Escalas e Destinos - A apaixonante vida de Blair
20 Capitulo 20 - Singapura

Eu estava arrumando meu apartamento depois de retornar de minhas férias em Istambul. Após passar o ano novo com Dimitri, eu fiquei mais uma semana com meus pais antes de voltar para Newark. Peguei o ovo que Dimitri me deu, suspirando diante da lembrança do exato momento em que o ganhei, pelo menos antes daquela mulher estragar tudo.
Eu suspirei, o colocando na mesa de cabeceira ao lado da minha cama. Uma notificação chegou ao meu celular, me distraindo por um momento.
"Você precisa vir aqui agora"
Era o que dizia a mensagem da Abby. Com o cenho franzido eu me levantei, ela deveria estar ocupada com a mudança do Noah para seu loft. O casamento dela seria em duas semanas, mas como o contrato de aluguel dele venceria antes disso, eles acharam melhor adiantar a mudança.
"Algum problema?"
"Eu ganhei meu primeiro presente de casamento, se arruma e vem ver!"
Eu sorri com sua empolgação, pensando se algum dia eu me sentiria daquela maneira. Ultimamente eu vinha ignorando todos os sentimentos negativos sobre meu relacionamento com Dimitri, eu poderia me dar ao luxo apenas de aproveitar.
"O que é?"
"Se arruma e vem, nós pedimos pizza"
Eu revirei meus olhos, decidida a parar de discutir. Penteei meus cabelos e vesti um suéter confortável e uma calça de malha antes de sair para encontrar minha vizinha.
Minha surpresa foi completa ao passar pela porta aberta e encontrar Joe Miller parado no meio da sala.
Eu não o via desde a ação de graças, sabia que ele mantinha contato com todos do grupo, mas não sabia que ele estava na cidade.
— Blair, vem ver — Abby acenou animada.
— Blair, é um prazer revê-la — Joe piscou.
Eu abracei o rapaz, me sentindo contente por encontrá-lo. Apesar de ter passado pouco tempo em sua companhia, eu gostei dele.
— Eu não sabia que estava na cidade.
— A partir de agora, eu sempre estarei na cidade — Ele gracejou.
— Ele se mudou no início da semana — Noah desceu a escada do mezanino.
Parece que eu não estava tão bem informada sobre o que acontecia entre meus amigos.
— Claire me ajudou a conseguir um emprego em uma galeria de arte aqui — ele explicou — eu ainda não sou um grande artista, mas é o primeiro passo para isso.
Aquela informação me encheu de satisfação, então ele enfim conseguiu se livrar daquela entidade maligna que é o pai dele e conseguiu um emprego!
— Ele é um grande artista e o quadro que ele me deu prova isso — Abby exclamou.
— Então você foi o responsável pelo grande presente? — eu o encarei.
Ele piscou para mim, indicando uma pintura abstrata, ou pelo menos eu pensei que era em um primeiro momento, mas olhando bem, eu pude identificar uma paisagem em meio a tantas manchas, me fascinando.
— Uau, Miller! Ficou linda!
— Foi o melhor presente que ganhei até agora.
— Esse foi o único presente que a gente ganhou até agora, querida — Noah avisou, me fazendo rir.
— Eu vou pendurar naquela parede — Abby ignorou o futuro marido.
Eu olhei em volta, tentando me encontrar em meio a tanta bagunça causada pela mudança.
— Vocês falaram que iam pedir pizza, vão comer aqui?
— Eu sei, está meio bagunçado — Abby fez uma careta.
— Vamos, podemos comer no meu loft — eu avisei.
Algum tempo depois estávamos reunidos em minha sala, conversando enquanto comíamos.
— Eu quero um quadro especial, para colocar naquela parede, Miller — eu avisei o rapaz, apontando uma parede vazia em frente ao sofá.
— Seu desejo é uma ordem, docinho. Eu sei exatamente o que fazer para você — ele gracejou.
— Docinho? — eu o encarei.
— Aposto que o Voitovich adoraria saber sobre esse novo apelido — Noah zombou.
