Era Uma Outra Vez...
80 Vazio...
Notas iniciais
Ela sorriu. E aquele gesto foi o suficiente para fazer o coração de João se encher de alegria. Sofia era uma das poucas coisas boas que tinha feito nessa vida e pela qual se esforçaria para manter, pensou o homem sentando-se ao lado dela para o café da manhã.
— Nossa, isso tá muito bom!
João riu da empolgação com a qual a garota mordeu o que ela considerou ser o melhor misto quente do mundo. Era parte de uma rotina familiar da qual ele lembrava pouco. O seu apartamento, antes sempre silencioso, agora estava cheio da presença dela e da Raissa de um passado mais feliz. Sofia tinha muito da mãe e, por mais ilógico que fosse, isso o fazia amá-la mais.
Após a longa conversa que tiveram na noite passada, a garota acabou dormindo em seu quarto enquanto ele se acomodou no sofá, uma vez que não tinha condições para dirigir e deixá-la em casa, em segurança. Além disso, a própria Sofia tinha insistido em ficar e ser a "babá" dele em troca de um 10 no próximo exame. Era forma que encontrou de demonstrar preocupação por ele. Foi também a primeira noite sem pesadelos desde que soube a verdade. Como se a presença dela ali afastasse a dor e lhe devolvesse algo que imaginou ter perdido há muito tempo, João voltou a sentir esperança.
— Fico feliz que tenha gostado. É uma das minhas poucas especialidades culinárias. — João sorriu, emocionado. Estar com Sofia parecia tão certo que ele tentava não pensar no momento em que ela iria embora. — Minha mãe tentou me fazer independente, mas eu nunca me dei bem com o fogão.
— Sua mãe? Você fala muito com ela? — Indagou, inocente.
— Não... infelizmente.
Sofia viu o semblante do professor mudar rapidamente, logo percebendo ter dito algo muito errado. Ela o viu engolir em seco, hesitando por um instante.
— Minha mãe morreu há alguns anos.
— Eu... Desculpe. — Falou envergonhada pela gafe. — Eu não sabia.
— Tudo bem... isso não é algo sobre qual eu fale muito. — Deixando os ombros caírem, João permitiu que as lembranças voltassem à mente. No fim das contas, sua história era parte da história da filha também. Talvez fosse bom compartilhar algumas recordações. — Eu perdi meu pai muito jovem, ainda criança. Por muito tempo fomos só minha mãe e eu. Então, eu cresci e casei, mas minha esposa também acabou falecendo.
— Você não tem mais ninguém de família?
— Bom, eu tenho uma filha agora.
A emoção com qual ele disse aquelas palavras tocou Sofia, aliviando a tensão da conversa. Talvez ela não fosse a pessoa mais compreensiva do mundo e muito menos a mais indicada para confortar alguém, mas algo a fazia entendê-lo. Escutar ele falar sobre suas perdas os tornavam próximos, num caminho que cruzaram por acaso.
Ele era o pai de alguém que não teve poder de decisão sobre as escolhas que foram feitas. Da mesma forma, ela também não teve escolha sobre as decisões que tomaram sobre ela. Agora entendia as razões para ele tão distante.
A vida pode ser frágil e sentimentos negativos nos fazem perder um tempo precioso, pensou a Sofia refletindo sobre a situação. Saber sobre a filha e o desejo de João em se aproximar da garota, a fazia desejar que as coisas dessem certo para ele. Secretamente, ela desejava também ter a mesma sorte.
— Sim, você tem. — Ela encarou o homem com simpatia, segurando a mão dele na sua. Um gesto inconsciente de afeto. — E no que depender de mim, você pode contar com a minha ajuda.
Dizer aquilo pareceu realmente certo para ela. Sofia também tomou sua decisão.
