Era Uma Outra Vez...
8 Linha tênue
Notas iniciais
– Oi! Ouvi sua voz e... Não sabia que tinha voltado.
– Vem cá pequeno – Pedro correu para a irmã que o abraçou forte – Sentiu saudade?
– Muita! Mas não te pedi para voltar antes porque sei que você precisava de um tempo. Apesar de ter sido bem difícil sem você aqui.
– Você deve ter sido o único que se sentiu minha falta.
– Não é verdade! Você não devia pensar assim, Sofia.
– Não? – Ironizou. Pedro a olhou, triste. Ela se arrependeu por sempre falar a coisa errada – Desculpa, eu sou uma chata, você sabe.
– Você não é chata, apenas insegura. Acredita que ninguém pode gostar de você por você ser quem é e isso é bobagem. Eu, a mamãe, a Anita e muitas outras pessoas amam você. Pare de lutar contra isso.
A garota ficou tocada com a sensibilidade do irmão pequeno. Ele, dentre tantos, parecia o único a entender o que ela sentia por dentro e se importar com isso. Ela agradecia, pois na maior parte do tempo, sabe que as pessoas não dão valor ao que ela sente, as suas angustias, seus sonhos e problemas. Anita a apoiava, mas esse apoio se tornou uma espécie de fardo que ela tinha que carregar e ser agradecida eternamente. Quantas vezes isso não foi lhe jogado na cara? Pela Anita não, claro, era seria incapaz, mas Vera, Bernadete, os irmãos de criação. Ela sentia-se em constante divida com Anita por algo que ela sequer tinha pedido. Ela era grata sim, amava a irmã, mas não concordava com as opiniões de que ela devia abrir mão do que ela queria em favor da outra. Por que os sentimentos da irmã sempre pesam mais do que os dela?
Isso sempre foi recorrente na vida da loira, desde muito novas, as pessoas admiravam-se com Anita, com sua bondade e desprendimento e a comparavam a mimada Sofia com atitudes tão egoístas. Ainda crianças, uma linha tênue foi traçada entre as duas, uma separação que perduraria mais para frente: Anita era a boa filha, boa irmã, inteligente, caridosa. Sofia, por sua vez, era a fútil, mimada, apegada só ao conforto que vivia. Se Anita amava algo, ela merecia isso. Se Sofia amasse algo, não passava de puro capricho. E o pior, se Sofia amasse algo que Anita amava, o que a garota sentia era inveja.
Sofia nunca foi fácil, apesar dos valores sólidos ensinados pela mãe, a garota cresceu com a errônea impressão de que para ser notada ou bem quista ela teria que ser o oposto de Anita. Uma pessoa que diferisse da irmã mais velha e que se sobressaísse apesar de todas as ‘imensas qualidades’ da outra. Um caminho para isso foi o seu apego pelas coisas ‘materiais’, o luxo e conforto proporcionado pelo dinheiro do pai que a condicionaram a buscar por interesses que eram avessos aos da irmã. Moda, compras, maquiagem... Anita era simplória demais para se importar com isso, já Sofia adorava e com o passar dos anos criou uma personalidade e imagem que em nada lembrava a da ‘maravilhosa’ Anita. Mas mesmo agora, ela não escapava as comparações. Todos a consideram superficial, fútil por prezar coisas que não parecem ter tanta importância enquanto Anita é, praticamente, posta em um pedestal por ser tão perfeita. A comparação, além de sem propósito, foi sempre o ponto de discórdia na relação das duas. De um lado, Sofia uma ‘Irmonstra’ que ignora a família e do outro, Anita e todo o ‘amor’ que dedica na construção do novo e confuso clã de Vera e Ronaldo. Futilidade X Abnegação? Desde quando irmãs tem que disputar algo? E por que a pré-disposição em sempre considerar apenas o pior de Sofia?
Ela tinha uma família, uma casa e história e viu isso ruir quando a mãe se separou do pai. Sofia amava a mãe, queria que ela fosse feliz, mas e ela? E tudo o que ela conhecia e amava? Não foi muito pesado jogar sobre os ombros de uma garota a responsabilidade de se adaptar entre novas pessoas, com gostos, personalidades e pensamentos diferentes do seu e pedir para ela achar tudo ‘lindo’? Querer a família que conhecia unida a torna egoísta? Não se empenhar tanto quanto Anita a faz a pior das criaturas?
Sofia é egoísta? Fútil? Mimada? Sim para tudo. Mas é só? Será que não existe nada de bom, nada de puro dentro dela? Ou será que ninguém quer enxergar o que há por trás? Será que vale a máxima de pessoas são ou somente boas ou totalmente ruins? Existe um meio termo?
– Queria que fosse mais simples.
– É, se você tentar.
– X –
– Então, o que me diz do que acabou de rolar aqui?
– Nada, Anita. Eu só fui buscar a sua irmã.
– Durante a madrugada? – Perguntou cruzando os braços frente ao corpo – Eu fui ao seu quarto ontem, você não estava. Te esperei por horas, mas você não deu noticias... Sei que não dormiu em casa. Você estava com ela? Ben, você tava com minha irmã?
– Sim... – Confessou. Anita prendeu a respiração, sequer podia cogitar que ele e Sofia estivessem juntos – A Flaviana ligou me pedindo ajuda. A Sofia se meteu numa enrascada e eu fui ajudar.
