Era Uma Outra Vez...
31 Seguindo em frente...
Notas iniciais
– O primeiro passo foi dado! – Disse Flaviana com um sorriso de orelha a orelha ao sentar-se em frente à Sofia.
A loira estava na cantina tentando ler ‘Dom Casmurro’ para fazer o trabalho de literatura, mas com a chegada da amiga concluiu que seria inútil já que Flaviana não tinha mais nenhum interesse além do plano que elas haviam bolado contra o namoro de Micaela e Martin.
– A Micaela recebeu ainda essa manhã um lindo buquê de rosas amarelas acompanhado de um cartão com os seguintes dizeres “Você fez o meu amor florescer.”!
– Nossa, que tosco!
– Não é? Por isso é perfeito! A tonta ficou nas nuvens pensando que foi o Martin que o enviou, e mal sabe ela que ele não faz ideia de nada! Quando eu derrotá-la, a Micaela não vai saber nem o que a atingiu!
– Vai com calma Flaviana, por favor! Um passo de cada vez! – Pediu Sofia fechando o livro que lia até poucos instantes.
Ela conhecia Flaviana, sabia que teria que conter o entusiasmo da amiga sempre que possível, pois aquela história estava só começando e não queria ver a garota decepcionada caso o plano viesse a dar errado. Até os mais brilhantes crimes tinham suas falhas, e elas, embora inteligentes e determinadas, não eram profissionais, e pequenos ou médios detalhes podiam ter passado despercebidos. Mais do que maldade para se praticar o mal, era preciso ter paciência e perspicácia.
– Não seja estraga prazeres!
– Eu estou sendo cautelosa! Não quero que coloque tudo a perder com excesso de confiança, porque isso nunca é bom. Pode te tirar do foco e você pode esquecer o que deve fazer, e não queremos isso não é? Eu aceitei te ajudar, por isso vai ter que me ouvir. Eu não quero que nada dê errado, portanto pare de reclamar!
– Você tem razão... – Concordou a morena mais comedida – Acontece que eu estou tão feliz que acabo me excedendo, mas não se preocupe, porque eu vou me manter concentrada. Por nada nesse mundo eu vou correr o risco de estragar tudo.
– Ótimo... Vamos observar qual a reação do Martin para termos certeza se continuaremos nessa linha de ação. Espero que as Micas cumpram com a palavra delas, pois não duvido nada que elas deem para trás... Aí já viu, né?
– Elas não vão, eu prometo!
– Sendo assim... – Sofia levantou-se da cadeira e pegou a bolsa – Eu vou à biblioteca, te encontro na sala depois Ok?
– Uhum... E de novo obrigada.
Sofia sorriu para a amiga antes de lhe dar as costas e deixar a cantina. Distraída, andou em direção à biblioteca da escola para buscar livros sobre dissertação que ajudassem com o trabalho escolar. Não era uma boa aluna, não com notas brilhantes, mas era dedicada quando queria. Nunca ficou para recuperação em nenhuma matéria e sempre obteve um resultado acima da média. Pena que seu esforço sempre passasse despercebido diante de um feito magnânimo da irmã mais velha, pensou Sofia com pesar ao lembrar-se das vezes que ela foi relegada a um segundo plano, porque Anita havia se sobressaído mais que ela. Na 6ª série quando tirou uma nota 10 na prova de matemática enquanto ela havia conseguido apenas um misero 9 em geografia. Ou quando a irmã foi eleita a representante da classe na 8ª serie, ou mesmo quando ela saiu em disputa na eleição do grêmio estudantil sendo aluna do 1º ano e saiu vencedora com larga vantagem de votos, pois, ao que parecia, Anita possuía o dom de cativar a pessoas, mesmo estranhos ‘aborrecentes’ cheios de hormônios. Em contrapartida, Sofia não havia realizado nada excepcional além de receber duas suspensões, três repreensões por escrito e irritar metade dos professores.
– Sentimentalismo Sofia? – Perguntou para si mesma com desgosto seguindo para a estante de livros indicada pela freira responsável pela biblioteca.
Após olhar alguns títulos, acabou escolhendo dois e outro exemplar de ‘Dom Casmurro’ com mais informações sobre a obra abrindo-o para folheá-lo.
– Cigana obliqua e dissimulada.