— Me conta como foi o ano novo na Rússia — Abby pediu, ignorando os dois rapazes.
— Você foi para a Rússia? — Joe me encarou.
— Sim.
— Eu tenho duas coisas a te perguntar. Quanto tempo durou o discurso do Putin deste ano e a tia Joanne te deu Kompot?
Eu gargalhei antes de responder, é claro que ele sabia bem o que eu tive que aguentar, pelo menos em partes.
— O ano novo foi comemorado oficialmente meia noite e dez, e aquela bebida foi a pior coisa que eu já provei!
Foi sua vez de gargalhar com a minha resposta, aparentemente nós dois tínhamos opiniões similares.
— Não deixe meu primo descobrir isso. Eu quase fui expulso da família no dia que falei que aquilo tinha gosto de tristeza — ele me contou, arrancando risos de todos.
— Essa é uma ótima definição.
— Não pode ser tão ruim — Abby nos provocou.
— Essa nem foi a pior parte da minha noite — eu suspirei antes de começar a relatar tudo o que aconteceu.
As reações variaram bastante enquanto contei tudo em detalhes, desde que cheguei a casa dos Voitovich.
— Ela fez isso no meio de todo mundo? — Abby me encarou chocada.
— Como se fosse a coisa mais natural do universo!
— Você deve gostar mesmo desse cara, eu já vi você estourar por muito menos — Noah declarou.
— Uau, eu nunca imaginei que chegaria a isso, ela nem olhava pra ele depois que se separaram — Joe comentou.
— Como eles eram como um casal? — eu decidi matar minha curiosidade.
Joe pensou um pouco antes de me responder.
— Se você espera que eu diga que eles eram um terror e ficaram melhores separados, vai se decepcionar. Eles eram aquele tipo de casal perfeito onde todos se inspiram. Foi um grande choque quando se separaram — ele relatou.
Como um casal modelo passa a não se suportar em tão pouco tempo? Algo grave deve ter acontecido.
— E o que aconteceu? — Abby perguntou.
— Ninguém sabe ao certo. Dimitri nunca contou para ninguém, nem mesmo quando Olga falou para todos que ele era um maldito egoísta que só se importava com o trabalho.
Aquilo não parecia em nada com o Dimitri que eu conhecia!
— Acho que não importa, a grande questão é quando vocês dois vão se ver de novo? — Noah decidiu encerrar o assunto.
— Na próxima semana vamos para Singapura juntos.
— Singapura? Você não costuma ir para a Ásia — Abby comentou.
Aquilo era verdade, eu não sabia falar nada de nenhuma língua asiática, então acabava não visitando nenhum país da Ásia.
— Dimitri foi convidado para a festa de aniversário de seu antigo mentor, ele decidiu me apresentar a seus amigos, então eu consegui trocar minha escala com alguns favores.
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Eu observei a arquitetura singular da cidade através da janela do avião enquanto sobrevoavamos Singapura. Eu me sentia encantada com cada detalhe daquela cidade que parecia ser diferente de todas as que eu já visitei. Eu não via a hora de conhecer cada canto daquele lugar e espero que Dimitri tenha reservado um tempo para isso.
— É a sua primeira vez? — Sue, uma das comissárias que fazia parte da equipe de bordo, puxou assunto ao me ver admirando a paisagem através da pequena janela.
— Sim, e estou achando incrível sem sequer pousar.
—Espere até conhecer o aeroporto — ela piscou.
Eu sabia bem do que ela estava falando e me sentia ansiosa para pousar. O aeroporto Changi de Singapura era famoso por seu luxo e singularidade, permanecendo como o primeiro na lista de melhores aeroportos do mundo.
Eu chequei a hora de acordo com o fuso horário local, três horas da manhã em um vôo de dezoito horas. Eu precisava urgente de uma boa cama.
Dimitri também havia embarcado na noite anterior, com a diferença que ele chegou a Singapura horas antes.
— Eu vou anunciar os procedimentos de pouso — Sue avisou.
