Era uma vez
1 A garota da capa vermelha
Notas iniciais

Era um vez...
Uma garota chamada Chapeuzinho Vermelho. Essa menina morava no vilarejo da Rainha má, uma rainha muito conhecida e temida por todos graças ao seu jeito de comandar as coisas por ali.
Chapeuzinho era uma bela donzela que adorava aventuras e apesar de sua aparência frágil, ela era bem corajosa tendo como sonho enfrentar o lobo que amedrontava o pequeno vilarejo.
Em uma noite de lua cheia a corajosa garota atravessava a floresta encantada para ir até à casa de sua avó que por preferência própria resolveu se refugir entre as árvores, construindo sua casa na parte mais afastada da floresta, alegando que o lobo não rondava por aquelas bandas em seus dias de temporada.
Chegava a ser irônico uma donzela como chapeuzinho andando pela floresta à noite. Sua beleza encantava os homens e havia um homem em especial que tinha a atenção da morena, mas não passavam de bons amigos.
A garota andava pela floresta com graça enquanto cantarolava em sussurros uma das músicas que sua avó havia lhe ensinado quando era pequena. O frio dominava à noite e as árvores pareciam murmurar algo enquanto os ventos sopravam entre suas folhas.
Chapeuzinho avistou o pequeno letreiro iluminado diretamente pela luz da lua entre as árvores informando que ali era a Toca do Coelho, uma pequena caverna muito frequentada pelos homens do vilarejo enquanto não estavam ocupados em seus trabalhos. Era verdadeiramente o bar da época e não havia sequer nem a temporada do lobo que fizesse os homens estarem em suas casas.
Chapeuzinho sorriu ao ver a placa de madeira na porta indicando que o lugar estava aberto e então limpou a neve de suas botas batendo-as no chão e abaixou o capuz de sua capa vermelha ajeitando seu cabelo, para então abrir a porta do local.
Assim que passou pela porta, Chapeuzinho atraiu olhares de vários homens ali presente, mas a donzela só se preocupou em sorrir quando viu sua amiga Jude servindo uma das mesas. Jude era uma camponesa baixinha, com os cabelos ondulados e olhos azuis, ao contrário de Chapeuzinho, ela era casada com um lenhador, que não estava no lugar.
– Chapeuzinho, o que vai querer? — Jude atendeu sorridente a amiga e Chapeuzinho sentou-se de frente para o balcão de madeira que agora encontrava-se entre elas.
– Água ardente. — sorriu orgulhosa pela escolha fazendo com que Jude arqueasse as sobrancelhas e risse brevemente da amiga.
– Saindo uma água ardente.
Jude preparou a bebida da amiga e depois a entregou indo atender aos outros presentes no local. Um homem em particular havia ficado encantado pela beleza de Chapeuzinho Vermelho já que sua capa vermelha fazia um contraste perfeito com seu cabelo totalmente preto.
Nathan era o nome do camponês misterioso que sempre frequentou a Toca do Coelho, mas que ninguém sabia exatamente onde ele morava, mas sua casa era de fato muito bem escondida na floresta. Nathan sempre foi um homem muito reservado e que sempre chamou pouca atenção para si fazendo com que todos o ignorassem e o temessem lá no fundo, um medo que nunca havia sido decifrado já que poucos arriscavam a trocar palavras com o jovem rapaz de cabelos escuros e olhar sério.
Mas aquela noite estava sendo diferente, Chapeuzinho encontrava-se sozinha sem seu fiel e único amigo Steven. Por ser um dos únicos caçadores corajosos o suficiente para tentar enfrentar o lobo, Steven havia saído aquela noite para uma busca na floresta com mais alguns homens do vilarejo, mas ele só fazia isso pela segurança de Chapeuzinho que ele mal desconfiava ter atraído a atenção de Nathan.
Como era noite de lua cheia, os homens do bar sabiam que não deviam festejar ou falarem alto como sempre faziam naquele ambiente, então tudo estava bem tranquilo, até Nathan levantar-se do seu lugar e ir até o balcão e sentar-se ao lado de Chapeuzinho que acabará de tomar um gole de sua bebida que desceu ardendo em sua garganta. Chapeuzinho Vermelho entortou os lábios ao sentir o sabor e logo riu brevemente.
Todos presentes observavam Nathan para saber o que ele faria de fato e então surgiram hipóteses entre eles especulando o que viria a seguir entre os dois no balcão. Nathan revirou os olhos se aproximando um pouco mais de Chapeuzinho e olhou para a donzela de relance.
– O que uma donzela como a senhorita está fazendo aqui em uma noite de temporada? — Nathan perguntou quase em sussurros para a garota ao seu lado, mas ainda assim ela conseguiu ouvir.
– O mesmo que todos. Tomando um pouco... Estava indo para casa da vovó, mas resolvi fazer uma parada breve.
– A casa da vovó? Se desviou um pouco de seu caminho, não?
Nathan assim como todos conhecia muito bem a avó de Chapeuzinho Vermelho, apesar de já ter uma idade avançada a mesma havia feito muitos partos das mulheres do vilarejo, visto que poucas sabiam como realmente se prevenirem para não terem tantos filhos, pois poucos ali tinham condições de sustentar uma família grande.
