Era Uma Outra Vez...
43 Surpresa!
Notas iniciais
Sofia despertou com o toque insistente do seu celular. Esticou o braço até o criado mudo e pegou o aparelho. Meio sonolenta leu a mensagem de Flaviana.
"Happy! Me encontra em 15 min. na portaria. Kisses! ;)"
Estranhou ela não ter dito o motivo da pressa, mas não quis pensar nisso. Hoje seria um dia difícil e como tudo se mostrava mais complicado ao longo do dia, preferiu aceitar a tortura com resignação.
Depois da conversa que teve com Antônio, sentia-se mais forte. Tinha voltado pra casa com a certeza de que poderia sobreviver. Era só uma questão de tempo. Um dia por vez, então, quando menos esperasse, nada a afetaria.
Saiu da cama e tomou um banho rápido. Trocou de roupa, colocou um pouco de maquiagem e seguiu para a sala. Encontrou Soraia limpando a mesa de jantar.
– Cadê meu pai, Soraia?
– Você não sabe? Ele e a Detinha viajaram pra São Paulo para um encontro com uns empresários chineses... Ou seriam japoneses? Bom, todos tem os olhos puxados, então não faz diferença. Mas ele te deixou isso!
Soraia pegou um pacote que estava sobre a mesinha de centro e entregou-o a Sofia. Ela abriu o pacote sem ânimo. Dentro do embrulho havia uma pulseira de ouro branco idêntica a outra que ele já havia lhe dado e um cartão de Feliz aniversário.
Apesar do presente, tudo em que ela pensou foi que seu pai viajou no dia do seu aniversário e sem avisá-la. "Um dia de cada vez." Repetiu em pensamento como um mantra. E daí, pelo menos teria a casa toda pra ela. E tinha mais o bônus de não olhar na cara da sua madrasta cada dia mais insuportável.
– Certo, eu vou pro colégio.
Não quis comer, porque sentia o estômago embrulhado.
Ela deixou o apartamento e desceu de elevador. Na portaria, encontrou Flaviana com uma expressão suspeita.
– Eu disse 15 minutos.
– Bom dia pra você também.
– Bom dia e FELIZ ANIVERSÁRIO! – Gritou Flaviana antes de abraçar Sofia muito forte. – E pensar que daqui a alguns dias será minha vez.
– Deixa primeiro o seu dia chegar, Ok? Hoje é o meu e não tá sendo tão legal. Então, partiu colégio?
– Cê tá maluca ou o quê?! – A morena exclamou horrorizada. – É o seu aniversário e vamos comemorar. A educação que espere!
Flaviana puxou a amiga pela mão até a saída. Estacionada em frente ao prédio estava uma limusine preta com um imenso laço rosa. Sofia piscou algumas vezes ante a visão. Flaviana já havia a surpreendido em aniversários anteriores, mas aquilo foi de longe o mais incrível.
– Você não me comprou uma limusine de presente, comprou?
– Claro que não! Ela é o nosso meio de transporte até onde o seu presente está! Aguarde, porque o dia está repleto de surpresas pra você!
Flaviana estava que não cabia em si de felicidade e sua alegria comoveu Sofia. Por isso, a garota decidiu não se importar com nada do que acontecesse hoje, porque, pelo menos, alguém estaria feliz.
– Tudo bem... Pra onde vamos? – Perguntou a loira já se rendendo.
No entanto, Flaviana fez questão de manter o segredo. Tudo pela surpresa, argumentou enquanto elas seguiam no carro. Sofia adorou o espaço interno do carro que já vinha equipado com sistema de som, mini bar e até um globo espelhado que ela considerou muito cafona. Flaviana colocou pra tocar a música preferida das duas e estourou uma champanhe. Encheu duas taças até a borda e entregou uma a Sofia.
– Um brinde a minha melhor amiga!
Algum tempo depois, a limusine parou em frente ao Copacabana Palace. As duas garotas desceram e mais uma vez Sofia se viu arrastada pela amiga. Elas entraram no elevador e Flaviana apertou o botão do último andar. Com um sorriso estampado no rosto, a morena levou Sofia até um dos quartos. Usou um cartão magnético dourado para destravar a porta e impulsionou a amiga a entrar no local.
