Eu dirigi com cuidado através da estrada recém coberta de neve em direção à casa dos meus pais. Eu chegaria em alguns minutos, se continuasse naquela velocidade. Estávamos no dia 24 de dezembro, porém, ao contrário do restante do mundo, não estávamos nos preparando para a véspera de Natal, e sim, para o aniversário de meu irmão.

Eu observei os embrulhos que tinha conseguido em minha última ida a Londres, tomara que ele goste do presente.

Assim que estacionei o carro na porta da garagem, uma notificação de mensagem chegou em meu celular. Eu suspirei antes de abrir a foto que Blair me enviou.

Na foto, ela estava sorrindo em um balanço no mar, vestindo um biquíni colorido, descalça e com seus cabelos soltos.

Já faz vinte dias que não nos encontrávamos. Ela estava sendo enviada constantemente para o Caribe e América do Sul, enquanto eu permanecia na Europa.

Eu estava prestes a responder a mensagem, quando Maria bateu no vidro do carro, me sobressaltando. Ela abriu a porta e se acomodou no banco do passageiro.

— Você não vai entrar? — ela perguntou.

— Vou, eu só estava…

— Falando com sua nova e incrível namorada? — ela me provocou.

— A última vez que nos vimos foi no meu aniversário, agora ela está no Caribe.

Eu mostrei a foto para minha irmã, que suspirou diante do mar turquesa.

— Ainda é tarde pra eu virar comissária também? — ela perguntou com um beicinho.

— E você vai abandonar as suas adoráveis crianças? — eu a provoquei.

Maria era fonoaudióloga e trabalhava com crianças especiais.

— Você tem razão, eu não viveria sem eles.

— Vamos entrar — eu declarei, abrindo a porta para descer, apanhando os presentes no banco de trás.

— Você trouxe? — Maria perguntou, me ajudando com os presentes.

— Eu não esqueceria.

No ano passado eu trouxe um creme hidratante artesanal para minha irmã, eu o encontrei em uma pequena boutique em Londres. Desde então, sou obrigado a renovar seu estoque cada vez que visito a cidade.

— Você é o melhor irmão do mundo — ela cantarolou.

— Eu sei, mas como hoje é o aniversário do outro irmão, podemos manter isso em segredo — eu pisquei para ela, recebendo em troca uma gargalhada.

— O que você comprou para ele? — ela indicou o grande pacote que eu carregava.

— Um pranchetario portátil e um kit de desenho, coisas que serão úteis na faculdade — eu expliquei, passando pela porta que ela tinha deixado aberta para mim

— Isso é ótimo. Ele vai adorar.

Minha mãe estava na sala e abriu um sorriso assim que me viu.

— Dimulya, você chegou cedo — ela sorriu.

— Eu pensei que estava atrasado, me falaram que seria às sete, e já passa das oito — eu comentei, colocando os presentes em cima do aparador.

Maria logo identificou a sacola do creme dela, e se jogou no sofá, abrindo a embalagem.

— Já está tudo pronto?

— Pronto? Yuri inventa algo novo a cada minuto. Mama terminou quase agora os pirozhkis.

— Desde quando a mama sabe fazer pirozhkis? Pensei que pediríamos pizza como sempre, Yuri não é mais criança.

— Desde que ela comprou alguns congelados. E nós vamos pedir pizza, mas ele insistiu que os Yahantov gostam muito de pirozhkis — Masha explicou, me colocando em estado de alerta.

Aquela informação me pegou desprevenido, eu não encontrava com a família Yahantov desde antes de meu término com Olga. Meus antigos sogros não ficaram nada satisfeitos com nossa decisão de morar juntos sem casar, e muito menos quando nossa relação chegou ao fim.

— Boris e Irina vão vir? Eu pensei que seria uma comemoração simples — eu alternei o olhar entre as duas.

Minha mãe foi a primeira a se manifestar.

— Seu irmão insistiu que era uma comemoração especial, deve ser por causa da idade — ela deu de ombros.

— Completar dezoito anos é um rito de passagem, ele já é um homem — Masha brincou.

Eu peguei uma das sacolas que trouxe e entreguei para minha mãe, que logo se ocupou em abrir.

— Dimulya, não precisava, eu já tenho de todos os países — ela retirou um pequeno globo de neve de dentro da sacola.

