Era Uma Outra Vez...
15 O que não mata... Às vezes, mata.
Notas iniciais
– Ele fez o quê?!
– Nossa Júlia, dá para ser mais discreta? – Pediu Anita a amiga. A morena se acalmou um pouco, mas o que a outra havia lhe dito ainda parecia surreal demais para ela não pirar – Foi o que eu disse... Ele me beijou. E também disse que me amava.
– E você o que fez? Você tá apaixonada pelo Serguei?
– Não, é obvio que não né? O que eu poderia fazer? Eu disse que precisava pensar, que ele não deveria ter me beijado... Foi muito estranho, esquisito mesmo, entende? Quando ele me soltou eu nem tive coragem de olhar para ele. Acho que eu magoei o Serguei.
Anita passou os dois últimos dias pensando somente no que aconteceu com ela e o amigo de infância na sala da sua casa. A cada instante ela repassava na mente a lembrança dele segurando suas mãos, lhe olhando profundamente, a respiração pesada de ambos até que ele finalmente a beijou... E fim. Acabou. Serguei pediu desculpas e foi embora enquanto ela não sabia onde enfiar a cara.
– Relaxa, amiga... Eu aposto como vocês ainda vão se entender. E já que não tá rolando mais nada com o Ben, quem sabe você não deveria dar uma chance pro nosso amigo.
– Ah, claro! Por que eu sou dessas que mal acabam um relacionamento e já caem de cabeça em outro, né? – Ironizou Anita. Júlia se arrependeu da sua sugestão – Eu fui muito magoada, Júlia. E eu não quero mais confusão para minha vida.
– Você ainda ama o Ben, né?
– É burrice, eu sei, mas eu... Amo.
– X –
– Que carinha triste é essa, Serguei?
– É melhor você vazar daqui, Sofia.
A garota ignorou a ordem do rapaz e com um sorriso se recostou na parede.
– Sério? Por quê? Estamos no colégio, meu querido, eu adoraria cair fora daqui, mas você sabe que sou obrigada a ficar. E já que é para lamentar, vim fazer isso com alguém que sabe lamentar como ninguém. Ouvi dizer que minha ‘maninha’ não sucumbiu ao seu charme... É, pelo visto nem a forcinha que eu dei foi suficiente para ela te enxergar como homem. Um desperdício, já que tirando todo o tédio que você provoca nas pessoas, você até que tem lá algumas qualidades.
– Quais, se é que eu posso saber? – Perguntou ele cruzando os braços em frente ao corpo.
– Ah... Assim de improviso, eu posso dizer uma: Você beija bem. A Flaviana me contou, e pode-se dizer que esse é um ponto a favor. O papo tá muito bom, tá tudo muito bem, mas eu tenho que ir. Só um conselho: desiste não da Anita. Insiste, ela vai acabar caindo. E quando isso acontecer, aproveita e leva ela pra bem longe. O polo norte seria um excelente lar. Beijos, fofo!
– Espera! – Ele a segurou impedindo que se afastasse.
– Hey, qual é o seu problema, hein? Fica toda hora me agarrando pelo braço. Cuidado, que assim eu acabo pensando que ‘Cê’ quer dar uma de Ben e trocar de irmã – Brincou debochada. Serguei não se abalou, pelo contrario, um sorriso cínico surgiu no seu rosto pegando Sofia de surpresa.
– Talvez eu devesse... Não é por isso que você tá aqui? Descobriu que eu gosto da sua irmã e resolveu não perder tempo, né? Acho que essa sua inveja da Anita já é patológica.
– E o seu mau gosto para namorada deve ser crônico, por que né?! Agora me solta!
– Pode ir se quiser – Ele liberou o braço de Sofia que rapidamente se afastou – Mas é melhor você se preparar.
Ela não ouviu a ultima parte do que ele disse. De tão nervosa que ficou, ela praticamente saiu correndo de perto dele. Quando chegou ao pátio, seu celular começou a tocar: Era Flaviana.
– Oieee! Demorou para atender. Aconteceu alguma coisa?
