Notas iniciais
"Você pode ouvir meu chamado? Você está vindo para mim agora? Eu estive esperando você vir me resgatar. Eu preciso que você segure toda a tristeza que eu não posso... Vivendo dentro de mim". E é ao som de "I'm in here" da Sia que eu dou boa noitinha. Ah... como eu amo essa música, assim como amo essa Fic, então por que não um cap inspirado nela? Como adoro uma depressão em novela, livro, Fic e vida, resolvi dar mais um pouquinho de melancolia pra 'ocês'. Chorem comigo, pessoas! XD

“Can't you hear my call? Are you coming to get me now? I've been waiting for, you to come rescue me, I need you to hold, all of the sadness I can not, living inside of me.”… ♫

– Trouxe seu jantar.

De cara amarrada, Giovanna entrou no quarto colocando displicentemente a bandeja sobre a cama de Sofia.

– Não se acostuma não, tá? É uma gentileza que eu to fazendo pra Vera, já que por mim, ‘Cê’ morria a míngua. Mas era isso ou a deixar vir aqui te bajular, e na real, ela é boa demais para se prestar a isso.

Apesar das palavras duras, Sofia continuou imóvel na cadeira e tirou os fones dos ouvidos. Viu o prato que sua mãe fez, o cuidado que ainda lhe reservava mesmo depois do ataque gratuito que ela cometeu. A decepção no olhar da mulher ainda a comovia de uma forma dolorosa, mas ela ignorou. Blindou seu coração a dor da mãe e a sua própria. Ninguém a entedia. Ninguém conseguia enxergar que ela precisava de ajuda.

– Não vai falar nada? – Questionou a ruiva irritada pelo silêncio da outra.

– Se tá esperando um agradecimento, tá perdendo tempo.

– Ahhh... Porque você é sempre muito educada, não? Não, querida, seria muito esperar um gesto desses de você. Mas eu já fiz o que tinha que fazer mesmo, então... Eu vou nessa. Sabe o que é? O ar aqui é muito pesado, tóxico mesmo. Não quero me contaminar também. Mas não ligue para isso, tenha uma boa refeição – Giovanna riu sarcástica e saiu por onde entrou.

Sofia olhou para a comida e sentiu o estômago embrulhar, definitivamente, ela não conseguiria comer nada. Tentou voltar à atenção para o que fazia antes da irmã postiça entrar, mas foi inútil, sua mente cansada e corpo exausto não davam trégua a ela que sem ânimo, tirou a bandeja da cama e se jogou sobre ela. Fitar o teto era um passatempo interessante, dizia em pensamento, era simples e anestesiante. Ah... Se ela encontrasse algo que a mantivesse inerte por tanto tempo que ela nem mais se lembraria do próprio nome. Álcool, drogas... Quem sabe? “Não!”, afirmou categórica. Nenhuma das duas opções era eficiente o bastante para fazê-la esquecer da vida. Compras talvez? Ela tinha um cartão de crédito na bolsa e que podia usar como queria, mas vagar por lojas a procura de roupas, sapatos, joias... Não era disso que ela precisava. Ela queria um sentido, algo que a fizesse feliz. Sofia não sabia mais precisar quando foi a ultima vez que se sentiu plenamente feliz e isso a assustava. Era como se sobre si, pairava uma eterna nuvem negra e sua vida nunca foi tão indiferente. “Vida...” O que seria da sua vida agora?

O celular da loira tocou a poupando de maiores questionamentos sobre o que fazer daqui para frente.

– Alô...

– Sofia? OI! Que vozinha é essa, hein? Não vai me dizer que aquele garçom psicopata te magoou de novo, vai? Olha, já to cansada disso! Quando eu voltar vou fazer ele repensar a maneira como tem te tratado. Acho que três ou quatro seguranças do meu pai vão dar um jeito no comportamento dele.

– Não é nada disso Flaviana... Eu to resfriada. Um saco, fique sabendo, mas é só isso. Nada de muito grandioso, se quer saber. Minha vida tá ótima, melhor impossível, você vai ver quando chegar amanhã – Sofia desconversou. Embora a morena fosse sua única amiga e maior confidente, a loira não queria preocupar a garota. Ela estava em Nova York e nada poderia fazer por ela, era melhor não falar nada.

