Notas iniciais
Bom, é o último capítulo. Provavelmente, irei fazer uma fic de continuação sobre a vida de Mark. Enjoy.

Sabe aquela sensação de o mundo estar vazando entre os seus dedos? Que você não pode segura-lo, tê-lo, senti-lo? Foi assim que Mark se sentiu quando o médico chegou com uma ficha médica, ele tinha os olhos cansados e as mãos tremiam levemente.
Mark odiava hospitais. Odiava o ambiente branco, as pessoas vestidas de branco, o ar gelado do local. As pessoas sofridas, perdas e dor. Já tinha ido muito aos hospitais por causa do mesmo garoto, Eric. Lembrou das tentativas de suicídio do amigo, das vezes que foi internado por desidratação ou pelas vezes que bebeu tanto álcool que ficou desmaiado.
Ele se sentia desesperado, com dor na nuca e os lábios rachados. Sentia frio também e a ansiedade só aumentava. A sensação foi pior quando o médico murmurou as palavras, tão friamente:
– Sinto muito, não conseguimos fazer algo...
A sra.Foster levou as mãos aos cabelos e deixou-se chorar alto. As pessoas a volta encaram ela com olhares tristes, o marido a abraçou. E Mark? Mark encarava o médico boquiaberto, não conseguia acreditar. Levantou bruscamente e agarrou os braços do médico.
– Mas tem algo, sim, tem. Por favor, vocês não pode deixa-lo morrer. — os primeiros pingos de lágrimas escorreram — Eu... eu... por favor, não o deixem morrer.
O médico o encarou com os olhos tristes e sussurrou:
– Eu realmente sinto muito. Ele já chegou aqui... falecido.
Mark soltou o médico lentamente, mordia os lábios pensativo, os olhos encaravam o chão a sua direita.
Abraçou o próprio corpo, sentia o frio invadindo cada parte dele, a boca seca e os olhos molhados. Queria poder entrar lá e fazer Eric voltar. Cada pequena memória de lembrança do amigo lhe atingiu, era como uma dor forte de cabeça.
Piscou. Quando abriu os olhos estava em uma avenida movimentada, já escurecia. Os letreiros acima da sua cabeça brilharam com várias mensagens mas ele não conseguia ler nenhuma, eram muitas coisas em sua cabeça e os olhos molhados de lágrimas não ajudavam também. Então, ele deu o primeiro passo e fechou os olhos, correu pela avenida desejando que algum carro o acertasse. Mas não. Quando chegou no outro lado ele se atirou no chão, um homem exclamou algo como "cuidado ai, garoto" e uma mulher deu um gritinho. Mas ele estava passando mal, sentia que ia vomitar todo o café da manhã.
– Ei, tá tudo ok? Você precisa de ajuda? — a voz feminina soou em algum lugar da sua cabeça e ela o tocou no ombro. — Olha, você parece bem mal...
Então, com um ruído ele vomitou todo o café e de novo, chorou. A mulher o encarou com compaixão e acariciou o cabelo dele.
– Eu estou bem, obrigado. Só quero ficar sozinho. — não sorriu.

Mark chegou na casa dos Foster em alguma hora da noite. Ele sentia um dor horrível de cabeça mas ficou melhor logo quando a Sra.Foster o abraçou. Aceitou o abraço com um sorriso tristonho.
– Nós ficamos tão preocupados... Pensei que tivesse acontecido algo... — ela ainda chorava, mas cada palavra que dizia era sincera.
– Eu me sinto tão mal. — não eram simples lágrimas, era uma enxurrada de verdades e dor que saiam pelos seus olhos — Eu queria muito, muito, ter feito algo. Por que eu o amo tanto e não posso tê-lo mais. — soluçou e enterrou o rosto no pescoço da mulher, ele tremia — Eu quero que ele volte, eu quero muito que ele volte. Por favor, faz a dor passar.
– A dor vai passar, tudo bem. Tudo bem. — ela suspirou e beijou o topo da cabeça do garoto.
Ela sentou e deixou que Mark pousasse a cabeça dele no seu colo.
A cada piscada que ele deva, uma lágrima pingava. Ele estava prestes a dormir quando o Sr.Foster se sentou na poltrona a frente dele e o encarou com comoção.
– Todos nós sentimos, Mark. Todos nós.
E com essas palavras, Mark dormiu. Ele sentia todo o corpo doer, os olhos também, só queria dormir e esquecer por um breve momento a realidade tão sentida.
Mas descansar não foi a melhor atitude. Ele passou a noite toda tendo pesadelos, e no começo da manhã ele já tinha perdido o sono.

Mark se sentou no chão da cozinha com uma xícara de café. Ele era o único na casa acordado aquela hora. Sentia frio, os lábios tremiam. Sabia que naquele dia os pais de Eric iriam providenciar todos os preparativos para o velório.
Estava calmo mas ainda sentia um aperto e um vazio, óbvio que sentia. Seu melhor amigo, amante, confidente estava morto.
Levantou e seguiu em direção ao quarto. Ainda não tinha ideia para onde iria, o que iria fazer, onde morar e como viver. Seus pais o odiavam e não queria ver ele nunca mais, faltava pouco para atingir a idade adulta mas mesmo assim, seriam meses que não teria para onde ir.
O quarto continuava do mesmo jeito da última vez. Bagunçado, assim como a cabeça dele, mas tudo bem. Tinha um cheiro de colônia barata e pizza estragada, mas era o cheiro de Eric. Mark se abaixou e pegou a mochila vazia, começou a recolher suas roupas e pertences, eram poucas coisas mas era tudo o que tinha no momento. Então, enquanto dobrava e enfiava tudo dentro da mochila, ele olhou para o roupeiro aberto. Lá estava o casaco de Eric que ele mais gostava, ficava lindo no amado. Era grosso, quente e vermelho. Levantou e o tirou do cabide, segurou-o entre os dedos, sentiu, cheirou.
–Você pode ficar com ele. Sra.Foster disse, assustando o rapaz.
–Eu... hum, ah... tudo bem. o vestiu.
–Bom, irei ao centro. Tenho coisas a resolver, Mark. Quer ir junto? ela tinha olheiras vermelhas e falava baixo, demoraria até se recuperar.

O dia passou muito rápido, já escurecia e a temperatura estava caindo. O céu estava de uma cor rosa alaranjada, era linda mas não para todas aquelas pessoas reunidas no cemitério. Os Foster tinham uma longa família com vários primos e tios, todos choravam. Você pensa que Mark tivesse chorado também, né? Mas, não. Ele não chorou, ficou sério, frio, antipático e quieto. Era a sua forma de se proteger.
Então, a Sra.Foster desabou, desmaiou a poucos metros da lápide e todas as pessoas se voltaram para ela. Mas Mark não, ele surtou e correu na direção contrária, voltando para os portões do cemitério.
Então, o jovem deu de cara com um homem mais velho. Devia ter uns 30 anos, segurava o celular nas mãos, tinha uma mochila sobre o terno. Era um Foster, ele sabia que era. Então, sorriu e o homem, também.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!