Era Uma Outra Vez...
35 Tempestade - Parte 2
Notas iniciais
“Não a matei por não ter a mão ferro nem corda, pistola nem punhal; mas os olhos que lhe deitei, se pudessem matar, teriam suprido tudo.”
– Sofia, esquece esse maldito livro e foca no que é importante! Por favor, a festa já começou e você continua aí, largada que nem a sua irmã nos velhos tempos... Você não vai descer?
– Não. – Sofia emitiu a curta resposta sem desviar os olhos do livro que lia.
Ela não tinha interesse na festa de Júlia e poderia jurar que a outra garota também não fazia questão da sua presença no seu aniversário. Ficaria no seu quarto, lendo seu livro ou morrendo de tédio, não importa, não tinha o mínimo desejo de participar da ‘feliz celebração’ com pessoas que não acrescentavam em nada a sua vida. Se não fosse a chuva que provocou alagamentos em vários pontos da cidade, há essa hora ela estaria na Barra, na sua casa respirando mais aliviada, não naquele casarão barulhento e insuportavelmente solitário.
Ben havia desaparecido e ela sem poder escapar, ficou as ultimas horas martelando sobre como encarar o que estava por vir. As reações que mais a preocupavam eram a de Vera e Pedro, mas isso não a impediria de ir adiante. Amava Ben, talvez não tanto como no início, mas ainda o amava. E nem Anita nem ninguém o tirariam dela outra vez.
– Ai Sofia, por favor, vamos! Eu sei que não é o melhor programa do mundo, mas tem o Martin. Olhei nesse instante pela janela e o carro dele tá estacionado do outro lado da rua... É a minha chance de ficar próxima a ele. Por favor!
– Desculpa, Fla, mas nada vai me fazer descer e me misturar a esse pessoal. Nem a minha amizade por você, sério, desculpa.
– E o que eu vou fazer lá com ele... Sozinha? Eu preciso da sua ajuda!
– Não precisa não! – Sofia encarou a amiga, decidida. – E também não vai fazer nada! Vai ficar na sua, Ok? Ele é que tem que te abordar primeiro, caso contrário, fim de festa para você. É uma ordem, Flaviana, nem ouse desobedecê-la.
– Mas... Mas... E o que eu faço lá, sem você e proibida de ficar com o Martin? – Choramingou Flaviana fazendo bico. Se a intenção era comover Sofia, ela não conseguiu, pois cruzando os braços a loira a fitou, determinada.
– Aprende a exercitar a paciência! – Falou Sofia, seca. – Ela vai ser muito importante se você realmente quer ficar com ele. Eu já te falei minha opinião sobre esse cara e o quanto ele não é para você, mas Ok! Eu to fazendo isso pelo seu bem, você precisa confiar em mim.
– Tudo bem... – Rendeu-se Flaviana. – Mas e você? Vai morrer de tédio aqui, trancada. Pelo menos a gente podia se divertir rindo dos ‘assassinatos estilísticos’ das convidadas!
– Eu vou ficar bem... – Suspirou cansada. – Agora vai e lembra do que eu te falei.
– X –
– Valeu amiga!
– Que bom que gostou, Ju. Eu sei que você falou que não queria festa, mas não é todo dia que se faz dezoito anos, né? E você merece isso! É a sua noite: aproveita!
– Eu nem sei como agradecer, juro. Tá tudo lindo!
As duas amigas abraçaram-se emocionadas sendo separadas pelos convidados que queriam felicitar Júlia pelo dia. Feliz, Anita vagou o olhar a procura do namorado, sem encontrá-lo. Decidida a não ter maus pensamentos aquela noite, foi até a cozinha ajudar a mãe.
– Obrigada mãe, eu sei que isso aqui vai ficar uma zona, mas eu me encarrego de limpar tudo.
– Não precisa Anita, eu faço de coração. A Júlia é uma ótima menina assim como você. Merece essa alegria.
– Você é incrível, sabia? – Anita abraçou a mãe e beijou-lhe a bochecha. – Eu te amo!
– Eu também te amo!
– Que tanto amor é esse que vocês estão falando?
– Serguei! – Exclamou Anita ao ver o amigo se aproximar. A música estava um pouco alta e ela teve que falar acima do tom. – Onde você tava? Pensei que não vinha!
– Achou mesmo que eu perderia a festa da minha melhor amiga? – Perguntou risonho dando um meio abraço na garota. – Oi Vera! – Cumprimentou a mulher que sorriu ao passar com uma bandeja de copos.
