Era Uma Outra Vez...
79 Pai?
Notas iniciais
— Você tem mesmo que ir embora?
Flaviana calçou o sapato antes de arriscar olhar Sidney por cima do ombro. O que deveria ter sido uma conversa rápida, acabou se estendendo mais do que o esperado e julgar pelo estado de nudez do rapaz ela teve mais que um bom motivo para ficar. Nada de sexo ela havia dito? Piada.
Quando ele a beijou, Flaviana praticamente se jogou nos braços do rapaz sem se importar que minutos antes ela mesma tinha tomado a decisão de manter as mãos dele longe do seu corpo. Bem, em sua defesa, ninguém falou nada sobre as mãos dela sobre o corpo de Sidney.
— Sim, eu preciso. Na verdade, já estou bem atrasada.
Sidney estava jogado displicentemente sobre os travesseiros parecendo quase obsceno ao sorrir de forma convidativa. Não queria que ela partisse ainda. Pelo menos, não até aliviar um pouco do desejo que ainda estava sentindo. Quando Flaviana se aproximou para pegar a blusa, ele a puxou pelo braço fazendo-a colidir contra ele.
— Tem certeza? Eu conheço maneiras divertidas de como podemos passar a noite. — Sussurrou o rapaz próximo ao dela ouvido fazendo Flaviana se contorcer em resposta. — Bem mais interessante do que voltar correndo para casa e dormir sozinha, não acha?
Sim, ele era bom Flaviana foi obrigada a admitir, tendo sua resistência testada por todos os sentidos.
— Não é que eu não esteja disposta... — Argumentou, empurrando Sideny para o lado e levantando-se em seguida. — Mas não posso dormir fora de casa, lembra?
Ele podia ser uma visão e tanto e a promessa contida nos olhos azuis ser capaz de tirar seu fôlego, mas ela precisava manter o foco. Não que estivesse com pressa de deixá-lo, longe disso, só que não poderia ficar muito mais tempo ali sem levantar as suspeitas de Rosana sobre a razão de seu "sumiço". Passar o dia fora já seria o suficiente para algumas explicações.
— Claro, a mãe maluca... — Resmungou Sidney se jogando de braços abertos na cama. Ele tinha visto a mulher apenas uma vez, mas já sentia o grande pé no saco que ela seria dali pra frente. — Tô sabendo.
— Ei, eu te falei que precisamos ter cuidado por enquanto. Eu vou pensar numa forma da minha mãe não ser um problema, ok? Mas não posso me arriscar... ela ainda não superou o nosso último encontro.
— Ela ficou furiosa.
— Sim. — Concordou sentando-se ao lado dele. — Eu nunca a vi se alterar daquele jeito. Realmente achei que estava tudo perdido.
— Ela não foi muito com a minha cara... — Ele riu debochado ao lembrar-se da fúria da mulher. — Você vai ficar bem lá?
— Não se preocupe, eu posso sobreviver... e o lado bom de tudo isso é que o fato de você irritá-la tanto torna as coisas bem mais atraentes para mim. Logo, tenho mais um motivo para pensar em um bom plano.
— Quer dizer que você está me usando pra irritar a sua mãe?
— O que você acha? — Flaviana debochou antes de beijar a ruga de preocupação que se formou na testa de Sidney. Ele a abraçou pela cintura mantendo-a junto ao corpo. — É horrível dizer isso, mas ter a minha mãe como inimiga é a ultima coisa que eu desejo.
— Então?
— Eu gosto de você... de verdade. E digamos que agora que eu entendo o porquê de alguns ogros terem seus finais felizes, eu não vou desistir. Só precisamos ter um pouco de paciência.
— Para derrotar o dragão?
— Sim, algo do tipo.
O riso de Flaviana foi silenciado quando Sidney tomou a sua boca em um beijo apaixonado. Ele até poderia deixá-la ir dessa vez, mas aproveitaria cada segundo até o momento em que teriam que se separar.
— X —
Todo seu corpo doía e apenas respirar era difícil. Tentou mover -se, mas uma dor lancinante e o deteve. Então, como num feche imagens do carro retorcido voltaram a sua mente e o grito de alguém se tornando muito distante. A visão de Marcelo, inerte, ao seu lado coberto de sangue tão vívida que jamais poderia esquecer.
