Era Uma Outra Vez...
61 Meu namorado!
Notas iniciais
— SYDNEY!
Sydney escutou a mãe praticamente berrando por ele da sala. Ele pensou em ignorar o chamado e fingir que não estava em casa, porém tinha que lidar com um grande problema que estava no banheiro há quase meia hora. Já podia prever o ataque da Maura caso descobrisse sobre a presença de Flaviana em sua casa. Não que ele se importasse, mas estava de saco cheio para dar algum tipo de explicação para quem quer que fosse.
— Sydney, seu moleque, não está me escutando?
Derrotado, o loiro deixou o quarto e seguiu pelo corredor. Ele ouviu o som do chuveiro ligado e pensou que talvez Flaviana estivesse decidida a acabar com a água da cidade. O que, com certeza, foi uma péssima ideia, porque imaginá-la sob o chuveiro era um incentivo que seus hormônios não precisavam para entrarem em ação. No topo da escada, viu Maura ao telefone conversando com alguém na sala.
— Eu já disse, ele não faz questão de falar com você! – A mulher fez uma pausa enquanto revirava os olhos, impaciente. – Eu não tenho culpa se você esteve ocupado demais nos últimos anos para lembrar que tinha um filho.
O rapaz não demorou a compreender com quem a mãe discutia. Era a quinta ligação do pai em menos de uma semana. Ao que parecia, depois de anos de silêncio, ele por algum motivo resolveu retomar o contato com a antiga família. Contrariado, Sidney recostou-se à parede e cruzou os braços na altura do peito. Em nenhuma das vezes ele quis atender o pai. Não por não ter o que dizer, muito pelo contrário, ele tinha um sem número de acusações guardadas por muito tempo. Entretanto, agora que tinha a oportunidade de expressá-las ele simplesmente não encontrava um sentido para tal. Como se de alguma forma a raiva tivesse se abrandado e no lugar que ela antes ocupava surgisse um sentimento mais denso e obscuro.
— Muito fácil me cobrar algo agora! Eu fiquei com toda a carga desde que você foi embora.
O loiro deixou escapar um sorriso torto pela declaração “carinhosa” de Maura. Não era um segredo que sua presença não agradava e que ser responsável por ele não era uma das alegrias da mãe. Eles eram um para o outro a família mais próxima ou o que sobrou dela, mas compartilhavam de uma relação vazia de afeto.
— OK! Já entendi... eu preciso sair agora, tenho um compromisso com amigas.
— X —
O banho gelado não adiantou muito, pensou Flaviana. Seu corpo ainda estava quente e ela sentia a garganta irritada provavelmente por causa chuva e do frio que passou. Era um péssimo momento para ficar doente, quando mal podia contar com ela mesma pra se virar por conta própria. A morena olhou para o pijama jogado no chão e inutilizável. Ela não tinha sequer o que vestir, constatou tentando não entrar em desespero. De repente, a porta do quarto foi aberta de supetão, por onde entrou um Sidney nada feliz.
— Pelo amor de Deus, você pode bater na porta antes de entrar? – Reclamou a garota constrangida segurando a toalha fortemente ao corpo. – Eu poderia estar trocando de roupa!
— Esse é o meu quarto e eu entro na hora que eu quiser nessa droga! Se não gosta das coisas como são, pode muito bem ir embora.
As palavras foram ditas com tanta rispidez que assustaram Flaviana. A morena levou algum segundos para processar toda a antipatia, até mesmo raiva, que Sidney direcionava a ela. O clima tinha mudado completamente entre eles e não existia nenhum sinal de que melhoraria.
— Eu deveria fazer isso! – Sussurrou com os olhos marejados.
— Não tô vendo ninguém te prendendo aqui!
— Eu não posso sair só de toalha... – Desviou os olhos dele e fitou o próprio corpo. – Eu também não tenho dinheiro.
Ela também não tinha nenhuma vontade de ficar ali, mas que escolha tinha? No entanto, depender de Sidney não dava o direito de ele ser estupido com ela. E por mais que ela quisesse jogar-lhe isso na cara, estava intimidada por ele. Sidney não lembrava em nada o cara que a defendeu da mãe e não escondia sua insatisfação pela sua presença. O olhar gelado em sua direção quase a fez tremer, apesar da febre.
— Não tenho para onde ir. – Flaviana admitiu a derrota. Estava cansada e doente, não tinha nenhuma energia para brigar com quem quer que fosse. – Você é a única pessoa que sabe o que aconteceu e que não posso voltar para casa.
