Escalas e Destinos - A apaixonante vida de Blair
15 Capítulo 15 - algum lugar entre Paris e Welvegen

Eu observei a torre Eiffel iluminada através da janela do meu quarto de hotel. Passava das três e meia da manhã e eu estava terminando de me arrumar quando uma mensagem chegou ao meu celular.
"Você tem certeza sobre isso?"
Eu suspirei, apanhando meu celular e fazendo uma chamada de vídeo para Dimitri.
— Bom dia, comandante — eu abri meu melhor sorriso assim que ele atendeu a chamada — está pronto para nossa aventura?
— Você não mudou mesmo de ideia? Blair, Isso é loucura — ele riu em resposta, me observando com uma expressão carinhosa.
— Você não quer me ver? É seu aniversário e eu tenho seu presente — eu cantarolei enquanto colocava alguns ítens que tinha separado dentro da bolsa.
— Eu vou sair daqui a vinte minutos, eu te encontro no mirante — ele não respondeu minha pergunta.
— Você não vai se arrepender, comandante. Tenho tudo cronometrado — eu garanti antes de encerrar a chamada.
Eu corri para terminar de me arrumar, se quisesse aproveitar o máximo das duas horas que teríamos juntos, eu precisava me apressar.
Eu saí do meu hotel em Paris as quatro horas em ponto, embarcando no carro que havia alugado com aquele propósito, seguindo as direções que o GPS indicou até o local de nosso encontro.
A paisagem do norte da França era muito bonita, principalmente quando nos afastavamos da cidade, mas na escuridão da madrugada, eu não era capaz de apreciá-la como deveria.
Mas valeria a pena.
Eu me sentia cansada, tinha passado o dia atrás do presente de Dimitri e dormi apenas algumas horas até despertar para encontrá-lo.
Dimitri, apesar de não se opor ao meu plano, parecia considerar aquilo a mais completa loucura. Uma loucura que ele estava disposto a cometer, mas ainda assim, uma loucura.
Depois que descobrir sobre seu aniversário, nós dois reviramos nossas escalas em busca de uma brecha. Dezembro era um mês muito atarefado e não teríamos chance alguma de nos vermos antes de janeiro, mas então, eu encontrei uma maneira.
Eu estava em Paris por quase dois dias e Dimitri desembarcou em Wevelgem, na Bélgica no início da noite, após algumas horas planejando, encontramos um ponto no meio do caminho entre as duas cidades, e um horário que fosse adequado para os dois.
Sim, eu tive que acordar às três da manhã para me arrumar e não tive como comer nada. Mas valeria a pena.
Droga, eu estou tão ferrada!
Não pude deixar de sorrir diante daquele pensamento. Fazia muito tempo desde que me senti apaixonada o suficiente para cometer esse tipo de loucura, e minha experiência me dizia que eu devia aproveitar bem essa fase.
Após uma hora dirigindo, eu saí da estrada principal, pegando uma secundária, seguindo à risca todas as instruções do GPS. O ambiente estava mergulhado na mais completa escuridão, a única iluminação vinha do farol de meu carro. Eu já começava a me sentir tensa quando uma mensagem de Dimitri, avisando que já estava me esperando, me tranquilizou.
Eu logo visualizei seu carro estacionado um pouco fora da estrada, e segui seu exemplo, estacionando no espaço vago ali, desligando o motor em seguida. Dimitri desceu do carro, vindo em minha direção. Eu destravei as portas, esperando ele assumir seu lugar no banco do passageiro, eu acariciei seu rosto, levando minha mão até sua nuca, puxando seu rosto em direção ao meu em seguida.
— Feliz aniversário — eu sorri ao me afastar minimamente de seus lábios.
— Você é completamente maluca — ele gargalhou, devolvendo a carícia em meu rosto.
— Foi isso que fez você me ligar em primeiro lugar — eu garanti me afastando.
Eu me virei para o banco traseiro, apanhando a bolsa que tinha preparado antes, enquanto Dimitri me observava. Já passava das cinco e meia da manhã e o céu já começava a ter uma coloração mais clara conforme o nascer do sol se aproximava.
Nós havíamos estacionado junto a um mirante natural, logo abaixo daquele penhasco, uma cadeia de vales serpenteadas por rios se abriam diante de nós, começando a tomar forma conforme o dia clareava.
— O que você planejou? — ele rompeu o silêncio.
— Um café da manhã de luxo, comandante — eu pisquei para ele.
