Dimitri destrancou a porta de seu apartamento, me fazendo agradecer mentalmente por ter enfim chegado. Nós embarcamos em Istambul no fim da manhã e tivemos um voo bem tranquilo, mas ao olhar pela janela do avião quando estávamos prestes a pousar, eu soube que não tinha me agasalhado o suficiente!

Cerca de uma hora e meia depois de desembarcar no aeroporto internacional de Pulkovo, passar por um pesadelo particular com a imigração e quase congelar pelo caminho, eu me senti feliz por ser recebida pelo calor do apartamento do meu namorado.

Dimitri fechou a porta atrás de mim enquanto eu absorvia cada detalhe de um lugar que eu conhecia apenas virtualmente. A sala era bem ampla para um apartamento, pintada em uma cor clara, os móveis eram em sua maioria retos e em tons de azul escuro e preto. O lugar não tinha muitos enfeites — ao contrário do meu apartamento que era repleto dos mais diversos souvenirs dos países que eu visitava — mas ainda assim, era impossível notar o bom gosto por trás de tudo, na parede oposta a porta de entrada estava uma grande janela, com a vista que eu invejei por tantas vezes.

Eu não acredito que estou aqui!

— O que você achou? — sua voz interrompeu minha contemplação.

— É enorme. É o dobro, ou até mesmo o triplo do meu loft — eu balbuciei.

Do lado esquerdo da sala era possível ver a cozinha integrada com uma sala de jantar através da porta aberta, do lado direito tinham duas portas fechadas que deviam ser onde ficavam os quartos.

— Me custou um bom dinheiro, mas eu gosto muito daqui — ele declarou com um pequeno sorriso de orgulho no rosto.

Pude ver em seu olhar o quanto ele gostava desse lugar e aquilo fez meu coração se apertar ao lembrar de nossa conversa em Istambul.

Eu o amo, sei disso, mas não consigo me imaginar mudando toda a minha vida por esse sentimento. E ele obviamente pensa o mesmo. Como nosso relacionamento pode dar certo assim?

— Algum problema? — Dimitri se aproximou, beijando meu rosto.

Eu me recrimirei mentalmente por estar com um pensamento tão negativo enquanto ele estava tão feliz com a minha presença, e de certa forma, eu também estava feliz por ter aceitado seu convite.

— Bom, provavelmente eu congelei no caminho até chegar aqui — decidi deixar meus anseios de lado e aproveitar minha estadia.

Sua risada preencheu o ambiente, antes dele envolver minha cintura, puxando meu corpo em direção ao dele. Eu fechei meus olhos, correspondendo seu beijo, calando de uma vez todas aquelas incertezas que gritavam em minha mente. Eu estava feliz e precisava aproveitar cada segundo daquele sentimento.

Levei minhas mãos até sua nuca, gemendo contra seus lábios quando suas mãos passaram a percorrer meu corpo antes que ele se afastasse minimamente.

— Eu sei exatamente o que você precisa.

Uma onda de excitação percorreu meu corpo diante da sua frase, mas para minha surpresa, ele se afastou.

— Fique aqui — Dimitri instruiu antes de desaparecer por uma das portas.

Eu abri a boca para contestar, mas decidi aguardar para descobrir o que ele estava planejando. Alguns minutos se passaram e ele não retornou, fazendo minha curiosidade aumentar.

— Dimitri? — Eu fui até a porta onde ele desapareceu antes, encontrando um quarto bem arrumado que seguia a mesma linha de design da sua sala.

O quarto estava vazio, mas o barulho vindo de uma das portas indicava onde ele estava. Para confirmar minha suspeita, ele apareceu na porta com uma expressão neutra.

— Me diz uma coisa, você prefere Jasmim ou Lavanda?

— O que?

— Jasmim ou Lavanda? — ele insistiu.

— O que você está aprontando?

— Apenas responda a pergunta.

— Lavanda — eu desisti de discutir.

Ele desapareceu de novo dentro do cômodo, me deixando para trás, eu respirei fundo, esperando que ele voltasse, quando estava prestes a ir até lá, Dimitri retornou apressado.

— Estou quase terminando, não se mexa — ele me instruiu, correndo em direção a cozinha.

— Dimitri!

Eu gritei quando ele passou correndo por mim mais uma vez com um acendedor nas mãos.

— Um minuto! — ele respondeu sem sequer interromper seu caminho.

Esse russo enlouqueceu!

Dimitri não demorou para retornar dessa vez, parecendo satisfeito com o resultado de o que quer que ele estivesse aprontando.

— Vamos — ele segurou minha mão, me levando em direção à porta.

— O que você fez? — eu o encarei desconfiada.

— Apenas preparei algo para você se aquecer — ele deu de ombros.

Eu observei um banheiro iluminado a luz de velas, A banheira estava cheia, com bastante espuma e um suave aroma de lavanda pairava no ar.

— Uau, Dimitri! Isso é incrível.

Ele começou a se livrar pouco a pouco das minhas peças de roupa, com um sorriso satisfeito no rosto.

— Bom, eu tenho tudo planejado para o resto do dia. Então vamos aproveitar — ele piscou para mim, começando a se livrar de suas próprias roupas enquanto eu prendia os cabelos.

Logo nós dois estávamos juntos dentro da banheira, eu estava acomodada entre as pernas de Dimitri, com a cabeça descansando em seu peitoral aproveitando toda a situação.

