Era Uma Outra Vez...
7 Me deixa sozinha!
Notas iniciais
POV Sofia
Saí outra vez, mesmo tendo prometido a Flaviana maneirar nas minhas ‘noitadas’. Em minha defesa digo que pensei realmente em parar um pouco a agitação dos últimos dias, mas ao me ver rodeada pelas paredes do quarto a sensação de encarceramento voltou. Me senti numa prisão, pega numa armadilha... O ar pareceu fugir dos meus pulmões e as lágrimas resurgiram queimando meus olhos... Eu não podia ficar lá. Eu tinha que ir para algum lugar longe de tudo e de todos, onde pudesse me esquecer de tudo o que eu tenho vivido. Primeiro Ben e nosso beijo, e a briga que aconteceu depois. Em seguida a revelação de Giovanna sobre minha origem. Foi como perder o chão de uma vez só, sem nada ao que me segurar, tudo o que sabia e sentia se desfazendo diante de mim sem que nada pudesse fazer. E agora eu tenho que preencher um vazio que nasceu e que já toma conta de mim.
Recebi o convite da festa de um amigo do Martin... Não o conheço bem, mas não liguei para isso. Tudo o que mais queria era um lugar para me esconder e a social dessa noite era perfeita para isso. Fui ate lá, contrariando Flaviana e sua ameaça de me entregar para minha mãe, e como nas noites anteriores, fingi não ter conflitos internos. A maior parte dos convidados era mais velha, mas isso não foi um problema. Há uma certa altura, um cara bonitinho me deu uma bebida e depois que a tomei senti meu corpo leve, meu coração pareceu flutuar... Era tão bom, como se nada pudesse me alcançar. Ele me guiou ate um dos quartos, estranhei, mas não consegui protestar. Já lá, ele veio para cima de mim, tocando no meu corpo, me beijando... E mesmo tendo dificuldades para entender o que se passava, o afastei. Mas ele era mais forte do que eu e de nada adiantou, pedi socorro, mas o barulho impedia que alguém me escutasse.
Ouvi o som de tecido sendo rasgado. Era o meu vestido que aquele animal estava destruindo. Estava perdida, sem ninguém.
“Por que não te escutei Fla?” Me martirizei ao fechar os olhos e esperar pelo pior.
POV Sofia OFF
– Solta ela, seu animal! – Esbravejou Ben arrancando de cima de Sofia o cara que a agarrava – SOLTA ELA!!! – Gritou novamente ao dar um soco no cara que caiu no chão.
Benjamim via tudo vermelho na sua frente, sua mente correndo com mil possibilidades do que teria acontecido a Sofia se ele não tivesse chegado. Só de imaginar as mãos imundas daquele canalha tocando ela... A SUA Sofia.
– Ben? – Falou a garota chorosa sem acreditar na sorte que teve dele vir salvá-la daquele porco nojento – Deus, Ben!
Ela tentou levantar, mas a tontura que sentiu não permitiu que ela saísse da cama. Sofia tentou falar, mas seu corpo não obedecia aos comandos do seu cérebro. Ela viu o momento em que Ben socou novamente o cara que a forçava e este caiu desacordado.
– Sofia?!
– Eu... – Ela chorou sem forças. Ben olhou para a garota, o vestido rasgado e sentiu o gosto ruim de bílis na boca. Quis bater novamente no infeliz que tinha feito isso a ela, mas ele tinha que tirá-la dali. Ele precisava pensar primeiro em Sofia.
– O que foi que aconteceu?
– Ben... – As lágrimas escorriam livres pelo rosto dela.
Penalizado, embora ainda muito furioso por ela ter feito o que fez, Ben pegou-a no colo e saiu do quarto. Ele desceu com cuidado as escadas e foi obrigado a pô-la no chão na presença dos demais convidados. Sofia, com o apoio de Ben, andou com dificuldade e depois do que pareceu uma eternidade, eles conseguiram sair do local. Ele deu um jeito qualquer na roupa dela e após deixarem o condomínio, pegaram um táxi para a casa de Flaviana.
– X –
“02h00min da madrugada e nada dele...”.
Pensou Anita olhando pela enésima vez o seu relógio de pulso. Ela esperava há horas por Ben, mas nada dele voltar de onde quer que ele tenha ido. Houve uma época, que Anita imaginou que isso não aconteceria... Não com ele. Ben era tão bom, um cara tão perfeito... Um príncipe, como ela mesma dizia. Mas nada do que ela sonhou com ele a preparou para essa sensação de perda que sentia agora.
– Cadê você, Príncipe? – Perguntou deixando uma lágrima cair. Cansada de esperar, Anita voltou para casa.
– X –
– Sofia? O que aconteceu com ela, Ben? O que foi que fizeram com minha amiga? – Questionou imediatamente Flaviana ao ver a loira desacordada nos braços do rapaz – Droga, fala alguma coisa!
– Agora não, Flaviana! Ela precisa de ajuda, primeiro. Onde é o quarto?
– Por aqui... Vem, eu mostro.
