Era uma vez

2 Era uma vez Katherine -- Kath


Notas iniciais
Eu demorei, eu sei, mas a preguiça é um lugar escuro e cheio de terrores. Bem fácil de se perder.

I’ve been waiting to smile, hey
Been holding it in for a while, hey
Take you with me if I can
Been dreaming of this since a child
I’m on top of the world
–- Imagine Dragons, On Top of The World

Era uma vez uma continuação. Tudo em Katherine parecia indicar que ela não era nada mais, nada menos que a continuação de Cassandra. As duas eram idênticas -- a diferença era que Katherine não precisaria cometer erro algum durante sua vida, os de sua mãe bastavam.
Claro que a pequena Katherine fora criada com todo o amor e carinho que Cassandra não recebera. Claro que ela tinha todas as chances de ser a versão jovem e inocente de Cassandra. Afinal, mesmo depois da morte de seus bisavós, o pai de Katherine se mostrou ótimo na administração dos negócios da família.
Mas cada vez mais ela se distanciava de todas as expectativas. "Há algo errado com esta menina", era o que todos diziam.
Era tão boa na dança de salão -- do tipo que era dançado nas festas chiques que a família raramente ia -- que isso passou a ser pouco pra ela. Queria dominar cada vez mais estilos, um de cada vez, a leveza e graciosidade impressionando a todos que a vissem. Era tão boa pianista que tocar o instrumento passou a ser um incômodo. "Por que não me dão algo mais difícil?", pensava. Sem falar pelo anseio secreto por aprender algo totalmente dispensável em sua posição: artes plásticas.
Por outro lado, fazia de tudo para fugir dos vestidos e saltos, mesmo que não tivesse a menor dificuldade em usá-los. Embora tivesse quantas aulas seus pais pudessem pagar, eram muito poucas as que a interessavam. Mas o que mais assustava Cassandra eram as ambições da menina. Sempre que Katherine começava uma frase com "Quando eu for mais velha, vou...", a mãe estremecia.
Estava feliz de finalmente ter seu marido, suas filhas, sua casa, seu lar. Nenhuma cobrança, apenas o compromisso de criar bem as suas meninas.
No entanto, sentia que algo faltava. E de alguma forma, ela sentia a falta das lembranças, da informação, como um membro fantasma. Quase podia sentir um formigamento quando olhava para Ramona, a filha do meio. Os cabelos negros, quando observados de canto de olho, pareciam lembrar-lhe alguém.
E é claro que a pequena Katherine estava ciente disso. Esperta e observadora, ela estava com a mãe no dia do ocorrido e não podemos dizer que ela gostava de todo esse mistério. Pelo contrário, isso a perturbava demais.
Todos diziam que Katherine era exatamente igual a Cassandra naquela idade, mas ela nunca se sentiu assim. Nunca sentiu que era, de fato, a continuação da mãe. Sempre que lhe falavam sobre as últimas gerações de sua família, Katherine mal podia acreditar que era uma Kingsleigh.
Na verdade, a única vez que Katherine de fato teve orgulho de sua família foi quando Ramona -- que passava a maior parte de seus dias na velha biblioteca cheia de livros velhos naquela casa velha -- mostrou-lhe a árvore genealógica delas e falou um pouco sobre cada um. Essas sim, eram pessoas boas, pessoas que traziam orgulho para a família -- apesar da imagem que deixaram não ser tão boa quanto a fortuna. Podiam ser loucos, sim, mas eram pessoas que arriscavam, que lutavam, que acreditavam. Não bêbados ou sádicos, como haviam sido as últimas gerações.
Lembrava-se de um dia em especial entre todos os que passara na propriedade Kingsleigh antes de ir embora.
Ela passeava pelo jardim/labirinto enquanto Ramona pintava as rosas de Cassandra de vermelho -- "Mamãe deixou", ela dissera. "Além do mais, vermelho é sempre melhor que branco"--, uma por uma. Começou a se distanciar cada vez mais da irmã mais nova até não poder enchergá-la mais. Então, ela viu o coelho.
Não, não havia nada de incomum no coelho. Era apenas um filhote, com pelo branco e olhos vermelhos. Katherine acomodou-o nos braços e levou até onde tinha visto Ramona pela última vez.
Desta vez, Lizzie, a irmã mais nova, estava com Ramona, que revirava os olhos para o seu quase-choro.
–- Ahn, Ramona, não estrague as flores.
Em resposta, Ramona deu outro revirar de olhos.
Katherine aproximou-se com o filhote no colo e antes que pudesse dizer uma palavra, Lizzie já estava pedindo para segurá-lo.
–- Acalme-se, Lizzie, ele pode ter doenças!
–- Mas você está segurando!
–- É para a nossa segurança, Lizzie -- disse Ramona com um olhar de reprovação. -- Ela está se expondo a milhares de doenças para nos proteger.
Katherine ficou sem graça. Não era exatamente nisso que estava pensando quando pegou o coelho.
–- Ouçam, eu encontrei ele lá atrás. Não sei se deveríamos simplesmente largá-lo ou levar pra casa...
