação.

Eu não respondi, me limitei a levantar, abandonando a xícara na mesa de centro antes de ir para o quarto em busca do meu celular.

Joe atendeu minha ligação nos primeiros toques. Sua voz demonstrava que ele também estava acompanhando a notícia e eu não tive que dar explicação alguma.

— Blair — ele me cumprimentou com pesar.

— Me diz que você sabe de alguma coisa.

— Eu sinto muito, eu…

— Por favor, me ajuda — eu solucei, deixando as lágrimas de dor e desespero que tomavam conta de mim saírem.

Mesmo através da distância eu pude sentir o desespero e impotência que o rapaz sentia naquele momento.

— Eu sinto muito, Blair. Eu… eu posso te passar o número da Masha, ela deve saber de algo!

Sim, Masha teria alguma notícia para mim!

— Obrigada.

Eu encerrei a ligação em seguida, aguardando com ansiedade por sua mensagem que não demorou a chegar. Depois de tirar um momento para considerar o que deveria dizer a Masha, decidi mandar uma mensagem primeiro para me identificar. Ela provavelmente não atenderia um número desconhecido em meio aquele caos.

Antes que eu pudesse pensar em escrever mais alguma coisa, ela me ligou.

— Blair — Sua voz soou agitada com sirenes e vozes ao fundo antes que eu falasse qualquer coisa.

— Me diz que você tem notícias e não está no escuro como eu — eu supliquei.

— Nós sabemos que ele não está entre as vítimas fatais — aquela informação aliviou um pouco minha alma — mas não sabemos o seu real estado, ele está preso nas ferragens e os bombeiros estão trabalhando agora para tentar resgatar ele e o outro piloto.

— Esse tempo todo? — eu balbuciei.

Pelos meus cálculos, de acordo com a notícia fazia mais de duas horas que o acidente tinha acontecido!

— É um resgate delicado, leva tempo. Fora isso não sabemos muito. Foi confirmada a morte de duas comissárias e há muitos feridos entre os passageiros. Isso aqui está uma loucura!

Eu fechei os olhos, imaginando o caos que deveria estar naquele lugar. Eu nunca sofri, e esperava nunca sofrer um acidente aéreo, mas como era delicada toda a operação de resgate.

— Eu tenho uma passagem para um voo amanhã, mas vou tentar conseguir um antes — eu avisei.

— Você tem um voo?

— Nós conversamos antes dele embarcar, ele me buscaria no aeroporto e nós passaríamos os próximos dois dias juntos — eu declarei com um fiapo de voz, tentando não voltar a chorar, mas um soluço vindo de minha cunhada do outro lado da linha fez com que toda a minha firmeza desaparecesse.

Nós duas passamos alguns segundos em silêncio, tentando nos recompor.

— Eu vou tentar embarcar antes — eu declarei por fim.

— Eu não sei se você vai conseguir, cancelaram todos os voos e os outros desviaram para outros aeroportos — ela respirou fundo.

— Eu vou dar um jeito. Me avise se souber qualquer novidade — eu garanti antes de me despedir e encerrar a chamada.

Eu respirei fundo, pensando no que deveria fazer a seguir. Em alguns segundos eu me levantei, tomei um banho rápido, me troquei e saí, arrastando minha mala atrás de mim.

— Blair, onde você vai? — Minha mãe se surpreendeu quando cheguei à sala.

— Para a Rússia — eu murmurei.

— Blair, isso é ridículo, o que você espera? — meu pai devolveu.

— Ele está preso nas ferragens, está sendo resgatado, eu preciso estar lá — eu alternei o olhar entre meus pais e a cuidadora.

— Srtª Ayeleen, mesmo que você consiga chegar até lá, não vai poder ficar com ele, ele será internado e você não é da família — Seva avisou.

— Eu vou dar um jeito nisso, eu…

Eles não entendiam, eu precisava ficar perto dele, eu não podia continuar aqui enquanto o homem que eu amava estava ferido. Eu não o deixaria sozinho!

— O que você espera, Ayeleen? Vai invadir o hospital? — Meu pai ralhou.

— Quem sabe? Ele merece todo o meu esforço e eu farei de tudo para conseguir encontrá-lo, nem que eu tenha que dar um jeito de me internar também! — no fim da frase eu estava praticamente gritando, surpreendendo meu pai e Seva.

Todos ficaram em silêncio depois de minha súbita explosão, até que minha mãe decidiu intervir.

— Ela vai pegar um avião e ela vai encontrar uma maneira de ficar perto dele. Ela precisa disso.

Eu segurei mais uma vez minhas lágrimas diante de suas palavras. Minha mãe entendia, e agora eu também a entendia. Quando tudo aconteceu com meu pai eu afirmei que não me via agindo da mesma maneira que ela, mas eu estava enganada. Eu estava disposta a qualquer coisa apenas para ficar perto de Dimitri.