— Esse é da cidade da Blair, você ainda não tinha. E eu não tive essas regalias no meu aniversário — eu tentei esconder meu desconforto.

— Isso é porque você estava na Bélgica com a sua namorada que já está até mandando presentes para a sogra — Masha zombou.

— Agradeça a ela por mim, e quando nós vamos conhecê-la? Eu contei para seu pai e ele ficou curioso — minha mãe perguntou, buscando um lugar para o novo enfeite.

— Eu não sei, nem sei quando vou encontrá-la. Quando o pai voltou?

Meu pai era representante comercial de uma grande rede de hotéis, então viajava muitas vezes a trabalho. Nós crescemos em meio a essa rotina, e talvez esse seja o motivo de eu não estranhar tanto assim minha própria rotina de trabalho.

— Ele chegou essa semana, foi buscar os Yahantov.

Não pude evitar uma pequena careta ao ouvir sobre nossos convidados.

— Já faz quase dois anos, Dimulya. Todos já superaram — ela garantiu, mas eu não tinha tanta certeza assim.

Eu assenti, me afastando ao me lembrar que não tinha respondido a mensagem de Blair.

"Hoje você ganhou como melhor vista. Estou com inveja"

Blair não respondeu de imediato, fazendo com que eu voltasse minha atenção para minha família, a ajudando com os últimos detalhes da comemoração.

— Então, você está gostando mesmo dessa garota? — minha mãe perguntou em um momento que minha irmã nos deixou sozinhos para atender uma ligação.

Blair tinha me mandado uma mensagem avisando que tomaria um banho e depois me ligaria.

— Blair é incrível, faz muito tempo que não me sinto tão feliz. Mas não sei se estou enlouquecendo por tentar.

— E por que estaria? Já é hora de você encontrar uma boa mulher e formar uma família.

Eu suspirei diante daquele comentário. Não era algo comum um homem da minha idade não ser casado, mas eu preferia esperar até encontrar a pessoa certa.

— Maria é um pouco mais nova que eu e também não é casada — eu tentei tirar o foco de cima de mim.

— Mas ela está namorando, e eu espero que isso mude logo.

Aquela informação me surpreendeu, minha mãe parece ter percebido isso, já que logo emendou.

— Ele é um bom rapaz, você vai conhecê-lo hoje. E nós estamos falando de você. Não sente falta de ter alguém por quem voltar para casa.

Sim, nos últimos dias eu sentia falta de algo mais quando entrava em meu apartamento.

— Essa é a questão, eu não sei se ela aceitaria tornar esse país a casa dela.

Meu celular começou a tocar e eu não pude evitar um pequeno sorriso ao ver a foto de Blair estampada na tela.

— Bom, eu não posso dizer se dará certo ou não. O que eu sei com certeza, é que faz muito tempo desde que alguém colocou um sorriso desse no seu rosto.

Minha mãe comentou, voltando a sua atenção para seus afazeres.

— Você quer conhecê-la?

— Agora?

Eu pisquei para ela, atendendo a chamada em seguida. Em um primeiro momento prestei atenção no rosto sorridente de Blair enquanto minha mãe passava a mão por seus cabelos.

— Comandante, olha só isso — ela balançou dois pequenos frascos em frente a câmera do celular.

— O que eu estou olhando? — eu questionei.

— O mais novo souvenir da minha casa. Ou melhor das nossas. Porque eu fiz um pra você também.

Minha mãe me lançou um olhar divertido, ainda fora do alcance da câmera.

— Hoje eu visitei uma praia que tinha areia cor de rosa, você acredita? Então eu comprei esses fraquinhos, coloquei um pouco da areia e uma conchinha, olha — ela aproximou a câmera do pote, apontando a pequena concha.

— Então você também fez um pra mim?

— Bom, eu achei que seria uma boa lembrança de um lugar bonito e ensolarado. Você deve colocar em um lugar bem visível no seu apartamento, assim você consegue suportar os invernos russos com um pouco mais de felicidade.

Meu sorriso foi completo diante de sua frase.

— E isso vai ajudar a me aquecer? — procurei soar descrente.

— No mínimo vai te fazer lembrar de mim usando apenas…

— Ok, eu quero que você conheça alguém! — eu interrompi sua frase antes que a situação ficasse estranha na frente de minha mãe.