— Então, você disse que tem tudo planejado? — eu perguntei de olhos fechados.

— Sim, eu planejei tudo antes de ir para Istambul — ele beijou meu rosto.

Aquela informação me surpreendeu, eu virei meu rosto para encará-lo.

— Mesmo?

— Sim.

— E se eu não tivesse aceitado vir com você?

Eu achei graça de sua confiança, Ele tinha tanta certeza assim que eu o perdoaria e ainda aceitaria vir para a Rússia?

— Nesse caso eu voltaria para casa e passaria o dia sozinho assistindo filmes — ele deu de ombros.

— Deixa eu adivinhar, você assistiria um romance brega e comeria sorvete para curar seu coração partido — eu o provoquei, o fazendo rir.

— Claro que não, seria um filme com muitas explosões, tipo… Duro de matar — Ele garantiu.

— Ahh sim, algo muito másculo.

Dimitri aproveitou um momento de distração para me roubar um beijo, calando todas as piadas que eu ainda poderia ter sobre o assunto. Assim que ele se afastou eu me mantive com os olhos fechados e um sorriso bobo no rosto.

Meu namorado é maravilhoso. Não tem outro adjetivo para descrevê-lo.

— Então, me conte qual a nossa programação para hoje — eu pedi, retomando nossa posição anterior.

— Assim que você estiver bem aquecida, eu planejei um jantar romântico, então vamos pedir alguma coisa, e…

— Hey, você disse que cozinharia pelado pra mim — voltei a me virar para encará-lo.

— Blair, sobre isso, o mais próximo que eu sei fazer na cozinha é macarrão com cogumelos e smetana. E o processo é basicamente ferver a água, cozinhar o macarrão, colocar os cogumelos e tempero pronto — ele franziu o cenho.

Eu o encarei boquiaberta por um segundo, fingindo surpresa.

— Você me enganou, eu jurava que você sabia cozinhar.

— Você sabe? — ele ergueu uma sobrancelha.

— Eu sei ligar e pedir.

— Somos ótimos nisso então — Dimitri riu da minha resposta.

— Mas você prometeu cozinhar pelado para mim!

Ele ficou pensativo por um momento antes de encontrar uma solução.

— Bom, se você quiser, eu posso atender a porta pelado, mas não sei bem como essa recepção seria interpretada pelo entregador — ele devolveu com diversão.

Não pude evitar gargalhar diante daquela resposta, imaginando qual seria a reação do pobre entregador com uma recepção assim.

Nós aproveitamos bem o nosso tempo juntos e toda a programação feita por Dimitri. Ele pediu sushi e atendeu a porta devidamente vestido, para meu contentamento, já que foi uma mulher quem entregou a comida.

Nós estávamos acomodados em sua cama um pouco depois da meia noite, tínhamos assistido a queima de fogos promovida por um shopping center da região que decidiu antecipar em um dia a comemoração.

Eu inclinei meu rosto, descansando o queixo no peitoral de Dimitri, ele estava encarando o vazio com uma expressão tranquila, e logo um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, me deixando curiosa.

— O que foi?

— O que? — ele voltou a me encarar.

— Você está rindo sozinho — eu esclareci.

— Ahh sim, apenas estava pensando, quando o Mitchell me passou seu número eu não imaginava que me apaixonaria por você — ele explicou com um meio sorriso.

Meu coração se aqueceu diante daquela frase, calando de vez a voz de minha consciência, que gritava que nunca daríamos certo juntos.

— E o que você imaginava?

Eu me sentei, me virando de frente para ele.

— Eu imaginava que seria como todas as outras, mas depois de conversar com você eu soube que seria impossível.

— Como todas as outras? Isso quer dizer que você costuma namorar com comissárias? — eu ergui ambas as sobrancelhas, lhe lançando um olhar questionador.

Dimitri também se sentou na cama, parecendo achar graça da minha reação.

— Não, isso quer dizer que eu costumava me envolver com comissárias casualmente — ele me corrigiu.

— E você me conta isso? — o encarei incrédula.

— Qual o problema? Nós nem nos conhecíamos, ou você quer que eu minta para você?

— Bom, nessa questão sim! Eu sou sua namorada, prefiro não saber detalhes sórdidos da sua vida de solteiro, aliás, prefiro pensar que ela não existia! — eu tentei me manter séria, mas pela expressão em seu rosto, eu tinha falhado miseravelmente.

Ele colocou a mão em minha lombar, me puxando em sua direção.

— Sinto muito, vamos recomeçar. Eu não saí com absolutamente ninguém depois da Olga, fiquei sozinho por dois anos até que você apareceu e iluminou minha vida — ele ironizou.

Não pude deixar de me divertir com a sua reação, decidindo seguir por aquele caminho.

— Assim é melhor, apesar de que você podia ter deixado aquela salope rousse de fora.

— Salope rousse?

Eu me limitei a piscar para ele, recebendo em troca um riso contido. Foi quando minha mente se apegou a um detalhe.

— Espera, quando você disse que se envolvia com comissárias e me chamou para tomar um café, o que você esperava que fosse acontecer?

— O que você acha? Eu estava na seca há dois anos, lembra? — ele gargalhou, para minha indignação.

Eu peguei o travesseiro, o acertando na cabeça repetidamente enquanto ele continuava rindo.

