Notas iniciais
Ultimo de hoje e sem previsão para proximos. Me deem tijoladas, mas não me odeiem. Beijos.

– Por favor, não me deixa fazer as coisas que eu vou fazer quando você estiver longe... Porque eu vou fazer e vai chegar algum momento que vai ser pra sempre. E talvez, nós nunca mais tenhamos outra chance.

– Eu não posso... Tem a Anita, nossos pais. Eles nunca nos perdoariam. – Falou Ben atordoado se desvencilhando dela e indo para o outro lado do quarto. – Não é certo!

– Eu não me importo com o que é certo... Ben, nós não tivemos culpa por termos nos apaixonado. – Ela foi até ele, os olhos bem abertos, a boca trêmula. – Eu enfrento todos e tudo se for para ficar com você.

– E todas as mentiras? – Indagou tentando se apegar as razões pelas quais ele e ela eram um erro. – Eu não sei se posso confiar em você!

– Você pode! – Sofia garantiu com segurança. – É verdade que eu nem sempre fui sincera, mas eu nunca menti sobre ser apaixonada por você. Eu juro, nunca foi uma mentira! Nem nas vezes que eu disse para mim mesma que o que existia entre nós era apenas uma atração física sem sentido, nem assim era mentira... Porque desde o inicio, eu soube que o que eu sinto era mais forte do que eu. É mais forte do que você também. Você não pode negar isso, continuar fugindo do que também sente por mim.

– E o que sugere? Eu não vou simplesmente magoar as pessoas que eu amo! – Disse em desespero. Sofia foi até Ben e o abraçou passando os braços em torno dele. Ele podia sentir as batidas do coração descompassadas, as suas e as delas, a respiração ofegante, seria tão fácil se entregar... Mas ele não poderia apenas decepcionar todos que um dia confiaram nele. – É tudo o que eu amo que está em jogo! Não me peça para abrir mão de tudo!

– Eu também estou com medo... – Sussurrou, o rosto enterrado no peito dele. – Eu não estou dizendo que não é errado, que nós vamos ficar juntos para sempre... Eu só quero ter certeza de ter tentado tudo. Eu amo você, amo mesmo. Eu não queria, por todos os motivos que você já sabe. Mas não importa, eu não vou pedir perdão por isso. E você também não deveria. Antes da felicidade de qualquer pessoa, tem que vir primeiro a sua, porque não é justo abrir mão do que nós temos.

Erguendo a cabeça, Sofia segurou o rosto de Ben entre as mãos fitando os seus lábios. E lá estava ela de novo, depois de tantas lágrimas e promessas sem sentido de nunca cometer o mesmo erro, entregando-se ao sentimento que tinha por ele. Vulnerável, sem defesas, despida de qualquer orgulho, porque ela não ganharia nada preservando sua dignidade e partindo seu coração. E certa de que era a maior estupidez que já fez na vida, ela o beijou. Um selinho com gosto de sal de lágrimas de tristeza, de paixão. E ele a beijou também. Sem medo, receio ou qualquer pensamento sobre o quanto aquilo era sujo e baixo, porque não era. Era apenas os dois e o que sentiam um pelo outro.

– Eu amo... – “Já amei mais.” – Você, Benjamim. – Ela o fitou com carinho e pôs dois dedos sobre os lábios de Ben quando ele tentou argumentar. Ele não resistiria por mais tempo, ela sabia. – Você não precisa me dizer nada agora. Pense, reflita sobre tudo o que aconteceu nesse quarto e depois me procure... Eu vou esperar. Só não demora muito, tá? – Completou com um sorriso antes de beijá-lo mais uma vez.

Quem ligaria para qualquer outra coisa que não fosse aquele momento? Seria seu conto de fadas se tornarndo realidade?

– Você ouviu isso? – Questionou Ben aflito olhando em direção à porta do quarto que ele havia deixado entreaberta.

– Ouvi o quê?

– Passos... Alguém estava aqui. – Ele se afastou dela passando a mão pelo rosto nervoso. – E se foi a Anita que nos viu?

– Ótimo, nos pouparia trabalho na hora de falar a verdade. Depois de presenciar um beijo como esse, ela vai se dar conta rapidinho de que você não a ama!

– Sofia, por favor! – Exclamou pensando na possibilidade de Anita tê-los visto. Ele não podia ter sucumbido a Sofia daquele jeito, não podia!

