Era Uma Outra Vez...
54 Namoro?
Notas iniciais
— Você também é muito importante.
Sofia passou os braços ao redor do pescoço de Serguei e lhe agraciou com um grande sorriso. Inconscientemente, o fitava de uma forma terna à medida que sentia seu interior ser invadido por uma emoção inexplicável. E pensar que semanas atrás, os dois mal podiam permanecer num mesmo local, e agora estavam um nos braços do outro trocando declarações apaixonadas.
— Sou?
— Uhum... – Serguei roça os lábios no pescoço de Sofia fazendo-a soltar um gemido baixo. – Muito.
— Eu aposto como você diz isso pra todas.
— Não todas... quase todas. – Sofia empurra o ruivo e dá um tapa de leve peito dele. – Hey, olha a violência mulher! – Serguei ri da cara irritada dela o que a deixa ainda mais furiosa.
— Se você continuar com essas gracinhas será um ruivo morto!
A loira se afasta de Serguei, mas ele a puxa de volta fazendo-a colidir contra o seu corpo. Ele a encara com um sorriso sedutor ao deslizar uma mão pela lateral do corpo feminino precariamente envolto pelo lençol. Sofia tentou resistir, mas aquele maldito sorriso a irritava na mesma medida que a desarmava, pensou com resignação
— Vamos começar de novo? – Sofia acena afirmativamente a contragosto. – Você é muito importante para mim e não, eu não digo isso para todas.
— E eu devo acreditar por quê?
— Hum... porque... – Serguei perde a expressão risonha e fica sério de repente. A loira franze a testa estranhando a mudança súbita. – Vai ser difícil manter um namoro se minha namorada não confia em mim.
Sofia fitou Serguei em silêncio por alguns longos segundos. Ela franziu a testa e balançou a cabeça julgando não ter escutado bem. Namoro? Não poderia, poderia? Pensou com um riso se formando na garganta e que logo morreu ao perceber a expressão ansiosa do ruivo.
— O que você disse? – Sofia mordeu o lábio inferior quase o ferindo. Ela não havia escutado errado. – Namoro?
— Você não devia parecer tão surpresa. Não depois de hoje.
— Eu... – Ela interrompeu-se sem saber ao certo o que falar.
Apesar de próximos, sentia que sua reação o afastou em algum nível. Sofia admitia ser culpa sua, mas o que ele esperava? O que ela esperava? Questionou-se com raiva. O sinal de alerta disparou em sua mente e mais do que nunca, ela precisava retomar o controle e parar de agir como uma menina assustada, mesmo que ela o fosse no momento.
— Desculpe-me se feri seus sentimentos!
Sofia tentou debochar, mas o tremor na voz denunciava o seu nervosismo. Se afastou dele e caminhou até o quarto. Sua consciência gritava que estava sendo irracional e ela que não tinha motivos para afastá-lo, mas a outra Sofia, aquela cética e irônica, havia tomado conta da situação. E nada do que Serguei dissesse nesse momento a faria confiar nele. Talvez ele sequer tivesse a intenção, pensou ao vê-lo parado na entrada do quarto.
Os olhos do ruivo a fitavam diretamente como se pudessem ver através dela. Sofia engoliu em seco, muito próxima do seu limite emocional. Aquele não era uma simples olhar e ela não seria idiota de fingir que não entendia o recado que ele carregava. O problema é que ela não queria conversar e pensar num futuro que envolvesse os dois. Sofia só desejava ser abraçada por ele como há instantes e deixar qualquer discussão para uma outra hora. E não ter que encarar aquela tensão que pairava entre os dois naquele momento. No entanto, antes que algo fosse dito o celular de Sofia tocou.
— X –
Sidney tragou mais uma vez o cigarro tendo a visão embaçada pela fumaça do mesmo. Na mão direita, tinha uma garrafa de cerveja quase vazia. Ele havia tomado algumas cervejas e fumado alguns cigarros e estava pronto para deixar a festa. Foi quando a viu sair do elevador e se encaminhar para a saída do hotel. Um sorriso malicioso brincou no rosto do rapaz ao seguir lentamente pelo mesmo caminho que Flaviana
— X –
“Amor é só uma desculpa...”