–- Desculpe interrompê-la, Katherine, mas acho que o melhor é levá-lo aos nossos pais e deixar que eles decidam -- disse Ramona.
–- Mas fomos nós quem achamos, nós devemos decidir o que fazer com ele! -- Lizzie interviu.
–- É, você tem razão, Lizzie. Acho que ele não é selvagem, apesar de poder sim, ter algumas doenças.
–- Ele pode ter um dono! -- Ramona soltou.
–- Mas ele é muito pequeno, deve ter pouco tempo de vida. Se ele tem um dono, é porque ele fugiu pouco depois do parto. Aposto que não sentirão sua falta, imaginem quantos iguais a ele devem ter -- argumentou Lizzie.
Ramona franziu o nariz, incomodada com o excesso da palavra "ele" na frase.
–- Se vamos ficar com ele, precisamos de um nome.
Todas pareceram pensar até Lizzie levantar o dedo como se estivesse respondendo uma pergunta na escola, apesar de nunca ter frequentado a escola.
–- Sakie!
Ramona franziu a testa.
–- Esse nome existe?
Katherine sorriu.
–- É claro que existe, mas não aqui.
Ninguém pareceu entender o que a menina tinha dito, muito menos ela.
O fato é que Lizzie pegou o coelho do colo de Katherine -- ignorando os protestos de Ramona, claro -- após o fim da discussão com a desculpa de que tinha exposto sua irmã demais. Levou-o até seus pais, informou-os da decisão tomada pelas três e entregou-lhes o animal com cuidado pra que fossem dados os devidos cuidados e vacinas.
O que surpreendeu Katherine foi o jeito que ela fez aquilo. Com o queixo erguido, firmeza na voz como se não esperasse que alguém fosse contradizê-la.
Mas nem as palavras persuasivas de Lizzie foram o suficiente para mantê-la em casa depois dos 18 anos.
O pai delas estava morto, os negócios da família não poderiam ficar piores e Cassandra estava praticamente exibindo o corpo inteiro por entre uma fenda no vestido de sua avó para conseguir conquistar alguém importante. Em uma época como essa, tudo o que Cassandra não queria era que uma de sua filhas simplesmente se recusasse a ser casar ou fazer alguma das obrigações das damas de seu circulo social -- ou o que restou dele.
A sorte deveria estar transpirando por seus poros e escorrendo de seus cabelos na noite em que juntou uma mala pequena e pulou a janela. Beijou as testas de ambas as irmãs e prometeu que voltaria para buscá-las.
Kath era uma pessoa muito sociável -- o que levou Cassandra a achar que conseguiria um belo casamento para a filha --, então acabou fazendo amizade com o primeiro grupo de pessoas que encontrou na frente de um mercado, brincando de corrida com os carrinhos.
Um casal de gêmeos travava uma guerra de tapinhas nos braços, cada um sentado em um carrinho do supermercado, lado a lado. Uma garota de cabelo médio, louro com mechas avermelhadas e encaracolado ria descontroladamente de alguma piada. Inesperadamente, um dos outros dois garotos sentados ao lado dela pegou-a no colo, em seguida jogando-a para o colo do outro garoto, e assim suscetivamente. A menina realmente não parava de rir.
Tentando não exitar, Kath se aproximou. Eles pareciam com o tipo de pessoa que ela queria ser.
Imediatamente eles estranharam aquela garota parecendo meio perdida, carregando uma mala e querendo falar com eles sem nenhum motivo aparente. Mas ela parecia ser legal. Aconteceu assim:
–- Então, ahn, oi. Eu sou Kath, e vocês? -- ela perguntara insegura.
A menina dentro do carrinho deu de ombros, sabia que não tinha nada a perder.
–- Eu sou Ashley e o retardado que acha que pode me vencer em uma corrida -- ela acenou com a cabeça para o garoto do carrinho ao lado -- é o Ashton, meu irmão. E, ah, 'tá vendo aquele cara ali? É o Jamie. Ele parece hétero, mas come o rabo do meu irmão toda noite -- Kath arregalou os olhos diante da escolha de palavras. Ashton não parecia ofendido, e muito menos Jamie.
–- Não toda noite, Lee -- isso fez com que os olhos de Kath se arregalassem mais.
–- Continuando -- disse Ashley --, aquela ali é a Heather. Ela teve o coração partido...
–- De novo -- a menina interrompeu.
–- ... e foi embebedada pelo Jamie com o intuito de esquecer isso. E neste exato momento ela está lamentando mais uma vez o fato de que meu primo americano prefere ruivas -- seus olhos se fixaram nos cabelos de Kath e Jamie empurrou o garoto restante para a frente.
Ashton começou a cantar uma música romântica qualquer enquanto Heather arrancava folhas de um arbusto próximo e jogava-as para o alto como pétalas de rosa, sem nunca parar de rir. A menina parecia rir até do vento.
Kath decidiu não focar muito no garoto corando na sua frente e sim nos seus atuais problemas.
–- Ahn, vocês conhecem alguém que esteja disposto a trocar moradia por trabalho? -- ela se expressara mal, sabia disso. Mas apesar do sorriso malicioso de Jamie, Ashley pareceu entender.