– Hey, pode parar com esse remorso besta! Nós não cometemos nenhum crime e você sabe disso. – Falou ao ver as emoções conflitantes estampadas no rosto dele. – Tá na hora de encarar tudo de frente, Ben. Eu disse que esperaria pela sua resposta, mas não vai ser eternamente... Melhor ‘cê’ avaliar bem o que quer de mim, porque depois não tem volta! Por hora, pode ir consolar a sua futura ex-namorada.

Ben fitou Sofia, os olhos chispando de raiva, o rosto corado. Ficou dividido entre ir embora e procurar Anita ou ficar e beijá-la até que qualquer pensamento lógico fosse completamente apagado da sua mente. Era uma decisão difícil, ele não poderia virar as costas e simplesmente partir como se nada tivesse acontecido, mas também não queria pensar em Anita chorando em algum lugar da casa por culpa sua. Seu senso de responsabilidade falou mais alto e, em silêncio, ele deixou o quarto.

Sofia bufou ao escutar a porta ser novamente fechada. Enxugou os olhos e foi até o espelho concertar o estrago que os beijos em Ben haviam feito a sua aparência. Fitando-se, notou os olhos muito verdes, os lábios avermelhados e um tom róseo nas bochechas. Alisou a roupa, prendeu novamente o cabelo feliz por não ter levado tão a sério a sua promessa. Sofia acreditou que estava no controle das suas próprias emoções, mas de novo se deixou levar por seus sentimentos. E o mais importante: Ben também. Ele diria sim, tinha que dizer sim. E eles ficariam juntos.

Ao vislumbrar a concretização dessa cena, a garota não conteve o sorriso enorme por pensar que era a sua vez de ser feliz e que ela e Ben não mais esconderiam o que sentiam um pelo outro. Sabia que haveria muitas barreiras, pessoas magoadas pelo caminho, mas era tarde demais para voltar atrás no que disse ou no que sentia.

Uma batida na porta a trouxe de volta de seus devaneios sobre o seu ‘Príncipe’ que por enquanto, e só por enquanto, ainda pertencia a sua irmã, Anita.

– Quem é?

– Serguei... Pode abrir?

– Serguei? – Ela respirou fundo e tentou não parecer culpada. Estranho, pensou, afinal por que se sentiria culpada? – Algum problema? – Indagou ao finalmente abrir a porta. O ruivo a fitou de uma maneira curiosa. Ela bufou, irritada.

– Muito verde! – Falou ele divertido.

– Sei, to parecendo um abacate.

– Eu gosto de abacate... Acho que agora gosto muito mais de abacate.

– ‘Qualé’ Serguei, tá me ‘cantando’? – Debochou um pouco incomodada. Ele riu. Droga, ele ria demais. – O que é tão engraçado?

– Nada... Nada. Vim aqui dizer que a Flaviana está te esperando lá embaixo.

– Por que ela não subiu?

– Porque eu, muito educadamente, quis fugir das perguntas dela. Pelo o que eu ouvi, ela nem faz ideia do que você fez... Melhor dizendo, do que nós fizemos.

– Hahaha... Do que ‘cê’ tá falando? – Sofia tentou rir, mas aos seus ouvidos o riso mais pareceu um choro abafado.

– Não, esquece... Eu já contornei a situação. Você deveria me agradecer por isso.

– Vou pensar no seu caso... – Ela sorriu e saiu do quarto. Queria falar com a amiga, ter certeza que ela não desconfiava de mais nada.

– Você estava com o Ben? – Questionou Serguei sem aparente emoção na voz. Sofia estacou no meio do corredor pensando na possibilidade de Serguei ser a tal pessoa que os viu no quarto. – Ele passou por mim no corredor. Vinha da direção do seu quarto... Algum assunto importante?

– Na verdade... Não. Ele só veio me alertar para não incomodar a minha mãe, o Ronaldo, a Anita. Você sabe, o de sempre.

– Sei... – Eles seguiram em direção as escadas.

– X –

– Príncipe! – Anita quase choramingou de alivio quando viu o namorado descer as escadas lentamente. – Já ia te procurar... Saber dessa demora. Como foi a conversa com a Gio?

– Não foi... Quer dizer, eu não consegui falar com ela.

– É? – Anita franziu a testa, confusa. – Não? Mas você passou um tempão lá em cima!

– Ele estava comigo... – Sofia sorriu irônica para irmã enquanto descia os últimos lances da escada e indo para o lado de Benjamim. Serguei que a seguiu desde o quarto, foi juntar-se a Anita ficando ao seu lado. – Seu namorado é muito prestativo, sabia? Tinha uma aranha horrenda no meu quarto e ele gentilmente a tirou de lá! Mas é nisso o que dá viver num albergue comunitário como esse! O casarão já devia ter sido interditado pela vigilância sanitária há muito tempo!

