Era Uma Outra Vez...
9 Acredita em mim!
Notas iniciais
Sofia deixou o quarto andando nas pontas dos pés para não acordar Giovanna nem Anita que dormiam profundamente. Já fora do recinto, ela respirou aliviada e repassou mentalmente seu plano. Foram horas pensando e repensando, e ela estava certa de que o que faria era o melhor. Anita pagaria por sempre se meter em sua vida, por hora e outra lembrá-la do quanto ela era nada em relação à ‘Princesa’. Serguei, Júlia e a irmã tinham ido longe demais e ela daria um basta nisso.
Embora, de certa forma, a loira estivesse acostumada às comparações, hoje algo doeu mais do que qualquer outra vez e ela sabia porque tinha a ver com Ben. Ela sabia que ele amava a irmã e desejava mais que tudo que não fosse assim, que ele gostasse dela. E ver Serguei e Júlia desdenhando dela como se o que ela sentisse não merecesse valor... Ela quis tanto enfrentá-los, mas não o fez. Escutou toda a conversa e voltou para o quarto com uma tranquilidade que desconhecia possuir. Mas era chegada a hora da vingança. Sofia não era de deixar barato e ela ia usar suas armas e ferir onde mais doía em Anita... Ben.
– Oi? – Sofia chegou ao quarto do rapaz só para descobrir que ele não estava. Ela olhou em volta, a cama ainda arrumada e sem o mínimo sinal de quando ele voltaria – Ben? Ótimo, ele tinha que desaparecer!
– O que tá fazendo parada aí? – Perguntou uma voz por trás dela. A loira se voltou assustada e viu Benjamim parcialmente escondido pela escuridão.
– Droga, você me assustou! – Reclamou. Ele se aproximou devagar ate ficar bem próximo a ela. Ben vestia um casaco, o capuz sobre a cabeça, respirava pesado aparentando ter corrido.
– Você não disse o que está fazendo aqui.
– Bom, eu, eu... – O magnetismo do olhar dele lhe roubou a fala por instantes. Ela falou a primeira coisa que lhe veio à mente – Eu vim agradecer por ontem. Eu refleti e percebi que poderia ter me dado muito mal se não fosse você. Apesar de você se achar um herói e eu detestar admitir que você estava certo, eu... Valeu.
– E quanto aquele papo de querer que eu não me meta mais na sua vida?
– Vem cá, isso é um interrogatório ou quê? Dá para conversar comigo e parar de me fazer tantas perguntas?! E dá para parar de usar tudo o que eu digo contra mim? Eu estava com raiva, OK? Eu digo coisas sem pensar, mas não quer dizer que é o que eu penso ou sinto. Olha, é melhor eu ir nessa!
Ela deu dois passos, pronta para ir embora. Foi um erro ir lá, recriminou-se Sofia. O que ela ganharia? Magoaria Anita, enrolaria Ben e o quê? Provaria que todos tinham razão em considera-la um monstro. E ela sabia que não era. Não encontrar Ben dormindo talvez tenha sido o aviso que ela precisava para saber que a sua armação de passar a noite ao seu lado e ser flagrada pela irmã ou qualquer outro familiar seria um desastre.
– Fica.
– O quê? – Sofia olhou para a mão dele presa a sua e não entendeu nada.
– Eu quero que você fique. Aqui, comigo.
– Ben... – Ele sorriu irônico enquanto abaixava o rosto ate o dela, mas sem beijá-la. Ben passou um braço ao redor da cintura dela que como uma boneca sem vida, deixou-se ser conduzida ate a cama – Ben... Eu gosto tanto de você.
– Gosta?
– Claro! Eu te falei uma vez e eu fui sincera, eu sou apaixonada por você. E mesmo que você ame minha irmã, isso é mais forte que eu. Mas eu não me importo, eu não ligo pra droga nenhuma desde que você goste de mim, nem que seja só um pouquinho.
– E a Anita nessa história?
– O que é que tem ela?
– Você não sente remorso por ter vindo à noite procurar o namorado da sua irmã? – Ele a derrubou com carinho na cama e deitou sobre ela. Sofia não via ou pensava em nada, só em Ben e ela juntos. A garota sonhou tantas vezes com isso acontecendo... Ela o amava. E por isso, por amá-lo tanto e querer que ele a amasse, algo que ela não soube explicar a fez revelar seu plano.
