Esbanjo-me
3 Sem
Notas iniciais
Ela nunca havia provado sangue e sua dor sempre fora superficial, uma criança segura com ferimentos leves. Ainda humana, mas sagrada. Era sorte, destino, acaso. Era Deus ou o Cosmos organizado. Se fosse a Matrix era, então, muito bem programada para deixá-la tola ou cega. Era feliz. Porém havia aquela dor, um certo desconforto, o sentir demais da pequena abençoada que nunca fora reprimida por vazar. Emoções demais, risadas, falas e ecos. Já havia sido vazia, também poderia ser considerada cheia. Mas nunca, em todos os seus 21 anos de existência, poderia ser denominada preenchida.
Ninguém nunca a tocara profundamente além das músicas e dos livros. Uma ou outra conversa talvez tenha lhe proporcionado epifanias, mas a nossa… — a chamemos Gafanhota — A nossa Gafanhota era movida por combustões tão espontâneas quanto esporádicas e rápidas. Ela era muito em pouco tempo e inconsistentemente. Era projetos rasos e passageiros, que representavam a sua salvação até não representarem mais nada. Esquecimento. A jovem se esquecia pois não era sua essência, esta lhe era desconhecida. Talvez porque pudesse não haver nada lá. Existiria um ser consciente e racional sem propósito ou conteúdo? A Gafanhota tentava se preencher, senão com outro de sua espécie, quem sabe com algum de seus produtos. Queria ser vista, ouvida, admirada. Fazia o que todos os outros faziam, comia e fotografava pratos. Até seu corpo nu fora exposto. Se facilmente ela dava a alma, por que não também compartilhar a carne? Era perigoso e ela demorou muito para descobrir a adrenalina.
Gostava de brincar de Deus, de cenários fantasiosos, de roupas coloridas e de comandar. Foi uma criança sozinha, porém nunca solitária. Uma horda de amigos que tentava controlar. Mandona e escandalosa ditava regras e peças teatrais. Sonhou ser atriz, professora, mãe de um filho. Sabia bancar a retirante e apreciar viagens de ônibus entupida de Dramin. Tinha um sorriso horrível, mas aberto e seguro. Cresceu em segurança. A melhor fase onde controlava a vida de objetos de plástico e dançava sem medo ou vergonha, sem quem ou porquê. Um pequeno passarinho livre.
Não cortaram suas asas, mas conforme crescia desconfiou de que não queriam que aprendesse a voar. Poderia ter se rebelado, cortado o cabelo ou gritado. Se comportou e soube encaixar-se ao molde. Foi fácil, a boa filha à casa torna. Ou dela não sai.
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