Erase This
96 Bring Me To Life
Notas iniciais
Boa Leitura
Where I've become so numb without a soul
My spirit sleeping somewhere cold
Until you find it there and lead it back home
Levantei com dificuldade, da superfície molhada em que me encontrava, uma brisa forte corria entre a imensidão escura desoladora e era possível ouvir o barulho de folhas remexendo, fazendo festa com as outras.
Abracei meu próprio corpo tendo o medo como companhia. Girei nos calcanhares a fim de encontrar qualquer alma, qualquer coisa, nem que fosse um animal... Mas só havia mais escuridão, uma escuridão sem fim como se eu tivesse em um buraco.
“Anabelle”
Ouvi uma voz grave sussurrava meu nome, tentei encontrar de onde o som vinha, mas esse soava feito eco e se desaparecia nas copas das árvores. Um raio desceu há dez passos de distância, tomei um susto com a claridade súbita e pulei para trás colidindo com uma pedra e caindo sentada.
“Anabelle”
Sussurrou a maldita voz de novo, mas desta vez um tanto perversa, como se um monstro estivesse prestes a sair. Saltei correndo na direção oposta a que se vinha à voz. Corria, corria mais rápido do que podia, e sem poder ver qual era meu destino, sendo guiada apenas pelas rajadas de vento e os relâmpagos que causavam um espetáculo no céu, acompanhados de trovões indesejados. Já havia corrido um bom perímetro, sendo perseguida pelos sussurros quando de repente... Colidi num corpo mais alto e mais largo do que eu.
– Anabelle... – sussurrou a pessoa em minha frente fazendo-me esquivar ainda caída no chão. – Anabelle... – disse mais alto revelando ser um homem, ouvi seu passo contra o chão avançando até mim.
Nesse instante meu corpo congelou, e por mais que eu tentasse regular a respiração ela não dava trégua continuando descompassada e temerosa. O ser em questão não dava mais sinais de vida e eu pensava que o mesmo tinha ido embora até que mais um relâmpago caiu não muito distante, e então eu vi... Eu vi o rosto desfigurado a milímetros do meu, sua respiração em minha bochecha.
O rosto não era irreconhecível, mas me causava a pior das piores sensações de medo, um rasgo na bochecha deixava o sangue pingar e a barba por fazer no outro lado da face lhe dava o ar “sujo”. Os cabelos cortados curtos demais e os olhos num castanho escuro tão morto que poderia ser comparados ao de um idoso nos últimos segundos de sua vida. A boca possuía pequenos cortes e as sobrancelhas estavam falhadas... Reprimi um grito em minha garganta comprimindo os olhos e então um sorriso brotou em seus lábios revelando os dentes apodrecidos e as malditas covinhas... Sam.
Rastejei para trás numa fuga sem sentido, observando o sorriso murchar em seu rosto, e a lua dar o ar dá graça iluminando a trilha de mata fechada e as árvores de folhas negras. Virei de bruços agarrei terra entre os dedos e tomei impulso voltando a correr copiosamente fugindo do que eu havia amado um dia.
Senti o famoso cheiro de maresia em meu nariz, calmante e pacífico, sem muita certeza do que fazia diminuir a corrida a simples passadas. Minha cabeça moveu-se instantaneamente com o barulho que veio do emaranhado de arbustos e assisti a vegetação se abrir formando um caminho até um ponto de luz forte, tomei esse caminho.
A cada nova passada a luz aumentava, assim como o barulho das gaivotas e das ondas violentas... Ansiosa como sempre fui, aumentei a velocidade iniciando uma corrida que acelerou mais ainda quando avistei a caverna conhecida de onde irradiava a luz. Não parei de correr ao atravessá-la, e talvez esse tenha sido meu erro, pois inesperadamente cai nas águas do mar.
E sem desespero comecei a nadar em direção a superfície, o mais estranho é que a superfície nunca chegava e quanto mais eu nadava mais eu me afundava... Como qualquer outro, enlouqueci de pavor ao imaginar uma morte debaixo da água, enlouqueci tanto que lutei contra tudo que me prendia para chegar à superfície só parei quando o fôlego me deu adeus e as forças também.
Acordei assustada com o corpo tendo pequenos espasmos e o pulmão implorando por ar renovado, engoli mais oxigênio do que podia tossindo involuntariamente e só então me dando conta da roupa molhada pelo suor e o cabelo grudado na testa. Apoiei-me nos cotovelos elevando o torso lentamente e regulando a respiração curta. Pus os pés para fora da cama e segurei nos lençóis levantando e tomando estabilidade em terra firme.
Caminhei para fora do quarto me escorando nas paredes ainda sentindo meu corpo tremer e uma dor no peito aumentar a cada pequeno passo que dava. Quando finalmente cheguei ao quarto de Mad onde pediria socorro, se é que minha voz pudesse sair, abri a porta encostada e encontrei a cama vazia. Contorci o batente da porta entre meus dedos e virei para a escada... Ela só podia estar na casa de Matt.