– E onde o senhor estava se é que posso saber?
– No trânsito... Levei o dobro do tempo para chegar aqui com essa chuva. Ela deu trégua depois que eu fui embora, mas voltou quando eu saía de casa. E pelo jeito não vai parar tão cedo... O ruim vai ser para voltar. Tem o quartinho do salão, mas ele está inabitável, mesmo que por uma noite.
– Bem, qualquer coisa você dorme aqui. Tenho certeza que a mamãe não vai se importar. Até porque a Flaviana e a Sofia também não vão poder voltar para a Barra por causa dos alagamentos... Só espero não ter que cruzar muito com minha irmã. – Desabafou com um suspiro.
– Aconteceu alguma coisa? – Indagou Serguei incomodado pelo abatimento de Anita.
– Não... Não, eu só acho que to meio melancólica. Vai ver é a chuva! Não sei o porquê, mas sempre me sinto triste quando chove... – Sorriu fraco para o amigo. – Que tal a gente esquecer isso e se divertir?
– Ótima sugestão! Vamos lá, porque você está linda e merece uma dança.
– X –
– Hey, está se escondendo?
– Eu, me escondendo? De quem?
– Não sei... A Flaviana me disse que você não quis descer para a festa. Vim ver como você está. Tudo bem filha? – Vera foi até a cama e tocou a testa de Sofia para sentir a temperatura. – Alguma coisa tá te incomodando?
– Não, mãe... Eu só... – “Só estou prestes a rachar com a nossa família, mas, por favor, não me odeie.” – não estou com clima para festas. Sem falar que eu e a Júlia nunca fomos amigas... O que eu ia fazer lá?
– Se divertir, por que não? A Júlia não vai se importar se você se juntar aos seus amigos. E tenho certeza que eles são seus amigos.
– Dona Vera, só a senhora mesmo para ter uma fé tão grande nas pessoas. Inclusive e principalmente em mim.
– Eu sei a filha que eu tenho e o quanto ela é especial.
– Eu sei que a Anita é muito especial, mãe. – Falou Sofia irônica. Ela não era especial não como sua irmã.
– Eu estou falando de você, sua chata! – Brincou Abraçando Sofia – Todos os meus filhos são especiais.
– Opinião de mãe não conta! – Protestou a garota risonha. – Mas não importa, eu vou ficar aqui quietinha curtindo o silêncio. Sério, dona Vera, eu estou bem. Volta pra festa e cuida da casa pra que esse bando de desocupado não quebre nada!
– Tem certeza?
– Absoluta! Tá tudo bem, mãe... Sério. Acredita em mim. Se houvesse algum problema eu diria, foi o que a Raissa me aconselhou a fazer.
– A Raissa?
– Uhum... A gente tem conversado. Ela é bem legal... Eu acho até que gosto dela.
– Gosta?
– De certa forma... – Confessou não entendendo a expressão pensativa da mãe. O que havia demais em ela se dar bem com a orientadora do seu colégio?
– Bem... – Vera fitou a filha receosa sobre a aproximação entre ela e Raissa. Temia que Sofia não a perdoasse, mas também não podia ser um empecilho entre ela e a mãe biológica. Decidida de que era a hora da garota saber mais, ela levantou da cama e caminhou até porta do quarto. – Espere um momento. – Disse e deixou o quarto voltando minutos depois.
Ela entregou a Sofia uma pequena caixa e esperou até que ela a abrisse.
– O que é isso? – Questionou a garota confusa com um colar em mãos.
Era bem simples e não aparentava ter nenhum valor material. A corrente era fina e tinha um pingente em forma de coração... Um medalhão. Com cuidado Sofia o abriu e se deparou com uma foto de um rapaz muito bonito sorrindo feliz. Não um sorriso igual aos das outras pessoas, mas muito parecido com o dela, irônico, ácido, mas apesar disso ela podia ver que ele estava feliz. A alegria estava nos olhos... Olhos iguais aos dela. Aturdida, ela fitou a mãe.
– Por que... Quem é esse cara? De quem é esse colar? Por que está me dando isso, mãe?
Ela disparava uma pergunta atrás da outra sem ao menos respirar. O que aquilo queria dizer? Por que ela sentia-se tão triste por causa de uma foto? A verdade é que ela já sabia o motivo, mas não queria pensar nele.
– Ele é seu. Foi entregue junto com você... Pelo o que eu soube, você já chegou ao abrigo com esse colar. Eu o guardei e... Já que você sabe parte da sua história, talvez seja a hora de você descobrir mais. Eu não sei quem é o rapaz, mas suspeito que ele seja um parente seu, por causa dos...