– Um pouco, mas eu conheço essa floresta como a palma das minhas mãos. — Chapeuzinho sorriu orgulhosa e convicta do que falava. — E quem é você?
– Nathan...
– Prazer, Chapeuzinho Vermelho.
– Eu já lhe conheço. Me diz quem não conheceria uma donzela como você?
– Está bem, Nathan... Agora eu tenho realmente que ir.
Chapeuzinho não ligava para o que os outros diriam por terem visto ela conversando com um homem na Toca do Coelho, mas ligava em ver sua avó preocupada por ela não ter chegado cedo em sua casa e com certeza sua avó já estaria especulando o que aconteceu com sua neta. O lobo. Ele poderia estar lá fora entre as árvores, mas Chapeuzinho não tinha medo dele, já ouvirá dizer que ele era preto e possuía uns dois metros de altura e mesmo depois de ouvir sobre os massacres que o lobo cometerá ela ainda pensava que no fundo ele não lhe causaria mal se ela não o ameaçasse.
– Tem certeza que sairá agora? — Nathan sussurra olhando para Chapeuzinho e a mesma ri brevemente.
– Eu não tenho medo do lobo mal. Quem tem medo dele afinal? — olhou envolta e levantou-se deixando um saquinho remendado com as moedas de prata dela em cima do balcão — Foi bom conversar com você, Nathan.
– Igualmente, Chapeuzinho. Ande pela trilha, a floresta pode ser mais sombria na temporada.
Chapeuzinho ajeitou sua capa vermelha e saiu da Toca do Coelho sentindo no mesmo instante o vento gelado bater contra seu corpo fazendo com que a mesma se encolhesse. Flocos de neve caiam a sua volta e a neve no chão aos poucos se acumulava tornando a floresta encantada um tanto quanto sombria como Nathan havia lhe avisado.
Por um tempo Chapeuzinho seguiu a trilha que a levaria para a casa da vovó, mas quanto mais ela andava mais seus pés pareciam cansados e foi quando ela viu um atalho que a levaria ao mesmo destino. Decidida a seguir o atalho Chapeuzinho Vermelho adentrou novamente pelas árvores da Floresta Encantada e pode ouvir um uivo um pouco longe de onde a mesma encontrava-se.
Chapeuzinho não queria admitir para ela mesma, mas estava com medo, medo de Nathan estar certo e de que o lobo a achasse e a matasse, pois acreditava ter muito o que fazer ainda. Com o tempo a doce menina tentou se tranquilizar, mas entrou em pânico quando chegou em uma parte da floresta que ela nem ao menos conhecia. Por sorte, a mesma achou um chalé todo de madeira. Com frio e com fome Chapeuzinho viu ali uma oportunidade de abrigo.
O chalé não era enorme, mas estava aberto e isso que lhe importava. Assim que entrou viu dois lampiões em cima da mesa de madeira ali no centro da pequena sala, mas o que lhe chamou mais atenção foi a lareira estar acesa, parecia ter sido acesa a pouco tempo já que possuía muita lenha. No topo da lareira havia uma pele de urso marrom pendurado na parede e algumas cabeças de alces que se destacavam no ambiente, quando seus olhos caíram sobre uma cadeira velha ao canto.
Chapeuzinho se aproximou da lareira tentando se aquecer e aos poucos já estava se sentindo mais relaxada. Depois de ter se esquentado a garota procurou por algo pra comer e encontrou apenas algumas frutas em uma cesta em cima de uma mesa no que poderia chamar de cozinha. Comeu uma maçã tentando saciar sua fome e certificou-se de que ali ela estaria segura, quando escutou o som de animais correndo envolta da cama e então algo como o som de unhas arranhando a janela da casa que por sorte estava fechada.
A garota se encolheu dentro de casa e então mais uma vez ela ouviu o som, mas dessa vez era na porta e alguns segundos depois a mesma ouviu batidas. Quem seria afinal? Com as pernas meio tremulas, Chapeuzinho foi até à porta e com o coração disparado abriu aos poucos à porta vendo Nathan.
– Você?
– O que está fazendo na minha casa? — Nathan perguntou terminando de abrir à porta da casa vendo que tudo estava em seu devido lugar como o mesmo havia deixado.
– Eu acabei me perdendo, não sabia que essa casa era sua. — sussurrou com sua voz de sinos.
– E aproveitou para comer minha maçã? — riu irônico vendo a maçã mordida fora da cesta.
– Me desculpe, Nathan.
– Está tudo bem, só preciso que vá, agora!
– O quê?
– Vai embora, o lobo está próximo...
Foi então que Chapeuzinho o analisou. Seu olhar sobre ela era de um predador, seus dentes eram afiados e completamente brancos, seus cabelos desgrenhados combinavam com seu visual despojado e o que mais lhe chamava atenção era que algo nele lhe gritava como perigo.
– Que dentes afiados você tem. — sussurrou a garota se aproximando mais dele. Quanto mais perigoso ele lhe parecia, mais ela queria se aproximar e isso lhe intrigava.