– Como assim? O que aconteceu?
– Ela foi numa festa e um cara... Olha, isso importa? Ela tá bem e prometeu que vai se comportar. Por isso a trouxe de volta, para ficar de olho nela. Não quero preocupar a Vera nem meu pai ou o seu, acho melhor deixar isso entre nós tá?
– Claro. Desculpa Príncipe, você cheio de problemas e eu nem para te ajudar – Ela abraçou o namorado que logo se esquivou. Anita percebeu o desconforto dele e se magoou por isso – O que foi?
– Anita, a gente precisa conversar – Falou sério, mas antes que tivessem chance, Júlia e Serguei chegaram.
– Olá, casal! – Cumprimentou a morena. Serguei apenas deu um aceno com a mão – Amiga, vamos fazer o trabalho?
Anita olhou para Ben que concordou em silêncio e deixou a sala. Os três foram ate o sofá onde se jogaram.
– Impressão minha ou o clima tava pesado aqui?
– Júlia, você é tão sutil quanto um elefante numa loja de cristais – Debochou Serguei, mal humorado. Anita estranhou o comportamento do amigo, mas se ateve ao seu problema.
– Acho que o Ben quer terminar comigo – Confessou triste. Os amigos entreolharam-se, surpresos – Por favor, isso já é bem difícil, não me olhem assim.
– Foi mal... Mas porque acha isso? Ele disse alguma coisa?
– Não, mas antes de vocês chegarem ele tava sério e disse que queria conversar e...
– E? – Indagou Serguei bastante interessado se acomodando melhor no sofá – Não pare agora!
– Hey, vai com calma – Repreendeu Júlia. Anita fechou os olhos para segurar as lágrimas.
– Ele dormiu fora de casa com a Sofia. Disse que ela precisou de ajuda e ele foi socorrê-la. Ele ate a obrigou a voltar e... E sinto que existe mais nisso.
– Pirou?! Como assim “existe mais nisso”? É a Sofia, Anita. A ‘Irmonstra’ que armou para você e para o Ben e por quem ele tem total desprezo. Acredita que ele se interessaria por ela? Ainda mais depois de tudo o que vocês descobriram?
– Não sei, aconteceu uma vez, não foi?
– Quando ele nem sabia quem ela era de verdade. O Ben seria louco de cair nas garras daquela garota de novo! – Exclamou o ruivo com raiva pelo outro fazer Anita sofrer – Ele seria um idiota em trocar você por ela. A Sofia nunca teria chances se competisse com você! Ela é só uma menina egoísta que só pensa no que quer e você é a garota mais maravilhosa que eu já conheci.
Serguei referia-se a Ben, mas era sobre o que sentia pela garota que ele falava. Ao amor secreto que cultivava pela amiga e lhe impedia de acreditar que o outro seria tão estúpido ao trocar Anita por Sofia. Mas Sofia não sabia disso, parada no topo da escada ouvindo a tudo. Ela deixou o quarto com destino à sala, mas estacou quando ouviu seu nome citado na conversa dos três. De novo, e de novo os amigos ‘puxa saco’ de Anita a humilhavam sem um motivo concreto pra fazê-lo, como se o fato dela existir já fosse o suficiente. Sofia se encheu de fúria por todos sempre preferirem Anita.
Uma lagrima idiota escapou dos seus olhos verdes e magoados, o ódio tomando conta dela. Será que ela não tinha mesmo chance com Benjamim? A julgar pelo beijo que eles trocaram ela não duvidaria se Ben quisesse repetir o gesto. Ela estava decidida, iria provar que eles estavam errados e que Anita, pela primeira vez, ia perder para a irmãzinha ‘mau caráter’.
– X –
– Você tem certeza disso?
– Claro. Veja bem, a Sofia... Ela tá num momento complexo e qualquer forte emoção agora pode piorar a situação. Eu conheço a minha filha, ela é difícil e se não tivermos paciência, tudo será posto a perder. Eu sei que é doloroso, mas compreenda, é o melhor.
– Eu esperei tanto por isso... E agora. Mas eu confio em você, Vera. Obrigada, qualquer outra pessoa no seu lugar... Obrigada.
– Nós duas amamos ela e eu vou fazer o possível para a felicidade da nossa filha.
Vera abraçou Raissa que sorriu agradecida.
– X –
POV Anita
Serguei e Júlia foram embora, mas nada do que disseram para me animar conseguiu tirar de mim a angustia que senti ao ouvir Ben falar que precisava conversar comigo. Chame de sexto sentido ou sei lá o que, mas sei que o que o Príncipe tem a dizer não é o que eu quero.
Por sorte, foi impossível ficarmos um momento a sós, sempre aparecendo alguém para atrapalhar ate que ele desistiu, mas estabeleceu que após a aula de amanhã, teríamos o que imagino ser uma DR do nosso namoro. Para minha alegria, Sofia passou todo o dia no quarto, introspectiva, o que não era do feitio dela. Mas minha irmã já estava bem grandinha e como meus amigos sempre dizem, eu tenho que pensar mais em mim e deixar que ela resolva os próprios problemas. Ela já me magoou muito quando tentou ficar com Ben, e ainda assim eu a perdoei. Mas se por acaso ela tiver a ver com a crise no meu relacionamento com ele... Não quero nem pensar nisso.
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