Ele franziu o cenho enquanto eu retirava todos os produtos que tirei do frigobar antes de sair do hotel.
— Blair…
— Ok, eu assaltei o frigobar, mas aquele hotel estupido tinha horário para o serviço de quarto e não me atendia de madrugada — eu reclamei.
— Você sabe que isso vai custar uma fortuna — ele me avisou com um olhar divertido.
— Eu falei que era um café da manhã de luxo — eu pisquei.
Ele riu, ainda observando tudo o que trouxera de dentro da bolsa.
— Eu trouxe barras de cereais, amendoim, batatinhas, suco e achocolatado. O que vai ser? — eu ofereci.
— Um cardápio variado — ele piscou, apanhando o saquinho de amendoins que eu lhe ofereci e uma caixinha de suco.
— Apenas o melhor para o aniversariante — eu devolvi satisfeita.
Tudo bem, aquilo não era o aniversário mais luxuoso do universo, mas eu tinha planejado cada detalhe e estava gostando de passar um tempo com ele.
Os primeiros raios de sol começaram a surgir no Horizonte, enquanto nós dois aproveitamos a companhia um do outro e nossa pseudo refeição.
Não precisávamos de muito para que a situação nos agradasse. Nós estávamos juntos, e naquele momento, era tudo o que importava.
O vale abaixo de nós começou a se mostrar cada vez mais belo conforme os raios solares tocavam sua vegetação já parcialmente adormecida pela iminente chegada do inverno, do lado de fora do veículo a temperatura já estava abaixo de dez graus e em breve toda aquela vegetação estaria tingida de branco com a chegada da neve.
Eu senti a mão de Dimitri buscar a minha, entrelaçando nossos dedos enquanto assistíamos juntos aquele belo espetáculo natural.
— Você planejou tudo — ele declarou com um meio sorriso nos lábios.
— Eu prometi que planejaria — eu me permiti observá-lo melhor.
Dimitri se inclinou em minha direção, voltando a me beijar, aumentando a intensidade a cada segundo. Nós apenas nos separamos quando já estávamos completamente ofegantes e quase entrando em combustão. Eu me encostei no banco, tentando normalizar minha respiração, voltando a prestar atenção na paisagem à nossa frente.
— Você disse que tinha um presente — ele me olhou de soslaio também recostado em seu banco.
— Sim. Eu — eu pisquei para ele.
Meu corpo se aqueceu ao sentir seu olhar percorrer descaradamente meu corpo.
— Mesmo? — um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
— Não, seu sem vergonha! — eu gargalhei antes de dar um pequeno soco em seu braço, tendo o prazer de ouvir sua risada em resposta.
— Seria um bom presente — ele zombou enquanto eu voltava a apanhar a bolsa, revirando seu interior atrás de meu objetivo.
Dimitri me observava com curiosidade, franzindo o cenho quando finalmente encontrei a pequena caixa de veludo e a estendi em sua direção.
— Ok, Blair. Se você se ajoelhar, eu juro que vou embora — ele brincou, apesar de aceitar a caixa.
— Dimitri, você realmente precisa esquecer isso. Eu não pretendo me casar tão cedo — eu revirei os olhos enquanto ele revirava a pequena caixa em suas mãos.
— Bom, eu não costumo receber jóias de presente — ele devolveu — o que você comprou?
— Por que você não vê? — eu o encarei com expectativa.
Eu tinha passado os últimos dias atrás do presente perfeito e revirado inúmeros antiquários e lojas de penhores em Paris até encontrar aquilo, e eu esperava que ele gostasse.
Seu olhar se prendeu no conteúdo da caixa assim que a abriu. Eu havia pedido para polir bem aquela pequena jóia. Era uma insígnia de um piloto francês, herói da segunda guerra mundial que recebeu uma bela condecoração por sua bravura. Uma condecoração que não fora devidamente apreciada por seu neto, que estava mais interessado no dinheiro que aquilo valia, mas eu sabia que Dimitri apreciaria o significado por trás de tudo.
— E então? — eu o tirei de sua contemplação.
— Está praticamente nova! Como conseguiu? — ele a ergueu contra o sol, fazendo com que um brilho dourado reluzisse da peça.
— Sendo uma maníaca com problemas não assumidos com compras? — eu dei de ombros.
— Bom, assumir que você não assume que tem um problema é o primeiro passo — ele me encarou.
— Tenho certeza que assumir o problema é o primeiro passo — eu devolvi — você gostou?