– Não, nada! – Sofia suspirou ainda sentindo o calor da mão de Serguei na sua pele – Eu que não ouvi o toque. Mas então, como vão as coisas aí? Lembrou da minha bolsa?
– Tá tudo maravilhoso, amiga! Eu e a mamãe passamos horas juntas, comprando é verdade, mas é tão bom... Ela pede minha opinião, sugere roupas para mim. A gente até conversou um pouco sobre garotos... Eu to tão feliz. E fica tranquila, sua bolsa e mais algumas coisinhas que comprei para você estão devidamente guardadas e te dou assim que voltar. E você, como é que tá?
– Bem, eu acho. Até que esses dias tem sido bons para mim... O João não implicou comigo, o pessoal do colégio ainda são um bando de babaca, mas são babacas suportáveis. De resto, tá a mesma coisa. Só o Serguei que foi estúpido há pouco, mas eu tenho que confessar que eu fui provocá-lo. Foi criancice, mas eu não resisti e fui lá encher o saco dele.
– Você não muda, né?
– Não... E tomara que isso nunca aconteça. Já pensou o marasmo que seria as nossas vidas se eu fosse tão politicamente correta? Prefiro continuar errada. Funciona para mim.
– X –
– Tem certeza disso, Serguei?
– Absoluta, Raissa.
– Serguei! – Chamou Júlia. Ele foi ao encontro da amiga – Tava te procurando. Tá quase na hora da gente apresentar o projeto. O que tava fazendo conversando com a Raissa?
– Nada demais, apenas fazendo algumas mudanças na nossa apresentação.
– Como assim mudanças? Você não falou nada, muito menos para a Anita. Que história é essa, Serguei?
– Julinha, Julinha... Confia em mim, tá? É melhor a gente ir logo para o pátio para o inicio das apresentações.
– X –
– Oi, ‘Princesa’!
– Oi... Ben. – Vim te desejar boa sorte na apresentação. Sei o quanto você se esforçou para fazer esse projeto e tenho certeza que você vai arrasar.
– Espero que sim, até porque conta muito para a nota bimestral. Também te desejo sorte no seu projeto – Disse Anita sincera. Ben sorriu para a garota e pegou na sua mão, juntos eles se encaminharam para o pátio.
Um pouco atrás, Sofia observou os dois juntos, a cumplicidade com que se tratavam... Era inegável, Anita e Ben pareciam feitos um para o outro e constatar isso entristeceu a loira. Mais e mais ficava claro que era ela quem sobrava na história dos dois. Talvez todos estivessem certos, ela deveria desistir e tentar preservar o que ainda lhe restava do seu coração.
– Chega, Sofia! – Ordenou a si mesma enquanto seguia com os demais alunos para o pátio onde seria realizada a apresentação de um seminário do 3º ano do colégio Destaque e do qual os demais alunos seriam ‘obrigados’ a prestigiar. Não era a primeira vez que isso acontecia, mas Sofia se sentia estranhamente incomodada. Era como se algo dentro dela a avisasse para escapar enquanto ainda tinha tempo.
“Agora eu to ficando com mania de perseguição!” Debochou em pensamento, mas isso não serviu para tranquilizá-la. Já no pátio, ela ficou afastada, próximo a uma arvore. Viu o momento em que Raissa pegou o microfone e começou a falar.
– Bom dia, alunos. Quero antes de tudo agradecer a presença de vocês, parabenizar os integrantes de cada projeto e desejar boa sorte a todos. Espero que com esse seminário, vocês tirem o melhor que puderem e que saibam valorizar o esforço dos seus colegas. Bem, é isso... E para dar inicio, eu chamo aqui Anita, Júlia e Serguei que vão falar sobre adoção.
A orientadora deu o microfone a Serguei.
– Oi! Como a nossa querida Raissa já disse, eu e minhas amigas vamos falar um pouco sobre adoção. Fizemos uma intensa pesquisa, levantamos dados e queremos compartilhar um pouco com vocês.
