Esbanjo-me
2 De novo, eu
Quando me olho no espelho, sorrio. Demorei, mas aprendi a me amar. As sardas antes incômodas, fora dos padrões e as quais eu sempre queria esconder, hoje me servem de notas, elas pontuam as minhas origens.
Pode ser que no longo processo de aceitação eu tenha desenvolvido certo narcisismo. Mas não se engane, ainda não é amor-próprio.
E esta minha vaidade, desprovida de cosméticos e boa costura, me fez voltar-me ao que sou, mesmo que ainda lute com o que mostro. Por que me é tão difícil relegar o que outros veem? A aparência foi aceita, e ainda que eu goste de afirmar não montar-me a terceiros, é porque gosto do que monto que não me incomoda que vejam.
Abraçar o incomum não é o mesmo que não se importar.
É algo que me incomoda voltar tanto a mim mesma. Meu egocentrismo é hipócrita. Quero que gostem de mim quando não tenho certeza de que eu mesma goste.
Já reparou na quantidade de pronomes pessoais neste texto? Esbanjo-me sem cessar. Por que não poupo?
Porque não tenho a quem dar. Seria isso necessário? Meu maior orgulho era ser exclusiva, agora acho que na verdade sou sozinha.
Não, injustiça. Tantos ao meu redor, porém tudo repleto de impessoalidade.
Ora, perco-me tão fácil! Inconstância deveria ser meu segundo nome. Mas como querer continuidade quando não se há um projeto? Projetaria minha vida, se sentisse que ela realmente me pertence.
O fato que é não corto o cabelo. De que me serve fios tão longos e trabalhosos? É a cor. Eles possuem aceitação alheia e assim a minha também. Ridículo, certamente. Eu deveria colorir o ruivo sina, o ruivo aceito, o ruivo que jé me fez pensar que era melhor que alguém. Tola.
Quando se tem algo de diferente, algo que chama a atenção, previsivelmente se conserva.
Deprimente carregar seu diferencial no fenótipo recessivo. As habilidades deveriam ser o orgulho, o trabalho deveria ser exibido. E quando não os têm, no lugar de ir buscá-los, apresenta-se o que tem à mão.
Pode rir, eu rio. Desespero.
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