Eres

1 Estrellitas y Duendes


Notas iniciais
Boa leitura

Seis e Quinze.

O sol ateniense já se preparava para se pôr e despejava seus raios alaranjados sobre as construções brancas e antigas do Santuário de Atena. Na décima casa zodiacal, seu guardião encontrava-se na porta. A solidez que Shura de Capricórnio emanava naquela posição era tanta que algum soldado desavisado poderia crer que o cavaleiro estava esperando um oponente para uma batalha sangrenta. Porém, aquilo apenas indicava que estava na hora do ritual vespertino do cavaleiro.

Os longos chifres do elmo de capricórnio reluziam aos toques dos raios solares, que também revelavam os detalhes entalhados na armadura do guerreiro mais fiel a Atena enquanto este começou a sua descida pela escadaria das doze casas. Uma leve brisa, tão comum àqueles primeiros dias de primavera, balançava a capa que fora cuidadosamente presa ao topo dos ombros de Shura, tornando o sério cavaleiro ainda mais altivo.

Enquanto passava pelo templo de Sagitário, Shura não pôde deixar de sentir um profundo pesar pela morte do seu amigo Aiolos. Entretanto, este sentimento não durou muito tempo, Shura havia feito o que deveria fazer. Caminhou rapidamente e logo chegou ao templo de Escorpião, deixando um breve cumprimento ao seu guardião.

Shura continuou sua descida caminhando de forma rápida, mas sem perder a altivez do seu andar e logo chegou à base da escadaria. Antes de passar pela ponte natural formada pelo processo erosivo na rocha sedimentar que, em eras geológicas anteriores, fechava aquela passagem para a região onde atualmente eram as doze casas, Shura percebeu que um grupo de soldados descansava na sombra que a ponte fazia.

Shura nem se incomodou de responder aos cumprimentos que os soldados fizeram. Isto devia mais a distração mental e ansiedade que o capricorniano estava sentindo do que o orgulho que todos do Santuário diziam ter todos os cavaleiros de ouro que se julgavam melhores que os outros que ocupavam uma posição mais inferior na defesa da Deusa Atena.

Assim que chegou à entrada do coliseu, Shura deu um longo suspiro. Seu coração palpitava forte em seu peito, suas mãos tremiam levemente, enquanto em sua garganta se encontravam presas todas as palavras que ele jamais teve coragem de dizer, mas que a cada fim de tarde surgiam com um rompante de esperança de que iriam ser reveladas à causadora daquelas sensações.

Shura chegou a hesitar a entrar naquele recinto, mas o cochicho de alguns soldados o fez entrar de vez no coliseu. Mesmo sem saber exatamente o que os soldados diziam, Shura sabia que eles mencionavam a sua presença naquele local. Normalmente a alta elite dos cavaleiros treinava pela manhã, uma vez que o sol assolava o chão do coliseu de forma mais branda que durante à tarde. Os soldados rasos e os aspirantes a cavaleiros que foram derrotados pelos oponentes treinavam ao meio dia, enquanto os cavaleiros de prata e seus pupilos treinavam no final da tarde.

“Tenho certeza que o Grande Mestre o enviou para supervisionar os treinamentos dos futuros cavaleiros de bronze” — Um soldado raso falou a outro, que concordou com a sua teoria.

Entretanto a razão que levava Shura sair do décimo templo zodiacal, passar por metade do Santuário e ouvir comentários estúpidos dos soldados durante sua caminhada até o coliseu era ela.

Shaina, a amazona de prata, protegida pela constelação de Ofiúco.

— Senhor Shura, o senhor vai passar? — A voz de um garoto aspirante a cavaleiro soou, acordando o cavaleiro do seu transe.

— Sim, eu vou. Obrigado. — Shura disse ao ver que o garoto havia se levantado para que ele passasse até a parte mais alta do coliseu.

Shura subiu rapidamente até o seu costumeiro local de observação dos treinamentos. E logo pôs os olhos na amazona de Ofiúco que travava um embate com um aspirante três vezes maior que ela.

Com um sorriso discreto nos lábios Shura observou a graciosidade e precisão dos movimentos que a amazona realizava. Os cabelos negros de Shaina caiam em cascatas pelas costas da armadura prateada, cobrindo-a quase que completamente. Entretanto, algumas partes prateadas faziam-se visíveis graças aos movimentos ágeis da amazona enquanto esta se movia.

