Notas iniciais
O segundo da noite! Espero que gostem! ♥

Serguei desligou o celular sentindo-se contente. Embora não tivessem combinado nada para aquele dia devido ao trabalho no salão, tinha se tornado um hábito para ele falar com Sofia sempre que podia. E agora ele sabia que o "sumiço" da namorada se deu por um bom motivo.

— Serguei, tem alguém querendo te ver. – Vanessa pôs a cabeça na porta do escritório trazendo o ruivo de volta dos seus pensamentos. – Ela falou que é importante.

— Ela?

Sua funcionária abriu a porta dando espaço para que Anita entrasse.

— Eu vou cuidar do salão enquanto vocês conversam.

— Obrigado, Vanessa.

Após a saída da mulher, Anita fitou o amigo ainda incerta sobre como iniciar a conversa. Ela tinha passado a manhã e quase toda a tarde trabalhando, o que lhe deu um bom tempo para refletir sobre duas atitudes desde o fim do namoro. Mesmo zangada com Sofia, ela sentia saudades de Serguei e da amizade que tinham. Após muito pensar, admitiu ter sido intransigente e egoísta com amigo pedindo para que ele escolhesse entre ela e a irmã, mas agora via que isso não passou de um grande erro seu. Serguei sempre esteve ao seu lado quando precisou e até decidiu se aproximar de Sofia para protegê-la de mais uma decepção com Ben. Independente do que tenha acontecido depois, isso só mostrava que o amigo queria seu bem. E se Sofia o fazia feliz, então ela ficaria feliz por ele.

— Podemos conversar?

— Claro! Senta por favor.

— X —

— Bem vindas à minha humilde residência!

Na opinião de Sofia, após o tour particular pelo apartamento do amigo, o lugar estava há anos luz de ser considerado humilde. Era um espaço moderno com sala e sala de jantar muito bem decoradas, incluindo uma ampla varanda com vista para o mar. A cozinha, por sua vez, era totalmente equipada para proporcionar praticidade e conforto. Ela ainda não tinha visto os dormitórios, mas a julgar pelo restante não tinha como duvidar que seria maravilhoso também.

— Pensei que você sempre ficasse no Copacabana Palace. – Falou a loira sentada no sofá enquanto observava em volta. – Isso tem algo a ver com a briga com seu pai?

— Não e sim. – Otávio se serviu de um pouco de vinho antes de voltar a falar. – A suíte no hotel era temporária, pela comodidade já que eu não ficava tanto tempo no Rio. Sempre viajei muito, mas minha situação mudou desde que estive em Londres.

— Como assim? – Indagou a Loira.

— Ele vai ficar no Brasil à pedido da Margot. – Respondeu Flaviana voltando para a sala. Ela tinha ido à cozinha pegar uma bebida para elas e sentou-se após entregar uma taça para Sofia. – Ela não gostou nada do que o meu tio fez e sabendo da capacidade do meu priminho, o tornou representante dela na Holding.

— Isso parece muito bom!

— E é... Começo segunda feira e mal posso esperar para a confusão na reunião de acionistas! – O rapaz ergueu a própria taça para um brinde. Flaviana e Sofia fizeram o mesmo. – Um brinde ao que o futuro nos reserva, garotas!

Logo, eles foram pra mesa onde o jantar foi servido. Otávio optou por comida indiana, o que agradou aos três que comeram com entusiasmo desde as samosas de entrada até o frango com curry como prato principal. Enquanto apreciavam a comida, eles conversavam sobre diversos assuntos e planejaram um próximo encontro. Em alguns momentos, Sofia notou Flaviana um pouco distante da interação como se seus pensamentos a levassem para outro lugar... ou seria para outra pessoa? Pensou com uma leve suspeita.

— Pensei que você viria com seu ruivo. – Comentou Otávio assim que eles se acomodaram novamente na sala após o jantar. – Imagino que esteja tudo às mil maravilhas entre vocês.

— Bom... – Sofia corou um pouco diante do olhar cúmplice do amigo. – Estamos bem sim... e o Serguei tinha muito trabalho hoje.

— Sendo assim, marcarmos um outro encontro quando ele estiver disponível.

— Por mim tudo bem.