Em um movimento rápido ele arrancou o travesseiro da minha mão, me jogando no colchão e me imobilizando com o peso de seu corpo antes de calar meus protestos com um beijo. Eu lutei para soltar meus braços, levando minhas mãos até sua nuca assim que me vi livre, aproveitando cada centímetro do seu corpo que estava prensando o meu.

— Saiba que você teve sorte, eu não me envolvo com pilotos — eu murmurei com os lábios ainda encostados aos dele.

— O que? — ele ergueu o corpo, se afastando para me observar melhor.

— Eu não costumo me relacionar com pilotos. Na verdade, eu procuro manter o máximo de distância possível.

Aquela declaração parece tê-lo surpreendido, ele me observava com o cenho franzido.

— E por que? — ele se sentou, parecendo curioso pela resposta.

— Bom, eu não quero ter a fama de dormir com meus superiores em busca de benefícios. Então me mantenho longe de Pilotos e comandantes — eu dei de ombros.

Dimitri ficou pensativo por alguns segundos antes de voltar a se manifestar.

— Eu nunca pensei nisso.

— Você não precisa pensar — voltei a me deitar ao seu lado.

— E por que você saiu comigo então?

— Nós não trabalhamos na mesma companhia, eu não vi nenhum conflito de interesses — eu expliquei.

Aquele comentário parece ter colocado fim no assunto e nós decidimos aproveitar o resto de nossa noite de maneira mais agradável.

No dia seguinte, Dimitri tentou me convencer a conhecer a cidade, mas eu me recusei a deixar o calor confortável que o aquecedor de seu apartamento proporcionava um minuto sequer antes da hora de ir para a cidade de seus pais.

Nós saímos perto das seis da tarde, eu passei boa parte do percurso em silêncio, apenas observando a paisagem coberta de gelo enquanto me sentia cada vez mais apreensiva com aquele encontro.

Eu aceitei mesmo vir para a Rússia apenas para conhecer a família do meu namorado? Onde eu estava com a cabeça?

— Você está calada. Qual o problema? — Dimitri me observou com o canto do olho.

— Tem certeza que eu não vou ser uma intrusa? É uma comemoração familiar — eu suspirei.

— Blair, você não é uma intrusa, é minha namorada — Ele garantiu.

— Eu sei, mas não é como se fossemos casados.

— Blair, para todos os efeitos, enquanto estivermos juntos e for possível, eu quero que você esteja onde eu estiver. Não me importo se somos casados ou não. Mas por favor, não toque no assunto "casamento" hoje, ou só sairemos daqui depois de assinar os papéis — Dimitri me lançou um rápido olhar.

Eu soltei um pequeno sorriso diante de seu comentário, acalmando um pouco minha ansiedade.

— Prometo me comportar se você for capaz de passar um segundo sem tentar colocar um anel no meu dedo — eu pisquei.

— Eu nunca te dei um anel, Blair. Não posso falar o mesmo de você — ele zombou.

— Você aceitou o anel, quer dizer que estamos noivos desde nosso primeiro encontro?

— Esse definitivamente vai entrar para a lista dos primeiros encontros mais estranhos que já tive.

Eu gargalhei com sua resposta, acalmando meus anseios, pelo menos pelos próximos trinta segundos.

— Será que vão gostar dos presentes?

— É claro que sim, você sempre escolhe os melhores presentes, lembra? — Dimitri me tranquilizou.

— Mas uma caixa de bombom não é nada original. Eu devia ter comprado aquele Narguilé pro seu pai — eu suspirei desanimada.

Meu sogro com certeza vai me achar sem graça com um presente desse.

— Blair, em primeiro lugar, aquele Narguilé era gigante, como você esperava trazê-lo? Em segundo lugar, meu pai não fuma, o que ele faria com um narguilé?

Eu fiz uma pequena careta com aquela resposta, eu também não fumo e tenho um de enfeite no meu apartamento. Qual o problema?

Eu voltei a me calar pelo resto do caminho, observando a paisagem branca pela neve, até que entramos em um bairro residencial.

A ansiedade voltou a me ameaçar quando Dimitri por fim estacionou na frente de um grande sobrado. As luzes estavam todas acesas e o interior parecia bem movimentado.

— Fique tranquila, Blair, tudo dará certo — ele entrelaçou nossos dedos, me obrigando a olhar em seus olhos.

Ele tem razão, eu estou parecendo uma adolescente. O que pode dar errado? Eu já conversei com a mãe dele, e além disso, ele não teve medo de conhecer a minha família.

Eu posso fazer isso!

— Eu estou bem. Não se preocupe — eu garanti com um sorriso.

Ele me deu um breve beijo antes de abrir a porta para desembarcar. Eu segui seu exemplo, carregando o rocambole de morango que compramos mais cedo, o ajudando a pegar as sacolas de presentes no porta malas.

— Nós chegamos tarde? Parece que já estão todos aí — eu questionei, caminhando com cuidado ao seu lado até a entrada da casa.

A última coisa que eu queria era escorregar e cair na frente da casa dos meus sogros.

— Não se preocupe, estão todos aí porque não temos convidados, no máximo a Kátia com meu irmão — Dimitri garantiu, destrancando a porta.