A morena foi na frente indicando o caminho enquanto Ben a seguia com Sofia desacordada nos braços. Com cuidado, ele trouxe ela para mais perto de si sentindo seu coração inflar num misto de preocupação e culpa pelo estado dela. Durante o tempo que estava no táxi, ela tinha desmaiado e apesar dos seus esforços em acordá-la, Sofia não reagiu o que só o deixou mais apreensivo. Não era normal o que estava acontecendo com ela, se fosse só o álcool ele saberia como lidar, mas sua suspeita de que ela tivesse ingerido algo além da bebida crescia com força dentro dele. E se isso se concretizasse, ele temia o que podia acontecer.
– A coloca aqui, por favor.
Com cuidado, ele colocou a garota sobre a cama. Sofia gemeu e disse qualquer coisa que eles não entenderam, mas não recobrou os sentidos. Ben e Flaviana a olharam, apreensivos.
– Não é melhor levá-la para um hospital? Sei lá, pedir ajuda a tia Vera?
– Não... Desconfio que a doparam e eu posso muito bem imaginar o porquê – Ele olhou para o vestido rasgado dela deixando parte o sutiã a mostra e uma abertura que ia da barra até quase a cintura. O animal que a drogou certamente tinha as piores intenções ao fazê-lo e Sofia indefesa não teria reagido – Somos só eu e você agora, Flaviana. Pode me ajudar?
– Claro... O que eu faço?
– Vamos levá-la para o banheiro. Uma boa chuveirada deve passar um pouco o efeito do que ela tomou.
Bem pegou novamente a garota no colo e foi para o banheiro com Flaviana todo o tempo ao seu lado. Ele ligou o chuveiro e pôs Sofia ainda vestida em baixo da água fria. Ela se debateu e resmungou sendo necessário ele segurá-la com força para que não escorregasse. Quando acabou, ambos estavam completamente molhados. Ele a levou de volta para o quarto e pediu para que Flaviana lhe trocasse a roupa. Ele esperou do lado de fora.
– Ben... – Ele ouviu Sofia chamar.
O rapaz voltou ao quarto e a viu já vestida, deitada na cama. Ele se aproximou devagar, dividido entre brigar com ela e apertá-la tão forte para que pudesse esquecer o pesadelo que viveu.
– Eu vou buscar algo para ela comer... – Flaviana deixou o quarto em seguida.
– O que... Eu não me lembro de nada – Balbuciou ainda aérea.
– Não? – Perguntou um pouco incrédulo. Com Sofia ele nunca estaria certo se o que ela dizia era verdade ou mentira.
Ela o olhou, magoada, o que partiu seu coração. Já não bastava o que ela tinha passado?
– Eu, eu... Um cara me ofereceu uma bebida. Ele me levou para algum lugar... Eu não me lembro de mais nada. Só de você com muita raiva. Está com raiva de mim, Benjamim?
– Sim... Não deveria? Que ideia estúpida foi essa de ir aquela festa?
– Eu... Você não compreende. Ninguém entende, nem mesmo minha melhor amiga.
– Compreender o que? Que você é uma menina egoísta que não pensa nas pessoas que te amam e nem dá valor ao amor delas? – Ben não queria dizer aquilo, mas sua falta de tato se devia a constante lembrança dela com outro, embora ela não quisesse – Será que você nunca vai aprender? Por quanto tempo mais vai agir assim? Como pode ser tão diferente da Anita?
– Vai embora – Ordenou Sofia, baixinho, a voz fria. Ben ficou confuso, esperou que ela explodisse, que lhe xingasse e lhe jurasse vingança, mas Sofia parecia tão... Sozinha. Tão diferente da garota altiva que ele conhecia – Só vai embora, OK?
Ele ficou parado por alguns instantes. Ela fechou os olhos e esperou que ele saísse, mas ele permaneceu lá, tentando entender quem era Sofia. Foi um erro falar de Anita, ainda mais compará-las, mas já estava dito.
Após alguns minutos, ele notou que ela dormia. Talvez em paz por pensar que ele estava longe ou talvez por sentir sua presença. Flaviana voltou ao quarto e lhe entregou roupas secas, do pai dela, e lhe convidou para ficar. Ele não queria, mas era muito tarde, então resolveu aceitar... Além do que, ali ele estaria perto de Sofia.
A noite pareceu passar rápido, a loira acordou algumas vezes, mas logo voltou a dormir. Ben ficou a maior parte do tempo ao seu lado e há determinado momento, enquanto ela sofria o que seria um pesadelo e chorava, Ben a abraçou. Sofia sonhava que estava perdida, trancada num lugar escuro, sozinha... Mas quando ele a abraçou foi como se estivesse em casa novamente. E assim, juntos, os dois adormeceram sendo ele o primeiro acordar.
– Sofia? – Sussurrou ao ver a moça deitada parcialmente sobre seu peito, a cabeça repousando próximo ao seu rosto e a mão sobre seu coração – Sofia – Repetiu mais uma vez, o nome dela dançando na sua boca. Ela parecia um anjo, dormindo calmamente, a respiração lenta. Ben sorriu inconsciente pela proximidade dos corpos. Ele nunca sentiu nada do que sentiu perto dela e isso o perturbava. Afinal, ela era irmã da sua namorada.
