Era uma vez
5 Uma Garota Encantada
Notas iniciais

Quando tinha seus cinco anos, uma garotinha loira perdeu seus pais, quando em uma noite de chuva a família Tremaine teve que fazer uma viagem de negócios até à Floresta Encantada.
A pequenina estava com medo enquanto via a chuva cair violentamente lá fora, mas sua mãe a reconfortava com leves afagos em seus cabelos dourados. O pai acariciava as mãos da garotinha enquanto tentava faze-la dormir.
— Estou com medo, mamãe. – Sussurrou.
— Não precisa. Nós sempre estaremos com você. – A senhora Tremaine acariciou a bochecha da filha, dando para ela uma pintura um pouco antiga de quando a garotinha ainda era recém-nascida.
— Quando tiver medo, lembre-se dessa pintura... nós sempre estaremos com você. – O Sr. Tremaine repetiu em sussurros as palavras da esposa.
Lá fora o Cocheiro mal, mal conseguia enxergar um palmo a sua frente, a chuva estava atrapalhando a sua visão e encharcando o seu corpo. Em uma curva mal feita, a carruagem foi a baixo e em uma tentativa de proteger a filha na caída, o Sr. e a Sra. Tremaine acabaram morrendo e a pequena menina se machucou levemente enquanto sua mãe a segurava com firmeza.
A menina ainda era muito nova, mas entendia perfeitamente que seus pais estavam mortos e que ela estava completamente perdida no meio daquela grande floresta. A loirinha não queria abandonar seus pais ali, mesmo eles já estando mortos, e ela estava com medo, muito medo. Estava sozinha, e a única coisa que lhe restava era uma pintura velha e quase desbotada de sua família em um momento muito feliz de suas vidas. Então a garotinha chorou, pela perda e pela solidão. Ela chorou por não ter mais nada, por não ter mais o amor de seus pais e por tudo o que perdeu. Era apenas ela e uma pintura, perdidas em uma floresta enquanto a chuva insistia em cair junto com suas lágrimas.
Quando a noite perdeu seu posto ao sol, a menina percebeu que deveria fazer algo para que ela também não morresse naquela floresta, pois seus pais deram a vida pela dela. Cinco anos e uma completa solidão.
Ao tentar achar o caminho que a levaria até à Floresta Encantada, a loirinha quase foi atropelada pela carruagem de Cornélia, uma mulher no auge de seus trinta e seis anos e com duas belas filhas: Anastácia e Amélia. A bela mulher desceu de sua carruagem, ostentando seu vestido longo e rodado perolado com um decote que avantajava seus seios e a cor destacava muito bem seus olhos azuis. Anastácia permaneceu na carruagem enquanto Amélia com sua curiosidade de uma criança de quatro anos seguiu os passos de sua mãe até a garotinha loira encolhida no chão.
— Está perdida? – Cornélia perguntou cordialmente a garota que se recusava olhar para a bela mulher a sua frente. A pequenina apenas concordou com a cabeça e segurou o choro que insistia em querer descer ao se lembrar do acontecimento. – E qual o seu nome, querida?
— Cinderella.
Passaram-se o tempo, e Cinderella estava morando com Cornélia e suas duas filhas. Sua infância havia sido tranquila, mas suas noites sempre eram perturbadas por seus pesadelos que faziam a garota lembrar-se do acidente com seus pais.
Agora Cinderella tinha dezessete anos, Amélia dezesseis e Anastácia dezoito. Cornélia havia transformado Cinderella em uma das empregadas da casa, com um pouco mais de liberdade e com um quarto só dela, o que demonstrava que ela não era definitivamente uma empregada, não tendo que receber nenhuma moeda de ouro por seus trabalhos dentro da enorme casa.
Cornélia nunca soube quem foram os pais de Cinderella, pois a mesma se recusava falar a verdade porque sabia que a “ madrasta “ iria querer se apossar de sua casa no campo, junto com o pouco de ouro que lhe restava.
Anastácia havia se tornado a melhor amiga de Cinderella, e achava injusto tudo o que sua mãe fazia com a garota, então sempre que podia fazia de tudo para ajudar a mesma em seus serviços e jogar conversa fora. Amélia era o oposto de Anastácia e tinha apenas dezesseis anos. Busca conquistar o príncipe Henry de dezenove anos, que ainda nem pensa em se casar.
Era seis da manhã quando Cinderella acordou, já estava acostumada com sua rotina e naquele dia em especial estava ansiosa, pois era seu aniversário de dezessete anos, ou seja, um ano mais perto da liberdade.
A bela garota de cabelos loiros e olhos azuis levantou rapidamente de sua cama e vestiu um de seus vestidos velhos e rosados, então amarrou seus cabelos em um rabo de cavalo e desceu as escadas procurando por uma das outras empregadas da casa.