— Não se mexa... o pior já passou. — A voz embargada da mãe em meio ao bip dos aparelhos o trouxe para a realidade. — Você vai se recuperar, eu prometo.
— Dói... — As lágrimas se acumularam em seu olhos caindo em seguida. A dor física não era nada perto do que estava sentindo agora. — Eu... não pude desviar.
— Shhh... tudo bem. Não foi sua culpa.
— O Marcelo... — João precisava da confirmação, mesmo que já soubesse.
Sua mãe engoliu em seco antes de desviar o olhar.
— Sinto muito.
Ele também sentia, tanto que prefiria não ter sobrevivido a ter que conviver com a culpa pela morte do amigo. Apenas pensar que poderia ser Raissa no carro fazia seu peito se contrair. Como ela poderia perdoá-lo quando ele não era capaz? Onde ela estava agora?
— Eu sinto muito... me perdoe, Marcelo.
A angústia de João foi vencida pela sedação e ele caiu novamente em um sono profundo. Quando acordou novamente, horas depois, sua mãe não estava mais no quarto. Em seu lugar se encontrava Raul, fulminando-o com todo o seu ódio.
— Eu acabei de enterrar meu filho... meu menino está morto por sua causa! — A voz grave soava acusatória, mas também despedaçada. Era a primeira vez que João o via daquela forma, antes sempre superior. Raul morreria antes de admitir, mas estava arrasado como ele. — Desde o início, eu sabia que você significava problemas! Primeiro a Raissa... Então, o meu filho! Você o matou!
— Não... eu sinto muito... — O rapaz fechou os olhos quando a dor se tornou insuportável. — Foi um acidente... sinto muito.
— Não quero suas desculpas! Nada do que você faça ou diga vai reparar o mal que fez à minha família! — Condenou-o Raul tomado pela ira.
Não podia sequer suportar a presença do rapaz, mas precisava vê-lo uma última vez sabendo que o afastaria da vida de Raíssa para sempre. A vingança de João nunca conhecer o próprio filho seria a sua reparação pela perda de Marcelo. Lançando um último olhar, ele se encaminhou para a porta prestes a sair. Odiava João Luis como nunca odiou ninguém na vida e se preciso fosse, moveria montanhas, mas o faria pagar pela vida do seu filho morto.
— Raissa... — Raul parou ao ouvir o nome da filha emitido de maneira chorosa. — Onde... está a Raíssa?
— Está longe e à salvo do responsável pela morte do irmão dela. — Voltando-se, o homem encarou o rapaz com desprezo. — Acreditou mesmo que minha filha o perdoaria?
— Ela não... acredita em mim?
— A Raissa não está aqui agora, está?
— Eu não vou deixar você afastá-la de mim, não vou deixar!
— Eu não não preciso. Ela mesma não quer ter nenhum contato com você... assassino.
— É mentira... — Desesperado, João tentou fazer as pernas, mas ela não se mexeram um centímetro. Então, pela primeira vez percebeu que não sentia a parte inferior do corpo. — Raissa... — Não podia ser verdade, precisava encontrá-la e explicar que não teve culpa. — Ele está errado, eu não sou um assassino... não sou!
— Lembre-se João, nenhuma dor que eu causar à você será suficiente para reparar o que me fez!
Com essa ameaça, Raul foi embora deixando um João completamente transtornado para trás. Apesar da dor e da limitação dos movimentos, João ergueu o tronco, mas ainda assim suas pernas não responderam ao comando para moverem-se. Num acesso de ira, começou a socá-las, no entanto, com exceção de alguns pontos abertos não sentiu nada.
— Raul! Seu Desgraçado!
— X —
— Não consegue dormir?
Ele surgiu, como sempre, do nada e parou ao seu lado. Estranhamente, isso já estava se tornando comum, considerou Anita nenhum pouco surpresa pela presença do rapaz. O que poderia dizer? Realmente não conseguia dormir, mas não pelas preocupações, mas sim porque seus hormônios estavam a bagunça e vivia constantemente enjoada. A presença de Sofia lhe deu a desculpa que precisava para não ter que descer para jantar e enfrentar as suspeitas de todos quando a comida fosse devolvida direto do estômago.
