Era Uma Outra Vez...
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Notas iniciais
Sofia abriu os olhos devagar. Já era dia e a luz fraca do amanhecer iluminava parcialmente o quarto. Ainda sonolenta, espreguiçou-se na cama e bateu com a perna em algo. Girou a cabeça e deu de cara com as costas de Serguei. Na pele do ruivo havia algumas marcas, resultado da noite anterior. Um sorriso espontâneo surgiu em seu rosto enquanto observava o ruivo dormir tranquilamente. Com mais cuidado do que o necessário, saiu da cama e seguiu para o banheiro.
Após fechar a porta, seguiu para a pia. Lavou o rosto com água fria, sentindo a pele ainda quente. A garota olhou-se no espelho detidamente a medida que lembranças da noite anterior invadiam sua mente: os beijos, as caricias, as palavras sussurradas. Pela manhã, tudo parecia tão irreal como se houvesse acontecido com outra pessoa. No entanto, o ruivo adormecido era a prova concreta da melhor noite da sua vida. Se isso não bastasse, ainda havia a sensibilidade nas partes do corpo onde ele tinha tocado.
– Isso é loucura! – Sussurrou tocando nos lábios. – Como é possível? Por que não posso apaga-lo de mim?
Atração. Sexo. Era mais, muito mais. Era uma questão de pele, mas era mais do que desejo. Não sabia definir ao mesmo tempo que temia dizer em voz alta... empurrou para o fundo da mente qualquer consideração a respeito do que estava vivendo no momento.
Sofia volta para o quarto e não resiste a voltar para cama.
– Humm... – Serguei se move e a abraça por trás. – Por que demorou tanto?
– Pensei que estivesse dormindo.
– Ou estava tentando fugir, como da outra vez?
Sofia se mexeu entre os braços de Serguei para encará-lo. Ela perdeu as palavras por um momento ao fitar os olhos do ruivo. O maldito era ainda mais bonito de manhã mesmo com o hematoma roxo no rosto.
– É a minha casa, esse é o meu quarto. Não preciso fugir, posso muito bem te mandar embora.
– Faria isso?
– Por que não?
– Eu perguntei primeiro. Sim ou não?
A loira se sentiu tentada a dizer sim, mas a quem queria enganar?
– Não. – O sorriso de Serguei pela resposta foi instantâneo. – Mas você precisa mesmo ir embora. Daqui a pouco a Soraia chega e eu não tenho um bom repertorio de desculpas pra explicar um ruivo nu na minha cama.
Sofia tentou se livrar do abraço, mas Serguei a prendeu mais ao seu corpo. Em questão de segundos, a respiração da garota ficou pesada e ela sentia o coração bater mais rápido. Olhava-o com um misto de indignação e desejo. Nenhuma barreira entre os corpos, com exceção da calcinha preta de renda que ela usava.
– Serguei... – Gemeu quando ele começou a executar uma trilha de beijos do seu pescoço até os seios. – Nós não podemos... A Soaraia.
– Que horas ela chega?
– Por volta das oito... Serguei! – Protestou mais uma vez quando ele se pôs sobre seu corpo. – Você não escutou nada do que eu disse?
– Cada palavra... – O ruivo mirou o relógio sobre a mesinha de cabeceira. – Só que são 07:05hrs, o que significa...
– X –
— Bom dia!
– Oi! – Anita sorriu ao ver Júlia na porta do casarão. – Entra!
– Vim me oferecer pra irmos juntas pra escola!
– Só isso ou você veio fazer uma visitinha pro Frédirik?
Júlia corou um pouco envergonhada. Não era segredo para a sua amiga que estava apaixonada pelo hóspede do casarão, mas sua timidez a impedia de falar abertamente sobre o assunto.
– Relaxa, Julinha! É só brincadeira, apesar de eu achar que você deveria se abrir com ele sobre seus sentimentos. E embora essa seja uma decisão sua, quero que saiba que eu te apoio em tudo, hein?
– Valeu amiga! Eu tenho muita sorte de ter você e o Serguei como amigos.
– E por falar em Serguei, liguei pra casa dele e a mãe dele falou que ele não dormiu em casa. Você sabe se ele tá de rolo com alguém?
Júlia mordeu o lábio inferior, receosa de pensar que esse 'alguém' seria Sofia. Mas ela devia estar viajando, porque não havia nada concreto em suas suspeitas e conhecendo a loira como ela conhecia sabia que ela não se contentaria com um simples cabelereiro de subúrbio. E Serguei também não se envolveria com a megera sabendo de tudo o que ela havia feito a Anita.
– Não, não faço ideia! – Não preocuparia sua amiga com bobagem.
– Bem, se existir uma pessoa que ela o faça feliz, porque um de nós tem que dá sorte no amor! – Falou a Princesa com certo ressentimento pelo rumo que seu namoro havia tomado.
Ben ainda era seu namorado e ela ainda o amava, mas nada do que eles faziam parecia fazer a antiga cumplicidade que eles construíram retornar. A cada dia, uma distância maior era estabelecida entre os dois, e ela via, impotente, seu namoro desmoronar. E a pessoa a quem devia agradecer era Sofia.
– X –
De mãos dadas, Sofia acompanhou Serguei até a porta do apartamento. Foi um gesto natural sobre o qual ela não quis pensar a respeito. Não queria que ele fosse embora, mas já havia se arriscado demais permitindo que o ruivo ficasse tanto tempo.