Eu senti meu coração falhar uma batida ao entrar na sala da casa e encontrar toda a família reunida rindo em uma conversa animada. Todos se calaram ao nos ver, e pareciam curiosos sobre mim, mas meu olhar estava fixo em Olga que estava sentada em uma poltrona antiga com uma caneca em mãos, parecendo extremamente a vontade em meio a família.

Dimitri parecia tão surpreso quanto eu, mas se recuperou mais depressa, indo em direção a sua mãe, que tinha se levantado para nos receber.

Eu o segui de maneira mecânica, sem conseguir desgrudar o olhar da mulher, que retribuía de maneira satisfeita.

Dimitri sussurrou alguma coisa em russo para sua mãe, que retribuiu da mesma maneira, com um sorriso estampado no rosto, antes de se virar para mim.

— Blair, é um prazer finalmente conhecê-la. Venha, eu vou te apresentar a todos enquanto o Dimulya coloca esses pacotes ali na árvore — ela indicou uma árvore de natal montada no canto perto da lareira que estava repleto de pacotes.

Eu pensei que não teria uma árvore!

Dimitri murmurou mais alguma coisa em um tom quase inaudível, mas foi prontamente ignorado por sua mãe.

— Blair, esse é o Yaroslav, o meu marido. Minha filha Masha, o Yuri e a noiva dele, a Kátia.

Ela foi me guiando de um a um, me apresentando, quando chegou na frente da ex do Dimitri, ela hesitou por um segundo, o que foi o suficiente para Olga tomar a dianteira.

— Blair, é tão bom te conhecer pessoalmente — ela me ofereceu um sorriso dissimulado.

Ótimo vadia, se é desse jeito que você quer jogar, eu posso entrar na sua!

— Olga, o prazer é meu. Eu não esperava te ver aqui hoje — eu coloquei um sorriso no rosto para respondê-la.

Eu senti o olhar da irmã de Dimitri sobre mim, e logo ele se aproximou.

— Bom, essa é uma comemoração familiar e eu sou praticamente da família, o Dimulya não te falou? — ela devolveu.

É claro que você se acha da família!

— Ahh sim, Dimitri me explicou sobre a importância do ano novo para vocês. Mas me diz, cadê a sua família?

Aquela pergunta parece tê-la deixado sem fala, e por um momento um clima estranho caiu sobre todos enquanto eu mantinha uma expressão inocente no rosto.

— Eu não queria vir sozinha, então a convidei — Kátia se manifestou.

— Mas seus pais ficaram sozinhos? — eu olhei para a garota com uma expressão confusa.

Olga se limitou a forçar um sorriso, falando algo em russo para Dimitri, que a respondeu da mesma maneira.

— Blair, você ainda está segurando isso? Vem, eu vou te mostrar onde colocar — Joanne decidiu interferir, indicando o rocambole que eu ainda carregava.

Ela me levou até a sala de jantar, onde uma mesa já estava preparada com vários tipos de comida.

— Eu estou muito feliz que você tenha vindo — ela começou.

— Eu também estou feliz de conhecê-los — eu garanti, me sentindo mais à vontade apenas em sua presença.

— Eu sinto muito por esse mal entendido, nós não sabíamos que a Olga viria — Joanne suplicou.

Eu imagino a saia justa que aquela mulher estava metida. Um filho decide trazer a cunhada, que é ex-namorada do outro filho, no mesmo dia em que este decidiu apresentar a nova namorada a família.

— Não se preocupe com isso. Como ela disse, ela é praticamente da família.

— Você sabe quem ela é, certo?

— Sim, mas para mim a única coisa que importa é quem o Dimitri é. Então não se preocupe, a presença dela não vai me afetar — eu sorri, apesar de aquela não ser a verdade completa.

— Você é uma boa garota, Blair. Eu estou feliz do meu filho ter te conhecido — Ela garantiu antes de virar para a porta — Você pode entrar de uma vez, Dimulya.

Ele entrou na sala de jantar sem o menor constrangimento por ter sido pego espiando.

— Eu não te ensinei que é feio ouvir atrás da porta? — Ela o encarou com indulgência.

— Eu posso falar um pouco com a Blair? — ele segurou ambas as mãos de sua mãe, as beijando.

Ela se limitou a sorrir e nos deixar sozinhos ali. Ele esperou até que a mãe se afastasse antes de começar a falar em turco. Apesar de ainda não ser fluente, ele estava evoluindo muito bem, e nós dois conseguíamos nos comunicar naquele idioma.

— Eu sinto muito por isso, eu não fazia ideia de que ela viria — ele me abraçou, beijando o topo da minha cabeça.

— Sua mãe acabou de me falar a mesma coisa, então acho que ela decidiu surpreender a todos — eu o empurrei delicadamente para poder olhar em seus olhos.

— Apenas lembre-se que eu amo você e não deixe ela te afetar em nada — ele pediu.

— Me afetar? Comandante, isso não vai acontecer — eu ri em resposta.

— Vamos, eu quero que você conheça a todos — ele me puxou de volta para a sala.

Todos estavam presos em uma conversa animada em russo, e Dimitri não demorou a se juntar à conversa com um sorriso no rosto. O único detalhe que ele esqueceu, era que eu não falava uma única palavra de russo.

Eu me sentei no sofá ao seu lado, forçando um sorriso como se estivesse entendendo cada palavra dita. Eu tentava compreender o teor da conversa, me limitando a sorrir cada vez que todos riam, mas foi impossível não me sentir deslocada, mas para minha sorte, minha cunhada veio em meu socorro, interrompendo uma fala de Olga.