– AFF, me deixa dormir! Eu quero o Humberto na minha vida, cara! – Falou ela, ainda sonhando.
– Humberto? Quem é Humberto? – Ben levantou-se de supetão exigindo uma resposta. Sofia acordou de vez, confusa com a pergunta dele.
– Oi?! Tá maluco, Ben? Isso lá é jeito de se acordar uma pessoa?
– Não muda de assunto... Quem é Humberto?
– Tá, tá... Primeiro o que você tá fazendo aqui? Segundo, por que tá tudo girando? E por fim, mas não menos importante... Quem é Humberto?
– Foi o que eu perguntei!
– E é o que eu quero saber! – Exclamou irritada. Mas logo ela se lembrou de que sonhava com Humberto Carrão, um ator por quem ela tinha uma ligeira queda e riu.
– O que é tão engraçado? – Perguntou bastante irado.
– Você! Benjamim, não cansa minha beleza tá? Com essa cara, poderiam jurar que você está com ciúmes de mim. O que não seria algo muito bem visto, ate porque a Anita, a sua namorada, é minha ‘maninha’, esqueceu?
“Anita...”
Pela primeira vez em muito tempo, ele lembrou-se da namorada e que não tinha avisado que dormiria fora de casa. Talvez ela estivesse preocupada assim como seu pai, madrasta e irmãos... Ele precisava voltar pra casa, mas também não queria se separar de Sofia.
– Lógico que eu não esqueci!
– Acho bom! – Disparou ferida. Como ele poderia se esquecer de que tinha a linda e maravilhosa Anita na sua vida? – Então, pode ir cuidar dela ou ir dar seus pulinhos por aí e para de encher meu saco!
– Você é mesmo impossível, né? Nem um obrigada por eu ter te salvado!
– Eu não precisava ser salva... Num tenho culpa se você tem algum complexo mal resolvido de super herói. Eu estava muito bem no meu canto, foi você quem veio do Grajaú até a Barra para pegar no meu pé!
– Não foi o que pareceu ontem... Mas quer saber? Chega disso! Você vai voltar comigo para casa.
– COMO É QUE É? Desde quando você manda em mim, mesmo? – Gritou Sofia vermelha de raiva.
– Desde que me dei conta que você precisa ser vigiada! Você vai voltar comigo ou eu conto para sua mãe tudo o que rolou ontem... O que acha?
– Isso é chantagem! Você não tem esse direito. Por que não me erra, hein? Será que seu ‘conto de fadas’ com a sonsa da minha irmã é tão entediante que você tem que atrapalhar a vida dos outros? A minha vida?!
– Pode dizer o que quiser, você vem comigo.
Ela foi derrotada. Não podia sequer imaginar o drama que Vera faria se soubesse que ela andava aprontando longe de casa, fora que Ben, gostando como gosta dela, faria o imenso favor de piorar toda a situação que já não era muito boa.
– Eu... Vou, mas que fique claro que não é o que eu quero! E que você ainda vai se arrepender por isso! – Sofia levantou rápido da cama e cambaleou quase caindo no chão. Ben correu ate ela e a segurou.
– Você está bem? – Perguntou procurando pelos olhos dela. Sofia sorriu meio envergonhada, meio debochada.
– To, ‘Príncipe’.
– X –
– Sofia? Ben? – “Como assim vocês dois juntos?” Pensou Anita quando os dois passaram pela porta da sua casa. Ela havia passado a noite em claro a espera dele e agora ele aparece com sua irmã do lado? – O que vocês tão fazendo juntos?
– Olha Anita, não se preocupa tá? Eu sou peguei seu ‘Príncipe’ emprestado, mas já estou devolvendo sem nenhum arranhão – Sofia sorriu ao olhar ‘encantada’ para Ben que ficou sem ação. Anita fuzilou a loira com o olhar – Ele é tão... O que dizer? Ele é tão apegante. Quero um pra mim!
– Aposto como você adoraria ter um. Afinal, você bem que tentou ficar com ele, não foi? – Rebateu Anita, ácida – Fez tudo o que pode, mas com quem ele ficou? AH... Nenhum planinho seu funcionou, pelo o que eu me lembre.
– Dá para parar com isso vocês duas? – Interviu Benjamim detestando ser alvo da disputa das irmãs – Anita, eu só fui buscar a Sofia na Barra. Já estava na hora dela voltar para casa.
– É, ‘Nita’... Ele me fez um favor, apenas. Você pode ficar tranquila, eu sei muito bem qual é meu papel nessa história. Se me dão licença, eu tenho mais o que fazer do que presenciar DR de casal perfeito. E eu que pensei que no ‘mundo da perfeição’ esse tipo de coisa não acontecia... Mas pelo visto, nem tudo é só magia né?
Sofia subiu as escadas e foi para o seu antigo quarto. Benjamim e Anita que resolvessem seus próprios problemas, ela já tinha os dela para se preocupar.
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