Esbanjo-me
1 Matriarcado
Notas iniciais
Preciso dizer que te amo, que reconheço todas as coisas incríveis que me ensinou, que lamento os sacrifícios pelos quais passou e que a admiro, imensuravelmente. Mas preciso admitir que, em certos pontos, me espelho em você para saber o que não fazer.
Odeio a forma como se impõe irrevogável, como me faz chorar e não se importa. Jurei a mim mesma de que nunca seria assim, apesar de suspeitar já ser.
Me irrita quando bebe, seus olhos se semicerram, cansados, sua voz embroma enjoativamente molenga e suas piadas seguidas por risadas estridentes me enervam. Eu não bebo, e nunca vou beber. Por sua causa.
O mais curioso é que não te desejo o mal, mesmo nos piores momentos, quando minha mente grita os piores impropérios contra você, eu ainda me preocupo, ainda te quero bem, e sei que é recíproco. Você pode atacar, me machucar, me odiar até ― não diga que isso não acontece, ambas sabemos que às vezes é inevitável ― mas em seu coração ainda lhe sou a coisa mais cara.
Será que nossos conflitos provêm da semelhança? Somos tão parecidas… Certa vez me peguei brigando com meu pai do modo exato como você faz. Eu não gostei, e ainda não gosto, porém me encanto com a nossa sintonia. Não encontrei ninguém no mundo que combine tão bem a mim como você. É assustador, mas compreensível, por oito meses você foi a minha morada, e por dezessete anos é o meu refúgio.
Quando criança eu te achava a mais linda, a mais inteligente de todas. Na pré-adolescência você foi minha melhor amiga. Hoje já não me escuta mais, sei que tens preguiça de mim. Está tudo bem, eu também tenho. Mas doí ver que até por sua parte cresce a cobrança de que eu me torne própria, não mais sua, não mais dele. Minha e do mundo.
É certo, após tantos anos de zelo, me soltar nesta selva confusa? Neste concreto quente e disputado? Não há mais lugar à sombra, hoje lutamos com unhas e dentes por um pedaço sujo de asfalto. E você cortara minhas unhas, não me ensinara a morder, sempre me dera pedaços cortados. Sequer sei de onde eles vêm.
Não a culpo totalmente, eu mesma não quis aprender. Só que agora não sou eu que clamo o abrir das portas, são vocês que fazem minhas malas. Sou dependente, carente, crente. Com o credo firme de que vocês nunca vão me abandonar. Mas e se já tiverem me esquecido? Perdido o interesse junto com meus dentes de leite?
Sei que meu sorriso já não é mais puro, inocente. Sei que meu olhar é crítico e indulgente. Mas eu ainda preciso de vocês, sempre irei.
Não me julgue por ser tão submissa, por me entregar tanto quando ninguém requer. Sei que já fui mais altiva e forte antes, mas perdi aquela cartilha, não lembro mais como se faz.
Me perdoe por perder o fio da meada, isto era para ser uma carta de desabafo, antes de se tornar reflexões pessoais. Mas o que posso fazer se você se recusa a refletir comigo? Não negue, mal posso erguer um pensamento que você o chafurda na mesmice. Me aborrece tanto não ter onde me instigar.
Não se cansa? Vive sempre a mesma coisa, pensa sempre na mesma linha. Ou será que tens um mundo secreto e repleto de indagações e apenas não as compartilha comigo? Me magoa se for este o caso. Justo eu, que nunca tive receio em lhe compartilhar o que quer que viesse do mais fundo de minha alma.
Sendo este também um mérito seu, nunca me julgou, ou se o fez guardou para si. De qualquer modo agradeço, seu respeito me dera confiança e fora um enorme presente crescer segura de aceitação.
E me desculpe por contrariar as regras, sei que eu deveria me fechar e o seu papel seria o de me procurar, poder exercer sua personagem de mãe preocupada versus adolescente incompreendida, porém nunca consegui me guardar, sempre me dei demais. Perdão se não lhe dei espaço para me buscar. Talvez daí é que venha todo o seu desinteresse.
O fato é que estou com medo. Te culpo porque me deras um mundo tão bom, o qual agora eles querem me tirar. Não sei se sei viver com menos, não sei se posso correr atrás de mais. Assim direciono meu rancor à quem estiver mais perto, e é sua mão que segura a minha.
Como diria a vovó: mão que vai, mão que vem, se você tirar a sua eu tiro a minha também.
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