— Sabe, nós poderíamos ser um pouco mais educados. Temos visita hoje e pela cara dela, ela não está entendendo uma única palavra do que está sendo dito — Masha sorriu, atraindo a atenção de Dimitri.

— Blair, eu sinto muito. Você deve estar perdida — ele segurou minha mão.

Joanne veio da cozinha com duas canecas nas mãos, oferecendo para Dimitri e eu, interrompendo o clima estranho que tinha tomado conta do ambiente.

— Aqui, um pouco de Kompot para vocês, eu espero que você goste, Blair. O Dimulya adora — Ela sorriu antes de chamar o marido para ajudá-la em algo na cozinha.

— Obrigada, Mama — Dimitri piscou, antes de sorver um pouco do líquido.

— Eu não sabia que a Blair não falava Russo, sinto muito — Katia declarou.

— Eu falo algumas línguas, mas russo não é uma delas — eu forcei um sorriso, observando o líquido avermelhado com pequenas frutas flutuando em minha caneca.

Isso é algum tipo de chá?

— Mesmo? E quais línguas você fala? — Masha demonstrou interesse.

— Sou fluente em Espanhol, inglês e Turco.

— E está aprendendo francês — Dimitri completou.

Eu beberiquei um pouco daquele líquido, me segurando para não cuspir de volta na xícara. Essa coisa é horrível!

— Uau, isso é incrível — Kátia sorriu, recebendo um olhar atravessado da irmã.

— O Dimulya também fala muitas línguas, isso é por causa da profissão deles — Yuri explicou.

Droga, eu vou ter que beber isso e fingir que gostei!

— E você namora um Russo e não pensa em aprender a língua dele? — Olga quebrou minha divagação sobre aquela bebida horrorosa.

Dimitri murmurou algo em sua língua materna para a mulher, que respondeu da mesma maneira, me irritando.

— Quando conheci Dimitri eu já estava aprendendo francês, não é muito inteligente tentar aprender várias línguas de uma vez, e Francês é uma língua tão bonita — Eu expliquei.

— Eu acho francês muito sexy — Masha confidenciou, arrancando risos dos irmãos.

— Oui, Mon chéri. Seu irmão também pensa assim — eu zombei, fazendo meu namorado rir.

Eu senti Olga me fuzilando com o olhar, pouco me importando com aquilo.

— Eu não vejo nada de especial no francês — ela devolveu com aquele sorriso típico em seu rosto.

— O especial não é a língua, e sim, quem fala — Dimitri declarou, beijando minha cabeça ao passar um braço por meus ombros.

— Mas é uma pena você não gostar de francês, você conhece a expressão "tu es une salope rousse"? — eu encarei a mulher com uma expressão admirada.

Eu senti Dimitri apertar ligeiramente meu ombro, mas o ignorei.

— Não, eu não conheço.

— É uma pena, porque te descreve muito bem — eu respondi ainda sorrindo.

Masha sufocou uma risada em seu lugar, recebendo um olhar atravessado da mulher.

— Eu espero que isso seja um elogio — Kátia ponderou desconfiada.

Antes que eu pudesse responder, os pais de Dimitri nos interromperam, vindo da sala de jantar nos chamando para comer.

— Eu sei que isso não foi um elogio — Dimitri sussurrou em turco ao meu lado enquanto seguíamos os outros.

— Eu nunca disse que era — Eu devolvi também em turco.

Aquele assunto foi esquecido quando nos sentamos à mesa. O jantar foi surpreendentemente agradável, por um momento, eu cheguei a pensar que nossa noite estava salva, até mesmo Olga não estava me incomodando tanto, apesar de constantemente ela conversar em russo com todos, me excluindo da conversa, mas depois da ceia, todos nos juntamos na sala.

— Vocês precisavam ver a cara da Blair cada vez que a atriz sentava no meu colo — Dimitri gargalhou enquanto narrava nossa peculiar aventura em Zurique.

— Eu demorei dias para me livrar de toda a purpurina que jogaram em mim.

Eu declarei com um beicinho, arrancando risos de todos.

— Dimitri nunca me contou sobre esse lado das cidades que ele visita — O pai dele comentou.

— Sim, ele sempre faz tudo parecer tão culto e tradicional — Masha zombou.

— Aquela noite ele queria me levar à ópera, mas eu decidi surpreendê-lo com um programa novo — eu me deitei em seu ombro, me sentindo feliz por estar ali em sua companhia.

— Ela sempre me surpreende com seus planos, é como se eu conhecesse lugares completamente diferentes quando ela decide fazer nossa programação — Dimitri me observou com devoção.

Naquele momento nenhum dos meus anseios anteriores importavam, era eu e ele e estávamos felizes, Isso era o que contava.

— Então, como isso vai funcionar? — Olga nos interrompeu.

— Como? — eu franzi o cenho.

— Você já decidiu quando se muda para a Rússia?

— Bom, eu…

— Porque o Dimulya nunca vai deixar St Petersburg, ele adora cada detalhe daquela cidade, principalmente o apartamento dele — ela me encarou com um sorriso satisfeito ao ver minha expressão.

Ele se moveu ao meu lado parecendo desconfortável com o assunto, fazendo o clima na sala voltar a ter o mesmo peso desagradável de antes.