– Foi isso o que aconteceu? – Indagou Anita ao namorado ignorando a ironia da irmã. Sofia não ia fazê-la perder a calma. Ben não a veria dizer às coisas que estavam entaladas na sua garganta para Sofia, simplesmente, porque sua irmã não merecia o esforço.

– Claro! – Interrompeu Sofia – O que mais seria? Com certeza nós não estávamos nos beijando apaixonadamente... – Ela riu com sarcasmo vendo as bochechas da irmã esquentar de raiva. Munida de todo o charme que tinha, beijou o rosto de Ben, que pego de surpresa, não reagiu. – Valeu pela ajuda... Foi bem interessante. Bom, a companhia de vocês é maravilhosa, mas eu vou ter que me ausentar. Flaviana – Chamou a amiga que assistia a situação com olhos brilhantes. – Você queria falar comigo?

– Sim... Sim, mas continue, eu não me importo em esperar! – Disse a morena à beira do riso. Ainda bem que Sofia era sua amiga, porque de jeito nenhum queria passar por algo parecido com o que ela fazia a Anita.

– Eu adoraria, mas vejo que eles estão muito ocupados com... – A loira vagou o olhar pela sala, a decoração típica de uma festa de aniversário sem nenhum glamour. – Alguma coisa que eu não to muito interessada no momento, por isso melhor a gente ir para o meu quarto... E quanto a você. – Ela foi até Serguei e sorriu simpática. – Eu pensei no seu caso... – Falou antes de lhe dar um beijo estalado na bochecha. – Obrigada.

E enquanto Ben queimava de ciúme e Anita não compreendia absolutamente nada, Sofia puxou Flaviana pela mão e subiu depressa as escadas. Serguei observou-a se afastar, um sorriso torto no rosto. Ela era o demônio e o beijo era o fechamento de algum pacto. Sofia nunca foi tão contraditória ou interessante. Serguei tinha se metido na maior enrascada da sua vida, mas por nada nesse mundo, ele desejava, nesse momento, escapar dela. Ele a desvendaria.

– X –

– A-D-O-R-E-I! Não é todo dia que a gente presencia a uma batalha dessas na primeira fila! Que guerra fria que nada, é disso que eu to falando meu povo!

Flaviana se jogou na cama rindo das expressões estupefatas de Anita, Benjamim e Serguei antes delas deixarem a sala correndo. Sofia havia passado como um furacão e arrasado com todos e ela teve a oportunidade de presenciar tudo. Imaginava agora como seria quando fosse a sua vez de acabar com Micaela. Faltava pouco, muito pouco para ela saber como era a sensação que provavelmente a amiga sentia no momento.

– Quando crescer eu quero ser igual a você! – Completou sorridente, mas logo o sorriso desapareceu ao notar a expressão fechada da amiga. – O que foi?

– Err... – Sofia pigarreou – O que foi o quê?

– Essa sua cara de velório! Depois do que aconteceu, você deveria estar dando pulinhos!

– Eu estou, mas por dentro... – Desconversou sarcástica. Não precisava ter segredos com Flaviana, com exceção de um, mas não se sentia forte o bastante para compartilhar com a amiga o que havia ocorrido entre ela e Ben. – Não sou tão efusiva na demonstração das minhas emoções, foi mal.

– Vou ignorar essa resposta mal criada, só porque hoje é um ótimo dia para mim.

– Mesmo? E o que é que tem de tão bom nele?

– Tudo! Hoje, a Bruna me informou que o Martin e a Micaela discutiram por causa das flores. Como você disse, ele ficou irado quando ela mostrou o buquê, aquela tonta. Só então a burra se deu conta de que ele não tinha nada a ver com aquilo, e os dois discutiram na padaria para todo mundo ver.

– Tão classe ‘C’. Às vezes me esqueço de que o Martin é um playboy milionário, já que não perde a chance de ser misturar com o ‘povão’. – Desdenhou Sofia olhando pela janela e vendo a chuva que caía insistentemente.

– Hahaha... Não fala assim! Ele é um gentleman! Foi tosco, mas maravilhoso para o nosso plano. Agora é só continuar, e me aproveitando do fato que hoje ele estará aqui, vou por em prática a tática de ‘melhor amiga compreensiva sem nenhum interesse físico, sentimental ou sexual’ nele!

