Era Uma Outra Vez...
68 Sente?!
Notas iniciais
— Podemos conversar?
Raissa se permitiu encarar João Luís como há muito tempo não era capaz. Ela tinha um propósito e independente do receio que sentia da reação dele, não podia mais ignorar que seu ex-namorado era tão vitima quanto ela e merecia saber a verdade sobre Sofia. Ela se martirizou por muito tempo preferindo o silêncio e aceitou a hostilidade velada de João sempre que eram ‘obrigados’ a estarem juntos. Ela não tinha mais ilusões quanto a uma possível amizade pelo que eles viveram, no fundo, desde que havia entregado a filha para adoção ela soube que também estava abrindo mão da história deles.
— Por quê? – O tom duro foi atenuado apenas pela descrença contida na voz.
A verdade é que João não encontrava motivos pelos quais ele e Raissa deveriam sequer dividirem o mesmo espaço. Pelo que ele sabia, ela era egoísta e covarde o suficiente para abandoná-lo quando mais precisou dela. Um dia chegou a acreditar que ela era diferente, especial, mas, no fim, ela se mostrou tão fria quanto o próprio pai.
— O que você quer de mim?
A tensão entre os dois era crescente e ela não podia culpá-lo por isso. O que Raissa poderia fazer nesse momento era usar sua única defesa: a sinceridade.
— Eu sei o que você pensa de mim... – A sua voz era calma, mas triste assim como a sua expressão. Um dia eles foram amigos também... Mas agora havia tanta hostilidade que duvidava do amor que sentiu. – E desde que nos reencontramos é constrangedor quando estamos juntos.
— Nós nunca estivemos juntos. – “Não como eu pensei...” Ele quis dizer, mas calou-se.
— Eu sei que minha presença te incomoda. – Raissa continuou sem se abalar com as palavras dele. – E mesmo que você me deteste agora, eu ainda acredito que... por tudo o que nos aconteceu, o mínimo que eu mereço é uma conversa.
— Para falar dos velhos tempos?! Não me faça rir!
João sentia-se furioso na mesma medida que ela aparentava tranquilidade. Não apenas pela reação dela diante do encontro como também pela sua quando era visivelmente afetado pela menção ao passado. Então, sua mente traiçoeira projetou as lembranças que ele se recusava a ter: os dois em diferentes momentos. As recordações se alastraram como fogo cegando-o para a razão.
“Não acho que deveríamos ficar juntos”.
“Por que não?”
“Nós somos amigos”.
“Quero ser mais que seu amigo... há muito tempo”.
“Eu posso acabar me apaixonando”.
“E isso é ruim?”
“Não, mas perder você seria”.
“Não vai acontecer”.
Embora sua mente dissesse que aquele momento de vulnerabilidade não passou de fingimento, seu coração acreditou por um instante que ela ainda era aquela garota divertida capaz de entretê-lo por horas apenas pelo prazer de ouvir sua voz.
— Não tiro sua razão de estar com raiva.
— Não sinto raiva... apenas decepção. – As palavras saíram rasgadas, muito mais emocionais do que ele gostaria. Já fazia muito tempo para ele se importar tanto, mas se importava. – Eu demorei muito para entender o que aconteceu... para fazer a ligação entre a garota que eu conheci e a garota que você realmente era. Foi só brincadeira, não foi? Uma forma de irritar seu pai!
— É isso que você acha?
— É o que eu sei! Ninguém me contou, eu sei exatamente do que você é capaz. E não entendo porque depois de tanto tempo você está nos obrigando a essa situação patética!
Resoluto, João encaminhou-se para a porta disposto a deixar Raissa onde ela sempre esteve: no passado. Sua mão estava na maçaneta quando a ouviu novamente.
— Eu estava certa.
— Sobre o quê? – Perguntou de costas para ela. Seu coração batia tão forte que duvidava que mais alguém não pudesse escutá-lo.
— O problema nunca foi o meu pai ou o fato de ele não concordar com a nossa relação. Você nunca confiou em mim! Me pediu para ir embora, largar tudo, minha família...!
— Eu fui idiota, eu reconheço. No entanto, você não apareceu como o combinado!
— Eu não podia... não sei como, mas meu pai descobriu. Pedi para o Marcelo te procurar, mas não pude explicar o porquê... apenas queria que ele desse o meu recado a tempo.
— “Confie em mim... não importa o que aconteça”.
Um silêncio pesado se seguiu. A mão de João permaneceu sobre a maçaneta da porta que agora estava entreaberta. Apenas um movimento e ele poderia ir embora para longe das lembranças que o perturbavam.