Eu a puxei para meu lado, passando o braço por seu ombro enquanto Blair alternava o olhar entre nós.

— Blair, essa é a minha mãe. Mãe, essa é a..

— Dimulya, eu não imaginava que sua namorada fosse tão bonita — minha mãe tomou a dianteira.

— É um prazer conhecê-la, senhora Voitovich. Ou eu devo chamá-la por outro sobrenome?

— Não, minha mãe não tem patronímico — eu achei graça de sua confusão.

— Mas você deve me chamar de Joanne, Blair. Meu filho fala muito de você.

— Por favor, me diga que ele não contou a história do casamento — ela gemeu, me fazendo arregalar os olhos.

Esse é o último tópico que ela devia tocar com minha mãe!

— Casamento?

— O Dimitri vem insistindo nesse assunto nos últimos dias, e estou começando a achar que é pra valer.

Eu fechei os olhos, respirando fundo com aquele comentário, enquanto Blair parecia muito satisfeita por sua vingança pessoal por todas as vezes que a envergonhei com aquele assunto.

— Mesmo? Ahhh querida, ele com certeza está falando sério, Dimulya nunca brincaria com um assunto assim — minha mãe garantiu com satisfação.

Se eu encerrar essa ligação de casamento marcado, eu mato a Blair!

— Eu já estava começando a me preocupar, mas é bom saber que ele conheceu alguém que é capaz de entender e aceitar a rotina de trabalho dele — minha mãe continuou me elogiando — e eu te garanto que ele será um ótimo marido.

Blair me lançou um olhar surpreso ao perceber que minha mãe estava levando a sério toda a situação.

— Eu tenho certeza que vai — ela forçou um sorriso.

— E quando vocês quiserem tornar oficial…

— Tudo bem, eu vou pegar o celular e sair daqui antes que termine a ligação casado — eu avisei, beijando a testa de minha mãe, me afastando.

Eu fui para a sala, me jogando no sofá antes de voltar a me manifestar.

— Qual é o seu problema?

— Meu? Qual é o seu problema?! Você falou para sua mãe que a gente vai se casar? — o humor dela era um misto de diversão e preocupação.

Minha irmã me lançou um olhar questionador ao entrar na sala e escutar aquela frase.

— Não, mas minha mãe acha que já estou muito velho para estar solteiro e agora quer me casar com qualquer uma que aceite — eu soltei sem pensar.

Apenas percebi a extensão a besteira que tinha falado ao notar o olhar surpreso de Blair.

— Desculpa, isso soou horrível — eu tentei consertar.

— Eu vou me trocar para encontrar a tripulação. Nós combinamos de sair — ela forçou um sorriso — de parabéns para o seu irmão por mim.

E com isso ela encerrou a chamada, me deixando sentado no sofá me sentindo um idiota.

— É, você realmente tem um talento natural com as mulheres — Masha zombou.

— O quanto eu estou encrencado?

— Se eu fosse ela, eu diria que muito — ela sorriu.

Eu não tive tempo para revidar. A porta foi aberta e meu pai entrou acompanhado de todos os Yahantov e meu irmão. E eu quis dizer literalmente todos os Yahantov, o olhar de Olga se prendeu ao meu de imediato. Nós não nos víamos desde a fatídica discussão que antecedeu nosso término, e se antes eu me sentia desconfortável com a situação, agora mais do que nunca desejava estar em um hotel nas Bahamas com a Blair.

— Dimulya, que bom que você chegou. Venha, eu quero saber de tudo sobre suas viagens — meu pai decidiu interferir ao notar a situação, me levando para longe de minha ex namorada e seus pais.

— Nós sabemos que viagens é o assunto preferido dele — ouvi Olga desdenhar antes que eu me afastasse.

— Não ligue para ela, você sabe que o término foi difícil — ele declarou de forma indulgente, me levando até a mesa, onde algumas garrafas de cerveja estavam disponíveis.

Ele me entregou uma garrafa, se servindo de outra antes de indicar com a cabeça que eu o acompanhasse para a sala que ele usava como seu escritório. Eu sabia o que aquilo significava e respirei fundo. Eles provavelmente combinaram entre si.

— Já faz quase dois anos. É hora de superar — eu dei de ombros enquanto ele fechava a porta atrás de si.

— Ela gosta de você, dá um desconto.