— O apartamento dele é muito bonito, não é à toa que ele gosta tanto do lugar — eu forcei um sorriso.

— É muito mais do que isso, Blair. Aquele apartamento era o sonho dele. Muitas vezes ele passava pelo prédio quando ainda estava sendo construído e falava o quanto gostaria de viver ali — ela narrou — e depois juntou cada copek que ganhava para poder comprá-lo. Eu nunca o vi tão feliz quanto no dia que recebeu a chave.

Meu coração se apertou diante da sua frase, afinal aquela era a realidade que me cercava. Eu estava tentando fugir, mas ela sempre nos encontraria. Nós dois não temos o menor futuro juntos!

Eu tentei manter o sorriso em meu rosto, mas a expressão vitoriosa da ex do meu namorado mostrava que eu tinha falhado. Ela sabia que tinha tocado em uma ferida.

— Isso não é importante, nós estamos juntos a pouco tempo para sequer pensar nesse assunto — Dimitri murmurou ao meu lado.

Olga respondeu algo em russo, e ele respondeu de maneira ríspida, mas antes que o clima piorasse, Masha veio em nosso socorro.

— Hey, logo dará meia noite, vamos abrir os presentes!

— Sim, vamos fazer isso — Joanne concordou, se levantando para pegar os embrulhos e trazer até a mesa de centro perto dos sofás.

Apesar das palavras de Olga ainda me perturbarem, decidi procurar esquecer aquilo e me distrair o máximo possível, Dimitri disse que tinha um presente para mim e eu estava curiosa.

— Blair, Dimulya nos avisou em cima da hora que você viria, mas eu consegui encontrar algo, espero que você goste — Masha me estendeu um embrulho.

— Obrigada — eu sorri em resposta, abrindo o embrulho.

Eu observei as cores vibrantes da paleta de maquiagem que minha cunhada tinha me dado com um sorriso no rosto. Eu não conhecia a marca, que parecia ser nacional, mas torcia para que fosse boa.

— Você precisa ver o que a Blair comprou para você, Masha. Você vai adorar — Dimitri me incentivou a entregar o presente para sua irmã.

Eu entreguei o pacote a ela, esperando ansiosa enquanto ela o desembrulhava, retirando o conteúdo com uma expressão confusa.

— Uau, Blair. Isso é…

— Uzhas¹, é uma mão? — Kátia completou chocada. (¹que horror)

— Eu comprei no Grande Bazar, é uma mão Hamsá. É um amuleto de proteção contra inveja e mau olhado. E essa versão é ainda melhor, porque tem um nazar na palma, então a proteção aumenta — eu expliquei.

— Ahh, isso foi…

— Você não gostou? O Dimitri garantiu que você precisava disso, porque é bonita e brilhante, então vai ter muita gente com inveja — eu suspirei decepcionada.

Que droga, eu já comecei com o pé esquerdo!

Mas Masha logo olhou para o irmão com uma expressão divertida.

— Ohh Dimulya, eu não sabia que você achava tudo isso de mim. Eu adorei, Blair.

— Na verdade, eu só queria fazer você ganhar o presente mais estranho que ela pudesse encontrar — Dimitri provocou a irmã.

Ele o que!?

— Bom, depois que ela explicou, não ficou tão estranho — Yuri garantiu.

— Diga isso depois que ela trouxer tamancos holandeses gigantes de presente de casamento para vocês — ele me provocou.

— Hey, é um símbolo de boa sorte para o casal — Eu murmurei.

— Você inventou isso, Blair.

— Ignore-o Blair. Isso foi muito atencioso — Joanne garantiu, me entregando um pacote — esse eu comprei para você, como a Kátia e o Yuri vão se casar, eu comprei um pra ela e pensei que talvez pudesse ser útil para você também.

Eu estranhei aquela conversa sobre casamento, mas aceitei o embrulho, o abrindo de imediato, congelando ao alisar uma renda branca, bem enfeitada.

ELA ME DEU UM VESTIDO DE NOIVA?

— Mãe, o que é isso? — Dimitri parece ter pensado o mesmo que eu.

— Uma toalha de mesa. É sempre bom ter uma para jantares especiais — ela explicou.

Isso é uma toalha? Eu nunca vou conseguir usar para esse fim!

— Joanne, isso é muito bonito. Obrigada — eu garanti.

Nós passamos os próximos minutos trocando presentes, e mais uma vez eu me enganei pensando que agora tudo correria tranquilamente.

— Sinto muito, Olga. Eu não sabia que você estaria aqui, então não comprei nada para você — Eu forcei um sorriso quando finalmente entreguei todos os presentes.

— Não tem problema, eu também não comprei nada para você — ela devolveu.

— Agora que todos aproveitaram a paixão exagerada da Blair por compras, eu tenho algo especial — Dimitri nos interrompeu, chamando minha atenção.

Ele segurava uma sacola da Swarovski que eu não tinha visto quando viemos mais cedo.

— Uau, alguém caprichou no presente — Masha provocou o irmão.

— Eu sei o quanto você gosta de presentes que tem uma história, mas eu queria te dar algo novo, então pensei em unir os dois.

Ele explicou, retirando de dentro da sacola um ovo cor de vinho, incrustado com cristais que tinha uma base dourada.

— Isso é… — Olga balbuciou.