– Não... A Anita sempre teve tudo. O carinho, a admiração, o amor. Para mim sobrou somente às repreensões, as acusações. Todos acham que ela é melhor que eu, mas não é verdade. Tanto que eu to aqui com você, porque é isso o que você quer e nem toda a bondade dela pôde te impedir de me desejar. Por que você me quer, não quer? Eu tenho o que a minha irmã mais ama. Eu tenho você.
– Então, era isso. – Ben saiu de cima de Sofia rapidamente, o desgosto estampado na sua cara. Ela não compreendeu a principio, mas como um raio que a atingia, o entendimento de tudo, do beijo, das perguntas... Ele sabia qual era a intenção dela ao ir no ‘quarto garagem’.
– Como? Você sabia... – Murmurou imóvel, um gosto amargo na boca.
– Do que? Que você estava aprontando alguma para cima de mim? Achou mesmo que eu sou tão idiota de acreditar no que você diz? Eu vi na sua postura furtiva quando chegou aqui que tinha alguma armação rolando e eu só não sabia o que é que era, mas foi só eu te beijar para você abrir tudo.
– Seu desgraçado! – Ela pensou ter gritado, mas a frase saiu como um sussurro.
– Desgraçado? Desgraçada é você que odeia tanto a sua irmã que não mede as consequências do que faz. Qual era o teu plano? Ficar aqui comigo e alguém nos flagrar? – Ben a fuzilou com o olhar – Você é tão patética, Sofia. Se considera tão esperta, mas é mais burra do que eu podia imaginar... No fim das conas, tudo o que te move é o despeito que sente pela Anita. Nada de bom pode vir de você e eu mais que nunca vejo isso. Eu pensei que... Não, você não tem concerto.
– Eu disse que te amava.
– VOCÊ NÃO SABE O QUE É AMOR! Você não ama ninguém!
– Não Ben! Eu amo você. Acredita em mim, por favor... Eu amo você! – Suplicou a garota desesperada saindo da cama e indo até ele. Ben agarrou seus braços e a afastou pra longe.
– Deus, como você pode ser tão dissimulada?! Você diz que me ama, mas não pensou duas vezes antes de vir aqui para ferrar comigo e com o meu namoro! Por que Sofia? Por que todo esse ódio que você sente da Anita? Sério, eu preciso entender a razão disso. Preciso entender essa necessidade doentia que você sente de rivalizar com ela.
“Anita. Anita. Anita! Só o que importava para ele era a imbecil da minha irmã!” Sofia sentia raiva, ódio, mas não de Anita e sim de si mesma por permitir que mais uma vez Ben a machucasse. Ele não era ninguém, era um idiota que merecia uma pessoa exatamente como a namorada perfeita que tinha.
– Porque ela é uma estúpida metida à santa que sempre conseguiu tudo o que quis e fez da minha vida um inferno. Porque eu nunca vou ser boa o bastante, maravilhosa o bastante, porque a Anita existe e já é perfeita demais. Porque ela nunca, nunca perdeu algo que amou tanto, tanto... Porque ela teve que amar você. Até você ela teve que amar! – Sofia não sabia mais o que falava, mas ela tinha que extravasar a dor que sentia dentro do peito e que a atacava com tamanha força que ela não sabia ser possível respirar. Se Anita não amasse Ben, eles poderiam ficar juntos, mas ate ele ela teve que pegar para si – E eu nem sei por que isso importa, porque você é só um fracassado como o Ronaldo que caiu aqui de paraquedas e estragou com tudo o que eu sonhei. Você é igual ao teu pai que surgiu na minha vida para destruir tudo e arrastou minha família para essa merda de Grajaú! E vocês são tão iguais que é aqui que você vai ficar. Aqui, nesse maldito bairro com essa maldita vizinhança trabalhando num emprego medíocre enquanto a ‘iluminada’ Anita te espera para jantar com os cinco filhinhos de nariz sujo de vocês!
– CALA A BOCA! – Sem controle, Ben avançou ate Sofia que recuou horrorizada pela reação dele e pelo o que ela havia dito – Você não tem o direito de falar assim das pessoas que eu amo!
– Eu tenho sim! Porque a culpa é sua... Se você não, se você... – Ela interrompeu a fala e o olhou desolada – Era para ser diferente. Uma vez, somente essa vez... Era para ser diferente.