— Eu queria que fosse tudo diferente... – As lágrimas caíam silenciosas pelo rosto de Raissa. Ele não voltou-se pra ela em nenhum momento, mas permaneceu parado no mesmo lugar. – Mas eu não posso mudar o passado e as escolhas que eu fiz. Eu sei que depois de hoje você vai me odiar ainda mais, mas eu simplesmente não aguento mais guardar esse segredo.
— Que segredo? – Um mal pressentimento atingiu o homem fazendo o braço com o qual segurava a porta cair junto ao corpo. – O que você quer me dizer?
— Eu não pude de contar e por questões sobre as quais não posso falar agora eu me mantive calada. – Respirando fundo, Raissa encarou as costas tensas de João. – Depois do acidente, meu pai me obrigou a sair do Rio. Ele me manteve incomunicável... a única forma que eu pude saber de você foi pela Carmem.
— Ela me falou das suas cartas.
— Você não leu?
— Eu fiquei quebrado em cima de uma cama... por meses era difícil até mesmo respirar. E afinal, o que ela me relatava era sórdido demais para eu ainda me obrigar a ler as suas palavras.
— Sórdido?
— Como você chamaria? “Não quero contato com o responsável pela morte do meu irmão. Meu pai estava certo, eu não deveria ter me envolvido com alguém como você. Odeio a ideia de ter me entregado a um assassino, mas não me obrigarei a conviver com isso. Independentemente do que aconteça, não me procure mais!”. – Murmurou entredentes. Ele memorizou cada palavra.
Raissa se surpreendeu com o relato triste por ter mais uma prova do quanto esteve enganada em relação a amiga. Carmem tinha sido o mais baixa possível para afastá-los e se aproveitou da vulnerabilidade de João para envenená-lo contra ela. Raissa pensou que não poderia ser mais magoada pelo que a amiga e o pai fizeram, mas ela estava enganada.
— Eu chamaria de mentira, mas nada do que eu diga vai fazer você desistir da ideia que formou sobre mim. E se te faz feliz, também mentiram para mim... me magoaram tanto que eu me perguntei se valia a pena continuar vivendo. Você pode achar que foi difícil para você, mas não faz ideia do que eu senti quando tive que entregar minha filha para a adoção.
— Filha?
— Eu passei os últimos dezesseis anos me sentindo a pessoa mais miserável do mundo. E eu sei que não mereço o amor dela, mas eu reencontrei a minha Marcela. É isso que eu queria te dizer... Eu estava grávida. Nós temos uma filha.
— Grávida? – Finalmente João voltou-se para Raissa. Em seu semblante ele enxergou um misto de tristeza e raiva. E também resignação pelo que havia feito. A ideia dela grávida de um bebê seu foi como um soco no estômago lhe roubando o ar por alguns segundos. Então, as últimas palavras dela ecoaram em sua cabeça. – Você deu o nosso bebê?
— Eu não tive escolha!
— Como você pôde, Raissa?!
— Eu sinto muito. – Ela pediu entre lágrimas parecendres tão sincera que o enojou. – Sinto muito.
— SENTE?! – Gritou João sem se importar de estarem no colégio. Pensou no tempo em que ficou no hospital esperando que ela fosse encontrá-lo. Lembrou-se da dor ao ser abandonado, a raiva pela traição de Raissa e finalmente do desespero que o consumiu quase o levando à loucura. E se não fosse o bastante, ela havia se livrado do bebê deles... a filha de um assassino. — ONDE ELA ESTÁ?!
“[...] não me obrigarei a conviver com isso!”
João avançou em direção a Raissa tomado pela fúria contendo-se apenas a alguns passos da orientadora. Um som oco ecoou pela sala quando o punho cerrado do professor atingiu a mesa. Raissa sobressaltou-se assustada sem conseguir controlar o choro.
— Ela não sabe sobre nós... a Sofia não sabe quem eu sou de verdade.
— Sofia? Ela é a minha filha?!
Raissa encarou João sem forças para contestar. Com resignação, ela acenou afirmativamente. João sentiu a fúria se dissipar tão rápido quanto se formou e caiu de joelhos frente a mulher a quem amou e odiou com desespero, completamente derrotado.
— X —
— Oi!
Sofia praticamente se lançou nos braços de Serguei assim que o ruivo se aproximou na saída do colégio sem se importar com quem os visse. Após sua conversa com Raissa, a garota se sentia vulnerável e algo dentro dela, um sentimento estranho que não soube identificar, a deixava inquieta. Talvez sua apreensão se devesse ao fato de que iria encontrar com Otávio em pouco tempo e que finalmente ficaria a par do que estava acontecendo com o amigo e Flaviana.
— É bom te ver também! – Falou Serguei abraçando-a pela cintura e beijando os seus lábios. – O tempo pareceu durar uma eternidade desde que eu te vi pela manhã.
