Era uma vez
1 Era uma vez Cassie -- Cassandra
Notas iniciais
Sweet dreams are made of this
Who am I to disagree
Travel the world and the seven seas
Everybody's looking for something
Some of them want to use you
Some of them want to get used by you
-- Marylin Manson, Sweet Dreams
Era uma vez uma menina que queria ser mulher.
Desde cedo via sua mãe com um elegante vestido vermelho-escarlate, segurando uma garrafa de vinho caro em uma mão enluvada e um cigarro na outra. Achava-a a mulher mais linda do mundo, mas sua avó só a achava vulgar.
Por vezes a avó de Cassie precisou esconder os batons da casa para impedir a neta de fazer uma de suas tentativas de maquiagem quando era mais nova.
Se a bêbada no vestido vermelho -- "Ficaria melhor com uma fenda", dizia a pequena Cassie -- era uma péssima mãe, não haveria palavra ofensiva o bastante pra definir o que era sua avó.
Fazia a neta acordar as cinco e meia em ponto toda manhã para recitar "o lema da família" -- Cassie tinha certeza que fora a própria avó quem escrevera aquilo, mas não gostava de discutir, pelo menos no início -- por uma hora até que ter um intervalo de quinze minutos para o café da manhã. Escrevia um cronograma que humilharia qualquer general no quadro negro do corredor. Espancava-a ao sinal de qualquer gesto ou insinuação vulgar e seguidamente era trancada por horas dentro da despensa.
Cassie -- ou Cassandra, como insistia em ser chamada nessa época -- cresceu e uma rebeldia inexplicável lhe impulsionava a fazer coisas tão estúpidas que ela acreditava que só garotas como as que ela via na rua faziam.
Não se importava em ficar até mais de um dia trancada na despensa desde que vencesse uma discussão. Aproveitava o toque de recolher cedo para planejar a roupa que usaria para sair á meia-noite, mesmo que não conseguisse sair. Pregava peças na sua avó, que nunca conseguia provar que de fato fora a menina, e principalmente em seu avô, por quem Cassandra tinha uma raiva especial.
Veja bem, um show de horrores se desenrolava bem na sua frente e tudo que ele fazia era trabalhar. Era natural que Cassandra o odiasse, principalmente depois que sua mãe morreu e ele não teria tanto prejuízo pra compensar.
Cassandra lembrava-se com detalhes do dia em que recebeu a notícia. Sua avó quase soltou fogos, mas Cassandra vestiu um vestido preto --aparentemente o único vestido de sua mãe que não era vermelho -- maquiou-se do melhor jeito que pôde e acendeu um dos cigarros da mãe.
Uma coisa interessante sobre Cassandra é que ela não era uma pessoa sortuda. Sua avó entrou no quarto quando ela estava quase esvaziando a carteira de cigarros. Pior: havia um pretendente com ela.
"Hummmm, gostoso", foi o que ela pensou quando passou os olhos pelo jovem a sua frente. Se ela se deliciava com a visão, ele então a comia com os olhos.
A avó não poderia estar mais embaraçada. Não sabia se deveria xingar ou punir a neta na frente do pretendente, principalmente porque eles pareciam ter gostado um do outro. De um jeito totalmente vulgar, mas se desse um jeito de preservar a neta...
"Este é Andrew, o futuro Conde de Cambridge", a avó disse devagar, ainda um pouco atordoada. Cassandra mordeu o lábio inferior. Ela tinha um conde como pretendente?
"Andrew, esta é Cassandra, minha neta", a avó pareceu finalmente ter despertado de seu transe. "Ela faz aulas de esgrima, equitação, latim, francês, balé clássico e tem vários professores particulares, um para cada matéria", a avó começou a tagarelar loucamente e o modo como ela avaliava Cassandra, como se estivesse tentando vender um cavalo, exibindo suas medalhas, incomodava-a. Ela nem mesmo fazia todas aquelas aulas!
"Mas é claro que, como minha neta, ela é intocável antes do casamento", ela finalizou com um sorriso de canto.
Isso enfureceu Cassandra.
A garota fechou os punhos e deu seu melhor sorriso para o jovem, que concordou imediatamente com a avó. Algum tempo depois o casamento seria marcado.
Vinte e cinco anos se passaram e Cassandra lembrava com detalhes aquele dia fatídico -- menos aquelas malditas duas horas.
Lembrava-se de ter colocado o belíssimo vestido branco. Lembrava-se de ter caminhado até a entrada norte do jardim em forma de labirinto da mansão Kingsleigh com Katherine (a filha do Conde que logo se tornaria legítima -- pelo menos era o que as pessoas achavam ) e a menina saíra correndo na frente, animada. Depois disso, apenas a multidão lhe perguntando eufórica, um falando sobre o outro.
"Quem é o pai da criança que carrega em sua barriga? O mesmo da pequena Katherine?"
"Onde arranjou esse vestido? Amei!"
"Como a barriga cresceu tão rápido?"
No momento, tudo o que Cassandra pôde fazer foi procurá-lo na multidão, mas o pai de Katherine só apareceu para segurá-la quando se sentia tonta demais até para ficar em pé. Tantas perguntas a responder, tanta pressão. E tantas lacunas em branco na memória.
De fato, tudo o que ela conseguia lembrar era:
1) Vermelho, muito vermelho;
2) Um grande relógio maluco mostrando os meses e com um contador de dias;
3) O contador exibindo o número 6.925;
4) Uma voz baixa e sibilante sussurrando seu apelido de infância.
Embora estranhos, os lapsos de memória lhe eram reconfortantes. E foi com isso que sonhou durante o desmaio.
Quando acordou, Cassandra não conseguia nem olhar no rosto da avó, e o mesmo acontecia com a velha senhora. Aparentemente, John explicou tudo o que havia acontecido, porque o filho do jardineiro abraçava-a carinhosamente, coisa que surpreendentemente agradou Cassie.
E isso sabendo que o filho era de outro homem.
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