— Ótimo! Isso quer dizer que podemos voltar a nossa atenção para o que realmente interessa... — O rapaz se voltou para a prima a encarando com um sorriso zombeteiro. – as revelações da noite!

— Revelações? – Flaviana engasgou com um gole do vinho que tomava fazendo Otávio rir. – Eu não sabia que você estava tão interessado.

— Pelo amor de Madonna, Flaviana! Se passaram dois meses e eu não consegui tirar nada de você. Além do mais, você prometeu que ia esclarecer tudo essa noite. E olhe só: aqui estamos!

— Você é sempre tão sutil. – Reclamou a morena levantando-se e andando de um lado para o outro na sala. Embora tenha dito que contaria a verdade sobre ela e Sidney, já não estava mais certa se seria uma boa ideia. – Não lembro de concordar em me submeter à um interrogatório.

— Otávio... – Sofia pôs a mão no braço do amigo para deter a resposta que viria. Flaviana não estava confortável e a noite poderia acabar mal. – Nós tivemos um ótimo jantar. Estou feliz pelo retorno de vocês... não acho que precisamos estragar nossa noite falando de coisas passadas. Certo, Fla?

Flaviana parou de repente de andar. A compreensão na voz da amiga era um bálsamo para as suas dúvidas e por mais receio que tivesse do julgamento, não queria guardar nenhum segredo. Fechando os olhos, ela tomou fôlego para falar. Talvez ao dizer tudo, a confusão que sentia se dissipasse e por fim poderia contar com os conselhos da amiga e do primo.

— Eu transei com o Sidney!

— X —

— O que você está fazendo aqui?

— Posso entrar?

Não era a recepção que ela gostaria, mas Raissa já tinha se preparado mentalmente para aquela reação. João nunca escondeu seu desagrado com a presença dela mesmo anos após a última vez que tinham se visto. E isso só piorou desde confessou sobre a existência da filha, mas assim como antes ela só estava ali por causa de Sofia. João Luís poderia odiá-la o quanto quisesse, ela já não tinha mais nenhuma ilusão sobre o passado. No entanto, eles ainda precisavam entrar num consenso sobre o futuro da garota.

Apesar de contrariado, João permitiu que ela entrasse em seu apartamento. Ele não se sentia inclinado a oferecer nenhum gesto hospitalidade, uma vez que ela não era bem vinda, mas escutaria o que Raissa tinha a lhe dizer. Percebendo isso, a orientadora parou próximo ao sofá, mas não fez menção de sentar-se. Ela encarou o ex namorado perguntando-se o quão difícil era para ele estar naquela posição. Foi impossível não pensar na época em que tudo era mais simples, quando o amor parecia ser suficiente. Ela balançou a cabeça retornando ao presente.

— Eu conversei com a Sofia hoje. Eu acredito que ela esteja mais flexível à ideia de conversar com os pais... – Raissa suspirou. Não era nada fácil estar ali falando aquelas coisas, mas era o certo a se fazer. – Eu acho que não precisamos mais adiar o momento de falar a verdade... E talvez, nós devêssemos pensar numa maneira tranquila de contar a ela.

— Nós? – O escárnio na voz dele magoou Raissa, mas ela se manteve impassível. – O que você sugere?

— Bom, eu conversei com a Vera... Ela e o Caetano pretendem introduzir a ideia de um possível encontro nosso com a Sofia.

— Parece razoável.

— Sim.

— Se ela concordar... – O homem passou uma na fronte em um sinal de nervosismo. Raissa desviou o olhar daquele gesto tão conhecido... Sofia fazia a mesma coisa. No fundo, eles eram mais parecidos do que ela admitia. – O que você pretende falar exatamente?

— A verdade.

— Isso inclui nosso antigo relacionamento?

— Bom, eu não acho que precisamos entrar nesses detalhes.

— Não? – João avançou até onde ela estava parada, fazendo-a se sobressaltar com a proximidade inesperada. – Deixe-me ver se entendi bem... você vai contar apenas o que te convier?

— Nada do que eu direi me convém, João. São apenas fatos.

— Claro! Você deve ter tudo bem pensado há dias o como sempre.