– O quê? – Sobressaltou-se Sofia com a voz as suas costas. Endireitando os ombros, ela fitou Serguei impaciente – O que você quer agora? Não, não diga... Com certeza lembrou-se de mais algum defeito meu e veio aqui compartilhá-lo comigo, porque não tem graça se eu não souber não é? – Ironizou com raiva – Sabia que esse seu comportamento pode ser interpretado como assedio? Talvez eu deva exigir uma medida restritiva te impedido de ficar a menos de 500 metros de mim, porque não é possível! Para todo o lugar que eu vou, lá está você! Por favor, me diz que não levou a sério aquela idiotice de eu ser apaixonada por você!
– Você sabe onde estamos? – Perguntou ele com um sorriso presunçoso – Faz ideia do que uma pessoa quer quando vem à biblioteca? – Sofia se calou quando Serguei estendeu a mão à altura do seu rosto e puxou um livro de capa vermelha – Pois é, nem sempre tudo tem a ver com você! – Completou batendo na capa do livro antes de seguir pelo corredor.
Sofia sentiu a bochechas corarem com vergonha ou raiva, ou os dois sentimentos juntos. Ela abriu a boca e a fechou algumas vezes sem ter o que dizer. E para quem diria? Já que estava sozinha novamente, pensou. Querendo dar o fora dali o mais depressa possível, foi até a mesa onde tinha que anotar o nome dos livros que havia pegado e o seu, o que era norma da escola. Para seu azar, Serguei também estava lá com mais dois livros. Ela o olhou de esguelha quando parou ao seu lado, ainda corada, sem dizer nada.
– Anote seu nome aqui, por favor! – Pediu a freira para Serguei que se inclinou sobre a mesa e anotou o nome num grande caderno – Obrigada. Agora você! – Disse para Sofia que fez o mesmo sentindo o olhar de Serguei sobre si.
Por que ele não ia embora de uma vez? Perguntou-se ao pegar os livros desajeitadamente e quase correr para fora do local. Quando se afastou um pouco, um dos livros acabou caindo no seu pé.
– Merda! – Esbravejou com os lábios comprimidos.
– Ele tem mais medo de você do que você dele! – Brincou Serguei vindo logo atrás dela. Sofia o fitou odiando a capacidade dele em ser simpático quando queria. Como assim Serguei simpático? “Droga, Sofia você está muito sentimental hoje!” Falou mentalmente enquanto se abaixava para pegar o livro. Serguei fez o mesmo e suas mãos quase se tocaram, mas Sofia recolheu a sua enquanto ele apanhou o objeto do chão.
– Ele não vai te morder se você o segurar com força.
– Muito engraçado, nossa, sério! – Disse azeda quando ele lhe devolveu o maldito livro.
– Foi você quem disse que eu tinha talento para comediante, lembra?
– Serguei, eu não me lembro de um décimo das besteiras que eu já falei.
– Verdade? Então por que se lembra de ter dito que era apaixonada por mim? Ou aquilo não foi besteira? – Perguntou com uma das sobrancelhas arqueadas. Sofia sentiu vontade de estapeá-lo, mas não correria o risco de tocá-lo como no dia anterior – Sempre sarcástico... Por falar nisso, do que você me chamou lá biblioteca? Obtusa e dissimulada?
– Obliqua e dissimulada! – Corrigiu com um sorriso – E eu não estava falando de você, e sim da Capitu. É ‘Dom Casmurro’ esse livro não é? – Ele apontou para o livro na mão dela. Sofia acenou que sim – Então, é assim que ele a chama algumas vezes: cigana obliqua e dissimulada... Me admira muito que você o esteja lendo.
– Tá querendo dizer o que com isso? Que por acaso eu sou analfabeta?!
– Não! – Negou prontamente rindo da raiva dela – É que você não parece o tipo de garota que gosta de romances clássicos.
– Agora tá dizendo que eu sou ‘cabeça oca’?
– Não, mas poderia te chamar de encrenqueira! Quanta disposição para interpretar erroneamente o que eu digo! – Falou exasperado. Sofia o olhou confusa para em seguida acabar rindo. Serguei gostava do som que ela emitia quando ria espontaneamente. Era... Encantador.
– Ok, eu sou um ‘pé no saco’! Mais alguma coisa para me dizer?
– Você é teimosa!
– Mais?
– Violenta!
– E?
– Me tira do sério!
– Uau! Não imaginei que mexia tanto com você! Bom saber, Serguei, que posso te manipular quando bem entender!