Flaviana fechou os olhos e abraçou o corpo quando foi atingida pelo frio da noite. Enquanto esperava a sua motorista, as palavras maldosas de Amanda ainda lhe feriam a mente e o coração. E foi impossível não aceitar que aquela era uma verdade da qual não poderia mais fugir. Durante muitos anos de sua vida, ela buscou incessantemente o amor que sempre lhe negaram. Desde muito cedo, ela como filha de pessoas ocupadas e egoístas, lutou para sentir-se amada quando nem sequer sua existência era notada.
Lembrou-se da infância solitária quando ela era deixada aos cuidados dos empregados e babás. Não que isso tenha sido ruim, pois poderia dizer que se sentia na maior parte das vezes mais acolhida pelos funcionários do que pelos próprios pais. Eles foram os estranhos em sua vida enquanto ela construía vínculos com pessoas simples, porém repletas do mais sincero carinho... ou pena. Flaviana via agora que o que achou serem emoções verdadeiras talvez apenas mascarassem a compaixão para com ela. A expressão “pobre menina rica” definia sua vida até então.
— Indo embora, Patricinha?
Flaviana sentiu o corpo tenso pelas palavras. Apesar de estar de costas para ele, conseguia identificar a voz, agora um pouco embriagada. Em qualquer outra situação teria brigado com Sidney e lhe dito coisas nada gentis... mas não hoje. Não tinha mais forças para uma nova batalha. Ela apenas queria ir para casa onde sabia que ninguém a incomodaria. O que mais desejava nesse momento era ficar sozinha... como, afinal, sempre esteve.
— O quê? Não vai falar nada? – Sidney estranhou o silêncio de Flaviana. A “Patricinha” que sempre teve uma resposta para as suas provocações parecia ignorar sua existência. Enganado sobre os motivos da garota, ele forçou-lhe o braço para que a morena o encarasse. – Tá me achando com cara de idiota?!
A pressão da mão do loiro no braço machucado fez Flaviana gemer involuntariamente alertando-o sobre o ferimento. Sidney abrandou o toque, mas não a soltou. Buscou os olhos azuis, agora marejados, enquanto ensaiava um pedido de desculpas.
— Eu não... não... – A voz saia arrastada por causa da bebida. E embora não estivesse muito sóbrio, aceitava que não tinha o direito de agir estupidamente com ela. – Quis machucar você.
— Não? – Flaviana o encarou sentindo as lágrimas escorrem por seu rosto. Ela própria não se sentia melhor que Sidney, as recordações do último encontro a perturbando. – Então você deve ser o único! Mas como você mesmo disse... “quem aguenta uma garota como eu?”... Eu descobri a resposta: ninguém!
Ela tentou se afastar com a visão nublada pelas e tropeçando nos saltos, mas foi cuidadosamente agarrada por Sidney. O loiro não entendia porque havia feito aquilo, mas a viu tão transtornada que não pode se manter impassível. A garota arfou surpresa enquanto era abraçada pelo loiro e apesar de aquele ser o último ombro sobre o qual queria chorar, ele foi muito bem-vindo para receber suas lágrimas. Mais uma vez lá estava a compaixão que ela despertava nas pessoas e nada além disso. Flaviana odiava-se por ser tão fraca e o odiou por ele ser a única pessoa com quem podia contar no momento.
— Eu preciso ir para casa.
— X –
— Bom, pelo menos sabemos que ela está bem.
— Eu me sinto tão culpada.
— Ai, não fala assim Sweet! – Otávio repreende a amiga. – Se eu soubesse que mais atrapalharia do que ajudaria, nesse momento, estaria aí contigo.
— Não se preocupa... – Sofia tentou desconversar. – Te vejo amanhã?