– Como assim? – Perguntou voltando-se e encarando a morena. – Por que o Martin vai estar aqui? Tudo bem essa casa tá cheia de gente o tempo todo, mas certeza você não pode ter.

– Mas eu tenho querida, porque foi sua ‘maninha’ que me contou. Ele, a entojada da Micaela, o Sidney, o Paulino... Resumindo: o Grajaú em peso vem à festa da doce Julinha. É aniversário dela, não sabia?

– Nossa como não? É o evento mais aguardado do ano na minha lista de festas que eu não posso perder! Mais importante até do que o desfile da Victoria’s Secret! – Debochou Sofia aos risos. Flaviana pegou um travesseiro e arremessou nela que se desviou.

– Deixa de ser chata! Eu sei que não é nenhuma grande festa, mas só de saber que eu e meu ‘Martinico’ vamos estar no mesmo ambiente faz minhas pernas ficarem trêmulas!

– Isso é fome, Flaviana, não amor!

– Falou aquela que não quer mais saber disso!

– Quem? Eu? Tem certeza?

– Você mesma disse! ‘Nunca mais vou gostar tanto de alguém’... Se esqueceu ou mudou de ideia? – Questionou curiosa. Será que Sofia havia se interessado por alguém? Flaviana já podia ver as duas saindo juntas... Ela com Martin e a amiga com seu namorado, felizes, seria ótimo. – Quem é ele? Me conta!

– Não é ninguém... – Protestou – A não ser que você ache que eu e o Serguei estamos de ‘rolo’. Não gostei nada daquela mensagem, Ok? Acreditou mesmo que eu ia me envolver com ele?

– Bom, eu posso ter duvidado e fantasiado um pouquinho sobre vocês... Mas não mais, eu juro! Foi mal, Sofia, mas é que depois do que aconteceu com a Micaela, eu meio que fiquei paranoica com esse lance das pessoas estarem tramando pelas minhas costas.

– Acontece que eu não sou a Micaela. Pensei que me conhecesse bem, mas acho que me enganei.

– Eu sei, eu sei!... Olha, desculpa mesmo. Eu faço o que você quiser, só não pensa que eu não confio em você. Sofia, você é minha melhor amiga, eu sei, aqui no coração, que jamais faria nada que pudesse me magoar. Me perdoa, por favor! Eu não poderia viver sem você! Nunca!... Me perdoa?

Sofia engoliu em seco a dor que sentiu por não ser a amiga que Flaviana merecia ter. O que seria dela sem aquela maluca?

– Vou te dar outra chance, mas só porque eu sou uma ótima amiga! – Brincou, com os olhos marejados. Tentava fazer graça para esconder o quanto estava emocionada e ansiosa por uma resposta de Ben, o quanto estava sufocada por seus segredos.

– OBRIGADA! – Gritou Flaviana correndo para abraçar a amiga. – E já que voltamos às boas, me explica que droga de roupa é essa?!

– X –

– Nossa filha, ficou lindo!

– Valeu mãe. O Serguei ajudou muito!

– Que nada Vera, o trabalho foi todo dessa garota talentosa aqui! Ela é um achado! – Elogiou Serguei fazendo Anita corar com a interpretação errada das suas palavras.

O que quer que tenha acontecido no passado, ela ainda acreditava que havia um pouco do amor que um dia ele disse sentir. Não se sentia confortável, mas era bom saber que talvez um cara legal como ele nutrisse um forte sentimento por ela. Às vezes se pegava pensando como seria se não existisse Ben em sua vida, se ela não o amasse, é claro... Como seria ficar com Serguei. Talvez estranho? Engraçado?... Ou bom? Ele a conhecia, ela o conhecia, mas não havia aquilo especial que os mantivessem juntos no fim das contas. Anita amava Ben. Ela sentia que o amaria para sempre.

– Eu vou resolver uns assuntos no salão, depois vou para casa. Volto mais tarde na hora da festa. Tchau, Anita... Vera! – Serguei acenou com a mão antes de deixar o casarão.

Anita ainda passou um tempo olhando para a sala repleta de balões coloridos, algumas colagens que de fotos que havia feito da amiga em momentos especiais. Satisfeita com o resultado, resolveu ir para o quarto relaxar até a hora que Júlia veria a sua surpresa.

Mal sabia ela que as surpresas guardadas não seriam apenas para a aniversariante.

– X –

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Notas finais
Segredos profundos estão para serem revelados. Quem vai sair mais machucado dessa história? Ps: Ana e Annie, vou por a leitura das Fics em dia, prometo.