–Vai embora daqui Sofia! Eu não aguento olhar na tua cara... Eu nunca senti tanta raiva de alguém como sinto de você. Eu sinto nojo da pessoa sem caráter que você é e sinto pena da tua mãe e dos seus irmãos... – O rapaz lhe deu as costas. Ela ergueu o braço para tocá-lo, mas deixou-o cair junto ao corpo.
– Você vai se arrepender por isso. Eu juro que você me paga, Ben!
Sofia correu de volta para casa tropeçando nos degraus ao subir a escada. Ela caiu sentada, abraçou as pernas e chorou baixinho para não acordar os demais moradores do casarão. “Eu os odeio!” A cada lágrima, ela jurou a si que Benjamim se arrependeria por tudo o que lhe disse e ela ia até o fim, não importava quais as consequências. Sofia já havia perdido, assim como perdeu tantas outras coisas para Anita, mas se ela não podia ficar com ele, a sua irmãzinha também não ia.
– X –
– Bom dia!
– Bom?
– Hey, que carinha é essa? – Serguei segurou o queixo de Anita e analisou o rosto da garota. Ela tinha olheiras profundas, a pele estava pálida e pelo o que ele conhecia da amiga ela não deveria ter dormido nada, provavelmente, pensando em Ben – Ainda o mesmo assunto de ontem?
– Não sei, mas depois da aula acho que vou descobrir. O problema é que não estou preparada para isso.
– Minha vontade é de ter um papo reto com o seu namorado. Não e justo o que ele tá fazendo com você, Anita. Será que o Ben não vê que tá te magoando? No lugar dele eu... Eu.
– Você o quê? – Anita olhou confusa para o amigo que desviou o olhar. Ele não queria ser mais um problema na vida dela, Anita não merecia isso.
– Eu faria de tudo para dar certo.
– Você fala isso porque é meu amigo.
– É... Eu sou seu amigo. Mas também te conheço, sei de todas suas qualidades, do seu grande coração. Não é tão difícil te amar.
– X –
– Sofia? Tá me ouvindo? Eu falei que agora que o MICA tá fora de ação, a gente bem que podia ter um tempo para gente. Ir ao shopping, num salão... Ai amiga, minhas unhas tão um horror! Sem falar que meu cabelo tá cheio de ponta dupla.
– Tá, Flaviana. Olha, a gente conversa outra hora, OK? Eu tenho que fazer uma coisa muito importante agora.
A loira viu quando Ben foi ao encontro de Anita já quase na saída do colégio e decidiu agir. O sofrimento da noite anterior ainda era muito vívido nela que passou quase toda a madrugada chorando por tudo o que tinha ouvido do rapaz. Ben, novamente, a humilhou e desprezou. Pisou no que ela sentia sem o menor remorso e ela não ia permitir que isso ficasse impune. Anita ia ver a mascara do seu ‘Príncipe’ cair e ela teria o maior prazer em abrir os olhos da irmã. E ela ia mostrar ao garoto que com seu coração não se brinca.
– Anita e Ben... “Príncipe e Princesa” – Ela se curvou, sarcástica diante dos dois. A irmã não entendeu nada e Ben a fuzilou com olhar, mas ela não recuou, apenas sorriu mais satisfeita.
– O que foi agora, Sofia? Eu e o Ben temos um assunto para resolver, pode nos dar licença?
– Vaza! – Disparou Ben ríspido fazendo Anita erguer uma sobrancelha em questionamento.
– Príncipe, o que foi? Você nunca falou assim com a Sofia.
– Não, ele já falou sim. Lembra-se de quando ele ficou internado no hospital e me chutou pra fora do quarto? E dos dias que ele me tratou igual lixo? Pois, é o Benjamim adora me tratar mal na sua frente, mas por trás... O que só torna mais curioso o que eu tenho para dizer, irmãzinha.
– Você não vai fazer isso! – Ele agarrou com muita força o braço de Sofia. As pessoas ao redor olharam, curiosas a cena que acontecia entre os três moradores do casarão – Será que você não tem limites?
– O que tá acontecendo aqui? – Anita estava angustiada, nunca viu o namorado tão transtornado. Nem quando ele descobriu as armações de Sofia no passado ele ficou assim – Príncipe? – Ela segurou no braço dele que pareceu se abrandar um pouco.
– “Príncipe”! – Debochou Sofia – Acorda Anita! De príncipe, o Ben não tem nada! Ele é um grande de um canalha, isso sim... Fala para ela o que nós fizemos Ben, fala! Mostra que você não tem nada de perfeito, que faz merda como todo mundo... Que sente atração por mim.