– Você precisa ir embora, Chapeuzinho. Vá, agora. — esbravejou com a garota dando um breve passo para trás e a mesma deu mais um para frente.
– Porque eu devia correr?
– Porque aqui você corre perigo. — sussurrou bem próximo de Chapeuzinho.
Então em um rompante à porta foi aberta e por ela entrou Steven o caçador amigo de chapeuzinho e sua ficha começou a cair. Steven não era o lobo e ele estava procurando pelo lobo, e naquele chalé só havia ela e Nathan e ela também não era o lobo, o que levava tudo à Nathan... Ele era o lobo, pensou Chapeuzinho.
– Chapeuzinho o que está fazendo aqui? — Steven perguntou surpreso, pois chegará ali seguindo os rastros que o lobo havia deixado, mas ao se deparar com sua amiga e seu velho amor ele se encontrou com dúvidas de quem seria o lobo afinal.
A pouco tempo, todos descobriram que o lobo não era um simples lobo, apesar de sua altura descomunal, o lobo também virava uma pessoa, o que trazia desconfiança para todos do vilarejo, mas a única que tinha certeza de quem era verdadeiramente o lobo era Chapeuzinho Vermelho, ela acabará de descobrir, ainda não tinha sua confirmação concreta, mas não possuía dúvidas quanto a isso.
Chapeuzinho engoliu o seco olhando para Steven, não queria que ele matasse Nathan. Dando um passo para trás a menina sorriu brevemente tentando tranquilizar o amigo.
– Oras, estava andando pela floresta quando acabei me perdendo da trilha da vovó. Encontrei o chalé do Nathan e ele me deu abrigo, não preciso que se preocupe comigo Steven eu estou bem. Acharam o lobo?
Steven suspirou aliviado, não era como os outros que tinha medo de Nathan por ele ser um homem misterioso, mas ainda assim preferia não arrumar encrencas com o camponês.
– Ainda não. Estamos procurando, a trilha dele acaba um pouco antes desse chalé, fiquei preocupado quando te vi aqui, devia ir para casa da vovó, precisa que eu a leve?
– Prefiro que não, obrigada pela gentileza, amanhã estarei em casa, não preocupe a vovó, ela não sabe que eu estava indo para lá.
– Se cuide, Chapeuzinho, estarei por perto. — dando um beijo na testa da jovem, Steven saiu do chalé lançando um último olhar na direção de Nathan que o olhou de relance.
– Não vai fugir? — Nathan arqueou as sobrancelhas assim que a porta foi fechada e Chapeuzinho voltou a olha-lo.
– Deveria?
– Sim. Eu sou o lobo mal, doce Chapeuzinho. — sussurrou passando o polegar em uma das bochechas da garota e sorriu malicioso quando viu a garota engolir o seco. — O que o lobo tem feito?
– Matado pessoas, mas...
– Sem, mas. Você sabe que sou perigoso, mas gosto da sua coragem. Tem algo em você que me faz querer protege-la.
Chapeuzinho se deixou sorrir por breves momentos até que Nathan rosnou em sua frente apertando um pouco suas bochechas. Nathan sabia que não machucaria Chapeuzinho e as únicas vezes que machucou as pessoas foi quando elas o perseguiram, e quando ele deixou o lobo que havia dentro dele tomar conta de si. As pessoa não sabiam de seu segredo, se não o acusariam de ser um monstro e não podiam saber que Chapeuzinho sabia, pois a acusariam de cumplicidade, então resolveu que se ela soube por si só e não foi embora, algo ela queria dele, e ele não podia negar que sua companhia lhe era agradável.
– Talvez só goste de minha beleza, Nathan.
– Nem um pouco convencida não é, Chapeuzinho?
– Estou lhe dizendo o que todos me dizem. — sussurrou e Nathan se afastou dela sorrindo achando graça da bela garota.
– Tudo bem. Passe à noite, apenas. Amanhã eu te levarei para sua avó.
– E se eu não quiser? — sorriu.
– Te levarei mesmo assim.
Naquela noite Chapeuzinho conheceu o outro lado de Nathan. O mesmo a deixou dormir em sua cama enquanto ele despistava os caçadores de perto da sua casa. Quando chegou em casa encontrou Chapeuzinho deitada em sua cama já dormindo aproveitando o cobertor quente que lhe foi deixado. Aproveitando que a mesma estava dormindo, Nathan se deitou ao lado da jovem tirando suas botas e a deixando ao lado da cama abraçando a menina levemente antes de dormir.
Chapeuzinho foi para casa pela manhã, agradecendo ao Nathan por ter levado-a até em casa e fazendo com que sua avó agradecesse imensamente por não ter acontecido nada a sua neta. Depois desse dia, a amizade entre Steven e Chapeuzinho se tornou superficial, pois a mesma sabia que se ela queria Nathan a salvo, não poderia deixar que Steven estivesse por perto.
Nathan vendo que Chapeuzinho abriu mão de sua vida para serem simples amigos, começou a amar a garota e sempre procurar pelo seu bem. Aos poucos a amizade dos dois se intensificou e o lobo mal no final não era tão mal assim, apenas precisava encontrar a sua doce garota da capa vermelha.
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