— Estou enjoada. — Respondeu de forma seca, arriscando um gole da cabeça de leite e mel que preparou. — Imagino que saiba o porquê.
— Mulheres grávidas sempre são tão gentis? — Debochou Antônio, sentando-se diante de Anita na mesa. — Você não parece tão ruim.
— Obrigada? — A garota riu da observação, pois embora se sentiasse realmente péssima e irritada, aquilo soava quase como um elogio. Espero parecer ainda melhor quando conseguir fazer uma refeição descente.
— Difícil assim? — Indagou, curioso.
— Um pouco... — A garota deu de ombros, bebendo mais um pouco de leite. — Às vezes, eu quase esqueço que estou nessa situação. Mas a maior parte do tempo, eu imagino como posso ser mãe em meio à tantos problemas.
— Então, você vai ficar com o bebê?
— Claro! Que pergunta... — Anita encarou Antônio tentando entender a razão daquele questionamento, no entanto, tudo que viu foi uma rápida sombra passar pelos olhos dele. — Eu sou responsável por essa vida existir.
— Não apenas você.
— Bom, prefiro não falar sobre isso... se é que me entende.
— Quer dizer que você já se deu conta de que meu irmão não vai ser um grande apoio.
Antônio viu Anita corar de constrangimento sendo que não tinha do que se envergonhar. A gravidez poderia ter sido evitada, mas ela não era a única responsável pelo fato. Benjamim também deveria fazer cargo do assunto, mas a reação da garota indicava que isso era algo que ela não esperava do seu irmão.
— Eu sei que estou pagando pela minha estupidez... — Ela suspirou fitando a caneca entre as mãos. — Eu pensei que ter me apaixonado por alguém que sempre pegou mais do que deu seria o limite, mas acabei com essa surpresa. Apesar de tudo, não me ressinto do bebê... pretendo fazer o melhor por ele ou ela.
As palavras sinceras despertaram em Antônio o mesmo sentimento de simpatia das outras vezes. Olhando Anita nesse exato momento, ele já não a via mais como a tola apaixonada manipulada por Ben, mas alguém madura o suficiente para enfrentar seus problemas com coragem. O único covarde naquela história era Benjamim.
— Espero que você se saia bem nesse propósito.
— Obrigada. — Antia fitou o rapaz nos olhos e sorriu. — Você é diferente do que eu pensava.
E lá estava uma informação com a qual ele não podia se sentir confortável, embora estivesse. Anita podia ser um pouco menos tonta do que pensou, mas era idiota o suficiente para ver algo de bom nele. Não existia nada bom em Antônio.
— Não me agradeça. E também não crie ilusões quanto a quem eu sou. — Ele levantou-se de onde estava e a encarou. Alguns limites precisavam ser relembrar os. — A única razão pela qual mantive seu segredo é porque sei que no momento em que o Ben descobrir sobre a gravidez também vai ser a hora dele cair.
— É só isso que te importa?
— Sim... estou apenas me divertindo com a expectativa da revanche.
— Entendo.
Anita também se levantou e apesar das palavras duras, não se sentiu diretamente atacada. Ela foi um meio para Benjamim é era novamente um meio para o irmão dele, ambos preocupados com as próprias motivações egoístas. Bem, ela não seria usada novamente por quem quer que fosse.
— Não se preocupe com possíveis ilusões... seu irmão tirou a minha capacidade de acreditar no lado bom das pessoas.
Então, sem mais nada a dizer a garota se retirou deixando Antônio em silêncio.
— X —
Além de alguns móveis, fotos, discos antigos e muito silêncio, o apartamento de João pareceu terrivelmente solitário para Sofia, ocupada em explorar o lugar. Não era algo educado a se fazer, mas com o celular descarregado e tendo que bancar a babá do professor, ela precisava se distrair de alguma forma.