– Verdade? – A voz de Flaviana soou um pouco descrente, mas logo ela recuperou a animação tão característica dela – Que bom! Assim fico até mais aliviada por ficar mais um tempo aqui. Pois é amiga, a viagem vai ser estendida por mais esse fim de semana. Amanhã é sexta feira mesmo e para quem já perdeu uma semana de aulas, um dia a mais não faz diferença. Mas segunda eu to de volta e a gente vai poder matar as saudades. Se eu não estivesse tão feliz, juro que pegava o primeiro avião de volta. Sei que reclamo horrores do Brasil, mas é o meu país, fazer o quê? Além do mais, aí estão você e o Martin... E eu to decidida a acabar com o romancezinho ‘água com açúcar’ dele e daquela tonga da Micaela.

– De novo isso? Pensei que tivesse superado.

– Eu superei, é fato. Mas só acaba quando eu termino, e eu to mais do que empenhada em dar um ‘The end’ épico para essa história. Eu a criei, eu vou destruí-la. É a lei do retorno que você me falou não me lembro quando. Isso ficou gravado, e como eu não faço nada pela metade... Mas era só isso, tenho que desligar. Toma um chazinho para curar essa gripe, hein? De preferência um daqueles ingleses que eu dei de presente à tia Vera. E manda um beijo para ela também. Tchau!

– Vou sim... Tchau.

– Te amo.

Sofia desligou o aparelho, a tristeza a invadindo. Flaviana não fazia ideia do quanto era precioso ouvir um ‘te amo’ nesse momento. Tudo parecia tão difícil, um fardo pesado demais para se carregar. Sofia contava com o retorno da amiga para ajudá-la, mas o adiamento disso só a deixou mais para baixo.

POV Sofia ON

Eu fiquei me revirando por um bom tempo na cama. O tédio de sempre me fazendo suspirar além do normal... O curioso é que nada anda normal. Eu não estou normal, eu acho. Não é normal sentir o que eu sinto ou pensar nas coisas que eu penso. Não é normal a sensação de vazio e ausência. Não é normal a tristeza, a melancolia. Segundo Mário Quintana (Sim, eu sei quem ele é. E até gosto bastante das coisas que ele escreveu) melancolia é uma forma romântica de se estar triste. Mas quando o ‘estar’ torna-se ‘ser’? Quanta tristeza alguém pode suportar? Passar pelo o que eu passei te faz repensar certos pontos da sua vida. Análise reflexiva de atitudes não combina comigo, mas é o que tenho para me ocupar.

POV Sofia OFF

Sofia saiu da cama e deixou o quarto. Seguiria a sugestão de Flaviana e iria a cozinha tomar um chá para quem sabe assim espantar os maus pensamentos e dormir melhor.

“Chá acalma, mas só amor de mãe conforta!” sempre dizia sua mãe. Ela sorriu, um sorriso fraco, enquanto chegava no topo da escada, Vera era tão protetora. A garota adoraria que ela fosse sua mãe de verdade, talvez se compartilhassem do mesmo sangue, ela poderia ter certeza que tinha um pouquinho da bondade da mulher nela.

– Ah, passa a pipoca pra cá!

– Vitor, seu morto de fome, deixa para gente!

– Giovanna e Vitor, parem com isso!

A voz enérgica/carinhosa de Ronaldo fez a garota parar no primeiro degrau superior para observar. Na sala, toda a família estava reunida: o padrasto e a mãe abraçados sentados no sofá. Pedro no do lado dos dois, recebendo cafuné de Vera, Anita e Ben conversando sobre alguma coisa... Giovanna, Vitor e a tia Luciana assistindo um filme. Todos juntos como uma verdadeira família. A família que era a dela e ao mesmo tempo não era. Com o coração desarmado, ela ficou lá vendo o entrosamento, as brigas tão típicas, a felicidade que eles sentiam em estarem próximos. Ela quis poder ser igual a eles, sem medo, sem receio de não se encaixar, mas ela sabia que era tarde. Ela não cabia ali, ela destoava de todos. Sofia não fazia falta para nenhum deles.