Sofia bocejou quase todo o tempo. Não que o assunto fosse desinteressante, mas a imagem do ‘Trio Perfeição’ só lhe servia para causar sono e o fato de não dormir bem durante as ultimas noites não contribuía muito, pois por mais que se esforçasse ela acabava adormecendo entre uma fala e outra. Sofia quase se desequilibrou e por isso se sentou no chão, recostada a arvore sem se importar na calça caríssima que ganhou de presente do pai.
– Bom, para concluir...
“Aleluia, senhor!” Agradeceu a jovem ficando de pé. Ela estava exausta demais para suportar mais, mesmo que arranjasse mais dor de cabeça, ela iria para casa.
– Queremos passar a mensagem que adoção, adotar uma criança é um ato de amor. Do mais profundo sentimento e que isso deve sempre ser exaltado. Afinal, é algo normal, tanto que temos um bom exemplo... Sofia. A irmã de Anita foi adotada por sua família e recebeu todo o amor e o necessário para uma vida feliz. Alguns irão dizer que ela teve sorte, talvez... Mas arrisco dizer que o que ela teve foi a bênção de ter tantas pessoas maravilhosas em sua vida. É algo que, tenho certeza, ela se orgulha.
“Adotada.”
A palavra ecoou pela cabeça de Sofia enquanto ela inconscientemente procurava algo em que se apoiar. Toda a atenção havia se voltado para a garota e ela sentia-se presa numa armadilha. Ninguém com exceção dos seus parentes, Júlia e Serguei sabiam da sua adoção, mas agora esse fato era exposto para o colégio inteiro. Alguns a olhavam curiosos, outros surpresos, e uma pequena parte, solidária.
Sofia olhou em direção a Serguei, o triunfo expresso em seu rosto. A irmã, parecia não saber de nada, mas era claro que Anita tinha planejado aquilo junto com o ruivo e com Júlia, e com todos os outros que a cercavam. Eles queriam destruí-la. Aqueles abutres deviam estar muito felizes por vê-la cair. Ela estava desprotegida, sozinha... Sofia havia perdido. Como um autômato, ela seguiu para o palco sendo seguida pelos olhares dos colegas.
– Serguei! – Anita tentou intervir e proteger a irmã que visivelmente abalada – Aonde você quer chegar com isso?
Sofia pegou o microfone da mão do rapaz.
– É... Eu sou adotada. Foi uma novidade para mim também, porque até pouco tempo eu não fazia ideia. Mas é como o Serguei falou... – Sofia sentiu um bolo subir pela garganta, mas com toda a força que possuía, continuou – Eu tenho orgulho? Orgulho. É isso né? Saber que alguém me deixou largada por aí e que a Vera, a minha mãe, mãe... Engraçado, ela não é minha mãe. Mas tudo bem... O que eu quero dizer é que, olha só, apesar de tudo, eu até que me dei bem. Tenho uma família legal, uma irmã que é um amorzinho, um pai com o saldo bancário considerável... O que mais eu poderia querer? Eu tenho orgulho, com toda certeza. Ser rejeitada e dar a volta por cima desse jeito não são para qualquer pessoa.
Ela deixou o microfone cair no chão e saiu com calma do palco abrindo caminho entre os alunos, a cabeça erguida.
– X –
– Cara, que negócio bizarro foi aquele, hein?
– E não foi? Para mim, ela ia pirar lá no palco e mandar todo mundo se fu... Se é que me entende. Mas quem diria, hein? Sofia adotada! Não que isso seja o fim do mundo, mas ela sempre se achou melhor que todo nós, reles mortais. Não é segredo que ela odeia o Grajaú, o colégio, a irmã... Talvez isso explique ela detestar a Anita. Vai ver ela vê a irmã como uma usurpadora do que deveria ser dela.
– Ser dela? Não, né amiga? Afinal, a família é da Anita. A Sofia é que é a intrusa ali... Mas por que a gente tá falando dela mesmo? Adotada ou não, ela ainda é uma víbora.