— Ela escolheu acabar com tudo e ainda assim eu levei a culpa. Não fui eu quem pediu que ela partisse — eu respirei fundo, desejando evitar aquele assunto, apesar de saber que seria impossível.

— E já passaram quase dois anos, você não acha que está na hora de tentar outra vez? Vocês dois não são mais os mesmos, já passaram dos trinta anos e já tem uma outra perspectiva da vida.

Eu fechei os olhos respirando fundo, eu já estava me arrependendo de ter mudado minha escala para poder vir a essa comemoração.

— Pai…

— Dimitri, com a sua idade eu já tinha uma casa e dois filhos!

— Eu tenho a minha carreira e o meu apartamento — eu revidei, me esforçando para manter a voz baixa.

— E o que isso adianta se você não tem com quem dividir? Você precisa começar a pensar no futuro e em ter uma família! A sua irmã já tem planos com o novo namorado.

— Tudo bem, mas isso não significa que precisa ser com a Olga.

Não adiantava discutir, os dois já estavam desesperados com a situação dos filhos, provavelmente eram os únicos em seu ciclo de amigos que não tinham netos.

— Sua mãe disse que você está com alguém, é pra valer? — ele perguntou me avaliando.

— É tão sério quanto possível com alguém que eu conheço há dois meses — eu dei de ombros — eu estou feliz com ela.

— Se esse é o caso, faça as coisas corretas dessa vez. Antes nós não nos envolvemos nas suas decisões e da Olga, tentamos manter a mente aberta para o mundo de hoje, mas não significa que devemos abrir mão de nossos princípios.

Eu sabia o quanto meus pais também desaprovaram nossa decisão de morar juntos, mas aquela era nossa vida e decidiram não se envolver. Isso não significa que escapei de um sermão quando tudo terminou.

— Vamos, hoje é o dia do seu irmão e ele está muito animado. Disse que tem uma ótima notícia para nos dar — ele decidiu encerrar de vez aquela conversa e eu aproveitei minha chance de fugir.

— Ele conseguiu a bolsa de estudos que estava tentando?

— Eu espero que sim, aquele rapaz tem um belo futuro — meu pai declarou com orgulho, me acompanhando de volta para a festa — mas ele está fazendo um suspense enorme sobre essa notícia.

Nós voltamos para a festa, e para meu alívio, tudo correu sem nenhum incidente por boa parte da noite. Eu parabenizei meu irmão, ignorei as indiretas dos Yahantov e conheci Alexei, namorado da minha irmã.

Já eram quase dez da noite quando tudo começou a acontecer. Eu estava conversando com o namorado da Masha sobre minha última viagem.

— Eu não imagino como é ter uma rotina assim, eu costumo viajar apenas para visitar minha família em minha cidade natal — Alexei narrou.

Eu notei Olga se aproximando com uma expressão neutra.

— O Dimulya sempre conhece as pessoas e os lugares mais incríveis, ele conheceu a namorada dele em...

— Namorada? Você está namorando Dimitri? — Olga questionou em um tom nem um pouco discreto, atraindo a atenção de todos os convidados, que logo se calaram para participar do assunto.

— Sim, eu estou — eu respondi, um pouco desconfortável.

E de repente, toda a atenção da festa foi transferida para mim, para meu descontentamento.

— Eu falei com ela hoje, é uma garota adorável — minha mãe declarou com orgulho.

Por favor, que ela não cite toda a conversa sobre casamento.

— Isso sim é surpresa, ele arrumou tempo para alguma coisa além do trabalho — Olga ironizou.

Eu lhe lancei um olhar cansado, que ela devolveu com petulância.

— A questão é que ela compreende e apoia a minha carreira — eu devolvi.

— Mesmo? E onde ela está? — Boris Yahantov questionou.

— Caribe — Masha respondeu — Ela postou uma foto maravilhosa mais cedo, não é, Dimulya?

— Caribe? — Irina alternou o olhar entre minha irmã e eu.

— Ela é comissária e foi enviada para o Caribe — eu expliquei, decidindo ocultar alguns detalhes de nosso complicado relacionamento.

— Está explicado — Olga murmurou.

Eu respirei fundo me preparando para respondê-la, mas antes que eu tivesse a chance, meu irmão se manifestou.