Sofia franziu o cenho ao notar a expressão fechada de Serguei, concluindo por fim que ele não havia entendido a sua tentativa pífia de fazer uma piada. Ótimo, manipuladora também deveria ser mais
um dos ‘adjetivos’ que ele lhe atribuía e que agora estava escrito em sua lista que devia ter o titulo: ‘Coisas para se odiar em Sofia’. Ela e sua maldita mania de dizer tudo o que lhe vinha à cabeça, pensou, embora tudo não passasse de uma fracassada brincadeira.
– Não precisa me olhar assim! – Disse com raiva – Eu estava brincando, Ok? Não é como se eu fosse usar você para algum plano maligno de dominação do mundo! – Sofia guardou os livros na bolsa e apertou as alças nas mãos – Você deveria relaxar e não levar tudo tão a sério.
– Eu não faço isso!
– Não? – Indagou cínica – Então quer dizer que sou eu quem te deixa tenso?
– Talvez... – Serguei afirmou a fitando estranho. Sofia sentiu a pele arrepiar-se e as palavras lhe fugirem – Você é tão irritante que mal sabe responder uma pergunta sem fazer disso um tormento! – Sofia prendeu a respiração quando ele lhe tocou o queixo, erguendo-lhe a face – Muito, muito irritante! – Murmurou fitando seus lábios.
– E por que você ainda tá aqui? É masoquista por acaso? – Questionou impetuosa afastando-se do toque dele. Serguei mirou Sofia com o rosto corado e os olhos o fuzilando de raiva, e riu.
– Certo... Por que sempre acabamos assim?
– Assim como?
– Eu não sei... Assim! – Ele gesticulou com a mão apontando para os dois – Será que é tão difícil para nós convivermos em harmonia?
– Falou aquele que sempre me recebe com quatro pedras na mão!
– E você é sempre tão amorosa, não é? Um poço de delicadeza! – Falou exasperado.
– Você não me engana com esse papo de ‘vamos ser amiguinhos’! Ela te falou sobre a discussão não foi? É por isso que você está sendo deliberadamente simpático comigo?
– Ela?
– A Júlia! – Sofia comprimiu os lábios em desgosto recordando-se do tapa que havia tomado. De certa forma, ela já esperava que Serguei ou Anita viessem ao seu encontro em busca de explicações que seriam interpretadas como mentiras e a acusariam de ser um monstro: Óbvio! – A sua babá me procurou para me afastar de você e da Anita. Acabamos nos agredindo e sabe de uma coisa? Me arrependo de não ter batido mais nela ao invés de só revidar o tapa!
– Vocês brigaram? – Serguei forçou uma expressão de surpresa não querendo demonstrar que já sabia do ocorrido. O que o surpreendia não era saber da briga, mas ela ter admitido isso tão facilmente. Ele não esperou que Sofia fosse tão sincera e acabasse com a sua intenção de abordá-la sobre o assunto.
– Você não sabia? – Perguntou incerta brincando com uma das mechas do cabelo. Estranhamente, ela sentia-se envergonhada por sua atitude infantil do dia anterior. Júlia não passava de uma ‘mosca morta’ e não merecia o mínimo da sua atenção, muito menos Serguei merecia que ela tivesse peso na consciência por ter se defendido do ataque da outra garota – Pensei que ela fosse espalhar aos quatro ventos o quanto eu sou má! E sabe, só me arrependo de não ter batido mais nela.
– Eu acho que seria esperar demais de você.
– É melhor esquecermos esse assunto. Eu tenho muitas coisas com as quais me preocupar para me defender por algo que já passou. Pode dizer a sua protetora que estou pouco me importando com ela pensa ou com o que ela faça, OK? Só a avise para não cruzar o meu caminho outra vez, caso contrário, terei imenso prazer em acabar com ela!
“Se alguém não acabar com você antes...” Pensou Serguei por um instante sombrio. O que havia nela que lhe despertava as piores emoções e ideias? Talvez porque ela era a única pessoa tão irritantemente detestável que o fazia querer tê-la por perto. E se... Ideias loucas surgem no calor do momento, não é? E por um segundo Serguei teve uma. E se ele devesse tê-la ainda mais perto? Não é o que se recomenda sobre os inimigos para assim antecedê-los no que planejam? Pois bem, ele deveria fazer isso. Ficar perto de Sofia, descobrir o que aqueles olhos verdes pretendiam. Talvez, e só talvez, ele devesse ser um pouco igual a ela e proteger Anita e Júlia.
– Recado dado! O que vamos fazer agora?
– Vamos? Você e eu? – Sofia questionou com a voz aguda.
O que estava acontecendo com ela hoje que não conseguia manter-se indiferente com ele?