Eu acenei com a cabeça em entendimento, me sentindo ansiosa pelos próximos três dias que passaria com Dimitri nesse lugar incrível.
Assim que desembarcamos, eu olhei em volta encantada, aquele era sem dúvida o aeroporto mais bonito que eu já havia visitado, tinha muita vegetação e até mesmo uma cascata de água ao centro do saguão, me fazendo suspirar. Minha viagem já tinha valido a pena só de conhecer aquele lugar. acompanhei a tripulação até o hotel onde nos hospedaremos, eu sequer me dei ao trabalho de ligar meu celular, verificando as mensagens e chamadas perdidas apenas no fim da manhã seguinte, quando despertei.
Com um sorriso no rosto, eu abri a mensagem de Dimitri que me pedia para avisá-lo quando acordasse. Eu não demorei em ligar para meu namorado, sendo atendida no segundo toque. Dimitri surgiu do outro lado da tela bem arrumado, já fora do seu quarto.
— Pensei que não acordaria mais.
— Eu fui dormir às quatro da manhã depois de ficar em um avião por 18h, mereci dormir até tarde — eu bocejei me levantando da cama depois de passar os dedos pelo cabelo.
— Sabe o que você merece? Um bom café da manhã antes de visitar os melhores pontos da cidade — ele sugeriu.
— Eu vou ter um guia particular para esse passeio? — eu especulei, caminhando até o armário, onde tinha guardado minha mala na noite anterior.
— Estou no quarto 520, pode trazer suas coisas — ele informou antes de desligar.
Nós dois estávamos hospedados no mesmo hotel, e apenas o horário inoportuno que cheguei ontem me impediu de seguir direto para o quarto dele.
Após me vestir para o clima quente e úmido de Singapura, eu peguei minha mala e a bolsa e levei até o quarto indicado. Eu bati na porta, e mal tive tempo de registrar o que estava acontecendo quando Dimitri abriu a porta, me envolvendo pela cintura e me puxando para dentro do quarto.
Em um momento me vi prensada entre seu corpo e a porta fechada atrás de mim. Larguei a bolsa no chão, levando minhas mãos até os cabelos de Dimitri, que me prendia em um beijo delicioso enquanto corria suas mãos por meu corpo.
— Eu senti sua falta — ele se afastou um pouco, com a testa encostada na minha.
— Eu percebi isso — respondi com um sorriso estampado no rosto.
Ele se afastou de vez, levando minha mala para o armário. O seguindo de perto eu me coloquei atrás dele, subindo minhas mãos por suas costas as massageando.
— E qual será a programação para hoje, comandante?
— Eu pensei em começar com um bom café da manhã no restaurante do hotel, então eu tenho alguma lista de alguns mercados de rua que pensei que você gostaria de conhecer, — ele respirou fundo enquanto eu prosseguia em minha massagem — e depois teremos um tour no Gardens by The Bay e finalizar na praia de Sentosa.
— Eu posso sugerir uma alteração? — eu desci minha mão por seu tronco, subindo novamente por dentro de sua camiseta, Arranhando sua pele enquanto subia a peça de roupa.
— É claro — Ele suspirou.
Eu retirei sua camiseta, distribuindo alguns beijos e suaves mordidas por suas costas.
— Eu sugiro que a gente peça serviço de quarto, fique um pouco aqui, tome um bom banho e depois poderemos aproveitar os mercados de rua — Eu declarei entre os beijos que distribuía por sua pele.
Dimitri se virou para mim com um sorriso satisfeito no rosto.
— Como sempre, você consegue melhorar todos os meus planos.
Nós saímos do quarto já era quase duas horas da tarde, Dimitri parecia ansioso por me levar a todos os lugares planejados, e eu estava adorando a cidade.
— Deixa eu ver se eu entendi, eu não tenho um quadro do meu primo, mas você ganhou um? — Dimitri perguntou, enquanto caminhávamos por um mercado de rua em Chinatown.
Eu tinha contado a ele sobre o presente que Joe me entregara antes que eu embarcasse, e que agora adornava a parede da minha sala.
