Eros
3 O quarto "dezesseis quatro"
Notas iniciais
O hotel por dentro era lindo. Climatizado, e havia um balcão de madeira e mármore, onde uma loira com cara de azeda atendia um telefone: "Sim mãe, eu já cortei minha unha do pé", e tagarelava uma infinidade de coisas esquisitas, e, acima de tudo, desnecessárias. Tinha um óculos e uma voz fanhosa, além da expressão de "meu trabalho é uma linda duma bosta".
O Sr. Volant foi até o balcão, e ele precisou cutucar a moça para ela lhe dar atenção.
– Com licença — Falou, um pouco irritado. — Nós reservamos um quarto.
– Temos um monte aqui. Isso é um hotel. Se tem algo que nós temos é quartos. — Ela falou, enquanto mascava um chiclete. Mastigava que nem uma vaca comendo capim.
– E SUA obrigação é saber qual é o nosso. — Sr. Volant era um homem que não gostava muito de briga, mas gente incompetente era algo que o tirava do sério.
A moça revirou os olhos e deu de ombros, enquanto pegava duas chaves como se não soubesse quais quartos eram.
E não sabia.
A chave tinha um coração na ponta. E o chaveiro era uma flecha dourada, onde estava escrito o número do seu quarto. Daniel olhou-o rapidamente, e "164" saía em alto-relevo na chave. O do resto da família era 152. Incrível que pareça, os quartos ficavam quase um na frente do outro.
Justine e Sr. e Sra. Volant entraram no quarto deles.
E Daniel... No dele.
Girou a maçaneta e abriu o quarto. Era lindo. Todo branco, com umas listras vermelhas no teto. A cama era forrada com um edredom rubro e dois criados-mudos ao lado dela, cada um com um abajur, também vermelho. Os travesseiros tinham o formato de coração, e uma fronha com babadinhos. Saíam do chão luzes vermelhas, além do chafariz de mármore que jorrava água, trazendo ao quarto um som aconchegante de chuva. Também havia um sofá acolchoado que se estendia por toda a parede, e o carpete escarlate, a televisão, o ar condicionado e tudo mais.
Daniel se jogou na cama. Abriu os botões da camisa branca-neve e tirou os sapatos, junto com o cinto de couro que prendia sua calça. Estava se sentindo em casa, como se ela não houvesse sido queimada dias atrás.
E começou a pensar... A casa fora queimada... Um belo passeio ao shopping center, quando ocorreu um telefonema de incêndio e ao voltarem, a casa já estava envolta de bombeiros. Mas preferiu esquecer. E é assim que se deve fazer com os maus momentos de um passado: sacrifique-o. Remova-o da sua memória, como o joio no trigo. Não adianta guardá-lo, é só uma âncora amarrada no seu pé, te impedindo de andar pra frente. Ligou a televisão e foi ver algo que estivesse passando... E então, ficou mais ou menos meia hora assistindo televisão, mudando de canal procurando algo que realmente o atraísse. Quando algo começou a vibrar em baixo da cama. Os pés dela estavam tremendo, e o colchão, que era de mola, tremeu junto. Era algo em baixo da cama, Daniel tinha certeza.
Ao olhar pra verificar, não demorou muito para perceber a razão de tudo isso. Um espelho deslizava para um lado e para o outro. Batia e sacudia em baixo do móvel. O Ele desceu da cama e agarrou-o. Cuidadosamente, o retirou debaixo de lá.
E, o espelho ficou imóvel. Não se moveu um centímetro que não fosse manipulado pelo próprio Daniel. Ele o pôs na parede, e ficou se olhando. Fitava seus cabelos pretos e seus olhos castanhos profundos. Seu físico era bonito, mas não perfeito. Não sonhava em ter uma barriga super sarada, ou o que se chama por tanquinho. Não. Estava feliz consigo mesmo. Colocou a mão na franja e puxou-a para trás... Depois soltou-a novamente.
– There ain't no other way, baby, I was born this way, baby, I was born this way... — Cantarolou, baixinho.
Até que o inesperado aconteceu. O espelho escorregou pra baixo em um movimento violento, derrubando o garoto e fazendo que caísse em cima dele. Os cacos voaram no ar. E ficaram espalhados no chão. Mas Daniel não estava mais lá... Daniel havia...
Atravessado...
O...
Espelho...
E então, os pedaços quebrados começaram a decolar suavemente, voando de volta para a posição que estavam, até o objeto voltar a ser como era, parecendo intocável.
Ainda no chão, o espelho deslizou para baixo da cama novamente.
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