Em dois passos largos cheguei ao corrimão, o esforço maior me tirou todo o ar, ar que eu não conseguia recuperar... Antes que o desespero tomasse total controle e eu rolasse pela escada, apoiei meu tronco no corrimão e escorreguei nele até chegar ao último degrau onde cambaleei e joguei meu corpo mole contra a parede mais próxima.
Rasguei a pintura com minhas unhas malfeitas e tentei aspirar o ar frustrantemente, deixando finalmente que o pânico me atingisse. Senti uma pontada aguda no estômago, abri e fechei os olhos diversas vezes assistindo a porta de entrada se distorcer em mil cores e as paredes começarem a se aproximar como se fossem me espremer entre elas. Rodei a cabeça aumentando a dor em meu peito e empurrei meu corpo para a porta acabando escorada na maçaneta.
Abri a mesma com uma dificuldade de mil toneladas sobre meus ombros, e ao abri-la cai de joelhos no chão, sentindo os efeitos alucinatórios me perturbarem e a falta de ar retirar-me a vida a cada segundo. Deixei meu corpo deitar sobre as pedras que faziam caminho até a rua e com o último impulso de sobrevivência que me restava comecei a rastejar na esperança de chegar ao gramado dos Sanders.
Cada movimento era como uma facada em meu peito, a náusea intensificada, os tremores aumentados e a distorção do mundo em meus olhos mais evidente. Mal previ e já estava na calçada, instigada pela vida tomei um impulso sem me importar nas dores consequentes e fui para a rua parando quase desfalecida na metade do caminho. Senti que era o fim da linha quando minha bochecha encostou-se ao asfalto úmido e meus olhos alucinados viram o clarão da pós-vida se aproximar acompanhado de um linchar agudo de rodas. É agora eu estava morta.
...
Abri os olhos lentamente como se um peso pairasse sobre eles, levei o olhar instantaneamente a agulha que perfurava meu braço, bufei fechando os olhos mais uma vez e respirando profundamente, louvando o ar que entrava por minhas vias respiratórias. Assim, finalmente acordei um tanto grogue, mas ainda assim, acordada.
Levei o olhar às paredes brancas que cercavam o quarto e o teto amarelado indicando a precariedade em níveis de reforma. A janela tinha as persianas fechadas o que me escondia a possibilidade de dia ou noite. Ouvi um ruído baixo e voltei o olhar ao barulho... Um garoto de porte grande acalmava a outra pessoa que estava sentada numa poltrona, os dois não me viram e quando pressenti seus movimentos em minha direção senti o coração acelerar.
Quando o moço virou completamente fechei os lençóis da cama em punho e prendi a respiração remexendo os joelhos numa forma de proteger da figura assustadora que se aproximava. O garoto tinha os olhos totalmente negros e a boca rasgada até a metade da bochecha, arregalei os olhos quando o mesmo chegou ao meu lado.
Novamente senti o medo desolador se instalar em minha mente, trazendo meus nervos a flor da pele, os tremores iniciaram numa intensidade nova e a sudorese perturbava o pano agarrado em minha mão, duas lágrimas suplicantes desceram por minhas bochechas e quando vi seus dedos se aproximarem a fim de limpá-las comecei a gritar. Gritar com todo o fôlego que me restava, mesmo que para isso eu perdesse o ar, meu corpo antes tremendo dava altos espasmos contraindo e pulando no colchão.
– Anabelle? Você pode me ouvir? – uma voz leve e iluminada me chamava trazendo-me a realidade enquanto braços fortes prensavam meu corpo contra o colchão. – Ana! Ana! Você sabe quem é! Vamos, abra os olhos! Eu estou com você! – continuei de olhos comprimidos enquanto meu corpo se acalmava. – ANA! – gritou mais forte.
Num impulso joguei o tronco para frente, ficando sentada e sendo acompanhada de meu pânico uma tosse insistente como se eu tivesse sido afogada, ou sufocada... Previa que mais uma tossida e vomitaria, mas isso não ocorreu.
Encarava o lençol emaranhado sentindo mãos delicadas percorrendo o caminho de minhas costas e os sussurros e murmúrios a minha volta desparecendo, suspirei mais calma tomando coragem para encarar a pessoa ao meu lado e quando fiz isso encontrei a feição preocupada a me encarar.
– Mad? – chamei baixinho tentando ter certeza se aqueles eram seus olhos castanhos.
Não obtive resposta, mas sim, um abraço, um abraço tão libertador que permitiu que meus olhos jorrassem lágrimas sofridas... Agarrava-a como a minha salvação, tendo minha irmã tão próxima de mim como nunca estive antes. O choro era desesperado e renovava minha alma obscura, era como se pela primeira vez eu realmente tivesse tirando o peso que carregava sobre as costas.
Frozen inside without your touch without your love
Darling only you are the life among the dead
Notas finais
Vejo vocês nos revies!
Beijos da Shadows!
p.s. música do Evanescence, Amy linda *-*
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