Era Uma Outra Vez...
44 Emocional
Notas iniciais
— Essa foi a última!
Vanessa suspirou aliviada após a última cliente do dia deixar o salão. Serguei, embora satisfeito pelo dia de trabalho, também estava exausto e desejava mais que tudo a sua cama para dormir. Suas últimas noites haviam sido insones por causa de uma certa loira, por isso agradecia poder descarregar suas energias no trabalho pra dormir melhor.
– Pode ir Vanessa... Eu organizo tudo e fecho o salão.
– Ai Serguei, eu até te ajudaria, mas meus pés estão me matando. E não é todo dia que meu patrãozinho está tão amável, por isso não vou dispensar!
A funcionária pegou a bolsa e se despediu. O ruivo deu uma geral no salão, apagou as luzes e saiu, fechando o local. Distraído, seguiu pela calçada até um Porsche preto parar abruptamente perto dele. Pego de surpresa, Serguei se afastou.
– Você tá maluco?! – Vociferou com raiva.
O motorista do carro desceu, sem dizer nenhuma palavra, e foi até onde ele estava. Serguei o reconheceu, era o primo de Flaviana com quem Sofia fingiu ter um affair. Despreparado, não pode reagir quando Otávio lhe acertou em cheio um soco na cara. O ruivo cambaleou pelo golpe sentindo uma dor terrível no olho. Não entendia o motivo da violência gratuita, já que ele é quem quase foi atropelado, mas antes que pudesse tirar alguma satisfação, Otávio se pronunciou.
– Isso é só uma amostra do que vai te acontecer se você voltar a perturbar a Sofia! Fique feliz que ela me pediu pra te dar só um soco, caso contrário eu te partiria a cara!
Sofia? Ela tinha mandado aquele maluco lhe agredir?
– A Sofia te mandou me bater?
– Claro! – Mentiu descaradamente Otávio adorando poder intervir naquela história. Não pretendia ir tão longe, mas não havia pensado em nada melhor do que bater em Serguei para provocar uma situação. – Esse é um aviso dela pra você se manter longe. Espero que tenha entendido!
E retornando ao seu potente carro, Otávio cantou pneus para longe do salão.
Desnorteado, Serguei apenas observou seu agressor partir pensando em como Sofia podia ser maluca. Que o quisesse longe? Tudo bem. Negar o que tinham? OK. Mas mandar um de seus amiguinhos agredi-lo? Isso já era demais pra o seu orgulho!
– X –
Sofia saiu do banho enrolada no seu roupão. A tão conhecida dor de cabeça começava a dar sinais de que viria com força e ela amaldiçoou-se por beber champanhe. Mas em sua defesa, dizia a si mesma que hoje era o seu aniversário e que beber um pouco não faria mal. Mas fez e temendo ficar ainda pior, tomou um banho relaxante de banheira.
Já no quarto, pôs um baby doll preto de seda e vestiu o quimono nas cores preta e vermelha. Escovou os cabelos e os deixou soltos. Diminui a luz do quarto, ficando quase na penumbra. Era cedo e ela não tinha intenção de dormir, mas precisava relaxar para que sua enxaqueca não lhe martirizasse. Pôs a música 'Stay with me' para tocar baixinho e pegou o celular para ver as últimas mensagens.
"Guess it's true. I'm not good at a one night stand, but I still need love."
Vera havia lhe enviado uma de feliz aniversário. Pedro lhe enviou três, e fez duas ligações que ela não atendeu. O pai também telefonou, mas ela não viu o celular tocar. Descartou o aparelho e deixou o quarto. Iria fazer um chá de hortelã para ocupar a mente e não se sentir impelida a ligar pro irmão ou para Vera.
"Why am I so emotional? No, it's not a good look. Need some self control and deep down, I know this never works, but you can lay with me so it doesn't hurt."