Eu saí de casa sem esperar que qualquer um arrumasse mais alguma desculpa, prometendo enviar notícias assim que possível. Eu torcia para conseguir um voo depressa, mas logo a realidade me atingiu.

Apesar de explicar a situação para inúmeros atendentes em busca de alguma solução, sempre ouvia a mesma resposta genérica afirmando que o próximo voo havia sido adiado para o início da manhã por conta do acidente e estava lotado.

Eu só conseguiria embarcar antes do fim do dia se houvesse alguma desistência!

Mas que inferno!

Perto da meia noite Masha me ligou para avisar que Dimitri havia sido resgatado com vida e estava sendo levado ao hospital. Ela não sabia tanto sobre seu estado, apenas que seus ferimentos eram graves.

Aquela notícia me alentou um pouco, mas também fez a urgência crescer em meu interior. Eu precisava conseguir chegar até ele o mais depressa possível!

As horas pareciam intermináveis enquanto eu vagava pelo interior do aeroporto, incomodando os atendentes de hora em hora em busca de alguma solução para meu problema.

— Senhorita, nós já te informamos que aconteceu um acidente aéreo no aeroporto de Pulkovo e estamos sem vagas para o próximo voo, eu não sei o que a senhorita espera que aconteça — o atendente me lançou um olhar exasperado.

— Eu espero que alguém aqui me ajude, meu namorado estava naquele avião e eu preciso chegar a St Petersburg!

Estava na cara que não estavam comprando aquela história, e isso já estava me irritando. A prova maior foi quando eu deixei a fila, me sentindo derrotada, e ouvi duas mulheres sussurrando entre si.

— É o cúmulo da falta de vergonha na cara querer usar um acidente horrível daquele para se beneficiar — uma delas murmurou para a outra.

Me beneficiar? Que tipo de benefício elas acham que estou conseguindo?

— Com licença, vocês estão falando de mim? — eu interrompi as duas, recebendo um olhar chocado em troca.

— Não, nós…

— Vocês por acaso me conhecem para saber se estou querendo algum benefício? Aliás, vocês sabem pelo menos o nome do comandante envolvido no acidente? Está sendo bastante noticiado — eu senti meu sangue ferver, deixando toda raiva, tristeza e frustração finalmente sair.

Eu devo ter elevado a voz, já que os que estavam ao nosso redor pararam para assistir o que estava acontecendo.

— Senhorita, por favor — o atendente de antes tentou chamar minha atenção.

— Eu não prestei atenção nas notícias, e…

— Então por favor, pesquise na internet qualquer notícia sobre o assunto e me diga o que aparecer!

— A senhorita realmente precisa se acalmar — o atendente insistiu.

— Elas me acusaram de algo e acho que no mínimo tenho o direito de me defender!

Uma das mulheres pegou o celular e fez o que eu pedi, me lançando um olhar irritado logo depois.

— O comandante era Dimitri ya… yaro..

— Dimitri Yaroslavovich Voitovich, tem foto dele, certo? — Eu a cortei, quando ela teve dificuldade em pronunciar seu patronímico.

— Sim, tem uma — ela murmurou.

— Essa foi a foto que nós tiramos juntos em sua última visita a Istambul — eu abri a foto que nunca consegui deletar de minha galeria de imagens — Essa aqui nós tiramos no ano novo, e essa, foi a foto que ele me enviou minutos antes de decolar de Moscou.

Eu sentia as lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto enquanto algumas pessoas sussurravam entre si, e as mulheres de antes pareciam cada vez mais envergonhadas.

— Vocês falaram que eu estou usando um acidente para conseguir benefícios, enquanto o único benefício que eu quero é chegar em St Petersburg, porque o homem que eu amo está entre a vida e a morte em um hospital, e eu estou aqui, presa nesse aeroporto, com medo de não conseguir chegar antes que…

Eu não consegui concluir a frase ao me dar conta de que Dimitri realmente estava entre a vida e a morte, não era uma dramatização da minha parte. Senti meus pulmões se fecharem e o ar começar a faltar. Isso é um pesadelo, eu estou presa em um pesadelo, porque não tem outra explicação para tudo o que está acontecendo!

— Ela é a namorada do piloto — ouvi alguém sussurrar em algum ponto atrás de mim.

— Senhorita, eu sinto muito por tudo isso, nós estamos tentando solucionar essa situação, mas o próximo voo realmente está em sua máxima lotação, nós não podemos tirar alguém a força, e…

— Eu troco de lugar com ela — uma voz masculina chamou nossa atenção.

Eu me virei pra encarar um senhor de meia idade que nos observava há alguns metros.

— Senhor, o próximo voo será apenas à tarde — o atendente informou.

— Não tem problema, eu posso esperar. Minha esposa faleceu no último ano e eu sei o que é não conseguir se despedir da pessoa que ama — ele explicou.

Aquela declaração fez com que eu voltasse a chorar. Eu não estava indo me despedir dele, ele ficará bem! Mas de qualquer forma, eu me limitei a agradecer ao homem. De uma forma ou de outra eu conseguiria chegar!