— Bom, eu tenho uma novidade para vocês.

Ele ergueu a voz, me lançando um olhar ansioso, provavelmente temendo que estragassemos sua festa com uma briga.

— Estamos ouvindo sobre essa novidade o dia inteiro, acabe logo com o suspense — Masha decidiu seguir a deixa de meu irmão.

Todos esperavam ansiosamente que ele anunciasse algo sobre sua bolsa de estudos, eu franzi o cenho quando ele puxou Kátia para próximo de seu corpo.

— Nós vamos nos casar — ele declarou com satisfação.

Por um momento, todos encararam os dois sem saber como reagir. Irina foi a primeira a se recuperar, indo abraçar os dois, com um sorriso satisfeito no rosto.

— Querida, isso é maravilhoso.

— Sim, maravilhoso — minha mãe forçou um sorriso.

Eu não conseguia esboçar uma reação, era ótimo para o meu irmão se casar, mas ele é tão jovem, em breve irá para a faculdade, não parece a decisão mais acertada no momento.

— Faremos um jantar de noivado então? — eu procurei apoiá-lo, me lembrando do jantar de noivado da Abby.

Talvez durante esse jantar fosse o momento perfeito para apresentar Blair para minha família.

— É uma ótima ideia, Dimulya, escolham a data e faremos isso — minha mãe garantiu sob olhar analítico do meu pai, que ainda não tinha se manifestado.

— Quando vocês dizem que vão se casar, querem dizer que farão isso em breve? — Olga perguntou.

— Não, nós tornaremos tudo oficial e…

— Na verdade, nós já escolhemos uma data — Katya interrompeu minha mãe, recebendo um olhar surpreso em troca.

Aquela informação acendeu uma luz vermelha em minha mente.

— Isso sim que eu chamo de homem de atitude, ele age ao invés de falar e iludir minha filha — Boris declarou com entusiasmo.

— Como você vai se casar antes de se formar? — eu ignorei a provocação do homem.

— Filho, mesmo que você ganhe a bolsa, não podemos sustentar você e sua esposa por dois anos. Vocês podem ficar noivos e planejar tudo com calma — meu pai decidiu interferir.

Eu vi minha irmã puxar o namorado para longe, sussurrando algo em seu ouvido. E eu sabia que também deveria deixar meus pais resolverem aquela questão e me afastar, mas ainda assim não conseguia.

— Ahh claro, para terminar enganando minha filha, como ele? — Irina apontou para mim.

— Eu nunca enganei ninguém, Olga escolheu partir. Eu estava tentando dar o melhor que eu pudesse para a minha família — eu me defendi.

— Bom, agora você pode pegar tudo o que você tem e…

— O Dimitri está certo, são apenas dois anos, eles podem esperar. Não será o fim do mundo — Para minha minha surpresa, Olga me apoiou

— Diz a garota que já passou dos trinta e não conseguiu segurar nem o homem que tinha — Boris a cortou — o rapaz está agindo como um homem de verdade deve agir, nós podemos cuidar dos detalhes depois.

Olga piscou atordoada com as palavras de seu pai, mas não ousou retrucar.

— Filho, não será fácil estudar nessa situação, não estou falando que vocês não deve se casar, mas você precisa ter um objetivo e cumprir antes de partir para outro — minha mãe tentou outra abordagem

— Mama, isso não será um problema. Eu já rejeitei a bolsa de estudos.

Eu senti meu sangue gelar diante de sua frase, e ao olhar para meu pai eu soube que a situação não melhoraria.

— Você fez o que!? — ele vociferou em direção ao filho mais novo.

— Eu consegui um emprego em um restaurante.

— Eu acho que vou desmaiar — minha mãe perdeu a cor.

Eu estava prestes a mostrar para meu irmão o quanto ele estava sendo imaturo e irresponsável quando Masha me segurou pelo braço e me arrastou para longe.

— Dimitri, não se envolve nisso — ela sibilou.

— Mas…

— Eu também estou irritada, mas nós não somos pais dele, deixa que eles vão resolver.

Eu olhei para a confusão que tinha tomado conta de ambas as famílias, ponderando se minha irmã tinha razão

— Eu sei que a gente se conheceu hoje, mas ela está certa. Vocês só vão piorar a situação se envolvendo — Alexei concordou.