–- Pra falar a verdade, é exatamente o que minha tia, Sarah, está procurando.
Ashton se precipitou à frente de sua irmã.
–- Uma menina ruiva e querendo trabalhar por um teto? Ou você estava destinada a nos encontrar ou é tudo coincidência, anda com problemas com drogas e foi expulsa de casa. Ou talvez estívessemos destinados a encontrar uma garota ruiva que fugiu de casa.
Heather resmungou algo durante o sono no ombro de Jamie, que pareceu ter entendido.
–- Eu e Heatie votamos à favor da terceira opção.
O primo de Ashley e Ashton olhou no relógio.
–- São oito horas. É melhor irmos se vocês quiserem experimentar o meu Hamburguer Britânico.
Imeditatamente Ashley obrigou Jamie a acordar Heather e se posicionar para empurrar o carrinho de Ashton. Heather andou como um zumbi até a outra extremidade da calçada e ficou parada como se estivesse esperando alguma coisa.
–- Você! -- Ashley apontou pra Kath. -- Fique uns trinta centímetros à direita de Heatie.
Katherine o fez. No segundo seguinte, Jamie e o primo dos gêmeos empurraram os dois carrinhos calçada abaixo. Ashton largou na frente, pois Jamie era mais forte, mas, aparentemente, Ashley apoiara seu peso na frente do carrinho, fazendo-o acelerar loucamente. Kath quase não conseguiu segurá-lo.
No caminho para a casa de Tia Sarah, Ashley não parara de rir da cara de derrotado do irmão, fazendo dancinhas da vitória sem nunca parar de rir. Heather estava quase caindo de sono, mas Jamie a pegara no colo. Kath apenas levava sua mala em silêncio.
Sarah parecia ser muito sensitiva em relação às pessoas. Bateu os olhos e Kath e logo perguntou se ela viera pela vaga. Ela respondeu que sim e começara a trabalhar no dia seguinte.
Naquela noite, o primo de Ashley e Ashton fizera mesmo o Hamburguer Britânico. Kath se surpreendeu ao constatar que não sabia o nome do garoto. Ele se apresentou como Flinn.
Flinn fora para a Inglaterra para cursar Música. A proposta que recebera era simplesmente melhor que todas as dos Estados Unidos e ele tinha os primos e a outra tia. Não tinha porque não aceitar.
Ele insistia que tinha feito amizade com um chefe de cozinha francês assim que chegara na Inglaterra. Insistia também que o tal chefe havia lhe ensinado todas as suas receitas porque o rapaz salvara sua vida.
Kath achava adorável a forma como assim que finalizava um comentário, Flinn olhava pra ela como se estivesse esperando uma resposta enquanto a admirava. Achava adorável também o brilho de inocência que nunca fugia de seus olhos, uma infantilidade sincera.
Quando Jamie e Ashton deram um tempo, Ash pedia para ficar com o último turno de Kath continuamente. (Tia Sarah gostava de colocar todo mundo para trabalhar na sua lancheria, inclusive os gêmeos.) Isso deu a Kath a liberdade de que precisava para chamar a atenção dos outros integrantes da banda de Flinn, Mr. 88, que costumava tocar ali toda semana.
Assim, ela começou a tocar teclado -- não era muito diferente do piano, ela só precisara se acostumar com o som -- fora do seu turno ganhando 1/4 do lucro da banda. Juntou dinheiro, um pouco de cada vez, até ter condições de alugar um pequeno apartamento. Sarah passara a lhe pagar o dobro.
A relação de Flinn e Kath consolidava-se cada vez mais. A banda fazia mais sucesso e Kath se deu o luxo de comprar seu primeiro material de pintura.
Lembrava-se com detalhes dos longos minutos que passou encarando a tela em branco antes de pegar um lápis e fazer os contornos. Naquele momento, todos os belos rabiscos nos cantos das folhas valeram a pena.
Seis meses depois, a sua primeira coleção estava pronta. Não fizera tanto sucesso, mas Kath pôde largar o emprego de garçonete.
A segunda fora melhor. Na verdade, fora incrível. Um sucesso estrondoso. Ela não recebera renome ou fama mundial, mas as obras foram leiloadas em milhões e aquilo era o trabalho de alguém que nunca tinha estudado nada do tipo.
Kath passara a se dedicar à sua carreira artística integralmente. Ela ainda participava de alguns ensaios da Mr. 88, mas nunca diretamente.
Buscava suas irmãs para passar um tempo no seu novo apartamento sempre que podia. Nada dera mais prazer à ela do que ouvir Ramona contar que Cassandra vira uma de suas obras na casa do Conde de Cambridge.
Katherine Beatrice Kingsleigh trabalhava na sua terceira coleção em parceria com Heather Blane quando escorregou na lama e descobriu sua origem.

Notas finais
Caso não tenham notado, eu excluí a Until The Midnight. Acontece que do jeito que as coisas andavam, não daria certo mesmo. Não temam, eu vou reescrever. Por enquanto, Era uma vez vai ser postada normalmente, já sabem do que se trata, mesmo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.