Era Uma Outra Vez...
45 Fogo
Notas iniciais
— Ok, talvez devamos conversar mais... Mas não antes de você estar vestido.
Sofia levantou-se do sofá e recolheu as roupas dele. Entregou-as ao dono que a observava detidamente.
– Você pode usar o banheiro no final do corredor.
Sem fitá-lo, ela seguiu para o quarto. Trocou-se e voltou para a sala. Serguei não estava mais lá. Foi para a cozinha fazer um chá. Precisava se ocupar com alguma tarefa. Imaginar o ruivo seminu na sua casa não estava fazendo bem a sua cabeça. Muito menos lhe fazia bem pensar na conversa que teriam. Ela não poderia fugir, admitiu com um suspiro.
Assim que a água ferveu, dividiu-a entre duas xícaras que depositou sobre o balcão da cozinha. Pegou um pacote de chá na prateleira de cima do armário, e pôs um saquinho em cada. O aroma de camomila a reconfortou um pouco, mas não o bastante para lidar com a visão de Serguei entrando na cozinha trajando apenas a calça jeans, sem camisa e descalço. Os cabelos ruivos estavam levemente úmidos. Ele estava maravilhoso, choramingou internamente diante da figura a sua frente. Imediatamente outras imagens dele com menos roupa vieram à sua mente. Corada pelos pensamentos, balançou a cabeça contrariada por ser sua pior inimiga.
– Vejo que aproveitou a hospitalidade! – Ironizou, olhando de relance enquanto colocava um pouco de adoçante no seu chá.
– Eu achei que você precisava de um tempo. – Ele caminhou devagar até ela e parou ao seu lado. – O que está fazendo?
– Chá. Era o que eu deveria ter feito antes de você invadir minha casa.
Sofia bebericou um pouco do líquido da sua xicara e tomou uma aspirina, sem vontade. Empurrou a outra xícara em direção a ele, mas o ruivo não fez menção de tocá-la.
– Não gosto muito. – Explicou.
Após terminar o chá, a loira pousou a xícara sobre o balcão e suspirou cansada. Ela sabia que não podia mais adiar o embate entre os dois, e rendendo-se, iniciou a conversa.
– Supondo que eu concorde com você... O que acha que devemos fazer?
– Eu não faço ideia.
– Mesmo? – Falou sarcástica. – Então, porque a gente não começa falando os motivos pelos quais eu e você, juntos, é uma péssima ideia? – Voltou-se para ele, o encarando. – Já pensou na reação da Anita e da sua amiguinha Júlia se, sei lá, de repente a gente aparecesse se pegando por aí?
– A reação delas te preocupa?
– Garanto que não perco meu sono nem por uma nem por outra. O que me preocupa é a reação da Flaviana. Você é ex dela.
– E?
– Como assim... “E”? – Irritou-se com a pergunta. – Ela é minha melhor amiga! Eu não posso ficar com o ex de uma amiga minha!
– E com o namorado da irmã?
As palavras saíram sem querer e o olhar magoado de Sofia o fez se arrepender imediatamente. Ela deu um passo para trás desnorteada pela pergunta.
– Eu não quis... – Tentou se desculpar.
– Não? – Sofia abraçou o corpo, sentido um frio repentino. – Tá vendo porque não vai dar certo? – Uma lágrima escorreu pelo rosto pálido. – Você não vai esquecer as coisas que eu fiz e nem eu posso prometer não fazê-las mais. É inútil, estamos perdendo tempo... – Ela virou-se de costas e com o encosto de uma das mãos enxugou o rosto. – Você não está apaixonado por mim pra tentar de verdade. Ainda que estivesse, já seria bem difícil. Imagina na nossa situação?
Desconsolada, a loira esperou que Serguei recobrasse o juízo e fosse embora, mas contrariando suas expectativas, ele a girou pelos ombros para poder encará-la.
– Não preciso imaginar... – Gentilmente, ele depositou um selinho nos lábios entreabertos de Sofia. Ela piscou surpresa ficando um pouco tonta pelo gesto. – Talvez só nos reste viver isso.
– Até acabar? – Sussurrou incerta.
– Até acabar. – Concordou Serguei com a expressão neutra.
Sofia queria muito poder decifrar o que se passava na cabeça dele, mas sua expressão não lhe revelava nada. Era um salto no escuro, com muitos riscos. Cabia agora a ela pular ou não.