— Uma réplica, obviamente. Eu encontrei esse ovo Fabergé em um antiquário e pensei que seria uma boa lembrança de St Petersburg — ele explicou, me entregando.

Eu analisei cada detalhe daquele enfeite completamente fascinada, girando em minhas mãos para não perder nada. Ignorando a reação de todos ao meu redor.

— Dimitri, é lindo.

— Você precisa abrir para ter o presente completo — Ele indicou um pequeno fecho no meio do ovo.

Eu passei a ponta da unha ali, abrindo sem dificuldade alguma. Meu olhar se prendeu em um pequeno floco de neve feito de cristal. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa ele pegou a corrente de prata e ergueu diante do meu rosto.

— Eu pensei que se eu vou ter a areia rosa para me lembrar de você, você também poderia ter algo para lembrar de mim — ele explicou.

— Dimulya, coloca nela — Masha insistiu, atraindo nossa atenção.

Dimitri ficou atrás de mim, afastando meu cabelo que estava solto, colocando o colar no meu pescoço enquanto eu permanecia com um sorriso bobo no rosto. Masha tirou uma foto nossa nessa posição, garantindo que me enviaria em seguida.

Eu não perdi tempo em me virar, enlaçando seu pescoço antes de beijá-lo.

— Eu amo você — eu sussurrei com os lábios ainda encostados nos dele.

Eu me afastei dele e Masha e Kátia se juntaram para ver o colar, enquanto Dimitri nos observava com um sorriso satisfeito no rosto. No fim, tudo tinha dado certo, nós estávamos bem e nada iria estragar isso.

— Blair, você pode me considerar invejosa, mas eu vou intimar o meu namorado a me comprar um igual — Masha me avisou, me fazendo rir.

— É muito bonito — Kátia concordou.

Tudo estava perfeito. Perfeito demais!

— Eu também tenho um presente — Olga chamou a atenção de todos, fazendo com que eu franzisse o cenho — Eu comprei algo para você, Dimulya.

— O que? — eu a encarei chocada.

Ela só pode estar brincando!

— Você não é uma daquelas garotas controladoras que não deixa o namorado receber presentes de amigas, não é, Blair? — ela sorriu ao entregar uma caixa para Dimitri, que a aceitou instintivamente.

Todos na sala pareciam tão chocados quanto eu, mas tentei me recuperar depressa.

— Eu não tenho que deixar nada, eu sou a namorada e não a dona dele — eu devolvi com rispidez.

— Perfeito — Seu sorriso se alargou.

— Gospodi — Eu ouvi Masha sussurrar em russo para si mesma, mas meu olhar estava fixo em Dimitri. Ele abriu a caixa com cuidado, tirando um belo relógio de dentro.

Um belo relógio que seria perfeito para acertar a cara da vadia que o comprou!

— Você se lembra? É igual aquele que você gostou quando viajamos para a Grécia juntos, eu pedi para gravar algo atrás — ela se aproximou dele, alisando seu braço enquanto pegava o relógio de sua mão, o virando para mostrar alguma inscrição em russo.

Minha respiração ficou mais pesada com aquele gesto, eu poderia voar no pescoço dela ali mesmo, e…

— Olga, eu acho…

— Eu não posso aceitar — Dimitri interrompeu a fala de sua mãe, devolvendo a caixa para ela enquanto se afastava.

A raiva que eu sentia martelava com força em meu interior, nublando minha visão. Tudo bem, ele tinha recusado, mas isso não mudava a atitude dela!

— Como não? Sua namorada já disse que não se importa, então você pode aceitar — Ela insistiu, colocando a caixa em suas mãos.

Eu vou matar essa vadia!

Yaroslav começou a falar algo em russo para os dois, mas Dimitri o ignorou.

— Tudo bem, eu posso aceitar, mas eu não quero — Dimitri foi enfático ao devolver a caixa mais uma vez.

Parte de mim queria fazer ela engolir aquela caixa inteira, mas outra parte não queria arrumar confusão na casa dos meus sogros logo em minha primeira visita.

Uma discussão em russo começou entre a família, enquanto eu sentia meus olhos começarem a marejar diante da impotência que eu sentia diante da situação. Eu não devia ter aceitado vir!

— Blair — Masha chamou minha atenção.

— Eu preciso ir ao banheiro — eu pisquei para afastar as lágrimas.

Eu nunca daria a ela a chance de me ver chorar.

Masha indicou que eu a seguisse, nós passamos pela sala de jantar e subimos uma escada para o segundo andar. Ela indicou a porta de um grande banheiro, e eu imediatamente me tranquei ali, deixando as lágrimas saírem em silêncio ao me ver finalmente sozinha. Eu chorava por tudo, frustração, ansiedade e principalmente por raiva de tudo o que aquela mulher estava fazendo naquela noite.

Eu toquei o colar que Dimitri me deu momentos atrás, pensando em toda a bagunça que tinha tomado conta da minha vida sentimental. Desde quando me tornei tão estúpida a ponto de aceitar uma situação dessas em silêncio?

Um pequeno soluço escapou de meus lábios, e eu logo tratei de cobrir minha boca, tentando calar qualquer outro som que pudesse surgir.

— Blair, eu posso entrar? — Masha bateu na porta.

— Só um minuto — eu respirei fundo, limpando a maquiagem borrada com um papel para tentar disfarçar meu choro.