Sofia prendeu a respiração tamanha a beleza do quarto. Quarto era até uma ofensa, já que se tratava de uma suíte ampla dividida em quatro cômodos, muito bem decorada.
– Ok, Fla você me surpreendeu. O que significa isso tudo?
– Significa que nós amamos você, docinho!
– Otávio?! – Sem acreditar, Sofia correu para abraçar o amigo que surgiu do quarto principal. – Mas como? E Milão?
– Milão estará no mesmo lugar quando eu voltar. – Antes de soltá-la, ele depositou um selinho nos seus lábios. – Meu pai me obrigou a retornar mais cedo pro Brasil. E daí quando a Flaviana me falou que hoje era o seu aniversário, me senti na obrigação de proporcionar a você uma das melhores experiências da sua vida!
– E pra isso você alugou uma suíte no Copacabana Palace?!
Otávio e Flaviana riram do espanto de Sofia.
– Docinho, eu moro aqui. Pelo menos, enquanto habito terras tupiniquins.
– O meu tio é dono de uma rede de hotéis, mas tem dois apartamentos próprios aqui. É pra preservar a privacidade.
– E pra ficar de olho na concorrência. – Completou Otávio.
Admirada, a garota olhou em volta atenta a cada detalhe.
Isso é viver em grande estilo, pensou Sofia. Não era deslumbrada, o pai tinha algum dinheiro e sabia que Flaviana era bem rica, mas Otávio representava tudo o que ela sonhou para si na vida. E por hoje ela realizaria esse sonho.
Tomaram um extravagante café da manhã servidos por um mordomo particular. Otávio contou sobre o que havia feito em Milão, sobre os desfiles que frequentou e as festas mais exclusivas para as quais foi convidado. Sofia ouvia tudo atenta, pensando em como seria fácil esquecer qualquer problema vivendo nesse mundo repleto de riqueza e alegria instantânea.
Falaram sobre a festa de Flaviana e os preparativos para o evento. Sua amiga estava cada vez mais ansiosa pelo momento em que finalmente teria Martin, mas Sofia e Otávio não estavam tão seguros quanto aos planos da garota. Opiniões essas que guardaram para si.
– Nossa, tá tudo ótimo!
– Espere pelo próximo item, garota! – Falou Otávio.
Os três haviam deixado o hotel e passeavam pelo shopping quando pararam em rente a uma famosa loja. Eles foram recebidos pela gerente do local que logo providenciou taças de champanhe.
– Pensei em fazermos compras
A manhã passou voando enquanto Sofia e Flaviana andavam por lojas escolhendo roupas, sapatos, acessórios, bolsas... Tudo o que o dinheiro de Otávio podia pagar. Mas apesar de estar contente em estar com os amigos, fazendo algo que adorava, Sofia não se sentia tão bem quanto queria demonstrar. Nem mesmo enquanto almoçavam em um badalado restaurante, ela conseguiu esconder sua apatia.
– Tenho mais uma coisa para nossa aniversariante. – Otávio sorriu para Sofia enquanto lhe passava um estojo de veludo preto.
– Por favor, nada mais de presentes! Você pagou pelo shopping inteiro e isso numa manhã! – Reclamou a loira.
– Docinho você merece! Não me faça essa desfeita.
Com um suspiro ela abriu a caixa. Seus olhos quase saltaram ao ver o belíssimo colar de safira.
– Não, isso é demais! – Tentou devolver o presente, mas Otávio recusou-se a pegar de volta. – Isso é loucura... dá para comprar um apartamento com esse colar!
– Que nada, sweet... Talvez uma casa na praia.
— Que ficaria de herança para minha querida família se minha quase morte tivesse se concretizado.
– Que história é essa de quase morte? – Questionou o rapaz muito interessado.
Notando o silêncio da amiga, Flaviana resolveu se pronunciar.
– Nem te conto, Tavinho! A minha amiga quase morre afogada na piscina do colégio... Quero nem pensar no que teria acontecido se o Serguei não a tivesse salvo.
– Serguei?
– Sim, eu te apresentei ele. É o meu ex. – O celular de Flaviana tocou a interrompendo. – Foi mal, mas eu preciso atender.