— Ele gosta mais de mim que de você — eu zombei.
— Como é o quadro?
— Acredite se quiser, mas é a vista do seu apartamento em St Petersburg.
— Mesmo? — ele me encarou surpreso enquanto eu parava em uma barraca para ver algumas bijuterias.
— E ficou perfeito, ele disse que é pra eu poder me sentir na Rússia com você — eu ergui alguns colares, sem me interessar por nenhum em especial.
Eu tinha achado aquela atitude extremamente atenciosa da parte do rapaz, que estava cada vez mais presente em minha vida. Eu tinha quase certeza que algo estava acontecendo entre ele e a Claire, mas eles ainda não tinham assumido nada.
— Mas sabe o que eu realmente quero saber? Que bicho te mordeu para me trazer em um lugar assim de livre e espontânea vontade? Geralmente você tenta me tirar de perto de qualquer lugar em que eu possa gastar dinheiro — eu franzi o cenho.
Para minha surpresa, Dimitri ficou sem graça com a pergunta, me mostrando que tinha algo por trás de sua atitude.
— Não, isso…
— Dimitri, o que foi? — eu deixei de vez os colares, me virando em sua direção.
— Na verdade, eu tenho algo que preciso te falar — ele respirou fundo, indicando com a vença que a gente voltasse a caminhar.
Nós seguimos em silêncio por alguns metros até nos afastar do movimento de turistas. Dimitri me levou até um banco, nos acomodando ali.
— O que foi?
— Eu não consegui mudar a minha escala, não vou conseguir ir ao casamento da Abby com você — ele foi direto ao assunto.
Eu franzi o cenho diante da notícia, já estava praticamente tudo certo para ele passar três dias comigo na Califórnia, o que mudou?
— Por que?
— Falaram que não poderiam alterar, que já tinha outra pessoa para o voo da Califórnia — ele explicou.
Eu suspirei desanimada. Eu estava ansiosa por aquilo e agora não vai mais acontecer!
— Mas você conseguiu mudar a sua escala para vir para Singapura — eu o encarei.
— Isso quem fez foi o Oleg Ivanov, meu mentor. Ele tem mais influência que eu na companhia.
Para passar o aniversário com o amigo ele dá um jeito.
Eu desviei o olhar quando aquele pensamento passou pela minha cabeça.
— Você ficou chateada — ele suspirou, pegando minha mão.
Vamos Blair, você sabe como essas coisas funcionam. Você mesmo teve que cobrar vários favores para conseguir se enfiar nesse voo. Você deveria ser mais compreensiva.
— Não, tudo bem. Eu entendo — eu forcei um sorriso — é melhor a gente aproveitar bem o tempo que temos juntos então.
— Nós vamos nos ver de novo no dia dos namorados — ele lembrou, beijando minha mão.
Sim, nós dois tínhamos conseguido separar alguns dias de folga no dia dos namorados, seria nossa primeira comemoração juntos e eu não via a hora.
— Sim, é bom você preparar algo especial para me compensar, comandante — eu zombei antes de dar um breve beijo em sua boca — agora vamos, eu ainda não comprei nada de Singapura para levar para casa.
Nós dois aproveitamos bem o dia, aquela cidade era incrível em todos os sentidos, diferente de tudo o que eu já tinha visto. Após um jantar romântico dentro da roda gigante da cidade, nós retornamos para o hotel, ainda precisávamos nos arrumar para encontrar com a tripulação de Dimitri no bar que ficava no terraço do Marina Bay Sands Hotel, a grande construção em forma de barco que era uma das marcas registradas de singapura.
— Nós temos mesmo que ir? — eu perguntei, deitada na cama sem a menor vontade de me mover.
Eu tinha colocado uma calça jeans de cintura alta e um top branco que deixava parte do meu abdômen de fora, mas não sentia o mínimo desejo de terminar de me arrumar.
— Foi por isso que viemos, então sim, nós temos que ir — Dimitri achou graça, segurando minha mão e me ajudando a levantar.