— Olha, eu já disse o que vim dizer. Não estou pedindo para acreditar em mim, mas eu espero que você não permita que ódio que sente por mim cause problemas para a Sofia.

A mulher se virou para ir embora, mas João a deteve a puxando para si. Raissa arfou surpresa com o choque, e fitando-o nos olhos ela estremeceu. A raiva e o ressentimento ainda estavam refletidos no olhar do homem, mas havia também uma antiga tristeza. Pessoas demais contribuíram para que eles se afastassem, mas por alguma razão eles nunca conseguiram desfazer completamente aquela ligação. Quando acreditou que ele estivesse morto, tudo o que Raissa desejou foi morrer também. Mas então havia seu bebê e uma razão pela qual lutar, só que ela não foi forte o suficiente e deixou-se dominar pelo pai.

A vida após entregar Marcela para adoção se tornou ainda mais cinza e sem propósito. Quando acreditou não ter mais razão pela qual viver, escolheu se agarrar ao amor que um dia sentiu por ele. O amor que havia trazido Sofia à esse mundo. E foi por esse sentimento que ela viveu em busca do seu bem mais precioso até finalmente encontrá-la. João Luís nunca a perdoaria, porém ela faria o possível e impossível para dar à filha e a João o tempo que eles perderam.

— Eu preciso ir... – Tentou um último apelo. As coisas acabariam mal.

— Você estragou tudo, Raissa! Estragou tudo! – Vociferou João mantendo-a presa.

— Eu sinto muito... se eu pudesse mudar o passado, mas não posso.

A tristeza dela tocou fundo em João e fez com que ele a abraçasse ainda mais forte. Ele encostou a testa na dela lamentando toda a dor que os separavam.

— Sinto a sua falta. – Disse num sussurro inaudível antes de beijá-la.

— X —

Um silêncio incômodo caiu sobre a sala envolvendo os três. Pareceu uma eternidade até que alguém falasse alguma coisa novamente. Apreensiva, Flaviana arriscou um olhar em direção aos outros dois presentes. Na sua opinião, enquanto Sofia estava chocada, Otávio parecia nem um pouco surpreso. A morena podia até mesmo jurar ver um brilho zombeteiro nos olhos do rapaz. Teve que admitir que o primo era bem mais perspicaz do que ela gostaria e até mesmo soubesse da natureza do envolvimento dela com Sidney.

— Ok... esse momento precisa de uma bebida. – Otávio quebrou o silêncio e foi até a adega voltando com outra garrafa de vinho. – Se eu posso dizer algo finalmente é que... Eu já desconfiava!

— Não me surpreende. – Murmurou a morena contrariada.

— Então, quer dizer que esse lance de amor e ódio funciona mesmo, né? A sweetie e o ruivo... agora você e aquele rapaz! Imagino a tensão sexual!

Otávio gargalhou deixando Flaviana ainda mais constrangida. Ela pegou a taça que ele lhe ofereceu e tomou o líquido de uma só vez em busca de coragem para continuar aquela conversa. Sofia, como um autômato, aceitou a bebida, mas tomou apenas pequenos goles lembrando-se rapidamente dos acontecimentos que envolveram o sumiço da amiga. Na época, Sidney foi evasivo, até mesmo ríspido com ela, quando o confrontou e agora a loira entendia o porquê. O que estava difícil de assimilar é como ele e Flaviana acabaram juntos. Não apenas sob o mesmo teto, mas também na mesma cama.

— Melhor você ir com calma e explicar essa história direito. – Ele serviu mais vinho para a prima. – Então, conte-nos os detalhes sórdidos!

— OTÁVIO! – Flaviana riu de nervoso. Sua mão tremia um pouco e ela podia jurar que estava vermelha como um tomate. – Não tem graça!

— Ah... meu anjo, tem sim!

— Ele te forçou? – Sofia quebrou o próprio silêncio encarando a amiga de modo aflito. – Ele se aproveitou de você?

Ei, vamos com calma. – Pediu o rapaz deixando a diversão de lado. – Essas coisas acontecem.

— Eu vou matar aquele babaca!