Emocionado, João quis contar a verdade e pedir desculpas por sua ausência e todo o tempo que poderiam ter tido juntos e não tiveram. Porém, seu desejo foi suprimido pelo bom senso e ele ficou em silêncio, se limitando a continuar tomando seu café com calma. Embora tenha discordando de Raíssa no início, agora era obrigado a admitir que era cedo para confrontar Sofia sobre sua paternidade. Apesar disso, um importante passo para a reaproximação de pai e filha.
— X —
— Preciso falar com você.
Anita mal tinha saído do quarto quando Antônio a abordou no corredor. Vendo certa apreensão no semblante do rapaz, ela se limitou a deixá-lo entrar e fechou a porta em seguida. Não sabia exatamente o porquê ele a procurou, mas podia imaginar que o assunto que ele tinha para tratar com ela envolvia Benjamim. O que na sua opinião era incômodo, uma vez que não tinha mais nenhuma relação com o ex e muito menos com o irmão dele.
— O que você quer?
— O Ben sabe.
Antônio viu o rosto de Anita empalidecer totalmente e seu corpo vacilar minimamente em se manter em pé. Apesar do choque, desmaiar não era algo que Anita poderia se dar ao luxo de fazer no momento. Não antes de esclarecer como Ben soube sobra a gravidez, embora ela já desconfiasse que Antônio estava envolvido nisso. A garota respirou fundo, buscando controle e encarou o rapaz à sua frente.
— O que foi que você disse? — Indagou ela entredentes. A raiva era sua aliada agora. — Como o Ben poderia saber alguma coisa se em nenhum momento eu falei nada para ele? A não ser é claro que você tenha me feito esse "favor". Foi isso?
Sentindo a beira das lágrimas, Anita se aproximou de Antônio que desviou o olhar dela. Culpa foi o que ela viu refletida em seus olhos. Era tudo o que ela precisava para saber a verdade.
— Então?
— Eu procurei o Ben, ontem... falei sobre o bebê.
— Como você pôde?! Por que você fez isso? — Gritou Anita sentindo-se a beira de um abismo. — Que direito você tinha para se meter nessa história? Quem você pensa que é?!
A angústia refletida na voz da garota fez Antônio se encolher. Era o som de alguém ferido e completamente encurralado. Quando ela o esboteteou, ele apenas aceitou a agressividade com resignação. Ele tinha feito aquilo com ela, expondo seu segredo e a colocando ao alcance das intenções de Ben. Ele também não se moveu quando ela avançou sobre ele o empurrando e socando, extravasando sua raiva e decepção.
— Você não tinha o direito! Não tinha! — Vociferou Anita perdendo as forças por um instante e sendo amparada por ele antes que caísse de joelhos. — O que você pensou? Você tem ideia do que fez comigo?
— Me desculpe... — O rapaz a sustentou ainda mais forte nos braços. Remorso não era um sentimento que ele gostava de sentir, mas não podia expurgá-lo simplesmente vendo-a em tal estado. — Não foi minha intenção magoar você... eu só pensei que essa criança merecia um pai, mas eu estava enganado.
Anita tremeu, mas não tentou escapar. Ela não precisava ouvi-lo dizer as palavras, pois sabia que a reação de Ben foi exatamente a que ela esperava. E mesmo ainda, ela assim se viu perguntando.
— Ele não se importa, não é?
Se fez um silêncio pesado que a envolveu por muito tempo. Esse era o verdadeiro Benjamin, sem compaixão ou responsabilidade... movido apenas pelos próprios interesses. No entanto, por mais machucada que estivesse, saber sobre isso bastou para pôr um ponto final em qualquer sentimento que um dia tenha existido. Já não se lamentaria ou esperaria nada vindo dele. Se Ben iria fingir que não era culpado por nada, ela nao perderia seu tempo o forçando a ter nenhum laço com o filho.
— Sinto muito.
Anita sentia mais.
— X —
— Onde você conseguiu essas fotos?
— Advinha.