– Olhos? – Interrompeu Sofia, emocionada. – Isso não quer dizer nada, mãe. E daí se ele tem os olhos iguais aos meus? E daí se eu tenho essa porcaria desde pequena? Ele não é nada meu! Não é!
Sofia levantou-se da cama e começou a andar de um lado para o outro. Ela não queria saber, não queria conhecer ninguém de um passado sobre qual ela desconhecia. Por que agora, depois de tantos anos? Que diferença faria na sua vida saber que ela era apenas mais uma rejeitada? Não, ela não queria!
– Por favor, fica calma.
– Por que tá fazendo isso comigo? – Questionou fitando a mãe com os olhos rasos d’água. – Por que quer me machucar?
– Filha não, não! – Vera foi até Sofia e abraçou forte. Ela tentou resistir, mas acabou desistindo, caindo no choro. – Eu não quero magoar você. De forma alguma, eu nunca faria isso com você.
– Então por que tá me dando essa droga de colar?!
– Porque é seu direito saber! Conhecer seu passado... Talvez isso te ajude, te conforte.
– Mas eu não quero! Eu não quero descobrir nada sobre passado nenhum, porque eu não preciso de ajuda e muito menos de conforto emocional algum! Tá me ouvindo? Eu não quero! Por mim essa droga vai pro lixo agora mesmo!
Sofia ameaçou jogar a joia na lixeira, mas Vera a impediu segurando a sua mão.
– Por favor, não faça isso!
– Por que não? Não foi exatamente isso o que fizeram comigo?! Não me descartaram como se eu não fosse nada?
Será que era tão difícil assim ver o que era tão claro? Questionou-se Sofia segurando o colar entre os dedos e odiando a sensação do metal frio e sem vida. Era apenas um objeto, não havia um sentido nele. Ninguém que se importasse com ela a teria deixado tão facilmente.
Sofia fechou os olhos com força, mas a lembrança, o sorriso... Eram tão reais em sua cabeça como se ela o tivesse conhecido. Talvez ela tenha o conhecido, mas era pequena demais para lembrar. E agora que havia visto o rosto, sentido a dor da semelhança, só queria esquecer. Apagar qualquer traço da memória, do coração.
– Sofia, tenta ouvir a voz da razão... Eu compreendo que seja doloroso para você, mas não pode guardar tanto rancor e mágoa por pessoas que você não conhece. Talvez eles tenham tido um motivo muito forte para fazer o que fizeram, mas isso não quer dizer que não tenham amado você. Esse colar é a prova disso, se eles, sua mãe e seu pai, não se importassem, eles não teriam o deixado com você. É uma simples foto, mas é um rosto... Uma pessoa que talvez tenha tido esperança de te reencontrar. Não feche os olhos para isso.
– Tá querendo dizer que alguém... Esse cara, sei lá, me deixou com isso por que ia voltar? – Perguntou com a voz engasgada pelas lágrimas.
– Sinceramente? – Sofia acenou que sim. – Eu acredito sim, pois sou mãe e entendo o amor que uma pessoa sente pelo seu filho.
Mas ela não queria pensar em amor, estava presa demais nos fatos e na própria dor para pensar na dor de outra pessoa que não ela.
– Eu ficaria devastada só de imaginar me afastar de você ou dos seus irmãos... Eu não estou dizendo que não compreenda o seu lado, mas toda história tem duas versões. Eu não quero pensar que após tudo o que nós já passamos... você não saiba perdoar, entender o lado do outro. Você não pode odiar alguém, ainda mais sem saber a razão para odiá-la.
– Eu os odeio mesmo assim... Não é justo, não é. – Sofia sentou-se na cama, a cabeça baixa, as lágrimas caindo insistentemente. – Por que tinha que ser eu?... Se fosse a Anita, aposto como ela perdoaria tudo, mas eu não sou assim. Eu não esqueço, não desculpo, eu só consigo sentir tanta raiva e ódio... Eu não sei perdoar!
– Meu amor, você sabe sim... É doloroso, mas você vai aprender a perdoar. Quando isso acontecer, vai poder ser feliz. Prometa para mim que vai ouvir, se algum dia, um deles te procurar... Prometa que vai escutar o que eles têm a dizer, por favor.
– Prometo... – Sussurrou cansada. Sofia sabia que era somente da boca para fora. – Mas e se eu não conseguir? – Era mais do que uma pergunta. Ela já havia quebrado tantas promessas, por que teria que manter essa?