Sem esperar uma resposta, Sofia levantou-se e foi em direção à porta já pensando em mil formas de torturar Sidney. Estava fervendo de raiva por pensar que o amigo teria traído sua confiança daquela maneira tão baixa. Ela nunca iria perdoá-lo por fazer mal a Flaviana. Nunca, jurou a si mesma. Entretanto, antes que ela saísse Flaviana a interceptou puxando-a pelo braço e a fazendo parar onde estava.

— Sofia, me escuta! Não foi nada disso do que você está pensando... Ele não me obrigou a nada, foi consentido.

— Mas você detesta o Sidney! – Exclamou a loira confusa. – Eu praticamente me ponho entre vocês pra evitar que briguem.

— Eu sei! Eu sei... mas aconteceu.

— Vocês se odeiam!

— Odiar é uma palavra muito forte, não sweetie? – Brincou Otávio tentando diminuir a tensão. – Certo, ninguém vai matar ninguém aqui. Vocês duas tratem de sentar e beberem um pouco de vinho pra relaxar e assim a Fla explicar o que realmente aconteceu.

Um pouco mais calma, Flaviana relatou todo o ocorrido entre ela e Sidney, desde a saída da festa, a briga com a mãe e a fuga do apartamento. Ela já tinha repassado mentalmente aqueles fatos, inúmeras vezes, mas ainda assim foi impossível não corar a cada risinho de Otávio e expressão de descrença de Sofia. Porém, para a frustração do primo ela preferiu não entrar em "detalhes sórdidos" sobre sua intimidade.

— Bem que eu vi uma faísca entre vocês enquanto dançavam.... – Debochou Otávio em meio à risos. – E se ele fizer o resto tão bem quanto beija... ui! – Ele fingiu sentir calor e se abanou com a mão.

— Beijo? – Indagou Sofia.

— Ele me beijou na festa. – Confirmou Flaviana sem jeito.

— Você sabia? – A loira encarou Otávio ainda confusa com toda a história.

— Bem, sweetie... não foi só você que me confiou alguns segredos.

— Ok... mas isso ainda foi inesperado.

— As melhores coisas da vida acontecem sem planejamento.

— Então, agora que não tem mais nada a ser dito sobre isso... podemos mudar de assunto? – Suplicou Flaviana.

— X —

— Qual a resposta do Caetano?

— Ele está um pouco relutante.

— É compreensível, a Sofia é filha dele.

Giovana parou no topo da escada. Tinha acordado com sede e resolveu ir a cozinha, mas acabou presenciando o que parecia um conversa importante entre Vera e Ronaldo... E o ponto mais interessante: envolvia Sofia.

— Eu entendo, mas não podemos adiar mais. Ela merece saber quem são seus pais biológicos.

Um alarme soou na cabeça de Giovana. Embora já tivesse se passado algumas semanas desde que descobriu que João e Raissa eram os pais de Sofia, ela não imaginou que eles pretendiam contar a verdade tão rápido. Mesmo que a princípio tenha pensado em ela mesma ser a porta-voz de tal notícia, a ruiva acabou voltando atrás quando a viu com Serguei. Seus planos haviam mudado naquele instante para algo muito mais cruel. Sua noção de justiça dizia que o mal que Sofia causou não poderia ser reparado tão facilmente, por isso ela precisava sentir na pele a mesma dor que infligiu à Anita. E se existia alguém que poderia fazer isso, essa pessoa era Giovana.

Tomando cuidado para não ser vista, a garota voltou para o quarto. Em sua cama, já começava a traçar o plano perfeito para a derrocada de Sofia. Por sorte não tinha sido tão difícil conseguir o que precisava... "Ah... as vantagens da tecnologia!" pensou a ruiva olhando para o celular. O primeiro passo seria dado no dia seguinte.

— X —

— Desculpa pela minha reação... Eu deveria ter sido mais compreensiva.

Flaviana desviou o olhar da vista e viu Sofia se aproximar e parar a seu lado. Sentia-se mais tranquila agora que já não precisava esconder nada da dela, mas ainda assim não estava tão confiante quanto ao seu próximo passo. A questão é que agora que tudo estava esclarecido ela não podia mais ignorar a outra pessoa envolvida naquela história. Pode ter sido relativamente simples fingir que seus sentimentos não tinham entrado na equação enquanto esteve em Londres, mas desde sua volta um desejo louco de falar com Sidney crescia em seu interior. Seria um grande erro? Ela prometeu ficar com ele, apesar do quão difícil fosse. Mas também havia ido embora

— Posso fazer uma pergunta?

