Mark acordou com a boca seca. Tinha acabado de acordar de um pesadelo. Sonhou que estava caindo de uma árvore, uma árvore muito grande e o chão era feito de estacas de vidro.
Estava suando, ofegante e tonto. Demorou até perceber que não estava em casa, e sim na casa do amigo. Quando ele percebeu isso, olhou direto para Eric, que também o encarava.
– Tá tudo bem?
– Eu tive um pesadelo. — Mark se manifestou, os olhos tristes — Eu sinto falta dos meus pais, Eric. — suspirou e se sentou na cama improvisada.
Eric sentou-se a frente de Mark, os ombros curvados e um sorriso triste. As olheiras estavamm bem profundas, as cicatrizes nos braços em relevo.
– Acho que você deve procurá-los, tentar manter contato, sabe... Entendo que não deve ser fácil mas eles são sua família, as únicas pessoas que você tem...
Mark entrelaçou os próprios dedos e ficou a encarar as mãos. Toda a sua vida parecia um passado tão distante, parecia até mesmo um sonho ruim.
– Eu irei fazer isso hoje. — disse, por fim.
Então, em um ato reconfortante, Eric o beijou e depois deitou-se com ele. Os dois corpos aninhados. Mas Mark não dormiu, ficou a pensar na manhã seguinte: iria a aula, ouviria toda aquela palestra chata e depois iria até a casa dos pais, a partir desse momento ele não tinha mais ideia do que poderia acontecer.

Eric acordou quando o outro se desvencilhou de seus braços. Relutante e cansado, ele levantou após alguns segundos. Parecia que não tinha dormido nada aquela noite, foi pior do que as vezes que ele ia para uma festa e no outro dia tinha aula. Quando ele estava completamente pronto, Mark o esperava na cozinha para tomar o café.
Ele parou ao perceber que o namorado não comia nada, o que era estranho já que Markus comia por três.
– Você sabe que não precisa fazer isso... ver seus pais... hoje, né. — Eric começou, tentando parecer simpático e não preocupado.
– Eu quero fazer isso hoje. Não posso mais adiar, já esta passando dos limites.
Eric assentiu e bebericou o café quente.

A aula foi entediante.
No intervalo, eles preferiram se sentar em umas das mesas de madeira na área verde da escola enquanto tomavam seus refrigerantes sem muita vontade.
Mark sentia uma dor de cabeça insuportável. Era horrível, parecia que sua cabeça estava sendo fuzilada, seus olhos ardiam.
– Oi, Markus. — a voz de Hanna ecôou em algum lugar em sua mente.
Ele abriu os olhos e sentiu dor novamente quando a luz o atingiu. Hanna segurava os livros entre os braços, usava um vestido rosa e o cabelo solto caindo sobre o ombro.
– Oi, Hanna. — respondeu, tentando parecer simpático.
– Posso conversar com você, a sós? — ela hesitou em olhar para Eric, que sorriu desajeitado. O garotou levantou e sumiu em meio a grama com o copo de refrigerante em mãos.
– Tá tudo ok? — Mark achava estranho alguém como Hanna, uma das garotas mais bonitas da escola querer conversar com ele mas não se surpreendia depois do beijo e depois de se tornar jogador de futebol.
– Ahn, sim... — ela se sentou ao lado dele, sem saber o que fazer com as mãos, agarrou o vestido. — Eu estou apaixonada por você, Mark.
Ele sorriu fraco, abaixou o olhar para as mãos dela que tremiam e disse com um sorriso nos lábios.
– Eu sou gay.
Ela abriu a boca como sinal de surpresa e sorriu, tentava escondeer a tristeza.
– Tudo bem... — mexeu no cabelo — Nós podemos ser amigos, não é? Olha, eu... me desculpa...
Ela estava assustada, as mãos tremiam e os olhos prontos para chorar. Ela estava realmente apaixonada. Mark sentiu uma pontada de compaixão, Hanna era uma ótima garota. Enfim, ele a abraçou e ela deixou-se chorar.
– Eu não irei contar para ninguém, não se preocupe. — ela disse se afastando enquanto limpava as lágrimas com as mãos.
Mark concordou e sorriu, não queria ter ferido os sentimentos dela, mas não queria iludir a garota.