Eu suspirei desanimada, indo até o banheiro para terminar de me arrumar. Logo estávamos dentro do táxi indo em direção ao nosso destino. Ao chegar ao local, minha admiração inicial foi substituída por desânimo ao encontrar o lugar lotado. Eu odiava a música alta misturada com o fato de que era praticamente impossível caminhar sem esbarrar em alguém.
Sério que pensaram que esse seria um bom lugar para comemorar o aniversário de um cara de meia idade?
— Nós estamos no lugar certo? — Eu perguntei ao ver algumas pessoas pulando na piscina de borda infinita.
— Acho difícil errar — ele deu de ombros, avistando algumas pessoas conhecidas em meio a multidão — Olhe, eles estão ali.
Ele segurou minha mão, abrindo caminho pela multidão até alguns sofás onde a tripulação de Dimitri estava acomodada.
— Vem, eu vou te apresentar a todos — ele garantiu.
A tripulação de Dimitri era bastante sociável e agradável, Oleg em especial foi uma surpresa para mim, O homem que já havia passado dos cinquenta tinha uma energia invejável, arrastando as garotas para a pista de dança de tempos em tempos, ou contando histórias engraçadas sobre todos, isso sem falar na quantidade absurda de álcool que estava consumindo sem parecer se afetar.
— Você precisava ver, Blair. O pobre Dima estava mais branco que papel, eu jurava que ele ia desmaiar ou chorar a qualquer minuto depois que passamos da turbulência.
Não pude evitar rir diante da cena que se formou em minha mente, quase derrubando o drink que estava na minha mão.
— Ele está exagerando Blair. E de qualquer forma, foi um dos meus primeiros vôos e aquela turbulência foi muito forte — Dimitri garantiu.
Nós passamos algum tempo trocando experiências incomuns durante os voos, eu me sentia cada vez mais a vontade entre eles, e não era a única. Dimitri se soltava cada vez mais, e devo dizer que estava exagerando um pouco na bebida, até que uma música começou a soar, e Natasha, uma das comissárias, se levantou animada.
— Dima, você lembra dessa música? Vamos!
Então ela o pegou pela mão, o levando para a pista de dança, me deixando para trás os encarando boquiaberta.
Eles estão brincando comigo, só pode ser.
— Não precisa ficar com essa cara, Ele não corre o menor perigo com a Natasha — Dasha, outra comissária, garantiu.
— O que?
— Para Natasha se interessar por ele, ele teria que ter no mínimo 20 anos a mais. Ela só se envolve com caras mais velhos — ela explicou.
— Por que você nunca me contou isso? — Oleg se virou para a garota.
— Porque a lista de caras mais velhos não inclui você, Oleg — ela respondeu.
Os dois se atracaram em uma discussão animada em russo, enquanto eu observava meu namorado com cara de poucos amigos.
— Você quer ajuda para deixá-lo com ciúmes? — Oleg propôs.
— Não, eu posso lidar com isso sem agir feito uma adolescente — devolvi de maneira seca.
Eu não sentia mais vontade de ser nem um pouco cortês com nenhum deles. Após me levantar, eu me afastei até o guarda corpo, observando a cidade incrível que se abria ao nosso redor.
Primeiro, ele não pode ir em um evento importante comigo, agora isso? Qual o problema dele?
— Uma garota tão bonita sozinha? — um rapaz parou ao meu lado.
Eu o olhei sem muita vontade, voltando a fitar a cidade a minha frente sem me dar ao trabalho de responder.
— Seus amigos são idiotas por te deixarem sozinha assim — ele tentou mais uma vez.
Eu revirei os olhos, soltando um suspiro incomodado. Esse cara não entendeu o recado ainda?
— Seu namorado é um idiota por te irritar — ele insistiu.
Eu bufei, me virando para ele completamente irritada.
— Sim, ele é um idiota, mas ele é o meu idiota e eu não aceito que idiotas desconhecidos falem mal dele — eu o encarei com ambas as sobrancelhas erguidas — então por que você não entende o recado e me deixa aqui sozinha?