— Mas que droga de moleque inconsequente — eu rosnei, antes de sair da sala, indo para a cozinha.

Eu me joguei em uma cadeira, sentindo minha cabeça latejar pela irritação da atitude de meu irmão. O que ele esperava do futuro?

Sem pensar muito, busquei a única pessoa que poderia me oferecer algum conforto. Blair não demorou para atender a chamada de vídeo, seu rosto surgiu do outro lado da tela.

Ela estava com o cabelo solto, um pente nas mãos e a maquiagem por fazer, mas estava tão bonita quanto se já estivesse completamente pronta, para o que quer que ela esteja se arrumando.

— Comandante, se você estiver me ligando porque ficou sem opções…

Minha mente voltou para nosso pequeno momento antes. Era uma surpresa que ela estivesse disposta a falar comigo ainda.

— Hey, o que aconteceu? Por que você está irritado? — ela se interrompeu, me olhando com preocupação.

— Eu não estou irritado.

— Dimitri, se você fosse um desenho animado você estaria vermelho e teria fumaça saindo da sua cabeça. Vamos, me conte o que aconteceu — ela desdenhou.

— O que não aconteceu? Essa noite está sendo uma bagunça desde que cheguei aqui — eu comecei a narrar — primeiro eu te falei aquilo…

— Esquece, eu não fiquei com raiva, apesar de não ter sido agradável ser chamada de qualquer uma — ela me cortou.

— Eu não pensei antes de falar, apenas isso. Sabe que não é o que penso sobre você — eu garanti.

— Ótimo, o que mais aconteceu?

Ela colocou o celular apoiado em algo em cima da cama e começou a se maquiar enquanto falava comigo. Foi quando prestei atenção em sua roupa. Parecia que ela tinha pego um de seus muitos lenços e improvisado um top.

— O que você está vestindo? É um lenço?

— Sim, você gostou? Eu queria usar essa saia e não tinha nenhum biquíni que combinasse — ela sorriu, alisando a comprida saia rosa claro de tecido leve.

— Você é muito criativa, ficou ótimo — meu sorriso foi um pouco mais espontâneo.

— Eu sei que sim, mas vamos, continua a me contar.

— Então eu descobri que a família da namorada do meu irmão também viria para a festa.

— Seus antigos sogros? — ela fez uma careta.

Por um momento ponderei se contava para ela sobre a presença de Olga, mas desisti da ideia. Eu não queria dar mais nenhuma explicação.

— Exatamente. Eu passei a maior parte da noite aguentando indiretas e provocações e quando penso que não poderia piorar, meu irmão anuncia que recusou a bolsa de estudos, porque prefere se casar e trabalhar em um restaurante local a virar arquiteto — toda a irritação por aquela notícia voltou a tomar conta de mim.

Blair parou o que estava fazendo, me encarando com uma expressão surpresa.

— Uau, isso é o que eu chamo de noite agitada. E o que aconteceu depois?

— Meus pais estão tentando colocar um pouco de juízo na cabeça dele, eu queria estar junto, mas minha irmã disse que não é o nosso papel — eu suspirei.

— E ela está certa. Eu sei o quanto deve ser frustrante, mas não tem muito o que você possa fazer além de apoiá-lo — ela declarou para meu total choque.

— Apóia-lo nessa loucura? Você perdeu o juízo? — devolvi com descrença.

— Dimitri, o que mais você pode fazer? A vida é dele, ele é quem tem que tomar as decisões.

— Ele está tomando a decisão errada!

— Só por que você tinha planos para o futuro dele? O que você faria se tivesse sido obrigado a abandonar sua carreira e se casar?

— É diferente, Blair.

— Não é. É claro que seria ótimo que ele se formasse e se tornasse um ótimo arquiteto, mas se não é o que ele deseja, não acha que é injusto o obrigarem a seguir esse caminho?

Ela estava certa, eu sabia que sim. Mas eu queria que meu irmão sempre tivesse o melhor!

— Ele vai se arrepender no futuro.

— Pelo menos vai se arrepender de uma decisão que foi tomada por ele, e não de uma que foi imposta — ela me encarou com indulgência — ele provavelmente te admira, não acha que merece o seu apoio, mesmo sabendo que você discorda da decisão dele?

Eu me calei diante da sua frase. Eu sabia que ela tinha razão, mas não queria dar o braço a torcer.