Ao chegar na cozinha se deparou com um pequeno bolo confeitado com um glacê rosado escrito Cinderella, a mesma sorriu e embaixo do prato havia um bilhete:
“ Aproveite o seu dia, distrairei a minha mãe, divirta-se, você merece... Com amor, Anastácia “
Com certeza Cinderella sentiria muita falta de sua irmã quando fosse embora daquela casa, mas faria o possível para não perder o contato.
Pegando o bilhete e um pedaço de seu bolo, Cinderella saiu da cozinha com a típica cesta em mãos para tentar colher algumas frutas pela floresta enquanto não chegava no riacho que costumava se banhar.
Foi até o estabulo e encontrou seu amigo Stewart sentado nos fenos pintando mais um de seus belos quadros sem o reconhecimento merecido, mas esse em especial era um retrato de Cinderella. Stewart havia se empenhado muito neste quadro, para enfim dá-lo a Cinderella, que sem dúvida alguma amaria o presente.
— Feliz aniversário, Cindy. – Stewart sorriu levantando-se e abraçando a amiga.
— Obrigada, Stewart. – Então a loira parou para observar o quadro e sorriu abertamente – Isso é... Para mim?
— Seu presente de aniversário. Quero que ele fique em um espaço bem visível em sua nova casa quando finalmente se mudar.
— Com certeza ele terá.
— Sentirei sua falta. – Confidenciou.
— Ainda temos mais um ano até minha liberdade, e com toda certeza eu te visitarei sempre que der. Nunca me esquecerei de você.
Stewart estava presente em sua vida desde que chegou à casa de Cornélia. Na época eles tinham a mesma idade, então de cara já se deram muito bem, apesar dele ser filho do Cocheiro. Stewart era incrivelmente dócil, carinhoso e atencioso com Cinderella. Quem os visse juntos pensariam que eles eram namorados, até casados na flor da idade, mas era apenas um amor amigável e nada mais. Para Stewart ela era como sua irmã e para Cinderella ele era como seu irmão que nunca teve.
— Conto com isso. O que planejou para hoje?
— Tenho um dia de folga da minha querida madrasta, então... pensei em um banho maravilhoso naquele riacho e uma volta a cavalo. Quero visitar o vilarejo, explorar algumas coisas.
— Veloz está a sua disposição. – Stewart sorriu indo buscar o cavalo que Cinderella tanto adorava. Ele era preto com a crina branca igualmente as suas patas, e seus olhos tinham o mesmo tom azul que o dos olhos da garota.
— Até mais tarde, Stew. – Sorriu pegando o cavalo e montando imediatamente.
Com sua cesta amarrada ao cavalo pelo Stewart, a menina saiu pela floresta em direção ao seu riacho observando em cada árvore para ver se achava algumas frutas. Adorava distribuir alimento entre os necessitados do Vilarejo, pois sabia que a rainha estava cobrando impostos altos e poucos conseguiam pagar pelo lugar que moravam, ficando as vezes até sem alimentos.
Enquanto procurava pelas frutas, sentia o vento bater contra seu corpo, e fechou os olhos apreciando ainda mais aquela sensação tão boa de liberdade. Logo, logo ela seria assim, livre, para sempre. Foi quando perdida em seus pensamentos não viu quando um homem de capa preta veio em sua direção com seu cavalo marrom em uma rapidez, que também não a viu, levando os dois ao chão.
— Você está bem? – O rapaz desistiu de tentar procurar algum machucado nele, quando viu a bela garota encolhida no chão.
Cinderella estava com medo de novo, acabará de se lembrar do acidente que sofrerá com seus pais, e não queria chorar nem se sentir fraca novamente, então apenas concordou com a cabeça.
— Não acredito nisso. Você não olha por onde anda? – Tentou mostrar que estava com raiva, mas só estava se segurando para não chorar.
Quando finalmente olhou para o rapaz se deu conta de quem ele era, pois reconhecia aqueles olhos esverdeados de longe. Levantou-se às pressas e fez uma breve referência, ainda assim toda nervosa pelo jeito que tratará o príncipe.
— Perdão príncipe Henry, eu devia ter prestado mais atenção no caminho. Eu...eu estou bem.
O príncipe riu do jeito que a bela donzela havia se comportado, em um momento estava com raiva e no outro gaguejava em uma forma engraçada de se desculpar pelo “ mau comportamento “ com vossa alteza.
— Não precisa se desculpar. Pode me chamar só de Henry, mas preciso correr, os guardas estão atrás de mim. – Sorriu abertamente para a garota, que não entendeu muito bem porque o príncipe correria de seus próprios guardas – É uma longa história.