— Eu até sei qual é.

Sofia riu e abraçou a amiga pelos ombros. Flaviana tinha escapado para a varanda após a discussão e ficou um tempo sozinha refletindo longe dos olhares curiosos. A loira e Otávio continuaram a conversar amenidades enquanto a morena tinha um tempo para respirar.

— Leu meus pensamentos?

— Não... Eu apenas me fiz a mesma pergunta muitas vezes. – Respondeu Sofia simplesmente. Ela mesma não viveu aquele dilema? – Você tá apaixonada?

— Eu ainda não sei exatamente o que eu sinto. – Admitiu Flaviana com um suspiro. – Na minha cabeça, ainda tá confuso. E também... Eu não sei o que ele pensa.

— Hum...

— Foi tudo muito inesperado.

— Eu sei como é... aconteceu o mesmo comigo e o Serguei.

— Como você soube que estava apaixonada por ele?

— Bom... – Sofia buscou na memória o momento exato em que já não pôde mais negar o que sentia. – Eu acho que não houve um momento específico, mas é como se eu soubesse desde o início a facilidade com que eu acabaria envolvida. Tanto que tentei muito mantê-lo longe... Só que o Serguei é tão teimoso quanto eu.

— Então isso é bom?

— Muito bom. Quando eu parei de fugir, finalmente fui feliz.

— É tão bom te ver assim. – Falou Flaviana com um sorriso. – Você merece muito essa felicidade.

— A senhorita também merece muito... independente do que aconteça, você é uma pessoa incrível. – Sofia deu um beijo estralado na bochecha da amiga. – Você pretende procurar o Sidney?

— Sim... amanhã. Talvez depois disso, eu finalmente tenha minha resposta.

— Você vai ficar bem? – Indagou com um sorriso sincero.

— Agora que eu estou junto da minha melhor amiga? Eu vou sim.

— X —

Raissa esqueceu por um momento todos os anos que separavam a mulher da adolescente que um dia ela foi. Quando João a beijou, ela pôde sentir a raiva e frustação que ele sentia enquanto a segurava nos braços, mas também sentiu a alegria que um dia compartilharam. Como um feixe de luz tentando romper a escuridão do ressentimento. Então, quando retomou a consciência do que estava acontecendo, ele a empurrou para longe como se não pudesse suportar tocá-la. Talvez essa seja pior consequência dos seus erros da juventude, pensou Raissa firmando o corpo... ter a consciência de que ainda o amava, mas também a certeza que nunca mais João confiaria nela.

— Eu não devia ter feito isso. – Falou João desviando o olhar para esconder a confusão interna. – Devo ter enlouquecido para esquecer o que você me fez... tudo o que me tirou.

Era inútil tornar aquele beijo maior do que era, então Raissa assumiu mais uma vez o controle antes de falar.

— Eu sei que você me odeia, mas se ainda posso pedir uma coisa... é que possamos ser civilizados de hoje em diante. Pela Sofia... apenas por ela.

Após um último olhar, ela foi embora do apartamento deixando mais do que um turbilhão de sentimentos para trás. Era errado, era ilógico... já se passaram tantos anos desde que esteve vulnerável àquele ponto. Mais uma vez, seus sentimentos precisavam ser sufocados, porque ela sabia que perdeu o direito de sonhar com uma história feliz há muito tempo. Apesar disso, quando entrou em seu carro, Raissa chorou como não foi capaz de chorar até então. Chorou pelo irmão, pela crueldade do pai e a traição da amiga. As lágrimas não vieram com mais intensidade quando ela pensou no seu bebê, tão indefeso, sendo levado para longe e sentiu-se mais solitária que nunca. Era como ter dezesseis anos outra vez, só lhe restando chorar por tudo o que perdeu e não poderia mais recuperar.