Passeando os dedos por alguns porta-retratos, ela segurou um que continha a foto de João, alguns anos mais jovem, ao lado de uma mulher bonita que ela nunca tinha visto antes. Parecia ser o registro de um momento importante, mas o que chamou a sua atenção foi a ausência de emoção no rosto do rapaz. E pelo pouco que conhecia João, esse era um tipo de intimidade que ele odiaria compartilhar ponderou ao retornar o objeto ao seu devido lugar.
Olhando para a figura adormecida, Sofia franziu a testa ao imaginar todo mistério que envolvia o homem e a razão pela qual os caminhos de ambos coincidirem. Ela não poderia dizer que simpatizava com ele, mas havia algo sobre João que Sofia não conseguia explicar e que a tocava. Talvez estivesse sentimental demais, concluiu com uma careta, caminhando em direção ao sofá. Como se sentisse a sua presença, João se remexeu enquanto pronunciava algumas coisas incompreensíveis.
— Eu sinto muito... me perdoe, Marcelo.
Em meio ao que pareceu um pesadelo, João tornou-se mais agitado. Sofia se ajoelhou ao lado do homem e o segurou pelos ombros tentando contê-lo.
— Eu não vou deixar você afastá-la de mim!
— João, fica calmo... você precisa acordar. — Pediu a garota, apenas agindo por instinto. — Está tudo bem!
— Ele está errado, eu não sou um assassino, não sou!
Num movimento involuntário, João empurrou Sofia para o lado. Chocada com o acesso de raiva, ela se afastou enquanto o homem voltava à consciência. Confuso, João levou alguns segundos até que seus pensamentos entrassem em ordem e ele constatasse que estava em sua casa, longe do quarto de hospital de anos atrás. Então, ele viu Sofia há uma curta distância, o fitando com receio no olhar.
— O que aconteceu?
— Você teve um pesadelo... — Sussurrou ela levantando-se do chão. — Você está bem?
Ele estava? Pondo a cabeça entre as mãos apoiando os braços nas pernas. Por algum motivo, o mundo ao seu redor girava e como se já não fosse ruim o suficiente, Sofia estava ao seu lado presenciado um dos seus momentos de fraqueza.
— Como você chegou aqui? — Indagou ele.
— A pergunta certa é como você chegou aqui, não acha?
Apesar de nervosa, a loira conseguiu arriscar um sorriso. Não estava com medo de João, pois sabia que ele não representava um perigo a sua integridade física. Estava preocupada com o que descobriu sobre ele e como a culpa ainda parecia atormentá-lo mesmo em sonho. Ele estava tão chocado quanto ela por toda situação.
— Não lembro de muita. Eu machuquei você
Involuntariamente, João contraiu a mandíbula pensando que poderia ter machilucado Sofia. Não era a primeira vez que aquilo acontecia... durante seu casamento, muitas pedadelos como aquele foram motivos de discussão com Carmem.
— Você não me machucou, não se preocupe.
Ela parecia muito com Raissa, pensou um pouco desorientado. João, que não tinha o hábito de beber, se viu afetado pelo beijo e as lembranças que não queria ter. Beber essa noite foi sua tentativa patética de fugir do que sentia e sua incapacidade de superar. Mas então, lá estava Sofia há alguns metros dele dentro de um carro. Só queria se aproximar, pedir perdão.
— A julgar pelo seu estado, imagino que não lembre mesmo. — Disse ela, com simpatia. — Eu achei melhor te trazer em casa, você sabe, pelas circunstâncias adversas.
Ela riu e o som foi como um bálsamo para ele. João tentou se firmar em pé, mas acabou caindo sentado no sofá. Estava um pouco embriagado.
— Eu não levantaria tão rápido se fosse você. — Ela o ajudou a se recompor. Talvez estivesse mesmo numa situação complicada quando sua visão se tornou embaçada. — Acho que agora é uma boa hora para aquele café.
— X —
Já era madrugada quando Ben voltou para casa. Deitado em sua cama, no quarto garagem, ele repassou mentalmente os últimos acontecimentos.
Como previu, a presença de Sofia era suficiente para inflar a raiva de Giovana e, que a irmã o perdoasse, esse antagonismo era tudo o que ele precisava para se aproximar da loira. Isso, e claro, a ajuda conveniente de Amanda para afastar Serguei. Não era sua intenção se envolver com a garota a princípio, mas alguns sacrifícios deviam ser feitos... embora esse não fosse realmente o caso.
