Eres
2 Tu Recuerdo
Notas iniciais
Graças a paranoia do Grande Mestre que havia aumentado significativamente desde que se tornou realidade o boato de que jovens rebeldes de uma organização japonesa planejavam invadir o Santuário, Shura, Máscara da Morte e Afrodite tinham missões quase que diárias.
Era comum ouvir as queixas de Afrodite e Máscara da Morte ao serem selecionados para missões, porém, Shura sequer se queixava, mesmo nas missões mais insignificantes à sua patente de cavaleiro de ouro. Além de crer que o Grande Mestre estava de fato protegendo a verdadeira Atena, aquelas missões estavam ajudando demais ao cavaleiro esquecer de vez Shaina, cujo olhar vazio feriam mais que a própria excalibur de Shura.
Em vez de passar suas tardes livres no Coliseu esperando a chance de ver sua amada em treinamento, Shura ficava em sua casa. Numa tarde de verão, o cavaleiro estava deitado em sua cama, sentindo a brisa quente entrar pelo quarto, balançando suavemente as cortinas enquanto que criava sombras ondulantes no chão do quarto banhado pelo sol. Normalmente ele acabaria dormindo ao observar tais silhuetas, porém seus pensamentos estavam inquietos demais para permitir-se a tal descanso.
Meses haviam se passado desde a decisão de esquecer Shaina de Ofiúco, porém por mais que Shura quisesse arrancar do seu peito aquele amor não correspondido, ele não estava tendo êxito. O que o cavaleiro ignorava era que nenhuma técnica mental teria efeito sobre as razões do coração.
Shura suspirou tristemente e levantou-se, indo até uma vitrola velha situada próxima ao seu guarda-roupas e ligando-a. Logo, ouviu-se em todo o quarto o som baixo de uma guitarra flamenca seguido de sons de palmas que serviam de percussão. Versos tristes começaram a soar pelo quarto e a cada palavra dita, Shura sentia seu peito apertando-se numa sufocante dor silenciosa.
Vendo que não tinha remédio que curasse aquela dor, o cavaleiro cedeu. Lágrimas cálidas e pesarosas saíram dos seus olhos cerrados, contornando o seu rosto e caindo sobre o lençol. Shura permitiu que as lágrimas caíssem por mais alguns minutos e assim que a guitarra flamenca indicou que o lado do disco havia chegado ao fim, ele secou as lágrimas e levantou-se da cama.
Minutos depois, Shura ouviu o chamado do Grande Mestre, convocando-o para uma reunião. Ele vestiu a sua armadura e subiu o restante das escadarias até o templo. Após reverenciar o Mestre, Shura ouviu o pedido do mesmo.
Enquanto Afrodite de Peixes fora enviado escondido à Ilha de Andrômeda para executar o cavaleiro Albiore de Cefeu e Máscara da Morte foi enviado para vigiar Mu de Áries e o Mestre Ancião, Shura ficou responsável por reportar ao Grande Mestre se os demais cavaleiros residentes do Santuário eram fiéis às suas ordens ou não. Com isso, esquecer Shaina de Ofiúco se tornou impossível, uma vez que ela seria a próxima amazona a ser investigada por Shura.
Shura assentiu com a cabeça concordando com a tarefa que havia recebido e desceu novamente as escadarias indo até o coliseu. Após meses de distância daquele local, foi com grande surpresa que o cavaleiro foi recebido pelos soldados de patente mais baixa à sua.
Como de costume, Capricórnio decidiu-se sentar mais distante de todos os outros soldados, ficando sozinho nos assentos mais altos do coliseu. Foi impossível para Shura controlar as lembranças que surgiram ao estar naquele local. Imagens de Shaina assolava sua mente, fazendo com que um leve sorriso surgisse quando Shura lembrou do jeito da amazona em conduzir seus treinos.
Logo, iniciaram-se os treinamentos e com eles, algumas disputas. A princípio foram disputadas apenas entre aspirantes, porém, logo começou um confronto que chamou atenção de Shura: A luta entre Shaina e Marin.
Ao ver que não se tratava de uma luta qualquer, Shura aproximou-se mais da arena, chegando a ouvir a discussão entre as amazonas, apartada por Aiolia de Leão. Shura viu Shaina saindo da arena extremamente irritada, porém o ódio da amazona acalentou seu coração, uma vez que ele inteirou-se que o motivo da briga entre ela e Marin era que a amazona de Ofiúco se opunha a presença dos não-europeus no Coliseu.
Esta ideia era extremamente apoiada pelo Grande Mestre e se Shaina a apoiava, significava que ela não seria uma daqueles que Shura iria perseguir e matar, se assim o Grande Mestre pedisse.
Shura continuou sua investigação e no final daquela semana reportou-se ao mestre, expondo os sinais de fidelidade de Shaina de Ofiúco. Entretanto, os acontecimentos das semanas seguintes fizeram com que Shura fosse chamado às pressas até o salão do Grande Mestre.