Vera balançou a cabeça em concordância e fitando a filha uma ultima vez, decidiu deixar o quarto e dar um tempo para Sofia. Ela não era uma má pessoa, sabia, estava apenas confusa sobre seus sentimentos e sua real origem. A mãe torcia para que ela encontrasse uma forma de superar, por tudo o que estava em jogo. Sofia aprenderia a deixar a mágoa de lado e aceitaria Raissa em sua vida.
Sofia enxugou o rosto molhado odiando-se por ter se desesperado por uma simples lembrança. Era um colar não uma promessa de retorno e embora sentisse imenso desejo de livrar-se da jóia, acabou guardando-a na bolsa. Vera havia pedido que prometesse ouvir seus supostos pais, mas não que os livrasse da culpa. Isso, ela nunca faria.
O alarme do seu Tablet tocou. E ao pegá-lo viu a imagem de Otávio na tela.
– Oi, docinho... Que carinha é essa?
– Não é nada... – Negou forçando um sorriso. – Que surpresa! Não pensei em falar com você nem tão cedo. Supus que estaria ocupado demais curtindo Milão e todos os homens lindos que existem por aí.
– E quem disse que eu não estou? – Brincou Otávio com uma risadinha. – Mas nem por isso eu me esqueceria dos amigos... Então, a Fla me contou do seu plano para ela reconquistar o Martin...
– E o que você acha? Não é muito clichê, é?
– Talvez um pouco, mas também tem grandes probabilidades de dar certo. Apesar de eu torcer para que não.
– Você também acha que ela deveria partir para outra, né? Eu tentei convencê-la, mas a Flaviana é cabeça dura que só vendo!
– Eu que sei... Mas isso não é importante. Então, cadê minha priminha que há horas não atende o celular?
– Tá aqui em casa, mais precisamente na festa de uma inimiga em particular. – Falou fazendo uma careta. – Deve tá correndo de um lado para o outro atrás do idiota do Martin. Eu disse que era para ela não fazer isso, mas quem disse que a minha amiga pensa quando o assunto é o ‘grande amor’ da sua vida?
– Se é assim, por que você não está lá com ela, hein? – Indagou Otávio. Sofia respirou fundo.
– Qual parte do “inimiga em particular” você não entendeu?
– E quem disse que a Sofia que eu conheço se deixaria deter por esse insignificante detalhe? – Retrucou com o olhar malicioso.
– Ela não se deteria, mas vem tempestade muito mais forte pela frente e o máximo de tranquilidade que eu conseguir até ela desabar vai ser precioso quando tiver que enfrentar uma família furiosa.
Ela podia imaginar a decepção de Vera e Pedro, e mesmo de Anita. Entretanto, sentir-se-ia muito mais culpada se não lutasse por Benjamim.
– Isso tem a ver com o tal Ben?
– Talvez... – Admitiu num sussurro. – Hoje tudo mudou novamente. Ele e eu... Acho que nos entendemos.
– Definitivamente?
– Temporariamente. Ele ainda está pensando sobre a gente.
– Ele está pensando... – Otávio repetiu as palavras com sarcasmo. – E o que é que ele tanto tem que pensar? Cadê esse cara que não tá trancado nesse quarto com você? Sofia, eu sei que existe homens lentos na hora de decidir o que querem, mas esse seu ‘príncipe nem um pouco encantado’ já teve tempo suficiente. O que ele tá esperando acontecer? Docinho, eu seria a ultima pessoa a te desiludir, mas você tá correndo o risco de ficar na chuva sozinha e completamente desprotegida!
– Você está enganado, Otávio... – Protestou sem veemência.
– Estou? Então, se arruma e desce para essa tal festinha e tira suas próprias conclusões. Vai por mim, eu sei que você é mais inteligente do que esse seu cabelo loiro quer aparentar... Não me faça reconsiderar a admiração que eu tenho por você, Sofia. E se nem isso importar, apenas não se magoe.
Então, a conexão foi encerrada e Sofia não tinha nada para dizer. Ele não a conhecia tão bem, não sabia nada além do que ela havia dito. Todavia, ele estava certo e tudo sempre poderia mudar. Já mudou tantas vezes e ela sempre acabou no mesmo lugar, sozinha. Determinada a fazer diferente, Sofia correu para o guarda-roupa. Ela não era nenhuma princesa presa em uma torre e de jeito nenhum se comportaria como uma.
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