As duas garotas de quem Sofia sequer sabia os nomes, finalmente deixaram o banheiro. Após alguns minutos de silêncio, ela saiu do reservado e andou até a pia, seus passos pesados. Ela ligou a torneira e molhou os pulsos, jogou um pouco de água no pescoço, mas não teve coragem de olhar seu reflexo no espelho. Ela não tinha chorado ou borrado a maquiagem, pelo contrário, estava exatamente igual a quando saiu de casa mais cedo e ela não sabia dizer se isso era bom ou ruim. Ouvir o que os outros pensam dela... Não era novidade, é claro, mas agora era como as menções maldosas a atingissem com mais força.
Adotada. Humilhada publicamente. Despedaçada. Sua vida exposta e dessecada por qualquer um, nos mínimos detalhes, sem que ela pudesse impedir. Embora seu raciocínio rápido lá no palco a tivesse poupado de maiores constrangimentos, só agora, depois de uma hora do ocorrido, ela sentia o real impacto do que tinha acontecido.
Ao sentir uma forte náusea, ela correu de volta ao reservado e vomitou o pouco que tinha comido durante a manhã. De qualquer jeito, seu corpo se contorcia, seu estômago regurgitava tudo e mais um pouco do que havia nele. Sofia sentia a garganta doer, mas não podia evitar que o corpo expelisse algo que não podia suportar. Era involuntário, dolorido, fora do alcance da sua vontade... E mais uma vez a sensação de derrota estava lá, escondida, corroendo... As lágrimas que ela não chorou começaram a cair, a visão dos restos de alimento misturado a líquidos estomacais no fundo da privada evidenciando o quão fundo ela própria estava. Era uma comparação perfeita do seu estado emocional... Ambos estavam descendo pelo ralo.
– X –
– Você a encontrou?
– Não... DROGA! Por que o Serguei foi fazer aquilo? – Lamentou Anita ofegante após procurar pela irmã.
– Calma, amiga, ela vai aparecer. Talvez ela até já esteja em casa – Júlia tentou confortar a garota – E se eu posso ser sincera, não acho que isso tenha a afetado tanto... Você mesma viu como ela se saiu lá. Cara, desculpa, mas me deu medo... Pareceu que ela não tem sentimentos.
– Até você, Júlia?
– Anita, você sabe da Sofia? – Questionou Pedro se aproximado das duas garotas. O menino não estava presente, mas soube do que aconteceu a sua irmã e embora estivessem afastados, sabia, melhor, sentia que Sofia precisava dele.
– Não... Mas não se preocupa, ela tá bem. A Sofia é forte, né? É melhor a gente ir para casa antes que a mamãe se preocupe com nossa demora.
– X –
– Sofia, você sabe dos seus irmãos?
Vera deteve a loira quando esta subia as escadas a caminho do seu quarto.
– Não.
– Tem certeza? Já passa do horário deles voltarem, e ninguém me avisou nada. A Anita é tão responsável, ela me ligaria se algo tivesse acontecido – Falou a mulher mais para si mesmo do que para a menina – Mas que cara abatida é essa? Você não parece bem.
“É porque eu não estou.”
– É impressão. Eu vou para o meu quarto.
– Peraí, me conta... O que foi que você fez? Você não bebeu, bebeu? Eu já te falei Sofia para parar com esse tipo de coisa. Sinceramente, eu não sei mais o que fazer com você.
– Eu sei... Devia nunca ter me adotado. Eu sou uma cobra, a víbora que você criou com tanto carinho e que a qualquer momento vai te picar. Quer saber qual o meu problema? Então, eu digo: Você. O que você fez por mim... Você não é minha mãe. Esse é o meu problema e nada do que diga ou faça vai mudar isso. VOCÊ NÃO É MINHA MÃE! – Gritou a plenos pulmões assustando Vera e os demais que chegavam à sala.
Sofia deu uma ultima olhada em Anita, Pedro, Júlia e Ben que tinha acabado de entrar na cozinha. A expressão desolada de Vera fazendo ela se arrepender, mas não voltou atrás. O que ela disse era verdade, ela não era para aquela família. Vera era boa demais para ser mãe de uma pessoa como ela. E quanto antes à mulher entendesse isso, mas fácil seria para ela esquecê-la.
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