O riso de Amanda irritou Giovana, mas a ruiva desconsiderou o próprio desconforto e apenas continuou fitando as fotos. Em mãos, ela tinha o celular com imagens de Sofia acompanhando João desde a saída de um carro até entrarem num apartamento. Quem não conhecesse a história por trás da paternidade da loira, como era o caso de Amanda, poderia supor que professor e aluna estavam envolvidos. Era uma bomba e tanto, ponderou Giovana devolvendo o aparelho à dona. O tipo de jogo baixo e sujo que Amnda não se constrangiria em jogar.
— Você sabe o que isso parece, não sabe? E o vídeo é ainda mais comprometedor! — Vangloriou-se a mais velha, maliciosa. Ela acreditava ter uma importante arma contra a Sofia, mas precisava fazer os movimentos certos se quisesse que aquela história rendesse mais do que uma simples fofoca. E usaria Giovana para que seu plano desse certo. — E é aí que você entra, ruivinha. Como já sabemos não é tão simples fazer a Sofia duvidar do Serguei, mas isso muda quando se trata dele passar a desconfiar dela.
— O que você quer dizer? — Questionou Giovana, incomodada.
Podia odiar Sofia, mas Amanda era tão horrível quanto a outra. Talvez não tivesse sido uma boa ideia se aliar à ela, pensou. No entanto, não tinha muita escolha a não ser cooperar com a Amanda se realmente quisesse alcançar o objetivo de sua vingança.
— Eu quero dizer que vamos tornar público a relação da vadia da Sofia com o João. — Informou Amanda.
— Você acha que alguém vai acreditar? O João Luís sempre foi distante dos alunos... Quem vai imaginar que ele ficaria com uma aluna?
— Isso pode até ser verdade, mas imagina só... a Sofia tem um histórico bem podre e essas fotos demonstram que ela e o João são próximos. Verdade ou não, apenas a suspeita de que ela continua sendo uma vagabunda já vai ser um estrago e tanto. E quando todos souberem, ninguém vai ficar do lado dela... Nem mesmo o namoradinho.
Ela tinha certa razão, ponderou Giovana ignorando o crescente desconforto pela conversa. A insinuação de um caso entre professor e aluna era o tipo de intriga difícil de desmentir e por mais que não quisesse envolver João em seus planos, talvez devesse considerar aquele mal como necessário. E afinal, ele apenas precisava se revelar como pai de Sofia para pôr fim àquela suspeita... e, como consequência, seria um baque para Sofia descobrir sobre os pais biológicos da pior forma possível.
— E como isso me envolve?
— Eu sei dos seus talentos com informática... quero que você crie um boato sobre isso. E na hora certa, divulgue as fotos e o vídeo no 2.0.
— Tudo bem. — Concordou a ruiva.
— E eu tenho mais uma outra missão para você. — Amanda entregou um pequeno frasco para Giovana. — Você deve fazer com que a Sofia tome alguns desses comprimidos.
Curiosa, Giovana pegou o objeto na mão. Não era ingênua para fingir não saber a intenção da garota ao lhe dar aquele medicamento. A questão é: ela teria coragem de ir adiante?
— O que isso faz exatamente?
— Nada muito sério... digamos apenas que a Sofia vai ficar um pouco nervosa por um tempo.
— X —
Ben esperou por um tempo até finalmente Amanda chegar ao local combinado. Tinha passado uma noite insone, recalculando algumas rotas depois do confronto com Antônio. O que surgiu como um blefe desesperado, começou a tomar forma quando a ideia de outra pessoa assumir a responsabilidade pelo bebê de Anita pareceu ser a solução mais viável. Ele precisava agir rápido.
— Não demorei, né?
Amanda deu um selinho de leve no rapaz e sentou-se em seguida. Ben continuou com a cara fechada, indiferente a aparente alegria da garota.
— Como foi com a Giovana?
— Ela topou. — Amanda riu com deboche, fazendo sinal para um garçom vir atendê-la. — Eu tenho que admitir que a o flagra da Sofia e o João veio em boa hora. E sua irmãzinha está tão cega de ódio que não pensou duas vezes em concordar com nosso plano.
— Bom.