– Quer dizer que aquele papo de fugir pela manhã tinha um fundo de verdade.
– Hahaha muito engraçado!
Serguei a puxa pela cintura a envolvendo num abraço.
— Não vejo a hora de ficar com você de novo.
– Eu também. – Dão um selinho.
— Como vai explicar esse hematoma? – A a garota toca o ferimento com cuidado. O ruivo faz uma careta de dor.
— Penso numa desculpa pelo caminho.
– Ah... quer dizer que você sabe mentir, senhor certinho?
– Só quando me convêm... – Ironizou o ruivo. – Talvez você descubra que eu não sou o cara que você pensa.
– Verdade? – Rebateu a loira com um sorriso. Aproximando o seu rosto do dele, Sofia sussurrou ao seu ouvido. – Sabe... talvez você também descubra uma ou duas coisas que não sabe sobre mim.
Uniram os lábios mais uma vez antes dele ir embora.
Sofia ficou alguns segundos olhando para a porta fechada sem conter a expressão sonhadora. Sentia-se uma estranha, nada estava no lugar e, de certa forma, ela nunca esteve tão feliz por isso.
— X –
– Como foi sua noite?
– O quê?
Sofia tomou um grande gole do seu cappuccino, antes de formular uma resposta para a amiga. Sentia-se exposta como se estivesse escrito na sua testa que havia transado com Serguei na noite passada e naquela mesma manhã.
– Eu liguei pra você, mas não me atendeu. Pensei que estava cansada demais, por isso não fui ao seu apartamento.
– É... Eu estava muito cansada, dormi assim que cheguei. – Desconversou. – Por que não me fala como foi a sua noite. O encontro com Martin deu em algum resultado?
Durante longos minutos, Flaviana contou os detalhes do encontro com Martin. Ele e Micaela romperam o namoro, mas apesar disso ele ainda estava muito apaixonado e Flaviana passou a maior parte do tempo ouvindo-o se lamentar pela ex namorada.
– Eu fiz exatamente o que me pediu: fui amiga, compreensiva... E tudo o que Martin sabia dizer é Micaela isso, Micaela aquilo, mas a Micaela... Eu queria gritar de raiva.
– Você sabia que não seria tão fácil.
– Eu também não imaginei que seria tão difícil... – Queixou-se a morena. – Melhor irmos pra aula.
Sofia levantou-se pronta para deixar a cantina da escola. Já no corredor, recebeu uma mensagem.
“Sala de música. 10min.”
Era um número desconhecido, mas ela sabia exatamente de quem se tratava.
– Flaviana, te encontro depois. Preciso resolver um assunto.
– Tá, mas não demora. A próxima aula é do João.
– X –
— Serguei!
— Oi Júlia... Algum problema?
— Não... – Júlia se aproximou do amigo e estranhou ele estar de óculos escuros. – É que não te vi no primeiro horário. Tá tudo bem?
— Tá... – Tentou desconversar Serguei pensando que Sofia já o estava esperando. – Júlia, eu preciso ir agora. Falamos mais tarde, ok?
— Tudo bem... – Respondeu Júlia, mas Serguei já se afastava apressado.
A garota estranhou o comportamento do amigo. Serguei parecia aliviado por ter se livrado dela, o que era muito estranho. Em qualquer outra situação, Júlia sabia que não faria o que estava prestes a fazer, mas deixando de lado qualquer senso de autocrítica, decidiu segui-lo.
— X –
— Sofia!
— Sidney? Ah... oi!
Sofia parou em frente a porta da sala de música. Não esperava encontrar ninguém conhecido, mas por azar Sidney havia cruzado seu caminho. Por mais que quisesse dispensá-lo, não queria levantar suspeitas.
— Posso falar com você? É rápido.
— Tá... fala.
— É que a festa da Flaviana é no final de semana e eu pensei que talvez você e eu... a gente, você sabe, né? – Enrolou-se o rapaz. – Bom...- Sidney fitou Sofia nos olhos – É que eu queria te convidar pra ir na festa da sua amiguinha comigo.
— Sidney... A gente, você sabe... – Sofia sentiu o rosto esquentar de constrangimento.
Acreditou que Sidney já tinha entendido a natureza da relação dos dois e não queria entrar novamente naquela discussão.
— Eu sei, eu sei! – Interrompeu-a – Não é nada do que ‘cê’ tá pensando. Eu quero te convidar como amigo.
A garota fitou o rosto do garoto para detectar algo a mais nas suas palavras, mas tudo que conseguiu enxergar foi sinceridade. Sentiu-se aliviada.
— Só amigos?
— Só amigos. – Confirmou com um sorriso. – Então, qual a resposta?
— É sim.
Sidney abraçou Sofia de um jeito entusiasmado. Era importante que a loira concordasse em ir com ele a tal festa. Embora difícil, ele admitia que estar rodeado de ricos esnobes o amedrontava um pouco, mas se tivesse o apoio de Sofia poderia tirar qualquer situação de letra.
— Sidney, você tá me sufocando!
— Foi mal... – Desculpou-se.
Ele a soltou. Sofia riu da reação do garoto, mas seu sorriso se apagou ao se deparar com Serguei parado a alguns metros, encarando-os. Prendeu a respiração quando ele deu meia volta e foi embora.
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