João a viu sair do seu apartamento, mas deixar sua presença por todos os lugares. Talvez tenha realmente enlouquecido, pensou o homem ao atirar-se no sofá. Ainda desnorteado pelo beijo, ele viu sobre a estante a sua foto com a falecida esposa. Carmem sorria para ele logo após assinarem os papéis do casamento civil. Ele não sorriu de volta. Lembrou-se de que casar com ela foi uma decisão consciente depois do apoio que recebeu após o acidente e a morte da mãe. E apesar da sua certeza, naquele dia que deveria ser um dos mais importantes da sua vida ele não sorriu. Ele odiava pensar sobre isso, mas depois de Raissa João nunca mais conseguiu ser plenamente feliz. E agora, depois de tê-la beijado, ele soube que nunca devia tê-la tocado outra vez. As lembranças ainda carregavam uma grande força e ele não poderia dizer se o que sentia era apenas ódio ou também saudade do que um dia eles viveram.

— X —

O apartamento estava silencioso quando ela voltou. Sem demora, Sofia seguiu para o quarto onde se livrou dos sapatos e do vestido. Com um suspiro, se jogou na cama e pegou o celular. Provavelmente Serguei estaria dormindo àquela hora, mas mesmo assim queria tentar falar com ele uma última vez.

Acordado? ✔✔

Sim. ✔✔

Me esperando? ✔✔

:P ✔✔

Trabalhando em algumas coisas. Como foi o jantar? ✔✔

Foi bacana... conversamos bastante. ✔✔

Então, está tudo bem entre você e a Flaviana? ✔✔

Sim! ✔✔

Ah... e o Otávio nos convidou para sair, quando você estiver livre. ✔✔

Sem socos dessa vez? :*✔✔

Só se você pedir. :D ✔✔

:P ✔✔

:*✔✔

Amor, vou dormir agora porque preciso acordar cedo amanhã. ✔✔

Tudo bem. ✔✔

Também preciso acordar cedo para organizar o que falta para o jantar. ✔✔

Eu quero que seja perfeito! ✔✔

Vai ser. ✔✔

Boa noite. :*✔✔

Bons sonhos.^^✔✔

Sofia largou o celular de lado e se acomodou melhor na cama. O dia foi longo e cheio de surpresas, mas apesar do cansaço ela sabia que não poderia dormir tão facilmente. De olhos fechados, relembrou a conversa que teve com Otávio antes de voltar pra casa.

Flashback ON [...]

— Não acredito que ele teve a cara de pau! – Indignou-se o amigo após ela contar o que Ben havia feito pela manhã. – É um canalha!

— Por sorte o João apareceu.

— Sim, sorte... mas e quando a sorte não puder entrar mais no jogo?

— Eu não sei... não quero que isso se torne maior do que deveria. — Falou a loira num suspiro cansado.

— Talvez já seja maior do que você pensa. Por tudo o que você me disse, esse Benjamim não é nem um pouco confiável.

— Você está certo.

Sofia deu razão ao amigo. Já não era tão impensável ver Ben como alguém estranho para ela. O verdadeiro cara por trás do personagem de príncipe, era muito diferente do que um dia julgou ser. Pensando sobre isso, não a surpreendia mais que a irmã tenha caído na lábia de Benjamin, uma vez que o que antes pareceu ser sinceridade não passava de manipulação. Mas se ela tinha uma certeza é a de que não iria se dobrar facilmente independente das intenções dele. E uma das formas de impedi-lo era contar o que estava acontecendo para Serguei. Não que ela precisasse da proteção do ruivo, mas sim porque não queria deixar margens para maus entendidos que poderiam prejudicá-los mais adiante.

Flashback OFF [...]

Decidida a falar com o namorado sobre o ocorrido, Sofia enfim começou a relaxar. Em poucos minutos ela caiu em um sono profundo.

Notas finais
Os inimigos estão saindo à luz! Mas confiem que tudo vai acontecer no seu tempo, ok?... ;) Comentários, críticas e elogios... adoro ler o que vocês escrevem! Vou responder os comentário pendentes, ok? Preciso só de um tempinho.♥ Ps: Não tem como pôr emoji no Nyah... #Xatiada! As mensagens tavam uma coisa fofa, mas tive que improvisar. Até próxima segunda com mais um cap... Beijos!