A morena se afastou dos dois e seguiu para um canto afastado.
Sofia notou a expressão preocupada de Otávio após saber quem era o seu salvador.
– Tá, tudo bem. Ele me contou o que aconteceu entre vocês.
– Contou? – Surpreendeu-se o rapaz. Sofia acenou que sim.
– Não se preocupe, ele não falou nada pra ninguém.
– Certo. – Mais tranquilo, Otávio resolveu mudar de assunto. – E quanto ao seu sapo... Digo, Príncipe. A Fla me contou que as coisas não saíram como esperado.
Desastre era o termo certo para o que lhe aconteceu, martirizou-se a loira.
– O que eu posso dizer? Você estava certo, ele não é confiável. E como já se esperava, eu acabei na chuva... Mas não sozinha. – Confessou sem querer.
Otávio a olhou detidamente, absorvendo suas últimas palavras.
– E quem foi sua companhia?
– Eu não posso dizer.
– Por quê?
– Porque eu magoaria a Flaviana e eu não posso fazer isso com ela.
– E você não quer isso?
Sofia balançou a cabeça afirmativamente. Mas a verdade é que ela precisava desabafar com alguém sobre o que tinha acontecido.
– Ok, eu fui inconsequente. Se eu estivesse pensando logicamente, não teria feito o que eu fiz. É contra o código de qualquer amiga ficar com o ex de outra amiga, mas eu não sei o que me deu... Aconteceu.
Depois de despejar suas palavras, a loira voltou a sentar-se. Otávio fez o mesmo.
– Vocês transaram?
– É... Sim.
– E esse ex é ex da Flaviana?
– E o melhor amigo da minha irmã. – Envergonhada, Sofia escondeu o rosto entre as mãos. – Eu diria que vou pro inferno por causa disso, mas já tô vivendo nele... Então. E o pior é que eu não consigo nem olhar pro Serguei sem....
– SERGUEI?! – Exclamou o rapaz chocado. Sofia lançou um olhar mortal em sua direção. – Certo, certo... Eu vou me conter. Mas como é que isso aconteceu? Você parecia tão segura quanto ao Benjamim!
– Você quer saber como é que eu passei de loucamente apaixonada para alguém que transa com o ex da amiga? – Sofia tentou organizar os pensamentos e lembranças. – Ele me detesta e o sentimento é recíproco há anos. Só... só que de umas semanas pra cá a gente não é mais tão inimigos. E talvez exista uma atração, doença, sei lá. Eu sei o que eu sinto ou senti pelo idiota do Ben, mas ele me decepcionou tanto. E eu me senti tão arrasada que quando o Serguei apareceu tudo o que eu quis foi... Eu não sei exatamente. Ele me faz bem.
– Você transou com ele para vingar-se do Benjamim? – Indagou o rapaz, direto.
Sofia sorriu um pouco pela franqueza do amigo.
– Não... E isso tá me matando. Em nenhum momento eu pensei no Ben ou em machucá-lo. Eu só pensei que eu queria aquilo... Quis muito.
– Então, qual o problema? O sexo foi ruim?
– Nem um pouco... – Admitiu com um sorriso sincero. – O problema é que ele surtou por eu ser virgem. Talvez tenha visto o tamanho da burrada que cometeu e pensou que isso o comprometeria comigo de alguma forma. Ele é todo certinho.
– E você era virgem?!
– Otávio! – Repreendeu-o por falar alto. Olhou em direção onde se encontrava Flaviana que estava muito concentrada no celular.
Voltou a atenção novamente para Otávio. Sofia teria rido da expressão do amigo, mas estava muito tensa pra ver graça na conversa.
– Certo, me desculpe... Mas deixe-me ver se eu entendi bem: você se declarou pro Ben, mas ele pulou fora na hora 'H'. E você sente-se atraída pelo melhor amigo da sua irmã que coincidentemente é ex da sua melhor amiga e por fim, mas não menos importante, perdeu a virgindade com ele. E não foi por vingança... Certo, não sei o que pensar.
– E quanto a mim? Tenho fugido dele há dias, e por causa de uma brincadeira do destino, ele acabou salvando a minha vida. Acho que vou ficar maluca.
