Errante

1 O resto é nada mais.


Notas iniciais
Primeiro capítulo, e como dito, é como se fosse um depoimento do pequeno menino. Um pouco da sua história e seu sofrimento.

Eu sonhei que o mar me engolia, me tirava o ar.
Experimentei uma paz.
De ver que eu não iria mais voltar.

Acordei? Acordei, eu acho. Deus, eu estava tendo um sonho tão bom, saber que nunca mais iria voltar, saber que todas as dores iriam comigo, oh, Deus, isso seria tão bom.

Levantei-me da cama e andei direto pra cozinha, peguei um café e bebi vagarosamente, com a minha cara inchada do choro da noite anterior. Andei até perto da geladeira, onde apoiado na mesinha do lado havia um papel e uma caneta, ao qual eu não me lembro de ter colocado. Olhei pela janela, o céu estava azul e completamente lindo, nem parecia que havia chovido na noite anterior, porque realmente não havia chovido, não lá fora, mas havia chovido muito dentro de mim.

Eu vi que o céu é só mais uma ilusão

Escrevi num papel, pra me lembrar ao fim do furacão.

Peguei a caneta e rabisquei o papel, apenas pra lembrar o fim do furacão. Fui terminando o meu café, milhões de memórias como fotos passavam pela minha cabeça, quanto tempo mais eu ficaria desse jeito? Como se houvesse um furacão na minha mente.

Precisei voar pra bem longe só pra ver.

Serei sempre eu, as palavras.

E o resto é nada mais.

Havia se passado quase dois anos em que eu me mudei pra cá, e as palavras que eles me disseram daquele lugar nunca saíram de mim, e pra piorar, veio às palavras novas, novas dores. Eu pensei que iria ser feliz aqui, eu estava tão errado. Eu nunca mudei, então as coisas nunca mudaram, e nem mudarão.

Serei sempre eu, as memórias.

E o resto é nada mais.

As memórias? Tão dolorosas memórias, elas nunca se foram, eles sempre estavam comigo, não importa para onde eu corra, eles estarão aqui comigo. E eu nunca mudei, eu nunca mudei por causa delas, porque elas nunca me deixaram em paz, no meu canto.

Eu tentei pintar na minha cara um sorriso igual.

Aquele que, eu sei, está lá.

Num grão de areia entre as Mostardas e o Pinhal.

Eu era tão feliz na minha antiga vida, a dez anos atrás, onde as pessoas se importavam comigo, onde eu tinha amigos, mas isso não importa. Eu tentei ser feliz como era antes, tentei encontrar um amor como eu tinha antes, eu tentei ter tudo como eu tinha antes, eu quis até ter um sorriso igual ao que eu tinha deixado lá.

Eu vi que o céu me atrai bem mais que o chão.

Mas é tão cruel contemplar sozinho a imensidão.

Queria alguém pro universo observar.

Continuei olhando pro céu pela janela, estava tão bonito, suspirei. Fiquei lembrando da pessoa que eu queria que estivesse comigo agora, observando esse céu. Não aquele romance de 10 anos atrás, coisa de adolescente, ou qualquer tipo, e sim um romance de três, ou seria quatro? Talvez cinco meses atrás. Eu sentia falta dela, por mais que ela me tenha trago um milhão de dores, eu mesmo assim sentia falta dela.

Seriamos eu, você, e o resto é nada mais

Lembrei-me de como observávamos esse mesmo céu, em lugares diferentes, lembrei-me do jeito dela. Eu queria que ela estivesse perto de mim. Mas ela havia mudado tanto, havia mudado de um jeito que nem eu pensei que fosse.

Coloquei o a xícara na mesa perto do papel e fui para a sala, mais um final de semana em casa, me sentei no sofá e liguei a televisão pra ver as novas desgraças. Fiquei observando o jornal, e nada de novo, apenas aquilo que se via todos os dias.

Ouvi o toque de mensagem do meu celular, levantei-me e fui para o quarto pega-lo, observei quem mandava mensagem, esperava que fosse apenas da operadora, mas na verdade era quem eu menos queria que fosse. No visor havia escrito: “Uma nova mensagem – Valéria”. Meu coração disparou e meus olhos encheram de lágrimas. Arrisquei abri-la e ler:

“Lucas, poderíamos nos encontrar na cafeteria hoje as oito? Eu precisava falar com você. Se puder, me liga.”

Valéria, a mulher em que eu havia divido um pouco do meu mundo por quase cinco meses, ele havia me mandado uma mensagem, ela havia lembrado de mim, lembrado da gente, talvez até lembrado da nossa briga.