– X –
– Como andam os preparativos para a festa surpresa da Júlia?
– Bem. A mamãe prometeu fazer o bolo, eu vou me encarregar da decoração e o Serguei também vai me ajudar.
– Sei... — Ben remexeu-se na cadeira.
Ben fechou a cara por causa da menção do ruivo. Sua paciência com o ‘melhor amigo’ de Anita estava no limite, principalmente depois da forma como ele interrompeu sua conversa com Sofia como se tivesse todo o direito de fazê-lo. Ben não gostou nada do constrangimento que a loira transpareceu quando Serguei chegou como se houvesse algo... Ele estava ficando maluco e tudo por causa dela.
– Príncipe, por favor, eu já falei que ele é só meu amigo. O que aconteceu, o beijo, não mudam nada. É você que eu amo! – Discursou a ‘Princesa’ interpretando errado o motivo do incomodo do namorado.
Mal sabia ela que seu pequeno interlúdio romântico com Serguei não era exatamente em que Benjamim pensava, mas si em Sofia. Para disfarçar, o garoto sorriu torto e deu um selinho em Anita. Era um gesto automático, uma forma de interromper um assunto sobre o qual ele sabia que não queria falar e que acabaria magoando a sua namorada.
– Só quero que você saiba que pode contar comigo.
– Valeu, Príncipe! Eu te amo. – Anita deu outro selinho nele.
– Eu também. – Murmurou contra os lábios dela.
Era patético e irracional, mas ela precisava reafirmar a todo o momento que era ela quem ele amava, que ela era o melhor para Benjamim. Mas por algum motivo, por mais que tentasse, não conseguia sentir sinceridade nas palavras e ações dele. Seria isso o seu ‘feliz para sempre’?
– X –
– Vamos? Você e eu?
– Por que não? Eu tenho aula vaga agora, e pelo o que sei o primeiro ano está sem professor. Por que não fazer alguma coisa juntos? Não quer saber mais sobre ‘Dom casmurro’? Aliás, você não disse por que o está lendo. – Lembrou-a com grande gentileza.
Sofia piscou tentando entender aquela súbita mudança de clima entre eles. Serguei a tratava até como se ela fosse sua... Amiga. Um sinal de alerta soou na sua cabeça a fazendo retesar o corpo.
– É para um trabalho de literatura... – Começou insegura – Eu tenho que fazer uma resenha critica, mas não sei bem como começar.
– Talvez eu possa ajudar.
– Você? Serguei me diz uma coisa: ‘cê’ tá se sentindo bem?
– Qual o problema em eu querer te ajudar, Sofia?
– Sei lá! Qual o problema de usar um vestido da coleção passada? Não sei se confio nessa sua ‘bondade’ repentina.
– Eu quem deveria não confiar em você e não o contrário! – Exclamou Serguei irritado pela desconfiança fundada dela. Droga, será que ele era tão ruim assim em mentir? – Eu já li esse livro umas dez vezes e talvez você não saiba, mas minhas notas em português são excelentes. Mas se você está recusando minha oferta... – Ele deu de ombros, desinteressado.
– Você está falando sério?
– Por que não estaria?
“Por quê?” Repetiu ela em pensamento. Aquela era a pergunta de um milhão de dólares e por mais inocente que fosse a oferta dele, Sofia era cética demais para acreditar em milagres como Serguei sendo legal com ela, ELA. Ele estava planejando algo, a garota podia sentir e por mais que quisesse dispensá-lo, a curiosidade falou mais alto. Ela não era do tipo que fugia de um desafio, e não o deixaria pensar que ele a perturbava de alguma forma.
– Ajuda aceita! – Disse com sorriso desafiador. O ruivo riu do falso entusiasmo dela e ofereceu o braço no qual ela enganchou o seu e saíram caminhando em direção à ala exterior do colégio.
Quem os visse e que conhecesse a nada amigável relação dos dois, estranharia muito. Mas Sofia não se importou. Não era ela mesmo que dizia que não ligava para a opinião dos outros?
E entre esses outros, um mais que todos, não merecia qualquer consideração sua. Ainda que ao chegar à área de alimentação tenha sido alvo do olhar fulminante dele e sua respiração tenha ficado presa, Benjamim não a afetava como antes. Dar-se conta disso causou certa aflição nela que encontrou no olhar de Serguei o apoio que precisava naquele momento. Só restou-lhe sorrir mordaz em resposta a Ben, não tão princesa, e sim bem mais sedutora, porque afinal era o que ela era.
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