Amanda era bonita e sabia exatamente o que queria. E foi por isso que o procurou há uns dias com uma proposta para unirem forças. Ela queria Serguei e ele queria Sofia, tudo estava certo. Então, Giovana entrou na jogada acreditando que podia enfrentar de igual para igual a "irmã". Mesmo sendo instável, a garota seria útil para fazê-lo recuperar a confiança de Sofia. E sem Serguei por perto, ela poderia contar apenas com Ben quando o momento chegasse. Não tinha como dar errado.
— Eu vim, mas que surpresa foi ver que você não estava. Muito ocupado, irmão?
Antônio entrou no quarto garagem, a expressão séria. Estranhando o comportamento do irmão, Ben levantou-se e cruzou os braços a espera do que o outro tinha a dizer.
— O que faz aqui?
— Acredite ou não, vim abrir seus olhos.
— Você? Abrir meus olhos? — Ben riu com deboche encarando o irmão que continuou um passivo. — Que piada, Tony!
— Você pode rir se quiser, mas ainda vou dizer o que vim dizer.
— E o que seria?
— A Anita está grávida.
Antônio teria rido da expressão chocada de Ben, mas não achava nenhuma graça naquela notícia. Não estava se divertindo como havia dito à Anita e muito menos orgulhava-se de ser o porta-voz da informação. Ele apenas sabia que precisava faźê-lo, pois, por dignidade ou estupidez, Anita não diria nada à Ben sobre a criança. E pior, ela tentaria lidar com toda a gravidez sozinha, o que em sua opinião não era justo. Benjamim não deveria ser poupado e, acima de tudo, precisava assumir a responsabilidade pelo filho.
— O que você disse?! — Benjamim avançou sobre Antônio e o segurou pela gola da camisa. Embora ele parecesse transtornado, Antônio não se abalou. Quase podia ver as maquinações para tentar escapar dessa no olhar de Ben. — Como você pode saber disso?
— Sabendo. — Ele se desvencilhou do irmão. — E não preciso dizer quem é o pai, preciso?
Não precisava, mas também não deveria ter dito sobre a gravidez, pensou Ben atordoado. Antônio não falou, mas ele sabia que um filho mudaria tudo... seu futuro, planos e, mais importante, tiraria qualquer chance que ele tivesse com Sofia. Ronaldo nunca aceitaria que ele continuasse se envolvendo com a garota quando tinha um filho dele e Anita à caminho. E Anita levaria à gravidez até o fim, concluiu com certo pesar.
— Não se pode ganhar todas, Ben. — Falou Antônio, mas sem o conhecido deboche. Olhando-o agora, Ben até poderia acreditar que ele era solidário à sua situação. Estaria louco se acreditasse nisso. — Você precisa fazer o que é certo.
— Que seria exatamente?
— Você tem que assumir a responsabilidade.
Não era seu segredo e também não se sentia confortável estando ali, mas alguém precisava dizer algumas verdades à Ben sobre seu comportamento. Anita precisava de apoio e a criança de um pai. Ele sabia o que essa ausência representava na vida de alguém.
— Ela te pediu para falar comigo? — Indagou Ben ressentindo-se da "armadilha" em que foi pego. — A Anita espera que eu volte com ela?
— Você acredita mesmo que ela usaria a criança pra te prender? Por Deus, Ben, você é pior do que eu pensava!
— Se eu sou tão ruim, por que está aqui? Se a Anita não veio ela mesma me falar sobre isso... Por que você tinha que fazê-lo?
— Porque é o certo.
— E você sabe o que é isso? Certo ou não, parece que a Anita não pretende me incluir na gravidez. Então, só posso pensar que ela também não está disposta que eu seja o pai do filho dela.