O contraste entre os cabelos negros que revelava pouca superfície prateada lembrava as noites escuras em que era possível ver as estrelas da cabeça da Serpente da constelação de Ofiúco brilhando no zênite celeste próximo à constelação de Capricórnio. Em noites como estas, Shura sentia uma sensação calorosa invadir o seu peito, já que ele se sentia extremamente próximo à mulher que amava, mas que não tinha coragem sequer de assumir os seus sentimentos.

Em determinado momento do treinamento, Shura sentiu o olhar profundo da amazona sobre si. Se não fosse o elmo que cobria o seu rosto, Shura iria revelar a todos as bochechas tão rubras quanto o tom avermelhado do pôr do sol que iluminava todo o Santuário naquela tarde.

Shura poderia enfrentar sozinho uma legião de titãs e outros inimigos, porém não era páreo para manter contato visual com a amazona que lhe olhava desde a arena do coliseu. Diante de Shaina de Ofiúco, Shura não tinha um terço da coragem e bravura que demonstrava em batalha. Pelo contrário, diante dela ele era apenas um tolo apaixonado que não sabia o que fazer, exceto virar o rosto para romper o contato visual.

Enquanto mantinha distância dos olhares felinos de Shaina, Shura perguntava-se sobre o que a amazona estava pensando com a sua presença ali. Shura questionava-se também se a amazona tinha a menor ideia de que ela era uma galáxia na qual ele orbitava.

Antes do fim do treinamento, Shaina saltou e com uma vigorosa voadora levou o seu pupilo gigante ao chão. Enquanto Cassius se recuperava do golpe, Shaina passava-lhe um sermão dizendo energeticamente no que o pupilo havia errado. A amazona gritava tão alto que foi possível Shura ouvir o que ela dizia.

Os soldados que estavam sentados ao lado de Shura comentavam quão bruta era a amazona. Alguns ainda faziam piadinhas sobre como precisaria de um herói mitológico para conquistá-la já que sua agressividade era semelhante a uma besta sanguinária da mitologia.

Entretanto, aqueles gritos coléricos da amazona fazia Shura admirá-la ainda mais. Enquanto os homens tolos continuavam suas gracinhas, Shura levantou-se e começou a sair da arena.

— E nem foi um chute tão forte! Cassius você só tem tamanho e isso não basta pra ganhar uma armadura! Agora faça seus alongamentos, não quero ouvir no treino de amanhã que você tá cheio de dor! — Shaina declarou furiosa, caminhando rapidamente a fim de sair da arena.

Entretanto, a moça interrompeu a caminhada e voltou para o local que seu pupilo ainda mantinha-se deitado. Neste momento, Shura havia chegado à arena e recebeu de perto a poderosa encarada da amazona de Ofiúco, que ignorou sua presença e sequer o cumprimentou.

— Levante-se Cassius! — Ela ordenou estendendo a mão para o pupilo. Assim que Cassius se ergueu, a amazona saiu da arena.

Shura continuou a sua caminhada acompanhando discretamente os passos de Shaina que se afastava do coliseu rapidamente. A noite escura começava a dar os primeiros sinais da sua chegada e uma brisa suave balançava as folhas das árvores que se situavam no caminho entre a arena e as doze casas.

Enquanto observava o rebolado que os passos rápidos causavam à amazona, Shura sentiu um misto de sentimentos que mais pareciam ondas de um mar bravio açoitando o seu peito. Era extremamente dolorosa a constatação que Shura teve naquela tarde na arena: Um simples aspirante ganhava mais atenção da amazona que ele, um aclamado cavaleiro de ouro.

Enquanto caminhava de volta a seu templo, Shura sentia as palavras que descreviam o que sentia por Shaina queimando em sua garganta. Cerrando os punhos, Shura caminhou mais rapidamente e como um mar deserto, engoliu os sentimentos que tinha pela amazona e decidiu que o mais sensato seria calá-los para sempre.

No céu, as estrelas de Ofiúco e Capricórnio brilhavam com esplendor no céu escuro, completamente alheios aos sentimentos dos guerreiros que vestiam armaduras com seus nomes.