Quando as aulas do dia terminaram e todos foram liberados, Mark encontrou Eric esperando fora da escola. Tinha matado aula novamente.
– Quando você saiu? — perguntou.
– Logo depois que deixei você e Hanna. Hum, tiveram uma conversa a sós. — riu — O que ela fez? Pagou um boquete para você? Deixou tu colocar as mãos nos peitos dela?
– Cala boca, Eric. — Mark socou o braço do outro — Ela não é assim. Hanna disse que esta apaixonada por mim, então, eu disse que sou gay.
Eric assentiu e puxou um cigarro do bolso. Deu uma longa tragada enquanto seguia o namorado, mas parou subitamente quando o outro também parou e ficou a encará-lo.
– Onde você está indo, Eric?
– Na casa dos seus pais, contigo... — Eric cerrou as sobrancelhas, como se aquilo fosse a coisa mais obvia do mundo.
– Nem pensar! Você irá voltar para casa. Falar com meus pais é algo que eu tenho que fazer sozinho.
Eric levantou as mãos em sinal de rendimeto e sorriu. Selou os lábios dos dois rápidamente e deu meia volta, indo em direção ao caminho da própria casa.
Mark suspirou. Sentia medo, receio e estava nervoso. Sentia uma dor de leve nas costelas que tinham sido quebradas, mas sabia que era normal.
Tentou parecer confiante a cada passo mais perto de casa. Ficou a pensar no que diria: "Oi, mãe" ou "Que saudades de vocês dois", até mesmo, "Eu amo vocês". Mas nada se encaixava, nada parecia certo.
Então, ele pisou na varanda após subir os três degraus. Estava muito nervoso, bateu e ficou a esperar. Ninguém. Bateu novamente repetidamente. Silencioso, ninguém.
Então, desistiu. Era inútil ficar ali se não tinha ninguém em casa. Deu meia volta e desceu os degraus, a cabeça baixa. E foi ai que ele ouviu o som da porta se abrindo e a voz sussurada perguntando o que ele fazia ali. Largou a mochila no chão de imediato, virou-se.
Sua mãe tinha lágrimas nos olhos, parecia assustada.
– O que você está fazendo aqui? Não, não... — ela desabou em lágrimas.
Mark tentou se aproximar mas parou de imediato quando o pai apareceu atrás.
– Mãe... eu... eu senti tanto a sua falta. — ele sorriu e se aproximou, os braços abertos para um abraço. Mas ele não o recebeu, a mãe deu alguns passos para trás e o encarou como um completo estranho.
– O que você quer? — ela segurou a mão do marido — Nós não iremos te dar dinheiro, Markus. Você nem devia estar aqui.
– Eu quero voltar pra casa... Eu sinto tanto a falta de vocês, eu amo vocês e... — sentiu as lágrimas presas na garganta.
– Vá embora. — ela disse apenas.
Então, ele deixou que as lágrimas rolassem livres. Sentiu quando a raiva e a dor subiram.
– VOCÊS, VOCÊS SÃO DOIS HIPÓCRITAS ARROGANTES. NÃO ME ACEITAM PELO SIMPLES FATO DE EU SER GAY! SÓ POR ISSO, EU SOU GAY E DAÍ? ISSO ME TORNA PIOR QUE VOCÊS? NÃO — ele olhou fixamente para a mulher — VOCÊ NÃO MERECE SER CHAMADA DE MÃE, NUNCA. UMA MÃE NUNCA FAZERIA ISSO. — a mulher colocou as mãos sobre a boca e segurou o choro — EU SINTO NOJO DE VOCÊS DOIS.
Então, o pai, o homem mais velho empurrou a mulher a sua frente e seguiu reto até o jovem, o filho. O soco foi certeiro no rosto, enfim, os dois rolaram os pequenos degraus. Entre socos e narizes sangrando, alguns vizinhos vieram separar.
Mark ficou deitado no chão, viu o pai levantar e o olhar com desgosto. Logo depois se trancou dentro de casa. Sentiu um imenso vazio no peito, fechou os olhos.

Eric encarou o pacote branco em suas mãos, a garrafa de bebida em seus pés. Ele se sentia péssimo e nas últimas semanas só tinha piorado. Queria esquecer toda aquela dor, só por um breve momento. Aquele era um ótimo dia, ninguém estava em casa.
Abriu o pacote e fez uma fileira sobre a pia. Encarou por um breve momento, ele sabia que era errado mas era o que queria fazer, queria a paz. Ingeriu um longo gole da bebida alcoolica, sentiu a leveza de imediato. Quando a bebida já tinha invadido todo o seu corpo, ele se curvou e cheirou a primeira fileira.
Sentiu o alívio de imediato. Sorriu, era isso o que queria.

Mark apertou o nariz para tentar conter o pequeno sangramento. Levantou e colocou a mochila sobre as costas, agradeceu aos vizinhos e correu até o ponto de ônibus. Era mais rápido do que ir andando.
Chegou na casa de Eric e jogou a mochila ao lado da porta, sorriu na esperança de encontrar o outro no sofá mas ele não estava ali. Subiu as escadas tentando parecer o mais leve possível, o menos estressado possível.
– Eric? — perguntou quando não encontrou o outro no quarto.
A porta do banheiro entre aberta, uma fresta de luz aritificial. Com um sorriso nos lábios ele empurrou a porta com cuidado, então, ela trancou. Mark entrou e deu de cara com os pés do namorado, seguiu o olhar e o encontrou de bruços no chão. Estava convulsionando.