Apesar da confissão emocionada, Sidney não demonstrou emoção diante da situação da garota. Para ele, ela era somente um problema do qual desejava se livrar ao invés tê-la desfilando pelo seu quarto de toalha. Incomodado, o loiro pegou a primeira peça de roupa que encontrou – uma camisa xadrez roxa – e a arremessou praticamente no rosto de Flaviana que segurou o tecido com dedos trêmulos.
— Sendo assim, você depende da minha boa vontade e, portanto, deveria ser mais grata por ter onde ficar!
— Eu... – Flaviana não conseguiu segurar as lágrimas enxugando-as rapidamente com o encosto da mão. – Não vou incomodar você.
— É o que eu espero, porque a única coisa que você fez foi me dar trabalho e encher a droga do meu saco! Eu já tenho problemas suficientes para ainda por cima ter que bancar ser tua babá.
Os dois se encaram por um tempo até a garota desviar o olhar. Ela sentia-se horrível e não tinha nada a dizer para argumentar contra a crueldade de Sidney. Outras lágrimas vieram, tão silenciosas quanto as primeiras, acompanhadas de um sentimento de resignação. Afinal, ele não lhe devia nada e eles não eram amigos para que ele se preocupasse se suas palavras a magoavam ou não. Ela sempre havia sido um estorvo para todos, por que seria diferente com Sidney? Pelo canto do olho, observou-o deixar o quarto e fechar a porta com um estrondo forte. Derrotada, a garota sentou-se na cama e chorou por causa das coisas ruins que aconteceram em sua vida.
— X —
— Então foi isso!
Sofia fitou o irmão ainda indecisa se seria uma boa ideia ou não falar para ele sobre seu namoro com Serguei. Com esforço e a ajuda do garoto, a loira retomou o controle e com a ajuda e agora estava mais calma. Minutos depois, até conseguia ter certo distanciamento de si para analisar suas emoções em relação ao namorado. Sim, ela o amava. Muito mais do que imaginou amar alguém e talvez por isso também estivesse tão magoada com ele.
— Você acredita que ele te contaria a história se não tivesse escutado?
— Eu queria dizer que não, mas eu acredito sim.
— Mas não pode perdoá-lo?
— No momento, não. – A loira se jogou sobre a cama puxando Pedro para perto. Ficaram algum tempo em silêncio aproveitando o contato um do outro proporcionado pelo abraço. – Eu não sei o que vai acontecer daqui pra frente... era mais fácil quando só existia nós dois, me entende? Eu nunca me importei em ter a aprovação de ninguém e talvez tenha cometido mais erros do que é permitido e não posso esperar que não julguem o que sinto por ele.
— Ninguém deveria ter seus sentimentos questionados! – Irritou-se Pedro. Apesar da grande inteligência, o menino não compreendia como aquela questão podia ser levantada. – Não é justo!
— E você fala isso pra mim? – Murmura a loira, magoada. – Pode não ser justo, mas deve ser exatamente o que está acontecendo com ele agora.
Sofia aceitava, ainda que relutante, que Anita e Júlia seriam contra a sua relação com o ruivo. E com certeza elas não seriam as únicas a encontrarem motivos para julgarem as suas intenções com ele.
— Eu briguei com minha melhor amiga e os amigos dele não gostam de mim. E embora ele não admita, eu sei que as opiniões deles são muito importantes.
— E você não quer colocá-lo numa posição difícil. – Concluiu o menino, perspicaz.
— Mais ou menos isso. – Ela concordou, sincera. – Eu sei que talvez seja inevitável, mas não quero que ele tenha que escolher, sabe?
— E por que ele teria que escolher?
Ela pensou por um momento na pergunta, mas não conseguiu formular uma resposta. O medo da loira é que aquela questão se tornasse inevitável e, caso Serguei ficasse entre ela e os amigos, ele não a escolhesse. Não suficiente, a dor de cabeça sentia apesar de não ser tão forte, a fazia se sentir estranha e com o raciocínio lento. A verdade é que não queria pensar no que Serguei faria. Embora ele tenha afirmado mais de uma vez que lutaria pelo que eles sentiam, isso foi antes de Júlia lançar a bomba em sua cabeça e ela descobrir que qualquer relação entre os dois começou com o ruivo querendo proteger Anita. A irmã que tinha todos ao seu lado. Alguém por quem um dia ele foi apaixonado e que, bem ou mal, representava muito para ele.