Dimitri se limitou a vir em minha direção e me beijar. Seu beijo era terno e carinhoso, fazendo com que eu desejasse que aquelas poucas horas que teríamos juntos naquela manhã nunca terminassem.
— Eu preciso te presentear mais vezes — eu declarei ainda de olhos fechados quando ele se afastou.
Sua risada chegou aos meus ouvidos em seguida, me fazendo sorrir ao contemplar a dimensão de minha felicidade naquele momento. Eu não me lembrava da última vez que havia me sentido daquela maneira, e apesar da sombra que me cercava com medo que tudo começasse a desmoronar, eu me sentia bem ao seu lado.
— Nós temos mais uma hora — senti sua barba roçar em meu pescoço, me causando arrepios.
— Vamos aproveitar cada segundo então — eu declarei, olhando em seus olhos com um meio sorriso estampado no rosto.
Alguns minutos mais tarde eu estava deitada sob o peito de Dimitri, observando nossa espetacular vista, apesar de nossa posição não ser das mais confortáveis, eu não desejava me mover um milímetro sequer.
Eu adorava sua companhia, cada minuto em sua presença me fazia ansiar por mais. Eu queria conhecê-lo em cada detalhe, e ele parecia ter o mesmo pensamento.
— Como foi crescer com os seus pais? — ele quebrou o silêncio que tinha tomado conta do ambiente.
Não pude evitar sorrir diante da sua pergunta.
— Você deve imaginar que foi uma loucura, e de fato, foi. Eles me envergonhavam as vezes, mas não vou mentir, era muito legal ter os pais mais descolados e adorados da turma.
— Então os seus amigos gostavam mesmo deles?
— Eles eram uma lenda na minha escola. Todos sabiam que eles organizavam as melhores festas, e ao contrário dos outros pais, todos ficavam ansiosos em ir numa festa na minha casa, só porque eles estariam lá. Eles tinham um jeito especial de conseguir lidar com adolescentes, nunca deixaram nada sair do controle, e sequer serviam bebidas alcoólicas nas festas. Mas ainda assim adoravam.
Dimitri me observava com um meio sorriso estampado nos lábios.
— Quando eu fiz a rinoplastia aos 16, foi o auge. As garotas morriam de inveja já que seus pais nunca permitiram uma cirurgia plástica.
Aquela informação parece tê-lo pego desprevenido, ele me lançou um olhar surpreso antes de se manifestar.
— Seus pais deixaram você fazer uma cirurgia plástica aos 16 anos?
Sorri diante de sua reação. As pessoas estranhavam a naturalidade de que meus pais tratavam procedimentos estéticos, mas não tinha como ser diferente.
— Meu pai é um dos mais prestigiados cirurgiões plásticos de Istambul — eu expliquei.
— Então foi ele quem te operou?
— Não! Acho que isso nem seria ético — eu gargalhei — ele apenas conseguiu os melhores especialistas no assunto e me acompanhou em todas as consultas. E ele também cuidou de mim no pós operatório de cada cirurgia.
— Cada cirurgia? Você fez mais de uma?
— Sim, eu também coloquei silicone aos 18.
— Nossa, isso é… diferente…
Eu franzi o cenho diante de sua reação. Ele tem algum problema com o fato de eu ter feito cirurgias estéticas?
— Tem algo de errado nisso?
— Não, é só que geralmente as mulheres não assumem os procedimentos que fazem. Pelo menos não as que conheci. Sempre tentam convencer de que é tudo natural — ele deu um meio sorriso, me fazendo rir.
— Bom, meus pais sempre me incentivaram a me sentir bem comigo mesma, e sempre me deram a escolha de mudar algo que não me agrade. Eu vi a oportunidade de aumentar minha auto estima e agarrei. Não vejo como algo ruim — eu dei de ombros.
— Eu muito menos — ele gargalhou, se inclinando para alcançar meu rosto.
Nós passamos os próximos minutos juntos, trocando beijos e carícias. Eu sabia que estava chegando a hora da despedida, e depois eu não sabia quando conseguiria vê-lo de novo, e aquilo me deprimia mais do que eu gostaria de admitir.
— Obrigado — ele declarou, com a testa encostada na minha.
— Pelo o que?
— Por se importar o suficiente para fazer isso. Foi a melhor comemoração de aniversário que tive em anos.
O brilho de seus olhos me mostrou o quanto ele tinha ficado feliz, e eu soube naquele momento que eu faria qualquer coisa para ver aquele brilho sempre em seu olhar.
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