— Conheço um caminho. – Sussurrou interessada. Ela poderia ajudar o príncipe, isso seria um ponto e tanto para conseguir logo a sua liberdade. Não estava interessada nele, ou em seu dinheiro, apenas queria ajudar e se mostrar capaz de poder ter essa liberdade.
Henry olhou para ela na dúvida. Cinderella riu e subiu em seu cavalo.
— Gosto de histórias. – Então ouviram os guardas se aproximando em seus cavalos e Henry já não tinha muita escolha – Melhor você se apressar, estão chegando.
Com um aceno de cabeça o príncipe subiu no cavalo da loira deixando o seu para trás, pois sabia que a guarda real o levaria de volta para o castelo.
— Isso parece errado para mim. – Resmungou tendo que segurar na cintura de Cinderella, enquanto a mesma o guiava até o riacho.
— Não deveria reclamar tanto, Henry. – Riu puxando ainda mais as rédeas do cavalo fazendo com que ele fosse mais rápido. O príncipe apertou um pouco mais as mãos na cintura da loira.
Rapidamente chegaram ao riacho, conseguindo despistar os guardas que a essa altura nem faziam ideia de onde o príncipe poderia estar.
— Pode me contar a história agora. – Cinderella sorriu descendo do cavalo e Henry fez o mesmo.
— Gosto de liberdade. Meus pais não me deixam ser livre, e hoje decretaram que preciso arrumar uma noiva e me casar o mais rápido possível. Tenho três dias para arrumar uma noiva a altura e isso não me agrada muito.
— Eu também gosto de liberdade, mas nem todos podem ter. – Sussurrou Cinderella desamarrando o laço de seu vestido para entrar no riacho.
— O que você vai fazer? – Perguntou assustado com o ato da jovem.
Cinderella era muito inocente, não via malicia nas coisas, então para ela era normal que um homem pudesse vê-la tomando banho, muita das vezes tomara banho com Stewart quando pequena, então acostumou-se com isso.
— Vou me banhar. Você vem? – Estendeu a mão para o príncipe que estranhou o ato.
— Se banhar? Nós dois juntos?
— É. Nunca se banhou com outra mulher? – Terminou de tirar seu vestido junto com suas roupas íntimas fazendo com que Henry ficasse impressionado com seu corpo. Com certeza Cinderella era uma das mulheres mais linda que conhecera em sua vida. O corpo da loira era perfeito, com uma cintura fina, e seios fartos, a barriga era lisa e parecia ser muito saudável.
— Já, mas... – Preferiu não terminar sua frase, pois ele falaria que havia se deitado com as outras mulheres, e a garota parecia ser inocente demais e talvez nem sabia o que era isso.
— Tem vergonha? Não precisa. – Sorriu gentilmente para ele e entrou no riacho mergulhando e por fim ficando em pé, mas a água batia até os seus ombros, ela não era tão alta quanto o príncipe.
— Ah, tudo bem. Eu acho. – Tirou sua capa preta e a blusa verde com o brasão da realeza, revelando então os seus músculos definidos, depois tirou a bermuda e seus sapatos. Cinderella mordeu os lábios sem perceber e se virou para que ele pudesse entrar na água.
Henry entrou na água e preferiu manter uma certa distância da jovem, a água ia até sua cintura então seus músculos ainda apareciam.
— Eu não sei seu nome ainda. – Parou para pensar e Cinderella se virou notando que ele ainda não estava tão perto dela.
— Duquesa Tremaine. – Sussurrou lembrando-se da forma que sua mãe era chamada. Não poderia falar seu nome, pois corria o risco de que ele a procurasse novamente e a achasse na casa de Cornélia, e se Amélia soubesse que ela já esteve com o príncipe três dias antes de escolher sua noiva, poderia ser considerada morta, antes mesmo de ter sua liberdade.
— Duquesa Tremaine. – Sussurrou para não se esquecer, quem sabe ela poderia comparecer nas festas que sua mãe planejava dar antes de então escolher sua noiva. – Ficaria feliz se aparecesse no jogo de esgrima amanhã no castelo.
— Eu... eu não tenho certeza se conseguirei estar presente. – Se encolheu sabendo que Amélia com certeza estaria lá.
— O jogo não seria a mesma coisa sem a sua presença.
— Tentarei ir. – Concordou com a cabeça, quem sabe Anastácia a ajudasse com isso também, pois sabia que a menina era apaixonada por Stewart, mas não conseguia ficar com ele por medo da mãe.
— Ficarei muito feliz.
Cinderella sorriu fracamente e corou com vergonha. Uma sensação de desconforto passou pelo seu corpo e parecia que seu estômago ia sair pela boca, nunca sentirá nada parecido com outra pessoa antes.
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