Sem ser notada, ela regressou para o quarto. Sofia desistiu do chá... Desistiu de outras coisas também.

– X –

– Giovanna, você sabe se a Sofia já foi para o colégio? – Questionou Vera retirando a mesa do café da manhã.

– Ela ainda tá no quarto – Respondeu Anita pegando uma fruta e guardando na bolsa.

– Hey, ela vai matar aula? Só ela pode, é? – Indignou-se Giovanna com o mau humor de sempre.

– Não sei, só que eu to atrasada demais para me preocupar com a frequência escolar da minha irmã. Tchau, mãe.

– Ah, Vera isso não é justo! Eu também ia adorar ficar na cama ate mais tarde, mas não, to aqui pronta para a tortura que é a escola.

– Tudo bem, eu já entendi seu ponto de vista. Você pode ir agora, eu vou acordar a Sofia antes que ela perca a aula.

A ruiva tentou protestar, mas o olhar repreensivo de Vera a fez ficar calada e marchar para a saída. Suspirando pesadamente, a mulher seguiu para o quarto e diferente do que pensava, Sofia estava sentada na cama, e não dormindo como previu.

– Achei que estava dormindo. É melhor você se apressar ou vai perder a aula.

– Eu não vou voltar praquele colégio.

– Não vai? – Vera elevou um pouco a voz, o que era raro – Sofia, eu to me esforçando, eu juro que to tentando, mas você é impossível. Já não basta tudo, agora não quer mais frequentar o colégio, é isso?

– Não é só isso... – Tentou argumentar a garota. A mulher não lhe deu ouvidos.

– Eu não quero saber! Eu já fui muito, mas muito compreensiva e a não ser que você tem um bom motivo para não querer ir para o colégio, você vai sair agora desse quarto e ir assistir aula.

– Por favor, me escuta...

– Não, eu não quero mais ouvir. É uma ordem! Você tem quinze minutos, caso contrário, eu nem sei o que eu faço!

Vera saiu batendo com força a porta. Ela estava no seu limite, não podia mais ser tão complacente como vinha sendo com a filha. Sofia precisava entender que a vida tinha regras e que a vontade dela não seria posta em primeiro lugar. Ser mãe era mais do que apenas amar e cuidar, ser mãe era educar também. E já estava mais no que na hora da menina aprender isso.

Quinze minutos depois, Sofia apareceu na sala. Ela vestia uma calça jeans um pouco velha, uma camisa xadrez azul de mangas compridas que ela dobrou até os cotovelos e tênis all star surrado. O cabelo estava preso numa trança frouxa, sem nenhum acessório, nem maquiagem a garota não era à sombra da menina tão interessada em moda de outrora. Ela tinha o olhar perdido, o semblante cansado, mas Vera não se preocupou com isso. Sofia sabia ser dramática quando queria, e já havia decepcionado tanto a mãe... O que Vera não sabia é que a garota não estava representando.

– Eu conversei com seu pai... Ele concordou com você ir ficar com ele na Barra.

– O quê?

– Eu finalmente entendi que você não gosta do Grajaú e que se sente mal nessa família. Sofia, eu... Eu e o Caetano concordamos que talvez seja bom para você se afastar um pouco. Não é por muito tempo, só até você se sentir melhor – Vera falava sem olhar diretamente para a menina, pois sabia que não teria forças para deixar a filha partir, embora fosse o que ela quisesse – Ele e a Bernadete foram viajar esse final de semana, mas segunda quando você voltar da aula, ele vai passar aqui para te buscar. Seria bom você organizar tudo o que for precisar.

“Ela tá me mandando embora...”.

Sofia engoliu em seco o choro, as palavras não ditas rasgando sua garganta. Sem dizer nada, pegou sua bolsa e saiu. Foi para o colégio, o pior lugar para ela naquele momento, mas que diferença faria? Poderia ainda ser pior? Ironicamente, ela pensou que sim.

– X –

– Noticias da sua mãe?