— Eu não sei... – Admitiu por fim. Sentou-se na cama e foi imediatamente acometida por uma tontura. – Mas o qualquer coisa que aconteça daqui para frente... não foi planejado.
O celular tocou interrompendo a conversa dos irmãos.
— X —
— Talvez vocês não tenham entendido. – Serguei fitou as duas garotas com expressão séria. – Eu não tenho nenhuma intenção de me afastar da Sofia.
— Eu pensei que vocês tivessem rompido. – Júlia deixou o pensamento escapar atraindo a atenção do ruivo para si. – Eu quero dizer... depois do que aconteceu.
— Ela está chateada comigo e não tiro a razão para tal, mas isso não quer dizer que vamos terminar por causa disso.
— É tão sério assim? – Questionou Anita surpreendida pelas palavras do amigo. – Pretende mesmo levar essa... relação adiante?
— Se você quer saber se eu pretendo continuar meu namoro com sua irmã, a resposta é sim.
Júlia e Anita entreolharam-se sem conseguirem falar nada. Serguei estava mais do que decidido a levar aquela história maluca adiante mesmo com tantos argumentos contra. No entanto, antes que tivessem uma chance de persuadir o amigo sobre o erro que estava cometendo, Benjamim chegou ao casarão encarando os três com grande irritação.
— O que esse cara tá fazendo aqui? – Exaltou-se Ben. – Ele não é bem-vindo!
Serguei fitou o rival abertamente não escondendo o desprazer em encontrá-lo. Pouco lhe importava se o príncipe era o namorado de Anita, o ruivo não estava disposto a ceder. Não depois do que o outro fez a Sofia.
— Ben, o Serguei é meu amigo e nós estávamos conversando. – Explicou Anita, apreensiva. – Não precisa disso!
A tensão entre os dois era tão grande ao ponto de deixar as duas garotas em estado de alerta sobre um provável confronto. E os hematomas que ambos tinham no rosto era só uma amostra do quanto as coisas poderiam sair de controle como na noite passada.
— Não quero ele na minha casa!
— BEN!
Espantada, a princesa se pôs entre o namorado e o amigo. Júlia aproximou-se de Serguei por segurança, mas nem a presença delas parecia surtir efeito no momento. Ben e Serguei encaravam-se com hostilidade do tipo reservada apenas aos inimigos. Bastaria uma pequena faísca no ambiente para levar tudo pelos ares.
— X —
— Entendi. Quando você volta?
— Tenho outra reunião marcada... – Otávio ficou em silêncio alguns segundos culpando-se por omitir informações de Sofia. – Não sei se nos veremos tão cedo, Sweetie.
— Por que não? O que tá acontecendo, Otávio? Você viajou às pressas para São Paulo, a Fla sumiu... – Sofia não foi capaz de esconder a emoção na voz. Em poucas horas seu mundo tinha virado do avesso e não dava indícios de que voltaria ao normal. – O que eu faço?
— Amor, são... temas complicados. Eu não quero que se preocupe.
— Você não pode esperar que eu não me preocupe apenas dizendo para eu não me preocupar! – Reclamou entre lágrimas. – Está tudo dando errado, Otávio! Primeiro a Flaviana, depois o Serguei e agora você!
— O que aconteceu com seu ruivo? – Indagou o rapaz, preocupado. – Vocês estavam bem, ontem.
Sofia suspirou pesadamente enquanto enxugava as lágrimas. A medida que o tempo passava, os acontecimentos adquiriam uma carga emocional maior do que ela julgava suportar e não ter nenhum dos amigos perto a deixava ainda mais vulnerável. No fundo, ela só queria que tudo ficasse bem e que esse dia horrível chegasse ao fim.
— Nós... – Entretanto, antes que dissesse algo ao amigo ela ouviu vozes alteradas vindo da sala. – Desculpa, acho que está rolando algo sério aqui em casa. Te ligo depois.
Sem esperar por uma resposta, Sofia desligou o telefone. Pedro acabara de cair no sono e ela rapidamente deixou o quarto seguindo pelo corredor. No caminho, distinguiu as vozes exaltadas: Serguei e Ben. Saber disso jogou uma descarga de adrenalina em seu corpo fazendo-a apressar o passo.
— Eu já falei pra você cair fora! – Gritou Benjamim avançando sobre o ruivo.
— Por que não me tira daqui, então? – Questionou Serguei, com sarcasmo. – Ou você só age com violência quando se trata de uma mulher?