Para minha frustração o rapaz gargalhou, se aproximando ainda mais com uma expressão divertida no rosto.
— Eu tenho outra alternativa, eu posso te pagar uma bebida e nós podemos ir dançar juntos e você esquece o idiota que te chateou.
— Ou você vai embora e me deixa terminar em paz a bebida que eu mesma comprei.
Tentei me afastar do babaca, mas ele passou a caminhar ao meu lado sem dificuldade alguma para minha frustração.
— Vamos, uma dança e eu te deixo em paz.
Antes que eu pudesse pensar em alguma resposta, Dimitri se materializou ao meu lado, medindo o rapaz.
— Algum problema, Blair?
Deixa eu ver, meu namorado idiota me deixou sozinha para ir dançar com a amiga, e um babaca qualquer se viu no direito de me importunar — eu listei mentalmente antes de avaliar Dimitri — ah, e para melhorar, o namorado idiota está bêbado.
— Problema nenhum, vamos embora — eu murmurei segurando sua mão.
— Pelo visto esse é o idiota — o rapaz zombou.
Eu tinha conseguido fazer Dimitri dar um passo antes dele parar, se virando para o homem.
— O que você disse?
— Dimitri, ele não disse nada, vamos embora!
Eu tentei em vão argumentar.
— Ela estava me falando o quanto o namorado é um idiota. E eu concordo.
Dimitri se virou para mim com um olhar questionador, fazendo meu sangue ferver.
— Quer saber, no momento eu acho que estou cercada por idiotas — eu murmurei antes de voltar a caminhar, deixando os dois para trás.
Mas minhas paz não durou muito, eu não tinha dado muitos passos quando ouvi a voz alterada de Dimitri. Voltei a olhar para o lugar onde o tinha deixado, o encontrando muito próximo ao rapaz em uma postura ameaçadora.
Respirei fundo antes de dar meia volta, retornando para junto de Dimitri na tentativa de arrastá-lo de lá.
— Eu estou te avisando, é melhor você ficar longe da minha namorada — Dimitri ameaçou o rapaz.
— Ou o que? — ele desdenhou.
— Dimitri, vamos embora — eu pedi mais uma vez.
Minha voz atraiu sua atenção, ele olhou para mim e acenou com a cabeça, começando a vir em minha direção.
— Não me surpreende que a garota esteja tão infeliz, namorando um covarde frouxo desses — o rapaz desdenhou.
Eu não fui rápida o suficiente para segurar Dimitri, que voltou para onde ele estava, agarrando o rapaz pelo colarinho.
— Senhores, isso aqui não é um ringue — a gerente do bar apareceu com dois seguranças — Eu vou pedir que vocês dois saiam.
— Eu sinto muito por isso — eu me desculpei com a mulher antes de virar para meu namorado — Dimitri, solta ele agora.
— Vamos ver se o cachorrinho está na coleira — O rapaz zombou.
Naquele momento eu mesma tive vontade de quebrar o nariz do babaca.
— Qual é o seu problema? — eu rosnei.
— Senhores…
Foi quando, para nossa surpresa, o rapaz atingiu Dimitri, o fazendo virar o rosto com um soco desajeitado.
Eu fechei os olhos, apertando a ponte do nariz, já prevendo o inferno que aquilo se tornaria. Dimitri soltou o rapaz apenas para acertá-lo com força no queixo, o fazendo cambalear até uma das mesas, derrubando copos e garrafas que estavam ali em cima.
As pessoas já tinham se juntado para ver, e os seguranças estavam tentando segurar Dimitri e impedir que ele avançasse de vez sobre o rapaz, que era levantado por outros rapazes.
— Eu vou chamar a polícia! — a gerente murmurou.
— Não! — Eu exclamei, vendo Oleg e Dasha se aproximarem.
Eu indiquei Dimitri a eles com a cabeça antes de correr atrás da mulher.