— Ah... é mesmo? – Com um sorriso, Sofia entrelaçou os braços envolta do pescoço do ruivo. – Também senti saudade.
Sem se incomodarem com alguns olhares curiosos, Sofia e Serguei se beijaram apaixonadamente. Assim como sempre acontecia, eles estavam imersos no próprio mundo de felicidade sendo interrompidos apenas pela presença desagradável de Amanda.
— Quer dizer que é oficial, Brasil? Sofia e Serguei de caso! – Debochou a morena embora sua expressão fosse de raiva. Ela ainda não tinha esquecido do tapa que recebeu da outra e nem mesmo sua “armação” contra Flaviana foi capaz de apaziguar o seu ódio contra Sofia. – Quem diria? Não você, né amiga!
— Primeiro: eu não sou sua amiga! – Irritada, Sofia se desvencilhou do namorado e encarou Amanda com desprezo. – Segundo: Meu namoro não é da tua conta! E terceiro, mas não menos importante: eu poderia até fazer você pagar pelo que fez com a Fla, mas eu não vou sujar minhas mãos tocando em você.
— Isso tudo é medo? – Exclamou a morena irritada. Voltou-se para Serguei ao lado de Sofia incomodada por eles estarem de mãos dadas. – Como você permitiu se envolver por ela?
— Não encostar em você não é medo, é bom senso! Você não vale a pena... E vamos ser sinceras, o que te incomoda é saber quem você tanto queria está comigo, né?
Debochada, Sofia riu e depois deu um selinho em Serguei que apesar de contrariado com a situação não entraria em discussão com a namorada por causa de Amanda. Ele bem lembrava a tentativa da morena de atingir Sofia beijando-o quando percebeu que entre eles havia algo mais.
— Sofia, vamos embora. – Falou para a namorada de modo conciliador.
— Virou o cachorrinho dela, Serguei? Tão rápido! Pensei que você fosse mais homem que isso!
— Olha lá como você fala dele! – Exclamou Sofia avançando sobre Amanda, mas sendo contida pelo ruivo. – Me solta Serguei!
— Amor, não vale a pena.
Amanda não pôde controlar a expressão de surpresa ao ouvir o tratamento carinhoso de Serguei. Por mais que a chocasse, os dois pareciam um casal de verdade... e o pior: um casal apaixonado. Se ela já detestava Sofia antes, o que ela sentia agora poderia se assemelhar a ódio mortal por ter perdido o ruivo para a rival.
— Ok, você tem razão. – Sofia fitou a outra uma última vez. – O Serguei é um cara incrível e que eu amo. Você pode ter tentado me atingir usando ele, mas apenas me fez enxergar o quanto o que sentimos é especial. Espero que sua inveja não te impeça de encontrar alguém com quem você possa viver um sentimento como esse.
Dito isso, o casal se afastou deixando para trás uma Amanda transtornada de ódio. As palavras de Sofia a feriram mais que qualquer bofetada que pudesse receber e ter sido ela a dizê-las a fez querer mais do que nunca arrancar o sorriso vitorioso dos lábios da loira.
— Você me paga, Sofia! – Vociferou a morena indo embora.
Próximo do local, estava Giovana que tinha observado a cena com certo prazer mórbido. Ela tinha ido atrás de Sofia para revelar a verdade que acabara de descobrir, mas a presença de Serguei a impediu de tentar qualquer aproximação. No entanto, presenciar o que aconteceu havia sido bem mais interessante uma vez que agora tinha certeza de qual era o ponto fraco da loira. Com um sorriso, a ruiva caminhou em direção a casa pensando que seria muito mais satisfatório causar a Sofia o mesmo tipo de dor que ela impingiu a Anita. Só então, quando a loira estivesse completamente só, Giovana daria o golpe final.
— X —
Aconteceu novamente. Mas diferente da primeira vez, Flaviana não conseguiu se recriminar por sucumbir a Sidney. Num silêncio reconfortante, deixou-se ser abraçada por ele adorando a respiração pesada nos seus cabelos. Sidney era... intenso. E isso a assustava e instigava na mesma medida. A quem ela queria enganar? Estava se apaixonado por ele.
— Nós estamos complicando tudo.
— Por causa do sexo? – A voz dele era rouca e estava tão próxima que fez os cabelos da nuca se arrepiarem. – Eu gosto de sexo com você.
— Eu... acho que você não devia dizer isso. – Confessou com uma risada embora sentisse o rosto esquentar. – Mas eu também gosto de sexo com você.
— Eu fui o único cara com quem você fez sexo.
Flaviana calou-se morta de vergonha. Sidney falava com uma naturalidade quase indecente e se ela não estivesse com a língua presa no céu da boca, teria dado uma resposta espirituosa sobre a sua virgindade.
— E? – Murmurou por fim, obrigando-se a assumir uma postura menos passiva.