— Sim, claro! Bons sonhos com seu ruivo!
Sofia ficou olhando para o celular depois que Otávio desligou. Sem a voz do amigo, o quarto pareceu de repente muito silencioso. Serguei tinha deixado ela sozinha para conversar com Otávio e não deu mais nenhum sinal. E embora a loira tenha sentido alivio pelo adiamento da discussão dos dois, ela aceitava que a “pausa” não poderia durar mais tempo. Talvez fosse melhor ela dar o primeiro passo, cogitou enquanto prendia o robe sobre a camisola preta que substituiu o lençol. Porém, contrariando a intenção de procura-lo, Sofia acabou seguindo em direção a uma poltrona.
A loira sentou-se e apoiou os pés sobre uma mesinha próxima. Não era o lugar mais confortável, mas a simples ideia de voltar para a cama vazia a deixava triste. Não queria aceitar que a noite terminasse daquela forma. Ao mesmo tempo, não tinha coragem de enfrentar Serguei. Sem muita escolha, de olhos fechados, tentou relaxar e liberar a tensão do corpo. Já sentia a velha companheira de sempre, a dor de cabeça, dando sinais de que viria visita-la aquela noite e antes que tudo ficasse pior, era melhor dormir.
Sofia estava quase adormecendo quando Serguei no quarto. Ele não fez nenhum barulho ao se aproximar da loira e observá-la. Por um instante, o ruivo esqueceu a frustração que sentia até então e se concentrou apenas em admirá-la. Os cabelos loiros estavam presos em coque no topo da cabeça e o robe caia displicentemente pelo braço deixando à mostra o decote da camisola, o peito descendo e subindo de forma rápida. A visão da garota fez Serguei sorrir cinicamente por saber exatamente que ela fingia dormir.
— Sofia? – Chamou-a, mas ela não respondeu. – Você tá dormindo?
Sofia quase cedeu a vontade de abrir os olhos, mas resistiu. Era vergonhoso e ela estava sendo covarde, mas preferia isso a ter que encarar o semblante sombrio do ruivo. Serguei deveria estar cansado de suas atitudes e ela não o culpava. Sofia também estava cansada.
— Você pode querer não falar comigo, mas não precisa dormir na poltrona por causa disso.
Serguei riu baixinho ao ergue-la e caminhar com ela nos braços até a cama. Sofia sentiu o rosto esquentar de vergonha por ser pega fazendo algo tão infantil. Ela abriu os olhos quando ele a deitou na cama, mas não falou nada.
— Melhor? – Serguei sorriu para ela, mas a loira notou certo esforço do ruivo para isso. Ele não queria piorar a situação, pensou com pesar. – Não vou te incomodar mais.
Serguei fez menção de se afastar, mas Sofia o agarrou pela mão.
— X –
Flaviana entrou no apartamento. Tudo estava silencioso, mas ela podia ouvir os ecos dos próprios pensamentos. Ignorando a presença de Sidney logo atrás dela, retirou os sapatos e caminhou pela sala. Parou em frente a porta retrato posto em destaque na estante. “A família perfeita”, disse em pensamento sentindo seu estomago embrulhar em resposta. A foto com os pais parecia gritar “mentira” para quem a olhasse. Afinal, eles sequer eram uma família. Num impulso, atirou o objeto contra a parede vendo o vidro se estilhaçar e cair no chão. Era um gesto vazio, admitiu enquanto observava os pequenos cacos.
— Esse barulho não vai acordar ninguém não?
— Não tem ninguém... os empregados estão de folga. – Flaviana se voltou para Sidney o encarando pela primeira vez desde que deixaram o hotel. Aquela noite era tão irreal, mas ele estar ali lhe transmitia alguma normalidade. – Mas não importa.
Não, não importava realmente. E a certeza desse fato a fez ficar ainda mais deprimida. No entanto, ela não choraria e não na frente de Sidney. Ele ainda era o cara tosco perdidamente apaixonado por Sofia. Se por acaso ele viesse a saber sobre o “segredinho” da sua amiga, ela não tinha dúvida de que o loiro encontraria uma forma de defender Sofia.