Após fazerem o pedido, Amanda voltou a encarar Ben. Ela sempre teve uma impressão diferente do rapaz, mas agora que conhecia sua verdadeira personalidade se sentia ainda mais atraída por ele. Ela até poderia ter Serguei de volta, mas não deixaria Sofia ficar com Ben também. Embora, é claro, ele não precisasse saber disso no momebto. Assim como ela estava usando Giovana para deliberadamente drogar Sofia e levá-la ao limite. Seu jogo duplo, apesar de arriscado, era muito bem pensado e sua vingança com certeza teria um sabor muito doce, vangolriou-se a garota admirando os traços de Benjamin.
— Preciso que me ajude com algo. — Falou Ben após tomar sua decisão. — É importante.
— E o quê seria?
— Preciso me livrar de uma pessoa.
— Uau, isso está ficando interessante. — O riso de Amanda enjoou Ben, mas ele nada disse. Ela ainda lhe era útil por enquanto. — Posso saber quem é esse infeliz que cruzou o seu caminho?
— Meu irmão.
Na última hora, Ben repassou com Amanda os detalhes do que ela deveria fazer para tirar Antônio de vez do seu caminho. Quando estava finalmente satisfeito, ele inventou uma desculpa para ir embora. Amanda tentou retê-lo por mais algum tempo propondo irem para um lugar mais íntimo, mas Ben não estava se sentindo tentado a transar com ela. Talvez em outro momento, refletiu, quando não precisasse se preocupar mais com Antônio.
Quando voltou para o Grajaú, Anita o esperava em seu quarto garagem.
— Precisamos conversar. — Disse ela, resoluta no momento que o viu.
— Por favor... — Ben indicou que ela se sentasse, mas Anita prefiriu ignorar o gesto e ir direto ao ponto.
— Eu estou bem.
— Pode falar então. — Ele sentou-se demonstrando certa impaciência.
Preferia que Anita não o tivesse procurado, pois ainda tinha a vã esperança de poder lidar com o assunto da gravidez indesejada antes de tornar-se público. — Sou todo ouvidos.
— O que eu vim para falar, infelizmente, acredito não seja uma novidade para você... — Anita sorriu com amargura antes de prosseguir. — Eu estou grávida.
— Eu sei. — Admitiu ele, o tom controlado. — O Antônio me contou. O que me faz questionar por que você procurou ele, mas não falou comigo diretamente?
— Diferente do que você possa estar imaginando, o fato de seu irmão saber sobre a gravidez não passou de uma coincidência.
— Então, vocês não são próximos?
Aquela pergunta emitiu um sinal de alerta na cabeça de Anita, olhando-o incrédula. Estaria Ben tentando insinuar que ela estava envolvida com Antônio? Empertigando-se, a garota ergueu o rosto demonstrando uma coragem que realmente não sentia.
— Não me importo com a sua opinião sobre mim ou com quem me relaciono, estou aqui apenas para esclarecer algumas coisas sobre o futuro do meu bebê.
— Isso significa que você pretende levar a gravidez adiante?
Outro golpe, mais profundo que a duvida lançada há alguns segundos. Ela já devia estar preparada para isso, mas ainda assim a surpreendeu perceber como Benjamin sabia ser cruel. Engolindo em seco, ela aceitou a verdade com pesar. Como pôde um dia ter se apaixonado por ele? Ter amado um estranho?
— Sim, eu pretendo prosseguir com a gravidez... mas não se preocupe, não estou exigindo que você se responsabilize por nada.
Com esforço, o rapaz tentou não parecer tão aliviado, mas Anita percebeu a micromudança na expressão dele. Isso a fez perceber também que embora Ben fosse diferente, ela ainda o conhecia bem demais para não enxergar o próprio tormento.
Apesar das palavras, Ben sabia que a situação era mais complexa do que Anita fazia parecer. Quando Ronaldo e Vera soubessem que ela estava grávida iriam exigir explicações que ele estava pouco inclinado a dar. Embora não o preocupasse mais o julgamento dos familiares, sua permanência no casarão se tornaria insustentável se ele não assumisse o filho. Estava de mãos atadas no momento e somente Anita poderia resolver o seu problema.
