Era Uma Outra Vez...
38 Por que você me beijou?
Notas iniciais
– Não foi uma cena agradável de ver.
– Não.
– Se bem que ela pediu por aquilo.
– Talvez.
Serguei vagou o olhar pela sala já vazia. A festa não tinha acabado da maneira como ele havia imaginado nem a noite foi tão feliz quanto ele esperava. Vera estava no quarto, em estado de choque sendo preciso tomar um calmante para controlar as emoções. Anita e Ben... Bem, eles estavam na mesma dúvida que rodeou o namoro dos dois desde o inicio. Os outros com suas próprias opiniões formadas sobre o que aconteceu na família. Mas quem o preocupava mesmo era Sofia e o seu silêncio. Ela havia se trancado no quarto após a briga com a mãe e mesmo Flaviana tendo batido insistentemente para que ela abrisse a porta, não houve resposta.
Ele tinha presenciado cada detalhe e por mais duras que as palvras dela tivessem sido, lhe doeu vê-la acusada e julgada daquela forma. Ela lhe pareceu tão indefesa, tão sozinha... E agora ninguém sabia como ela estava, nem mesmo a melhor amiga.
Algo estava errado. Muito errado.
– Você viu o vídeo?
– Recebi o link. Tem ideia de quem filmou?
– Não. Pensei que estávamos sozinhas, mas pelo visto havia mais alguém.
Que alguém? Quis saber o ruivo tentando controlar a raiva. A pessoa que havia postado aquele vídeo sabia exatamente o que estava fazendo e qual o objetivo: atingir Sofia. Quem, ele não sabia, mas se empenharia em descobrir.
– X –
– Sofia... Por favor, abre a porta. – Pediu mais uma vez Flaviana, suplicante.
O silêncio de Sofia a estava matando de preocupação e apesar de não ter estado no momento do que aconteceu entre Sofia e a mãe, sentia que havia sido muito sério e que sua amiga estava destruída. Não era característica de Sofia se esconder dos problemas, por isso estava tão aflita em busca de um sinal de vida dela.
– Eu prometo te ajudar a se vingar da Anita e depois te levo para uma viagem pelo mundo e você nem vai lembrar dessa noite. Prometo matar quem postou aquele vídeo seu e da Júlia brigando, prometo que vai ficar tudo bem e que nada do que aconteceu importa... Só me deixa saber que você tá bem.
Sofia escutou a mais um apelo emocionado da amiga sem emitir nenhuma resposta. Estava sentada no chão, encostada contra a cama, os braços entrelaçando as pernas com o rosto escondido pelos cabelos loiros que caiam como um manto. Sentia-se vazia como em nenhuma outra ocasião. Fugia-lhe qualquer esperança de que poderia consertar o que havia se quebrado hoje.
Não queria ver ou falar com ninguém. Ela queria somente ficar ali o maior tempo possível. Tempo suficiente para esquecer as palavras da mãe, sufocar a dor que estava sentindo e apagar qualquer lembrança de felicidade que já existiu entre ela e o meio irmão postiço. Só então ela abriria a porta.
– Eu te amo... Fica bem. – O som do salto de Flaviana se afastado pelo corredor fez Sofia sentir-se ainda mais sozinha.
Aquela era a pior noite da sua vida. Ben havia a decepcionado mais do que em qualquer outro momento, deixando-a só para enfrentar a mãe, Anita e todos os outros. Anita arrasou qualquer esperança que a mãe tinha nela. Monstro... Era como Vera a via agora.
Monstro.
Era como se sentia.
– X –
Estava escuro, mas a luz da rua que entrava pela vidraça permitiu a Serguei ver o movimento de alguém descendo as escadas. Os passos eram leves, sem fazer barulho, mas ele identificou de quem era a figura que seguia em direção a porta da sala. Esperou até ouvir a maçaneta girar, uma fresta ser aberta e depois a porta ser novamente fechada. Levantou do sofá onde havia improvisado uma cama para dormir e seguiu em direção a saída. Abriu a porta e a viu, parada a meio caminho do portão já completamente encharcada pela chuva que caía. Ela parecia não ter notado a sua presença, permanecendo no mesmo lugar de costas para Serguei.
A sensação de mais cedo de que algo estava errado se intensificou.
E percorrendo o olhar pelo corpo de Sofia, ele viu que na altura dos pulsos dela a água que caía assumia um tom mais escuro, vermelho... Sangue.
– Sofia. – Murmurou com a garganta se fechando pelo horror.
Serguei acordou sobressaltado pelo sonho. Foi tão nítido a imagem dela que lhe era difícil respirar e manter o controle dos batimentos do coração. Angustiado, sentou no sofá e percorreu o olhar pela sala, cozinha a procura de algo.
Nada.
Tudo estava exatamente igual a quando deitou para dormir. Pegou o relógio, eram quase 02h30min da madrugada e pelo que parecia todos na casa dormiam o sono dos justos. Levantou sem saber bem o que fazer, andou alguns passos e então tomou a decisão de fazer o que desde cedo naquela noite teve vontade.
– X –
Era tarde e por mais exausta que estivesse, Sofia permanecia na mesma posição que assumiu quando se trancou no quarto. Estava frio, no entanto isso não a incomodava. Nem mesmo a dor que sentia no corpo por estar há tanto tempo no chão. Nada parecia capaz de trazê-la de volta a realidade ou fazê-la reagir.
De repente, ela notou o brilho da corrente que estava parcialmente para fora de sua bolsa. Pela primeira vez, ela levantou-se e caminhou até a mesa onde se encontrava a bolsa e o objeto. Cegamente, o pegou na mão. Ainda era a mesma sensação fria de antes de uma lembrança sem vida. Abriu o medalhão e ficou observando a foto por alguns instantes. Ainda era apenas uma foto. Nenhum nome, nenhum perdão... Seria sempre assim? Perguntou-se com lágrimas nos olhos. Lágrimas que não caíram e agora vinham à tona.