Eu destranquei a porta, deixando minha cunhada entrar no banheiro. Ela me mediu por um momento antes de se manifestar.

— Eu sinto muito por tudo o que aconteceu — Ela suspirou.

— Eu estou bem, eu…

— Sei que a gente se conheceu hoje, mas eu queria que você confiasse em mim.

Eu desviei o olhar, respirando fundo para acalmar meus anseios.

— Você provavelmente não quer ouvir a loucura que está na minha mente agora. Eu estou…

— Surtando de vontade de matar aquela "Vadia Ruiva"? — Masha fez aspas com os dedos, me fazendo arregalar os olhos.

Ela me entendeu?

— Quando o assunto começou, eu ativei o microfone do meu tradutor. Fica a dica para quando a família sem noção do seu namorado começar a falar em russo do seu lado — ela zombou.

Ótima dica, mas aposto que se eu entendesse metade do que aquela vadia falou a noite inteira, eu não me controlaria tanto.

— Você me conheceu hoje e já deve estar me achando uma surtada ciumenta.

— Surtada? Se eu tivesse passado por metade do que você aguentou hoje, nós provavelmente estaríamos todos em uma delegacia agora. A Olga ultrapassou todos os limites — ela garantiu, se sentado à borda da banheira

Eu me senti um pouco aliviada ao ouvir aquela declaração. Pelo menos eu não queimei o meu filme com todos da família!

— Eu não sei qual é o meu problema.

— O que você quer dizer?

— Seu irmão e eu, nosso relacionamento não tem futuro, nós moramos em continentes diferentes, ele tem uma ex que com certeza o quer de volta e praticamente faz parte da família e sempre vai estar presente na vida dele. Todos os sinais estão aqui, e mesmo assim, eu não consigo me afastar!

Eu me sentei ao seu lado, colocando pra fora tudo o que estava dentro de mim, me sufocando.

— Bom, isso tem uma explicação óbvia, você está apaixonada. E não é a única, faz muito tempo que não vejo meu irmão tão feliz.

E faz muito tempo que eu não sou tão feliz.

— A Olga não gosta dele, ela não se importava nem um pouco com meu irmão nesses dois anos que estão separados. Ela apenas não quer que ele a supere. Por isso decidiu ficar em cima assim que soube sobre você.

Nós ficamos em silêncio enquanto eu absorvia o que minha cunhada tinha acabado de dizer.

— Eu sei que você provavelmente quer se esconder pelo resto da noite, mas é melhor a gente descer — ela suspirou, se levantando.

Eu concordei antes de me levantar, a seguindo para fora do banheiro. Nós nos encontramos com Dimitri nas escadas enquanto ele nos procurava, Masha acenou para o irmão, nos deixando para trás enquanto corria escada abaixo.

— Você está bem? — ele acariciou o meu rosto.

— Sim, não se preocupe — eu garanti.

— Depois de tudo o que aconteceu? Impossível — ele beijou meu rosto — minha mãe ficou preocupada quando não te encontramos.

— Eu fiquei chateada, mas eu conversei com a sua irmã, e ela fez eu me sentir melhor — eu forcei um pequeno sorriso.

Minha resposta parece tê-lo tranquilizado.

— Ela geralmente tem esse efeito nas pessoas. Vamos descer?

Eu respirei fundo, pensando em como seria voltar para junto daquela mulher.

— Não se preocupe, meu irmão achou melhor levar a Kátia e a irmã para casa — ele parece ter adivinhado meus anseios.

— Ótimo — meu sorriso foi mais natural.

Nós descemos e Dimitri me levou até a cozinha, onde sua mãe estava colocando as louças sujas na máquina de lavar e seu pai estava sentado à mesa comendo os bombons que eu dei a ele mais cedo, presos em uma conversa em russo.

— Eu a encontrei, ela estava com a Masha — Dimitri chamou a atenção dos dois.

— Ahh, Blair. Eu sinto muito pelo o que aconteceu — Joanne me lançou um olhar sentido.

— Sim, ninguém esperava que as coisas sairiam do controle daquela maneira — Yaroslav garantiu.

Eu me senti mal pelos dois, era para ser uma noite especial e eu acabei transformando em um pesadelo de uma forma ou de outra.

— Me desculpem por ter arruinado a noite de vocês, se eu soubesse…

— Ohh não, querida. Você não arruinou nada — Joanne garantiu.

— Sim, a única pessoa que deve desculpas pelo comportamento essa noite já não está mais aqui, então vamos esquecer o assunto — meu sogro endossou — vamos nos concentrar nesses chocolates, garota, se você quiser a minha benção vai ter que me comprar um desses sempre que vier nos visitar.

Não pude evitar sorrir, me sentindo satisfeita por ter me dado bem com a família dele, apesar de tudo o que aconteceu.

Masha gritou algo em russo da sala, atraindo a atenção de todos.

— Vamos — Dimitri indicou com um sorriso.

— Onde?

— O discurso do Putin começou, vamos ver — ele explicou.

— Discurso?

Eu chequei o horário, faltavam três minutos para meia noite.

— Sim, ele sempre faz um discurso desejando feliz ano novo para todos — Dimitri se sentou com toda a família, pronto para assistir.

Isso é sério? É assim que eu vou passar a virada do ano? Assistindo o Putin discursar?

Eu devo estar sendo punida por algo! Não tem outra explicação!