— Eu queria estar nas Bahamas com você.

— Eu tenho certeza que sim, você provaria o melhor bahama mama da sua vida — ela me provocou.

E aquilo era tudo o que eu precisava, aproveitar o paraíso com minha garota e um bom coquetel, mas acabei preso no meio daquela bagunça.

— Qual é a sua programação para hoje?

— Bom, como eu não tenho como passar a véspera do natal com a Abby, vou com as comissárias em um restaurante à beira mar, eles darão uma festa e parece que será divertido.

— Tenho certeza que será.

Eu me calei quando uma voz vinda da entrada da cozinha me interrompeu.

— Dimulya, eu concordo plenamente com você e… Desculpe, não tinha percebido que você estava em uma ligação — Olga alternou o olhar entre meu celular e eu.

Droga.

— Quem é? — Blair perguntou, provavelmente sem entender uma única palavra que Olga falou.

Droga droga droga.

— Que falta de educação a minha, eu sou Olga Borisovna. Eu sou cunhada do irmão dele — ela passou a falar em inglês, para que Blair compreendesse.

— Olga, essa é a Blair, a namorada de quem eu falei — eu me adiantei.

— Uau Dimulya, você soube mesmo escolher. Veremos se terá tempo o suficiente para essa — ela zombou, fazendo com que eu lhe lançasse um olhar cansado.

Isso era tudo o que faltava para melhorar minha noite.

— Ahh, nós conseguimos tempo — Blair forçou um sorriso em resposta, nem de longe aquele sorriso era o que ela costumava exibir e cativar a todos.

— Ótimo, seria uma pena mais um relacionamento falido, certo, Dimulya?

— Eu posso cuidar dos meus relacionamentos sem a sua ajuda, Olga. Obrigado — Eu murmurei.

— Nós decidimos o que fazer com aqueles dois mais tarde, eu vou deixar vocês conversarem em paz. Foi um prazer, Blair — ela não se abalou com minha resposta.

Ela não respondeu, se limitou a esperar que Olga nos deixasse sozinhos mais uma vez, e pela expressão em seu olhar eu sabia o que me esperava, e não estava com a menor paciência para aquela conversa.

— Ela é encantadora, você esqueceu de me avisar que sua ex estava junto com você o tempo todo — Blair comentou com uma expressão carrancuda.

— Eu disse que a família da minha cunhada estava aqui.

— Ahh claro, como se fosse a mesma coisa. Qual é o intuito dela com toda essa intimidade e te chamando de Dimulya?

Mais essa agora!

Eu me levantei, saindo da cozinha para o quintal dos fundos, tinha começado a nevar e eu tinha deixado o casaco dentro de casa, mas eu esperava resolver aquilo depressa e com o máximo de privacidade possível.

— Todos me chamam de Dimulya aqui, Blair, não é nada demais.

Na verdade, Olga não me chamava assim há muito tempo, mas preferi não revelar essa informação.

— Não? Eu pensei que a família dela não te suportasse, e de repente te chamam por um apelido carinhoso?

— Os pais dela não gostam de mim.

— Então ela gosta?

Eu nunca tinha visto Blair tão irritada, eu sabia que ela era ciumenta, mas aquilo já estava beirando o absurdo.

— A irmã dela também me chama assim às vezes, você vai implicar com isso também? — Eu devolvi irritado.

— Você está falando sério? Você não enxerga o problema da sua ex ter um apelido carinhoso para você?

— É questão de costume, Blair!

— Vocês nem terminaram em bons termos, se é questão de costume, seu apelido deveria ser maldito demônio!

— Qual é o seu problema para implicar com algo tão sem importância?

— Meu problema? Você vai jogar a culpa pra cima de mim, quando é você quem fica de apelidos com a sua ex?

— Eu não tenho nada com a minha ex. É você quem está agindo como uma lunática ciumenta e isso é a última coisa que eu preciso no momento! — eu ergui minha voz, me sentindo frustrado com o rumo daquela conversa.

Eu percebi que tinha exagerado quando Blair se calou, eu fechei os olhos respirando fundo. Por que tudo estava dando errado hoje?

— Blair, eu acho melhor…

— É melhor você entrar em casa, Dimitri.

Ela avisou antes de encerrar a chamada, me deixando sozinho, no meio da neve.