Nunca existiria amor o suficiente para fazer as pessoas que importavam ficarem com ela?
Pensou na mãe, em Pedro, em Flaviana... Por que ela sempre teria que destruir o que mais amava?
Caminhou até a porta, colocando a cabeça contra a madeira. Destrancou a fechadura a espera que alguém entrasse. Desejou que uma pessoa entrasse e lhe dissesse que ficaria tudo bem, e mais do que isso, desejou poder acreditar de novo. Porém, não veio ninguém. Deixou a porta entreaberta e foi para cama, deitando de costas para a entrada. Apertou o travesseiro com força e fez a única coisa que podia naquele momento: chorou.
– X –
POV Serguei ON
Ouvi o choro abafado a alguns passos do quarto. A porta estava aberta. Parei e pensei se seria uma boa ideia entrar ali. O que eu deveria fazer? O que eu deveria dizer? Não sei, só que o som do choro dela era de cortar o coração. Sofia precisava de ajuda. Precisava que alguém a confortasse, por mais insano que isso possa parecer.
Entrei devagar e a vi sobre a cama encolhida. Ela não me viu e eu soube que aquela era a minha ultima chance de voltar atrás e sair. E deixá-la sozinha?
POV Serguei OFF
Serguei fechou a porta, foi até a cama e sentou-se sem dizer nada. Sofia parou de chorar e sentou surpresa. Ela o olhou, o rosto vermelho, os olhos vazios. Ela havia pedido por alguém e agora ele estava ali. Por quê? Não se importava, apenas agradecia. Sem nenhuma palavra, ela o abraçou forte como se tivesse medo que ele não fosse real.
– Não me abandona. – Sussurrou emocionada. – Por favor, eu não quero ficar sozinha.
– Shhh... Eu não vou a lugar algum. – Com imensa gentileza, ele passou a por seus cabelos como um pai que consola a filha pequena.
Ficaram assim um bom tempo, sem ser necessário mais nenhuma palavra. Serguei sentia crescer dentro do peito uma enorme paz por saber que ela estava bem. Sofia, por sua vez, estava grata por ter alguém para ajudá-la a enfrentar aquela noite. Sem medo, ela acabou dormindo ainda abraçada à ele. Com cuidado, ele a deitou na cama. Ela estava bem e ele deveria voltar para o sofá e dormir, mas não conseguia resistir a vontade de observá-la dormir um pouco.
Serguei deitou na cama ficando com o rosto de frente ao dela. Apesar da pouca luz que era fornecida pelo abajur, viu uma mancha vermelha que já escurecia próximo ao olho esquerdo. Sentiu raiva e pena, e desejou protegê-la. Era errado se ligar tanto assim a Sofia, mas a verdade é que já era tarde demais para voltar atrás. Desde que a beijou pela primeira vez, ele estava perdido.
Acabou dormindo.
POV Sofia ON
Acordei com uma dor no rosto e com lembranças vagas sobre ter brigado com minha mãe. Estava escuro, apenas a luz do abajur iluminava um pouco o quarto. Então, tudo voltou: Ben, Anita, o desprezo da minha mãe... e Serguei. E me dei conta de que não havia sido um sonho ele ter estado no meu quarto, porque nesse exato momento ele dormia bem à vontade na minha cama com uma das pernas sobre as minhas e um braço me rodeando a cintura.
Eu fique observando por alguns segundos, sem entender como e porque ele estava ali. E por mais estranho que fosse, não quis correr o risco de acordá-lo. Eu permaneci quietinha, meio receosa, meio... Sei lá, não sei como explicar. Apenas não quis entender porque me sentia tão bem ou tão confusa e um pouco apavorada também. Estava sendo tão difícil encarar tudo que o aconteceu e sem ajuda. Será que seria tão ruim assim ser um pouco cuidada por alguém? Até por um ex inimigo? Só por hoje, me permitiria baixar a guarda.
POV Sofia OFF
Já era quase manhã quando Serguei acordou. Ele e Sofia se encontravam numa posição bastante intima, os corpos quase que completamente entrelaçados. Mirou o rosto adormecido, guardando cada detalhe. Ela era linda. Admitir isso já não era tão difícil. O formato do rosto, o nariz arrebitado e arrogante, a boca... se deteve na boca bem desenhada. Sabia como era o sabor daquela boca. Assim como também sabia que as palavras ditas por ela poderiam ser muito cruéis. Sofia era ambígua. Não encontrou nenhuma outra definição para ela, por tudo o que sabia e pelo que passou a sentir. Ele tinha noção do que significa estar ali com ela. Ele havia se arriscado mais do que o aconselhável e agora só lhe restava sucumbir.
Aproximou os próprios lábios e depositou um selinho nos lábios dela. Sofia abriu os olhos, rápido, surpresa com o gesto, mas não se afastou. Piscou algumas vezes.
– Oi. – Murmurou Sofia olhando nos olhos de Serguei.
– Oi. – Respondeu sem desviar o olhar.
– Isso é um sonho?
– Não... Torço pra que não.
Ela sorriu irônica.
– Como parou aqui?
– Não sei... Quer dizer, fiquei preocupado.
– Comigo?
– Sim.
– E por isso veio me ver? – Indagou sem esconder a descrença.
– É.
– E dormiu aqui?
– Mais ou menos isso.
Ela ponderou as respostas. No entanto havia mais uma pergunta.
– Por que você me beijou?
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