— Espera, não é necessário chamar a polícia, nós estamos de saída — eu apontei para Dimitri que estava praticamente sendo arrastado para fora por seu mentor.
— Não é tão simples assim, senhorita. Vocês tiveram a chance de…
— É claro que é. Eu vou pagar nossa conta e o prejuízo causado pelos copos quebrados, nós vamos embora e você não precisa incomodar os seus outros clientes com a presença da polícia!
Ela pensou por um segundo, enquanto eu pegava meu cartão de crédito no bolso da calça.
— Nós podemos resolver isso, não acha?
Ela acenou para que eu a seguisse, me levando até seu escritório. A mulher se sentou em silêncio, calculando o valor necessário antes de me entregar a conta.
Isso é uma piada! Ela está me cobrando uma fortuna!
— Algum problema?
— Não, aqui está — eu murmurei, entregando o cartão a ela.
Eu mesma vou me encarregar de matar meu namorado por toda essa confusão!
Fiz todo o percurso até a rua fantasiando como exatamente eu daria cabo da vida dele, na esperança que isso me acalmasse um pouco. Mas quando cheguei na rua, e o encontrei ainda esbravejando em russo, enquanto seus amigos tentavam acalmá-lo, minha raiva retornou com força.
— Ali está ela — Natasha apontou.
— Blair — Dimitri exclamou aliviado.
Antes que eles pudessem reagir, eu fiz sinal para um táxi, embarcando assim que o veículo parou, os deixando para trás.
— O que ela está fazendo? Blair!
— St Regis, por favor — eu ignorei Dimitri que me chamava do lado de fora.
O que eu menos desejava no momento era a companhia de um bando de russos bêbados.
Eu cheguei ao hotel e fui direto para o quarto de Dimitri, agradecendo por ter ficado com o cartão de acesso. Comecei a juntar minhas coisas espalhadas, jogando de qualquer maneira dentro na mala.
Dimitri bateu na porta poucos minutos mais tarde, provavelmente pegou um táxi logo depois que eu fui embora. Por um momento eu cogitei a ideia de deixá-lo para fora do próprio quarto, mas logo desisti, abrindo a porta, dando passagem para que ele entrasse.
Ele caminhou até a cama, se sentando ali me observando com o cenho franzido.
— O que você está fazendo?
Eu não o respondi, fechando a mala e calçando as sandálias que eu tinha tirado quando cheguei.
— Blair, vamos tomar um banho e conversar.
Ele tentou de novo, mas ainda assim me mantive em silêncio.
Se ele pensa que depois de tudo o que aconteceu hoje ele vai me dobrar assim…
Foi quando eu tive uma ideia. Caminhei até o frigobar, o abrindo e retirando cada ítem de dentro, por mais inútil que fosse.
— O que você está fazendo? Isso custa uma fortuna, você sabe que a companhia não cobre! — ele se levantou quando eu comecei a colocar tudo dentro da bolsa.
— Eu te garanto que não custa nem um terço do valor que tive que pagar naquela droga de bar para manter a polícia longe!
Eu explodi, me sentindo incapaz de manter o tratamento de silêncio.
— O que você esperava que eu fizesse, o cara era um idiota.
— E você agiu muito diferente dele, não é? — eu devolvi com raiva.
— Você vai defender ele? De que lado você está? — ele apontou um dedo para mim, fazendo a raiva nublar meu julgamento.
— EU estou do lado que me mantenha longe da droga de uma prisão! — eu gritei em resposta — e você entenderia isso se não estivesse ocupado agindo feito um troglodita!
— Eu fiz pra te defender!
— Não, você fez pra defender a sua porcaria de orgulho masculino! Não podia aguentar, uma provocação de um cara que você nem conhece, mas eu fui obrigada a ficar sozinha enquanto você se divertia com a sua amiga!
Eu me sentia possessa por cada detalhe daquela noite. Eu nem queria ter saído do quarto para começo de conversa!
— É disso que se trata então? Uma crise de ciúmes? Natasha é apenas uma amiga, você não tem que se preocupar.