A caminho da cozinha, a campainha tocou. Como Soraia não estava, teve que ir atender. Olhou pelo olho mágico e viu apenas a silhueta de um cara ruivo de costas para a porta. Pensou estar delirando vendo Serguei ali, mas tomando coragem abriu a porta de uma só vez.
– O que é que você... – Mas a pergunta morreu em sua garganta quando ele se virou e ela viu o seu rosto machucado. – O que te aconteceu? – Perguntou perplexa.
Teria Serguei sido vítima de um assalto? Só de imaginá-lo em perigo, seu coração quase parou.
– O que me aconteceu? – Perguntou ele irônico se aproximando dela. Amedrontada, Sofia deu alguns passos para trás. Serguei estava furioso e parecia culpá-la por algo que ela não sabia bem o que era. – O que me aconteceu foi que você é completamente louca! – Esbravejou a segurando pelos braços.
Sofia ficou muda por alguns segundos, sem entender porque ele a estava atacando. Quase que imediatamente, sentiu uma fisgada na fronte e tentou se desvencilhar, mas as mãos dele aumentaram a pressão.
– Me solta! Olha aqui, eu não sei que droga você usou, mas essa é a minha casa! Quem te deu permissão pra subir? Eu vou mandar demitir aquele porteiro incompetente por deixar qualquer maluco entrar no prédio!
A raiva que Serguei sentiu desde que pegou um táxi do Grajaú até a Barra, explodiu. Não acreditava no quanto ela podia ser cínica! Queria esganá-la, fazê-la sofrer e admitir o que havia feito.
– Não seja cínica, Sofia! Você não pode mandar um cara me bater e achar que vai escapar impune dessa!
– Mandar te bater? – Repetiu incrédula. – Eu não fiz nada! Eu não sei do que você tá falando!
Mais uma vez ela tentou escapar do aperto das mãos de Serguei. Chutou-lhe a canela, mas ao andar pra trás, bateu com as pernas no sofá e caiu sem equilíbrio sobre o chão. Aproveitando-se da vulnerabilidade dela, Serguei, sem nenhuma piedade, montou sobre ela prendendo-lhe as mãos acima da cabeça.
– Sai de cima de mim! – Sofia pensou ter gritado, mas o apelo saiu sussurrado.
Serguei a manteve presa enquanto ela se debatia. Só quando ela desistiu de lutar, foi que ele diminuiu a pressão que fazia nos pulsos da loira.
– Você não mandou o seu amiguinho playboy me bater?
– Eu não fiz nada... – Choramingou, sentindo-se indefesa. Seus olhos ficaram marejados, e algumas lágrimas escaparam. Sofia sentiu-se também injustiçada. – Eu não faço ideia do que você tá falando... Eu não mandei ninguém bater em você, apesar de você merecer!
As lágrimas de Sofia fizeram Serguei recobrar a consciência, saindo de cima da garota. Sofia sentou-se no chão, meio atrapalhada. Se arrastou para longe dele, odiando as lágrimas que agora corriam livremente por seu rosto.
– Eu te machuquei? – Perguntou, mais calmo. Mas ela apenas balançou a cabeça, sem poder falar. Serguei se odiou pela forma como havia agido. – Se você não pediu para ele me dar um soco, por que ele faria isso do nada?
– Eu... Eu disse que não sei. Ele me pediu o endereço pra te agradecer, eu não sabia que ele ia te bater. Você pode não acreditar, mas não foi minha culpa.
A loira não conseguiu controlar o choro. Sentia-se arrasada pela forma que Serguei a tratou e traída por Otávio ter mentido sobre suas intenções. Se ela soubesse que ele agiria tão mal, não teria lhe ajudado.
Constrangido, Serguei tentou se aproximar, mas Sofia se encolheu ainda mais contra o encosto do sofá. Ela parecia uma garotinha assustada e ele não a culpava. Vencendo a distância, o ruivo sentou-se ao seu lado. Sofia abraçou o próprio corpo, e pela primeira vez ele notou a forma como ela estava vestida. O quimono estava aberto expondo um baby doll mínimo que evidenciava cada curva do corpo dela. Corpo que ele manteve sob si, enquanto agia como um brutamontes.