— E... que foi uma surpresa ser o primeiro da maior ‘patricinha’ do colégio.
A garota tentou não levar a afirmação de Sidney de forma negativa, mas o prazer com que foi dita fez um alarme soar em sua cabeça. Então, deixando todo o constrangimento de lado ela se libertou do abraço e sentou-se na cama dando nenhuma importância para sua nudez.
— Você encara isso como algum tipo de vantagem?
— Não foi o que eu disse! – Sidney também sentou-se visivelmente nervoso com a acusação. – Eu apenas achei irônico.
— O quê? Eu ser virgem ou poder se gabar por termos transado? Não vou ficar aqui sendo motivo de piada para você! – Irritada, a garota pôs os pés para fora da cama decidida a ir embora, porém sem que pudesse reagir foi jogada na cama arregalando os olhos quando ele se colocou sobre ela. – O que pensa que está fazendo?!
— Te impedindo de fazer uma cena! Por que é sempre tão impulsiva? – Exclamou Sidney mais angustiado do que com raiva. – Não é a primeira vez que você usa o que eu digo contra mim. Você faz de propósito!
— Se você não dissesse idiotices isso não aconteceria!
— Se você fosse menos dramática isso não aconteceria!
Sidney afundou o rosto no vão do pescoço de Flaviana ainda a mantendo imobilizada. O corpo traiçoeiro da garota estremeceu quando a barba do rapaz roçou sua pele sensível. Foi exatamente daquela forma, em meio a uma briga que eles acabaram na cama: duas vezes.
— Eu gosto do seu cheiro.
— Você está fazendo de novo! – Acusou-o em meio a um gemido engasgado quando as mãos de Sidney subiram ao longo do seu corpo.
— O quê?
— Usando sexo para me confundir!
— Tá funcionando? – A voz melodiosa saindo da boca dele pairando sobre a sua fez Flaviana se contorcer sentindo-o ainda mais. – Acho que é sim!
A risada dele a irritou profundamente, mas também acendeu seus sentidos.
— Eu sei que estamos complicando tudo. – Sidney a beijou no maxilar antes de capturar o lóbulo da orelha dela. – Não acho irônico você ter sido virgem e sim que tenha escolhido a mim para não ser mais.
— Foi tesão. – Flaviana riu mal acreditando ter dito aquilo realmente. – E eu deveria ir embora antes que acabemos ainda mais enrolados nessa situação. Você mesmo disse que não vai funcionar.
— Eu nego tudo o que eu disse se eu puder beijar você sempre que eu quiser.
— Eu... UAU, isso foi inesperado!
O fogo queimava nos olhos azuis de Sidney atraindo Flaviana para promessas que não poderia cumprir. Eles eram um erro completo. Um grande e delicioso erro.
— E como vai ser? – Ela arriscou-se a perguntar.
Flaviana percebeu Sidney relaxar contra ela e a apertar mais um pouco. Ela sorriu automaticamente ao lembrar que o próprio tinha feito questão de estabelecer uma distância entre eles e agora queria beijá-la o tempo todo. Ou não somente isso, imaginou com um sorriso.
— Pra começar, você pode ficar aqui.
— Aqui?!
A sugestão pegou a garota de surpresa e pela expressão de Sidney ela percebeu também que não tinha sido algo pensado previamente por ele.
— Você não me quer aqui.
— Por que não?
— Não é óbvio? Sidney... – Flaviana suspirou pesadamente dividida entre alegria e tristeza. Ela precisava ser sincera com ele e consigo mesma. – Eu vou acabar me envolvendo e sinceramente não quero isso... não agora. Minha vida tá confusa o suficiente e eu vou acabar esperando mais do que você pode me dar. Eu sou assim... e então, vou sentir raiva de você e de mim quando as coisas derem errado. E vou acabar magoada de novo.
— Prefere que eu seja magoado?
— Não acho que possa magoar você. E não, prefiro que nós dois fiquemos bem.
— Eu fico bem com você... mesmo quando brigamos, eu me sinto bem quando você me olha prestes a arrancar minha cabeça. – Sidney riu rolando para o lado, mas próximo o suficiente para sentir o calor feminino. – Eu sei que podemos acabar mal, mas não quero desistir antes de tentar. Eu sou tão ou mais complicado que você... sei que vivemos vidas diferentes.
— Vai me chamar de ‘patricinha’ de novo?
— Não... – Sidney deitou-se de lado apoiando a cabeça na mão. Flaviana olhava para cima e ele percebeu uma lágrima escorrer dos olhos azuis. Com delicadeza, ele usou o polegar para enxugar a bochecha dela fazendo-a virar o rosto em sua direção. Ela era mais bonita do que ele era capaz de descrever. – Não vou machucar você.
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