— Não se trata de ciúmes, mas eu acabei de perceber que estou namorando com um completo imbecil! — eu devolvi irritada, pegando minha mala e arrastando para a porta.
— Onde você vai?
— Para onde você acha? Pro meu quarto!
Eu respondi já do corredor, batendo a porta depois que saí. Dasha e Natasha estavam saindo de um dos quartos e arregalaram os olhos quando me viram passar, mas eu as ignorei, entrando no elevador e descendo para o andar do meu quarto, agradecendo mentalmente por não ter falado o número para Dimitri.
Por um momento, pensei que ele fosse me seguir, mas quando me vi segura dentro do quarto, eu me permiti respirar aliviada. Soltei minha mala perto da porta e fui até o banheiro, me preparando para um banho quando meu celular começou a tocar.
Eu nem me dei ao trabalho de atender Dimitri, me limitando a desligar o aparelho e entrar no chuveiro. Em alguns minutos eu estava deitada na cama, me sentindo exausta por tudo o que tinha acontecido. A tristeza ameaçava substituir a raiva, mas eu fiz o possível para mantê-la longe, conseguindo dormir sem derramar uma lágrima sequer.
No dia seguinte eu despertei com a campainha do quarto soando. Eu franzi o cenho e me levantei, colocando o roupão antes de ir até a porta, torcendo para que não fosse Dimitri ali fora. Eu estava um pouco mais calma pelo o que tinha acontecido, mas não significava que queria vê-lo.
Abri a porta, deixando um funcionário do hotel entrar empurrando um carrinho de café da manhã. O segui de perto, sem compreender o que estava acontecendo.
— Desculpe, eu não pedi café da manhã.
— Alguém enviou para a senhorita — ele indicou um bilhete entre as bandejas — tenha um bom dia.
— Bom dia.
Esperei que ele saísse do quarto antes de apanhar o bilhete, o desdobrando.
" Eu sinto muito por ter agido feito um idiota, você tinha razão. Por favor, me ligue quando quiser conversar"
Eu suspirei, me jogando na poltrona do quarto, me sentindo dividida. Eu ainda estava brava com ele, mas a parte madura e racional da minha mente gritava que eu não poderia ignorá-lo para sempre.
Bom, não para sempre, mas posso ignorá-lo um pouco mais. Eu mantive o celular desligado e comi um pouco do que ele tinha mandado, evitando deixar o quarto, para não correr o risco de trombar com ele no hotel.
No meio da manhã outra encomenda chegou. Um pequeno buquê de rosas com mais um bilhete.
"Sei que está irritada, mas sinto muito por tudo e queria resolver as coisas."
Eu deveria falar com ele agora? Ou esperar um pouco mais?
Optei por esperar, já começando a me sentir sufocada naquele quarto, mas era uma questão de princípios!
Não demorou tanto para o terceiro presente chegar, o entregador parecia já cansado de tanto ir até meu quarto, mas eu não poderia me importar menos.
Eu me sentei na cama, abrindo o pacote para encontrar uma estátua de cerca de vinte centímetros que era uma réplica da famosa fonte da baía de Marina. Uma quimera com cabeça de Leão e corpo de peixe, não era uma combinação bonita, mas era incrível!
Girei a estátua em minhas mãos, decorando cada detalhe antes de buscar pelo bilhete.
"Se as flores não deram certo, que tal uma lembrança de Singapura? Dizem que o merlion é um símbolo de paz, prosperidade e amor, então quem tiver um desses em casa terá todas essas coisas em abundância. Espero que esteja certo sobre o amor"
Eu não pude evitar de sorrir ao terminar de ler, mas logo um segundo bilhete atraiu minha atenção.
"Tudo bem, eu menti. O merlion foi criado apenas para atrair turistas e representar singapura, mas ainda acho que será uma boa lembrança para seu loft"
Se a primeira parte já tinha me feito sorrir, esse segundo bilhete me fez gargalhar. Me dando por vencida eu abandonei a estátua em cima da cama antes de ligar meu celular. Já está na hora de resolver as coisas.
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