– Me desculpe... – Pediu sem jeito.
– Vai pro inferno, seu idiota! – Exclamou Sofia, fungando. Serguei sorriu.
– Há algum tempo que eu estou nele... – Ela o fitou. – Se você não pediu para ele me socar, por que ele fez isso? Melhor, por que ele disse que você o mandou fazer?
– Não sei... Pra se divertir, sei lá. Ou talvez, porque... – A garota se interrompeu.
Pensou que talvez o amigo estivesse apenas lhe protegendo de Serguei, por causa do que havia lhe contado.
– Talvez o quê, Sofia? – Insistiu o ruivo.
– OK, eu falei pra ele sobre a gente. Eu acho que ele só quis me defender!
– Te defender de mim?
– É... Eu posso ter falado um pouco mal de você. – Admitiu. – Como meu amigo, talvez ele tenha se sentido na obrigação de te machucar. E de certa forma, você merece por ter sido tão idiota! – Acusou enxugando as lágrimas. Colocou a mão na cabeça ao sentir outra fisgada de dor.
Serguei estranhou o gesto, adivinhando o motivo.
– Você tá bem?
– Eu tô... É só o estresse.
– E toda vez que você se estressa ou tá de ressaca, sua cabeça dói. – Concluiu.
Serguei se levantou e estendeu a mão para ajudá-la, mas ela recusou. Ao tentar levantar-se sozinha, Sofia sentiu uma vertigem e foi amparada pelo ruivo.
– Você não tá bem.
– Olha só quem fala... – Desdenhou Sofia fitando o rosto machucado do rapaz. – Espera aqui.
Ela se desvencilhou dele e foi até a cozinha. Serguei fechou a porta que estava escancarada e foi até o sofá, onde sentou-se. Era um milagre nenhum vizinho ter aparecido por causa do barulho. Minutos depois, a loira voltou com uma bolsa de gelo na mão.
– Não é grande coisa, mas pelo menos vai impedir o inchaço. – Sentando-se ao lado dele, ela pôs com cuidado a bolsa sobre o rosto de Serguei. Analisando o machucado, a loira concluiu que não era tão grave, mas com certeza ficaria roxo. Sem querer a garota lembrou-se de outro machucado e a forma como ele tinha sido gentil preocupando-se com ela.
– Dói?
– Não.
– Quer falar sobre isso? – Perguntou sorrindo.
Então, Serguei pôs a mão sobre a mão com a qual a garota segurava a bolsa. O seu sorriso morreu e eles ficaram em silêncio por alguns instantes, os olhares fixos um no outro. Sofia prendeu a respiração enquanto Serguei a admirava. Constrangida, ela soltou a bolsa de gelo e se afastou. Tentou prender o quimono, mas ele a impediu segurando sua mão.
– O que acha que tá fazendo? – Sussurrou a loira.
– Não faço ideia! – Então, agindo por impulso, largou a bolsa de gelo e a puxou para si.
Sofia arfou surpresa enquanto o ruivo deslizava uma das mãos para a sua nuca e com a outra a puxava pela cintura. Ele aproximou os lábios de ambos pausando um instante antes de beijá-la com vontade.
Como precisava daquilo, pensou Sofia desesperada por mais. Há dias, desde que esteve com ele, que ela sabia que precisava dos beijos de Serguei como uma viciada precisa da sua droga. Ele tinha de alguma forma se instalado em todos os seus sentidos. Tudo o que ela via, tocava, ouvia, saboreava tinha a imagem, toque, som e gosto dele.