Shaina de Ofiúco havia protegido a um dos rebeldes, o cavaleiro de bronze de Pégaso durante a disputa contra Aiolia de Leão. Por isso, Shura tinha como missão matá-la! Pela primeira vez, Shura questionou as ordens do Grande Mestre, porém não na frente dele, mas a sós no silêncio da casa de Capricórnio. E pedindo desculpas a uma das imagens de Atena que havia em sua casa, ele decidiu que não iria cumprir aquela missão.
Durante semanas ele enviou relatórios falsos sobre o paradeiro da amazona de Ofiúco, dizendo ao mestre que iria se esforçar para encontrá-la e enfim executar o serviço. Estava sentado em uma das pedras próximo à Vila de Rodório pensando em desculpas que daria ao Grande Mestre nas próximas semanas, quando sentiu cosmos conhecidos se aproximando de si.
Ainda que Shura fosse extremamente discreto, não foi difícil para Afrodite e Máscara da Morte perceber que ele estava sofrendo por amor e que a causadora daquele sentimento era Shaina de Ofiúco. Assim que se aproximou do capricorniano, Afrodite disse:
— Ouvi dizer que a amazona de Ofiúco armou acampamento por trás daquelas montanhas ali. — O sueco apontou para o conjunto de montanhas não muito longe de onde estavam.
— Hora de matar mais um traidor pelo qual você tem afeto. Mas em vez de usar o golpe que matou Aiolos, você bem que poderia usar suas pedras saltitantes e mentir pra si mesmo que foi um acidente nas montanhas que matou sua amada Shaina. — Máscara da Morte disse, com um sorriso maligno nos lábios.
— O quê?
— Ora, ora, Shura, não sei porque você tenta esconder que ama essa amazona… — Afrodite disse, gargalhando, juntando-se ao cavaleiro de Câncer naquela provocação.
— Agora resta a você decidir qual mulher ama mais, a deusa Atena ou a traidora de Ofiúco… — Máscara da Morte disse, com um sorriso sádico nos lábios. — De qualquer forma, o Grande Mestre saberá desse seu desvio de conduta ainda hoje!
Lentamente Máscara da Morte e Afrodite se afastaram do local que Shura estava.
— Esperem! — Shura gritou. — O que vocês querem para ficarem em silêncio por mais alguns dias?
Um sorriso perverso preencheu os lábios de Máscara da Morte, que imediatamente disse:
— Ouro.
Shura levou as mãos até o bolso da sua calça e retirou dali um saquinho cheio de moedas de ouro.
— Levem. É tudo que eu tenho.
Afrodite deu uma gargalhada estridente ao ver o sofrimento estampado na face de Shura, por fim dizendo:
— Mais cedo ou mais tarde você terá de matá-la, Capricórnio.
Ao ver que estava sozinho, Shura deixou o corpo cair na pedra que estava sentado e cerrou os olhos.
Dias se passaram e Shura retornava no final de cada tarde até aquela pedra e observava a montanha em que Shaina de Ofiúco havia montado acampamento. Por mais que não quisesse, lhe tinha sido dada uma missão e ele como cavaleiro, deveria cumprir.
A brisa fria do crepúsculo bagunçava seus cabelos negros e vendo que não tinha escapatória, Shura permitiu que uma lágrima solitária caísse de seus olhos antes de se levantar e caminhar em direção à montanha que Shaina havia levantado acampamento.
Havia avistado a tenda da amazona quando recebeu um comunicado via cosmo do Grande Mestre: Todos os cavaleiros de ouro deveriam se dirigir às suas casas zodiacais e se preparar para a batalha.
Shura soltou um suspiro de alívio e caminhou apressadamente até seu templo. As horas arrastavam-se e assim que os quatro cavaleiros de bronze entraram na sua casa, Shura pôde detectar o mesmo cosmo que ceifou a vida de Máscara da Morte e soube que precisava lutar contra aquele cavaleiro.
Não foi uma batalha fácil como Shura pensou que seria. Porém, o pior e derradeiro golpe que Shiryu lhe deu foi mostrar-lhe a verdade durante o Último Dragão. Assim que soube que Aiolos era inocente e que de fato ele protegia a deusa Atena, Shura transferiu a armadura de capricórnio para Shiryu e deixou-se morrer.
Entretanto, o crepúsculo da sua vida não chegou repentinamente. Enquanto caía de volta ao solo, Shura pôde relembrar os mais variados pensamentos: a soberba da falsa honra que sentia em ser o cavaleiro mais fiel à Deusa, as reuniões com o Grande Mestre, as missões e por fim, sua mente focou seus pensamentos em Shaina.
Shura nunca pôde entender como a amazona poderia dar mais atenção a aspirantes e a um cavaleiro de bronze que a ele, mas naqueles últimos momentos da sua vida ele aceitou que nunca ter tido coragem para dizer a Shaina que a amava, por medo de constatar que ele era de fato ignorado por ela, fora o melhor que aconteceu.
Enxergou ao longe o solo e girou seu corpo a fim de contemplar, pela última vez, as estrelas da constelação de Ofiúco. Com um leve sorriso triste e uma lágrima solitária, Shura de Capricórnio encontrou seu fim.
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