– Se eu aceitar... A Flaviana não pode saber. Ninguém pode nem desconfiar sobre o que tá rolando.
– E como é que você pretende fazer isso funcionar? Eu vou invadir seu quarto durante a noite e fugir antes do amanhecer?
A pergunta a fazia parecer uma idiota, mas que saída tinha?
– A Fla tá estressada por causa da festa de aniversário e obcecada pelo Martin. Eu não posso jogar uma bomba dessas na cabeça dela, assim do nada... Se você me der um tempo, sei lá, talvez tudo se resolva até lá. A paixão pode até ter acabado.
– Paixão? – O sorriso de Serguei irritou profundamente Sofia.
– Você me entendeu... – Desconversou. – Então, você sabe que nós somos diferentes. A gente se odiava até outro dia... O que quer dizer que não dá pra querer que um se encaixe nas expectativas do outro. Você é o mesmo estúpido de sempre e eu sou eu... Tem certeza de quer fazer isso?
Ela precisava dar-lhe a chance para refletir mais uma vez.
– Quer saber se eu quero te ter assim... – Com um braço Serguei a trouxe para mais perto. – Se eu quero te beijar assim... – Uniu os seus lábios aos dela.
Foi um beijo de confirmação. Nenhuma certeza ou dúvida pareceu importante enquanto eles permaneciam ali, na cozinha dela, beijando-se como se eles fossem pessoas especiais um para o outro. Afinal, quem disse que sentimento precisa de explicação ou motivo?
– Quero exclusividade... Nada de você ficar se pegando com a nojenta da Amanda por aí! – Disse a garota ofegante quando se separaram.
– Ciúmes? – Brincou ainda a segurando pela cintura.
– Higiene.
– E quanto a você? Posso esperar o mesmo?
– Você não me viu nesses últimos dias beijando outras bocas, viu? Quer dizer... – Traindo a si própria, Sofia pensou em Antônio e no beijo que ele havia lhe dado quando a levou em casa na noite anterior.
– Quer dizer? – Indagou Serguei desgostoso.
– Acho que eu beijei outra boca... E convidei ela também para ir ao aniversário da Flaviana comigo.
– Quem? O Sidney? – Serguei se irritou por ela ter beijado outra pessoa e não sabia como esconder.
– Não... O Antônio. – Sofia mordeu o lábio inferior, nervosa.
– O irmão do Ben.
– É... Surpreso?
– Você gostou?
– Que diabo de pergunta é essa?! – Explodiu a loira.
Não queria sentir-se culpada pela droga de um beijo sem importância, mas era exatamente como se sentia com Serguei olhando-a com raiva.
– A gente não tem nada, OK? Ele me beijou, o que nem foi um beijo... Quer dizer, foi mais um selinho. Se tá querendo insinuar que sou uma perdida, olha... – No entanto, antes que ela continuasse a tagarelar, Serguei a calou com mais um beijo.
Diferente do outro, esse era exigente, possessivo como se de alguma maneira ele quisesse marcá-la como sua.
– Você não vai mais beijar outras bocas. – Disse o ruivo, determinado.
Completamente em transe, Sofia podia ter jurado qualquer coisa. Seria sempre assim, ela sem nenhum controle sobre as emoções todas as vezes que ele a beijasse?
– Temos um acordo.
– Temos um acordo. – Repetiu a loira.
Um acordo cuja a principal base é o sexo não era o ideal de um relacionamento, mas era o que era e dane-se o resto.
– Ótimo.
– Ótimo.
Estava feito. Serguei selou definitivamente o pacto com o diabo.
– O que a gente faz agora? – Quis saber Sofia olhando fixamente para os lábios dele.
– Queima.
– O quê?
– Esquece!
O caminho até o quarto dela teve alguns obstáculos. Enquanto se beijavam, não conseguiram desviar de alguns móveis, arriscaram-se a quebrar alguns vasos, porta-retratos, tudo sem importância. O que eram meros objetos perto do que eles sentiam por dentro?
Sofia ria enquanto Serguei a puxava mais para moldá-la a seu corpo. Ele beijou seu rosto, seu pescoço, ombro... Quando chegaram ao quarto, os dois tombaram na cama.
– Machuquei você? – Perguntou o ruivo sobre ela.
– Não... Cala a boca e me beija!
Logo roupas foram retiradas e mais uma vez eles acabavam no momento mais íntimo que duas pessoas podem compartilhar. O que eles eram antes disso não interessa mais.
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