— Você pode ir embora.
Sidney assentiu e saiu em silêncio. Flaviana suspirou quando ficou sozinha e apesar do seu esforço, não conseguia mais segurar as lágrimas. Sua vida estava uma bagunça e ela sequer tinha alguém em que se apoiar, mas não se lamentaria. A passos lentos, a morena foi até os cacos de vidro do porta-retratos e abaixou-se para recolhê-los. Era a sua bagunça e nenhum dos seus empregados era obrigado a lidar com ela. Por mais magoada que estivesse, não poderia mais contar com a compaixão das outras pessoas. Pensando nisso, ela ficou tão distraída que não notou que segurava os cacos de vidro com força e feriu a mão.
— Será que ‘Cê’ pode me chamar... – Sidney se interrompeu ao notar o sangue escorrendo pela mão de Flaviana.
– X –
— Fica... – Sofia suspirou pesadamente. – Não faz sentido você ir para outro lugar.
— Muitas coisas não fazem sentido agora.
— Muitas coisas não fizeram sentido antes, mas aqui estamos, não é?
Sofia tentou sorrir com confiança, mas estava longe de senti-la. Era a primeira vez que Serguei se afastava dela, não apenas fisicamente, mas também emocionalmente. Ela não era idiota para ignorar a postura fria por detrás da atenção dele. E perceber isso fez um outro alarme soar em sua mente.
— Sobre antes... Desculpa. – Sofia levantou-se e ficou frente a frente com Serguei. – Eu falo coisas idiotas sem pensar. E atuo de maneira irracional quando sou tirada da minha zona de conforto.
— Eu fiz isso?
— O tempo todo. – Sofia segurou com mais força a mão dele. – Eu realmente acreditei que poderia levar o que temos dentro dos meus termos. E que não importasse o que acontecesse, ainda seria confortável para mim. Eu ainda teria segurança sobre quem eu sou.
No fundo, Sofia se preparava para o fim antes mesmo do começo. Foi o que ela disse a Sidney uma vez sobre afastar as pessoas por medo de perde-las. E agora, diante da possibilidade de perde-lo, Sofia não via motivos para se proteger. Talvez desse tudo errado e ela acabasse muito mal. Talvez o que ela sentisse a consumisse em algum momento. No entanto, dessa vez, ela não fugiria ou ergueria seu muro: ela sofreria as consequências. Todas elas.
— Só que você não entendeu isso... Desde o início, me desafiando e me fazendo sentir coisas que eu não deveria sentir. – Confessou num sussurro. – E não importa o quanto eu tente escapar, eu sempre acabo voltado para você.
— Não fuja.
Serguei a puxou para ele. E como sempre acontecia, o beijo que deram foi inevitável. “Palavras dizem alguma coisa, mas o corpo não mente”, pensou Serguei enquanto fundia-se a Sofia. Não era a primeira vez que se esforçava para entende-la e certamente não seria a última, mas apesar dos altos e baixos, ele não poderia resistir ao que sentia. Sofia não era a única a lutar, mas a sua luta era para mantê-la com ele.
— Eu não sei o quanto vai durar. Eu não sei se nós vamos conseguir lidar com os nossos medos... tudo o que eu sei agora é que eu sinto que amo muito você. E se você sente o mesmo, não existe sentido em me manter afastado.
— Você disse que muitas coisas não fazem sentido.
— Não me importo que não faça.
Mais uma vez as lágrimas se formaram nos olhos de Sofia. Dessa vez, por perceber que mais uma vez, ela era a única a criar obstáculos. E isso quando já tinha decidido se entregar a ele. No fim, embora ela tenha se empenhando muito, Serguei continuava ali dizendo e fazendo coisas que arriscavam sua segurança emocional. E era tão injusto, pensou, para ambos, quando tudo o que precisavam era um do outro.
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