Sofia não ousou dizer que Ben a amava, porque ela sabia que era mentira, ainda que quisesse magoar Anita, fingir um amor que não existia a magoaria mais do que a outra.
– Cala essa boca!
– O quê? Não tem coragem?
– Olha, se isso é mais uma das suas mentiras... Sofia, eu juro que.
– Jura que o quê? Vai tentar me bater como já fez? Vai estragar as minhas coisas? Você é tão previsível Anita, tão idiota. Não é de se surpreender que seu namorado tenha se enchido de você! Até porque não adianta mudar a roupa, cabelo e seja lá o que for, pois no fundo você ainda é a tonta que sempre foi. A ‘doce e crente’ Anita que ama todos e ajuda quem precisar. Mas que não é capaz de segurar o interesse de um cara por mais de cinco minutos... Daí sobra pra eu ter que dar a atenção devida, né? – Sofia puxou o braço que Ben prendia e com fúria mirou o casal ‘feliz’ que não passava de uma ilusão – O que eu quero dizer é bem simples: Ele me beijou! DUAS vezes. A ultima vez foi ontem, no quarto dele, durante a noite enquanto você dormia e sonhava com ‘personagens de histórias infantis’, eu e o seu namorado ficamos juntos!
Um silêncio pesado recaiu sobre os três e as pessoas que observavam a tudo. Serguei preocupado com Anita se aproximou deles.
– Você tá mentindo!
– Não to não! Pergunta pro seu namorado... Eu quero ver se ele vai negar.
Anita buscou pelos olhos de Ben, culpados. E ao ver a confissão estampada no rosto dele, ela viu também todos os seus sonhos, confiança e amor se despedaçarem. Ben, seu príncipe e Sofia a traíram e ela já sentia que era isso o que estava pondo em risco o seu amor. Algo a alertou, mas ela preferiu fechar os olhos e negar tudo.
– Você conseguiu, não é? Conseguiu acabar com a melhor coisa que eu tinha... – Anita se afastou de Sofia e do rapaz, com lágrimas nos olhos – Você sempre fez isso... Desde quando a gente era pequena, você quebrava tudo o que era meu só por prazer. Por que Sofia? Eu nunca te fiz nada, nada. Eu amei você, apoiei você em todos os momentos... Acreditei em você quando todos disseram que era para eu te deixar para lá, porque eu pensei que no fundo você era uma garota legal. Mas não... Por que fez isso comigo?
Por quê? Sofia não tinha uma resposta. Bom, ela estava magoada, e era verdade que a conversa que ouviu dos amigos da irmã mexeu com o emocional dela. Foi por isso que ela foi procurar Ben e tentou seduzi-lo, mas ela não esperou ser tratada como lixo por ele o que só aumentou mais a sua raiva. A garota estava farta, cansada de ser a sombra, muitas vezes nem isso, e Anita ser a estrela de todos os momentos e situações enquanto ela permanecia em segundo plano. Ela só queria que a irmã soubesse o que é perder, o que é não ser tão espetacular em algo... Sim, ela quis machucá-la, mas só porque também estava ferida.
Mas depois de alcançar o seu objetivo, o que ela esperava sentir ou ganhar não passou de um peso sendo posto sobre seu coração. As lágrimas de Anita não lhe proporcionaram prazer, pelo contrario, só lhe deixaram pior. Sofia não entedia, ela devia estar feliz, realizada, ela conseguiu... Conseguiu o quê? Destruir o namoro Benita? Humilhar a irmã em frente a toda a escola? Sim, ela conseguiu. Mas agora, se ela tivesse previsto que seria assim, ela nunca teria dito ou feito nada.
– Eu não, não – Sofia balançou a cabeça em negação ao tomar consciência da dimensão de seus atos.
– Anita, eu posso explicar.
– Claro que pode, Benjamim. Só que eu não quero entender ou escutar nada. NADA. Eu sempre tive razão, sempre foi ela. Eu fui só um passatempo, mas quer saber? A tonta aqui não vai mais pagar de otária para nenhum dos dois. Vocês se merecem!
– Anita, vamos sair daqui – Serguei deu um meio abraço na amiga e começou a caminhar com ela.
Ben e Sofia não reagiram enquanto viam os dois se afastarem.
Fale com o autor