— Talvez devêssemos conversar melhor sobre as nossas opções... — Falou ele de maneira persuasiva, tentando convencer Anita a ver as coisas sob a sua perspectiva. — Você é jovem ainda Anita, tem sonhos que não incluíam um bebê. Você queria estudar arquitetura, lembra? Um filho vai mudar isso. — Ben se aproximou devagar quando ela não disse nada. — Não é justo que as nossas vidas mudem tanto por um momento de descuido.
— Descuido?
Inconsciente do gesto, Anita pousou a mão sobre a barriga completamente enojada pelas palavras de Ben. Antônio certamente não tinha sido muito explícito quando falou sobre a reação dele e ouvindo-o agora sugerir que deveria se livrar do bebê fez sua bile alcançar a boca.
— De todas as vezes que você me magoou... essa não tem nenhum perdão. — Sibilou numa voz entrecortada, virando-se e indo embora.
Ben pensou em segui-la, mas se manteve onde estava. Precisava pensar numa forma na qual Anita e a criança não seriam mais um problema seu.
—X —
Estava feito, pensou Anita praticamente tropeçando nos próprios pés ao seguir para a rua. Estava num estado de torpor depois do que havia escutado de Ben, sua sugestão de um aborto deixando-a nauseada. Ela e o bebê eram um problema e na lógica torta do ex namorado, era mais simples se livrar de ambos. Pousou as mãos novamente na barriga como se tentasse proteger a criança que crescia no ventre da rejeição explícita do pai. Que Ben não a amasse, ela podia suportar, mas descartar tão facilmente o filho como um "descuido" a feria tão fundo que era difícil respirar.
Logo, ela não conseguiu mais segurar as lágrimas e sua visão se tornou turva. Se não fosse tão estúpida, poderia ter se poupado de se apaixonar por uma ilusão. Desorientada pela emoção, acabou esbarrando em alguém enqusnto caminhava.
— Anita?
Ao perceber que se tratava do amigo foi como abrir as comportas de uma represa. Toda a amargura e decepção que a garota no momento a fizeram praticamente desabar contra Serguei.
— Me tira daqui, por favor! Eu preciso ir para longe.
Sem demora, Serguei abraçou a amiga e levou-a para o seu salão.
— X —
— Obrigada pela carona!
— Nos vemos mais tarde?
— Se a senhorita não perder a noção do tempo com o Sideny... — Implicou Sofia com um sorriso.
Estava feliz que os amigos finalmente haviam se entendido e mais do que disposta a ajudá-los. Essa tarde ela serviu de álibi para que Flaviana pudesse encontrá-lo sem levantar suspeitas da mãe.
— Olha só quem fala! Quem é que perde a noção do tempo quando está com um certo ruivo?
As duas riram ao mesmo tempo, pois ambas estavam certas.
— Diz para o Sidney que eu mandei um abraço... e que ele me deve uma!
Flaviana acenou em despedida enquanto Sofia se afastava do carro e seguia para o salão de Serguei. Pegando a bolsa, ela foi até a casa de Sidney que atendeu no primeiro toque da campanhia.
— Desculpa o atraso... — Flaviana foi interrompida quando o loiro a puxou para um beijo surpresa, só a soltando quando a necessidade de oxigênio se fez presente. — Bom te ver também.
— Pensei que tivesse rolado algum problema. Como foram as coisas na sua casa? — Perguntou Sideny ainda mantendo Flaviana presa em seus braços enquanto caminhavam em direção às escadas.
— Mais fáceis do que eu imaginei... minha mãe não fez muitas perguntas quando eu falei que ia sair com a Sofia.
— Hum... entendo.
— Mas eu não vou poder demorar muito hoje. — Alertou-o a morena. — Eu não quero dar margem para desconfianças.