– Sim. Ela voltou para casa, e pelo o que o Hernandez disse, ela parece estar bem... Por enquanto, pelo menos. Confesso que eu tava muito preocupado, ainda mais agora com essa história de o Antônio vir para o Brasil.

– Por quê? Ele pode causar problemas?

– Não, não... Não sei. Ele é filho da ex do Hernandez, mas eu o considero como um irmão, mas sei muito bem do gênio dele. Perdi a conta das vezes que vi o Hernandez tendo que livrar ele de enrascadas.

– Se é assim... Será que foi uma boa ideia aceitar ele vir lá para casa? Não que eu me oponha, mas se ele é tão problemático... Se bem que em matéria de pessoa com problemas eu já to diplomada, vide minha irmã que não me deixa mentir.

– Esquece, Anita. Vai dar tudo certo, você vai ver. Eu prometi ao meu padrasto que daria um jeito no meu irmão e é o que eu vou fazer. Quem sabe uma mudança de ares não seja o que ele precisa?

– Se você diz... Quando é que ele chega?

– O Hernandez não disse, mas acho que é só o tempo dele conseguir o dinheiro da passagem.

– Sendo assim... – Solidarizou-se Anita com o drama do garoto.

Ela entendia mais que ninguém o que era querer ajudar um irmão e o quanto isso podia ser difícil. Ela só esperava que o ex tivesse mais sorte do que ela teve com Sofia. Olhando para o lado, Anita avistou Serguei e pensou em ir conversar com ele, mas eles não se falaram mais desde o beijo que eles trocaram, então ela desistiu da ideia.

– Tá tudo bem, Princesa?

– Tá... É melhor a gente ir para a aula.

– X –

– Por que vocês não resolvem logo isso, hein? Já tá chato esse clima!

– Não sei do que você tá falando, Júlia... – Desconversou Serguei.

– Ah, negue, tudo bem! Eu é que não vou mais insistir.

A garota saiu andando chateada e o jovem se recriminou por isso. Recostando-se na parede, ele suspirou pesadamente olhando em volta. Foi quando viu Sofia, ou o que parecia ser a ‘irmonstra’ vindo pelo corredor. Antes que ela se aproximasse de onde estava, duas outras jovens a interceptaram.

– Olha só, mas quem diria hein? Sofia num look favelada! – Debochou Amanda. Serguei sorriu sem graça, preparado para o revide da loira... O que não aconteceu.

– Além de brega, ela ficou muda! – Ironizou a outra. – Acho que agora que ela descobriu que é do ‘núcleo pobre’ da família, resolveu ocupar seu lugar de direito... Uma pobre coitada, tirada sabe-se lá de qual buraco!

O ruivo estranhou a apatia de Sofia que nada disse nem fez para se defender. Somado ao estranhamento, ele sentiu algo muito semelhante à culpa, já que foi o responsável pela ‘divulgação’ da origem da garota. A gota d’água para Serguei foi quando as duas empurraram Sofia no chão: era a hora dele intervir.

– Por que vocês não procuram uma coisa melhor para fazer, hein? Cuidar dessas pontas duplas ou retocar essa raiz para ainda fingirem que são loiras naturais.

– ‘Qualé’ Serguei, vai defender essa daí?

– Eu defendo um bom tratamento capilar para vocês duas, aproveitem a promoção do meu salão, mas corram que é por tempo limitado e como eu sei que dinheiro não é o forte das duas...

Amanda e a amiga foram embora, indignadas. Serguei estendeu a mão a Sofia, mas ela o ignorou e levantou-se sozinha, recolheu a bolsa, deu-lhe as costas e começou a andar. Ele a seguiu.

– Pensei que fosse acabar com aquelas duas, mas pelo visto... Qual é a sua dessa vez? Resolveu encarnar o papel de vitima? Acho que isso não combina com você, Sofia.

A loira apenas olhou para ele de relance alguns instantes transparecendo grande cansaço e ainda em silêncio, entrou na sala de aula.

– Maluca... – Disse o ruivo indo para a sala do 3º ano.

Notas finais
*-* Mereço reviews? Espero que sim! Até sexta! XD