Cai na cama chorando, oh, meu Deus, eu não quero encontra-la, não, não quero, não vou. Ou vou? Não, não, eu não quero reencontrar a pessoa que me feriu a ponto de me fazer não me reconhecer mais, eu não quero, por favor, eu não quero.

Queria, por um dia, conseguir mudar.

Deixar de ser errante, por um dia, não andar

Comecei aos poucos a lembrar devagar do passado, não exatamente dele, mas o que eu aprendi com ele, ah, eu não mudei nada, sempre os mesmos erros, sempre as mesmas desculpas, sempre os mesmos “amanhã tudo vai dar certo”, e nada dá, sempre parado no mesmo lugar, sempre sem andar, sempre sem continuar, sou um errante, e eu nunca conseguiria mudar.

Eu tenho uma ferida de cada lugar.

Em que deixei guardada a solidão.

De todos os lugares em que eu estive, não fisicamente, mas sim dentro das pessoas em que eu conheci, cada um me deu uma ferida, ao qual eu guardei a minha solidão e um dia não encontrar a pessoa que me fizesse ver que eu não estava sozinho, e eu realmente pensava que essa pessoa era a Valéria, grande engano.

E é por isso que eu digo que eu não sei lidar.

É muito mais do que meu peito pode suportar.

Parei de tentar lembrar, já estava doendo, eu nunca soube lidar com isso, agora? Agora eu acho que não importa, meu peito dói, tem coisas demais dentro dele, doendo nele, sabe por quê? Porque eu nunca aprendi a andar, a seguir em frente, e então, eu guardo minhas dores de uma maneira que nem meu peito pode suportar. Eu não sei lidar.

– Eu não sei lidar. – falei baixo. – EU NÃO SEI LIDAR. – gritei, me levantando da cama e indo de volta pra sala, me sentando no sofá. Recomecei a pensar se eu ia ou não encontrar a Valéria, e apenas uma frase dominava minha mente: eu não sei lidar.

Acabei me decidindo que eu iria, não importa, se eu não fosse eu ficaria me repetindo: e se? Então, eu vou, vai ser melhor, eu posso sair de lá muito mais machucado do que estou agora, mas não importa. Eu não sei lidar.

Eu ia errar de novo, mas eu sou mesmo assim, eu não sei lidar.

Não quero sonhos com hora marcada pra acabar.

Prefiro essas histórias imperfeitas pra contar.

Fiquei no sofá me lembrando de todas as minhas relações, de todas as minhas histórias, incluindo com a Valéria, todos histórias perfeitas, a relação perfeita, um sonho, o que todos querem, o que todos imaginam dar certo, e eles nunca deram, eles eram perfeitos demais para contar, eles eram sonhos com hora marcada, então eles sempre tinham um fim, incluindo com a Valéria.

Vai ver eles eram assim porque eu nunca soube lidar.

Ou porque eu sou um errante.

Fiquei até sete horas sentado no sofá, sem comer nada, sem nada na cabeça, de vez em quando apenas lembrando e chorando, ou só lembrando, ou só chorando, mas só... Sempre só, eu sempre estive só.

Deu sete horas, me levantei do sofá e fui tomar banho, terminei e vesti minha roupa, não a melhor, aquele encontro não merecia a melhor roupa, merecia uma roupa que dissesse o quanto eu estava tanto faz para aquilo, peguei minha carteira, meu celular e minha chave sai andando, só andando... apenas só, sempre só.

Será que há alguém pra me ouvir e me fazer mudar?

Será que há alguém por aí?

Enquanto eu andava pro encontro com a Valéria, fiquei pensando se havia alguém no mundo que fosse capaz de me fazer mudar, me fazer deixar de ser errante, me fazer deixar de nunca andar, me fazer seguir, me fazer parar de cometer erros, alguém que me ouvisse sempre, que me deixasse livre da solidão, como eu pensei que a Valéria faria.

Cheguei à cafeteria, e ela estava lá, com seu curto cabelo vermelho que se notava de longe. A cafeteria estava tão vazia, e eu certamente estava atrasado, fui andando de fininho para que ela não notasse que eu havia chegado e estava assustado. E, meu Deus, como ela mudou, estava vestida e maquiada como uma puta vulgar, apenas pra minha surpresa, ela nunca foi daquele tipo, bom, as pessoas mudam.

Apenas quem não muda sou eu.

Talvez porque eu não sei lidar.

Ou talvez porque eu sou errante.

Notas finais
Bom, o primeiro acaba por aqui, espero que gostem. Como eu disse, é mais como um depoimento do garoto. Eu realmente espero que gostem ^^'.