Apesar de contrariado, Sidney acenou afirmativamente. Não queria pensar que estavam fazendo algo errado, mas depois do único e desastroso encontro com a mãe dela, ele entendia os receios de Flaviana. Por enquanto, aceitaria aqueles termos, mas não por muito tempo pensou. Não queria ser um "segredo".
— O que você acha de nós subirmos para o meu quarto?
— Por quê essa sugestão não me surpreende? — Flaviana riu, apesar de sentir o rosto corar. Sidney tinha um forte efeito sobre ela e isso a assustava um pouco, principalmente, por causa das repercussões que seu envolvimento com ele poderia ter. Se pudesse, manteria os problemas afastados da sua pequena bolha de felicidade e apenas ficaria o maior tempo possível com o rapaz. — Eu não poderia pensar em uma ideia melhor!
Ainda rindo, eles subiram as escadas com certa pressa. No quarto, não demorou muito até que a conversa fosse substituída por beijos e carícias.
— X —
O salão estava pouco movimentado quando Sofia chegou. Serguei não estava e como ela não tinha avisado que faria uma visita, resolveu aproveitar a vinda ao Grajaú para fazer uma surpresa. Fez um sinal de cumprimento para Vanessa, ocupada em repor alguns produtos e seguiu para o escritório como de costume. Ao se aproximar da porta, ela pode distinguir vozes conhecidas no que parecia ser uma conversa tensa.
— Você sabe que não poderemos levar essa situação muito mais adiante, não sabe?
Do lado de fora, Sofia parou ao ouvir o namorado e seu tom sério, como se estivesse chateado com alguma coisa. Serguei parecia realmente irritado e isso a fez questionar se deveria continuar ali ou não.
— Eu não te pediria isso se não fosse importante. Não me restaram muitas opções. — Argumentou Anita.
— Nós podemos pensar numa solução, conversar com seus pais.
— Por favor, Serguei, depois de todos os problemas que eu causei, como poderia jogar mais essa bomba sobre eles?... — Anita pausou, como se ponderasse os próprios pensamentos. — E tem a Sofia.
— Ela não tem nada a ver com isso. — Cortou-a Serguei, com impaciência.
— Eu sei... me desculpe.
Sofia ficou lá, sem entender ao certo o que se passava, mas com um mal pressentimento. Algo a dizia para ir embora, mas um sentimento mórbido a impedia de se mexer.
— Eu não quero causar problemas para vocês dois.
— Não vai acontecer... não dessa forma.
A fatalidade com que as palavras foram ditas deixou Sofia com os olhos marejados, à espera de alguma conclusão para a conversa. Quando tudo ficou em silêncio, ela deu um passo em direção a porta, a mão sobre a maçaneta. Então, antes que se interrompesse o "encontro de amigos", ela ouviu os passos de Serguei caminhando provavelmente para onde Anita estava. Em sua cabeça, uma cena se formou... clara e sufocante.
Sentindo-se vazia, a garota pegou o celular e fez algo estúpido. Quando escutou o celular de Serguei tocar pela terceira vez e sua chamada ser ignorada, ela decidiu que já tinha tido o suficiente daquilo. Não era masoquista e se a foto do dia anterior tinha proporcionado uma "visão" do que acontecia no momento, ela não ficaria ali para ver a cena pessoalmente.
Ela estava tão decidida a confiar em Serguei e no que sentiam que ignorou a verdade por detrás dos fatos. Ele tinha escolhido Anita há muito tempo atrás e ela sabia disso desde o início. Serguei era bom demais para estar com ela e como se fosse o seu karma nessa vida, ela sempre perderia quem amava para a irmã. Talvez fosse apenas uma questão de tempo... e se não fosse o bastante concluir isso, ao se afastar ela ainda foi capaz de ouvi-lo dizer com as próprias palavras.
— Você sabe que eu te amo.
Com o coração apertado, Sofia caminhou para longe, fugindo como uma covarde. Por mais que doesse, ela preferia isso à correr o risco de que um dos dois presenciasse sua humilhação.
Ela ainda não estava pronta para deixá-lo ir.
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