Envolvidos pelas sensações, ele fez com que Sofia sentasse no seu colo. Ela passou a mão pelos cabelos ruivos, amando sentir o toque da mão dele por debaixo da sua blusa. Ele tocou um dos seus seios e a excitação dela cresceu. Sentindo-se ousada, mudou de posição e sentou-se de frente pra Serguei, uma perna de cada lado do quadril dele. Deixou que ele escorregasse o seu quimono que logo jazia no chão. Continuou beijando-o enquanto abria a sua camisa. Se livrou da peça e levantou os braços para que ele tirasse a sua blusa. O contato pele com pele a fez gemer de prazer.
Deus, como isso é bom, pensou Serguei. Nunca tinha se sentido dessa forma com qualquer outra garota. Era um cara experiente, tinha uma lista considerável de garotas com quem transou, mas nenhuma conseguiu fazê-lo se excitar tanto e em tão pouco tempo quanto Sofia. Ela era uma perfeita contradição. Era insegura e decidida, gentil e feroz, completamente apaixonante.
Segurou-a pela cintura e a deitou de costas no sofá. Livrou-se da calça e cueca que vestia e em seguida, puxou o short que ela usava. A visão de Sofia apenas de calcinha entregue aos seus toques quase o enlouqueceu de prazer. Tirou a última peça que restava e pegou uma camisinha no bolso da calça. Protegeu-se e então a penetrou. Ela sorria enquanto ele deslizava pra dentro do seu corpo quente. Cada sensação fazia sua mente girar e ansiar por mais.
E daí se prometeu que aquilo nunca mais aconteceria com ele? Que importância tinha uma promessa, quando já havia quebrado tantas outras e tão mais importantes. Gostava de Serguei, da forma como se sentia linda e desejável quando ele a olhava. Gostava da pele dele, do som da voz dele, do cheiro dele... Mas não estava apaixonada por ele. Esse erro ela não cometeria. Era só sexo.
Quando o orgasmo veio, ela segurou-se à ele. Foi ainda melhor do que a primeira vez. Então, foi a vez de Serguei se liberar. Ficaram abraçados, por alguns minutos, cada um ocupado em compreender as próprias emoções.
"Oh, won't you stay with me? 'Cause you're all I need. This ain't love, it's clear to see but, darling, stay with me."
Sofia tentava a todo custo se agarrar na teoria de que o que queria era sexo, sem imaginar que Serguei cogitava outro tipo de sentimento em relação à ela. Ela estava confusa e ele também, mas aos poucos as coisas começavam a clarear na mente do ruivo.
– Acho melhor você ir embora.
"Stay with me?"
Sofia saiu debaixo de Serguei e sentou-se. Apanhou o quimono e o vestiu, envolvendo as faixas para fechá-lo. Não conseguia encará-lo. Envergonhada, olhou em volta sem notar a sala tão familiar. Era a sala do apartamento do seu pai, onde ela vivia e ela simplesmente acabou de transar com um cara no sofá. O que isso dizia sobre ela?
– Olha pra mim! – Exigiu o ruivo a puxando pelos ombros e fazendo-a encará-lo. – Você não pode transar comigo e me mandar embora em seguida.
– Não? Acho que posso sim! – Debochou com raiva.
– Sofia... – Serguei respirou fundo. – Quando vai admitir que o que existe entre nós é mais do que uma atração passageira?
– Não sei do que você tá falando.
– Ah, você sabe! E sabe também que tá fora de controle. Por mais inconcebível que seja, não podemos achar que vai acabar assim de uma hora pra outra.
– Vai sim, se a gente ficar afastado... – Tentou argumentar, mas nem ela acreditava nas próprias palavras.
– Nem você acredita nisso... O que acha que vai acontecer se continuarmos negando? Essa atração, ou sei lá o que isso seja, vai crescer e crescer e quando nos dermos conta estaremos nos atracando no corredor da escola ou na sala da sua casa. Não faz diferença onde: vai acontecer!
O maldito orgulho dizia que ele estava exagerando, mas, sendo sincera, ela concordava com tudo. A questão é: queria mesmo correr o risco?
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