Ele sabia que estava sendo um tremendo canalha, mas para Antônio ter assumido à frente no assunto só poderia significar que Anita não o obrigaria a ser pai de uma criança fruto do descuido. E se ela nunca revelasse claramente quem seria o pai do bebê, então ele ainda teria uma chance com Sofia. Talvez, desse certo... Ben precisaria apenas convencer Anita a omitir a verdadeira oportunidade. Pelo menos, até ele reconquistar Sofia e a criança não ser mais um obstáculo.
— Você vai abandoná-la, não é?! — Antônio avançou sobre Ben, tomado pela fúria. De tudo o que poderia esperar do irmão, aquela atitude foi a mais baixa. — Você vai fazer a Anita carregar a droga da culpa sozinha somente para não ficar mal perante todos?
Antônio não esperou uma resposta. Ben já havia dito o que pretendia e ele apenas fez o que era possível naquele momento. O seu soco atingiu em cheio o rosto de Ben, mas ele não reagiu. Benjamim esperou que ele continuasse a extravasar sua raiva, porque era tudo o que ele teria dele naquele momento. Depois de mais dois socos que derrubaram o irmão no chão, Antônio parou.
— Você é podre, Benjamim! Podre o suficiente para abandonar um filho que sequer nasceu!
Ben limpou o sangue da boca, nenhum pouco envergonhado. Tinha feito sua escolha.
— Se eu sou como você diz, então essa criança está melhor sem mim, não acha? Se quer tanto um pai para ela, por que não se candidata ao cargo?
— X —
Minutos depois, Sofia voltou da cozinha com uma xícara quente encontrando-o na mesma posição.
— Aqui está.
João segurou a xícara ainda tentando se situar à presença dela.
— Obrigada.
— Parece que o dia foi bem difícil. — Pontuou a garota sentando-se ao seu lado.
— Alguns dias sempre são.
— Por causa da sua filha?
— Como? — O homem deixou o café sobre a mesa de centro e encarou Sofia.
— Você me confundiu com ela... de novo. Acho que você não lembra, mas quase foi atropelado por causa disso.
— Desculpe... eu agi sob o efeito do álcool. — Emendou ele sem uma boa desculpa para dar.
— Sim.
Ele não era de muita conversa, pensou Sofia perspicaz. Também estava envergonhado por ela ser testemunha do seu sofrimento. De alguma forma, ela sentiu que precisava ajudá-lo.
— Me desculpe pelo transtorno.
— Tudo bem... Também já tive meus momentos. — Ela riu, porque afinal não era nenhum modelo de conduta. Talvez por isso o entendesse bem. Ela era especialista em fazer merda quando sob forte pressão. — A ressaca moral não é tão ruim... acredita em mim, cedo ou tarde, tudo passa.
— Algumas coisas parecem que são para sempre.
João ficou em silêncio, sem mais nada a dizero dizer. Se abrisse a boca, era capaz de revelar a verdade à ela. Estava tarde e Sofia deveria voltar para casa, mas ele também não queria perder a sua companhia quando já tinha perdido quase 17 anos da vida dela.
— Eu não sei exatamente com o quê ou com quem você está lutando, João, mas se posso dar um conselho... deixe ir. Seja lá o que for, se agarrar ao sofrimento só causa mais dor. E se te faz mal como parece, então não deve durar.
— Você não é muito nova para saber essas coisas?
— Tava demorando... — Sofia fez uma careta diante da observação. — Posso ser apenas uma adolescente, mas eu estou no outro lado... — Ela fitou um ponto qualquer da sala reflerindo sobre o que deveria dizer. Sua experiência como filha? — Se você ama sua filha, deve fazê-la acreditar nesse sentimento. E ser menos ranzinza e chato... garotas odeiam pais mal humorados.
— Pai?
— Sim... — Sofia segurou a mão de João na sua num gesto de cumplicidade. — Hoje, eu fui sua filha de mentirinha, mas eu realmente espero que você se resolva com a sua filha de verdade.
João era um pai em busca da filha enquanto Sofia era "a filha de ninguém", como afirmou Giovana. Por mais distantes que pudessem ser, ela entendia o que ele estava sentindo. Então, como se precisasse de admitir para si mesma, aceitou que no fundo ela também esperava que seus pais lutassem por ela como João parecia estar disposto a fazer. Esse foi um pensamento que ela não compartilhou.
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