Sofia chegou à sala no momento exato em que Ben socou Serguei e este cambaleou alguns passos para trás com o impacto. Anita, numa tentativa de conter o namorado, se pôs à sua frente ao passo que Júlia puxou o ruivo pelo braço. No entanto, nenhum dos dois estava disposto a desistir daquele embate.
— O que você sabe sobre o que aconteceu?! – Indignou-se Ben, transtornado. Ele era a própria imagem da fúria. – Não era assunto seu!
— Ele sabe o que eu falei para ele! – Intromete-se Sofia parando diante dos dois jovens e encarou Benjamim. – E se tem alguém errado nessa história, esse alguém é você!
— O que você quer dizer com isso, Sofia? – Anita esqueceu por um momento sua preocupação com a briga e focou nas palavras da irmã. – Por que você e o Ben estavam juntos ontem?
— Lamento Anita, mas se quiser saber de alguma coisa vai ter que perguntar para o seu namorado! Embora eu duvide muito que o quer que ele diga seja a verdade.
A loira fixou o olhar mais uma vez em Benjamim de modo desafiante. Ela o viu vacilar por um segundo para logo ser tomado mais uma vez pela ira. Ela tinha inúmeras razões para jogar toda a “merda” no ventilador e deixá-lo experimentar do seu próprio veneno, mas não daria a importância que o príncipe já não tinha em sua vida. Se Anita acreditaria ou não em suas palavras, esse não era um problema seu. E definitivamente, Ben também não.
— A única mentirosa aqui é você! – Atacou-a o príncipe. – Todos nós sabemos disso!
— Olha como você fala com ela, seu idiota! – Exclamou Serguei igualmente nervoso. – Eu sempre soube que você era um covarde, mas não ao ponto de culpar alguém pelos seus erros!
— Não sou eu que estou me escondendo atrás de duas mulheres!
— Não, apenas está acusando uma delas ao invés de admitir ser um grande canalha! Mas não dessa vez, ouviu? Com ela você não se mete!
Serguei também avançou em direção a Benjamim parando apenas quando Sofia se colocou à sua frente. Em meio à confusão, ela fitou-o com um misto de surpresa e admiração. Ele a estava defendendo diante de todos mesmo que a relação dos dois estivesse estremecida. Não que por causa disso ela esperasse que ele se omitisse, mas a bem da verdade no fundo ela também não espera tal reação. Analisando, Serguei apenas tinha presenciado o fatídico beijo forçado e ouvido a sua versão da história. Certamente, nada de concreto que o fizesse acreditar nela. E ainda assim, isso bastou para que ele confiasse no que havia dito. Se não fosse um péssimo momento, Sofia o teria beijado pela alegria que sentia ao dar-se conta da profundidade daquele ato.
— Por que ela te disse? E você acredita?
— Em cada palavra! – Respondeu o ruivo, seguro, olhando nos olhos verdes da garota. – Eu sei quem ela é!
Serguei encarou Sofia e o olhar que trocaram estava cheio de significados. Não eram apenas palavras ditas da boca pra fora, como talvez quisessem acreditar os outros presentes naquela sala. Os dois não se importavam se ninguém mais acreditasse, a verdade que eles compartilhavam era o suficiente.
— Eu também achei que sabia!
A confissão de Ben surpreendeu ao demais, com exceção de Sofia e Serguei. Benjamim, mais uma vez jogava a culpa de seus atos sobre a loira relutando em admitir que ele era o único responsável pelo desenrolar daquela história. No entanto, ela também não facilitaria as coisas para ele.
— Até parece que um dia você me conheceu!
— Ben, por favor! – Interviu Anita incerta se realmente queria descobrir sobre os fatos da festa. – Não deveríamos ter essa conversa assim!
— Pois eu acho que deveríamos sim! – Opinou Serguei nenhum pouco disposto a poupar a amiga. – Quem sabe assim algumas verdades não vêm à tona, não é?
Mais uma vez Ben e Serguei se encararam com hostilidade num desafio silencioso. Estava mais do que claro para todos a natureza da relação do ruivo e Sofia, o que só serviu para acrescentar mais um carga emocional sobre os ânimos exaltados. Preocupada, a loira decidiu encerrar aquela conversa antes que a situação fugisse do controle e Serguei acabasse machucado.
— Pena que vou ter que concordar com minha irmã. – Repreendeu a garota sem deixar transparecer sua apreensão. – Sendo assim, você toma conta do seu príncipe que eu faço o mesmo com o meu namorado!
Decidida, Sofia tomou a mão de Serguei na sua e praticamente o arrastou para longe de Benjamim.
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