– Pelo que exatamente? É muita informação assim de uma vez.
– Eu não sei... Eu não consigo esquecer. A maldita lembrança dele, a forma como ele foi gentil comigo durante a noite até finalmente acontecer o que aconteceu pela manhã... E eu nem posso falar sobre isso com minha melhor amiga.
– E de que forma você se sente em relação a ele?
– Eu o odeio!
– E sente-se atraída?
– Um pouco.
– E você faria sexo de novo com ele?
– Sim.... Não, de jeito nenhum!
Otávio riu da confusão dela. Estava tão claro pra ele, mas para Sofia toda a situação era não só embaraçosa como também detestável. Tinha que encontrar uma forma de se curar daquela atração ou não viveria mais em paz.
– Podemos mudar de assunto? – Pediu, nervosa. – Eu não quero mais falar sobre ele ou o quanto ele foi estúpido, sério. Vê-lo com a vaca da Amanda foi um pouco demais pro meu estômago.
– Existe outra na parada?
O rapaz tentou não rir, mas o que Sofia lhe contava era algo próprio de uma novela teen. Claro que ele próprio já teve seus percalços no quesito amor, mas a trama que envolvia Sofia era, em sua opinião, por de veras interessante.
– Tem... Uma vagabunda que não perde a chance de paquerá-lo. Eu a odeio e não pude me controlar quando a ouvi falar mal de mim. Mas ela teve o que mereceu!
– Vocês saíram no tapa? – Adivinhou Otávio. Sofia balançou a cabeça, afirmativamente. – Tudo bem, mas pra encerrar o assunto... Seja sincera, alguma vez você saiu no tapa com a sua irmã por causa do tal Ben?
– Não... Mas o que você quer com essa pergunta?
– Nada, meu doce, nada. – Desconversou.
– Vocês não fazem ideia de como é estressante organizar a maior festa do ano! – Flaviana voltou para a mesa e a conversa tomou outro rumo.
O resto do dia transcorreu sem problemas. Otávio, Flaviana e Sofia aproveitaram todas as comodidades do SPA do hotel: massagens, banhos relaxantes, tratamentos Marcaram de sair à noite, para uma boate, mas ao fim da tarde, Flaviana recebeu outro telefonema de Bruna informando que Martin e Micaela enfim terminaram o namoro.
Em seguida foi a vez de Martin ligar para a garota pedindo para vê-la. E embora Sofia tivesse tentado impedi-la, a paixão da amiga pelo playboy falou mais alto e ela acabou cedendo. Os planos para a noite foram esquecidos. Sofia não estava mais tão feliz, por isso pediu a Otávio para deixá-la em casa.
– Tem certeza de que não quer sair comigo? – Perguntou Otávio mais uma vez enquanto estacionava seu porsche em frente ao prédio da amiga.
– Tenho, sério... O dia foi ótimo e agradeço toda a sua gentileza, mas agora eu só quero ficar sossegada no meu quarto e não pensar que esse é o primeiro aniversário que eu não passo com a minha mãe e meu irmão caçula. – Sofia desafivelou o cinto, e deu um selinho no rapaz antes de descer do carro. – Obrigada por tudo! – Agradeceu antes de seguir para a entrada.
– Sofia, espera... – Ele a chamou antes que ela entrasse.
– O quê?
– Esse Serguei... Ele mora no Grajaú?
– Não, tem um salão lá, perto de onde minha mãe mora... Por quê? – Questionou desconfiada.
– Por nada... Quer dizer, eu só queria agradecer por ele não ter dito nada sobre meu pequeno 'deslize'. Você sabe, eu sou alguém relativamente conhecido, e se por algum motivo a minha 'condição' não tão hetéra fosse revelada, meu pai não teria apenas cancelado meus cartões como também me mataria!
– É isso mesmo? – Sofia insistiu, não muito segura.
– Eu juro! – Otávio pôs a mão no coração para enfatizar o que dizia.
– Ok... O endereço é esse. – Ela digitou o endereço do salão no celular do amigo e se despediu mais uma vez.
Tendo o que queria em mãos, Otávio desviou seu caminho de Copacabana e seguiu para o Grajaú.
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