Era Uma Outra Vez...
13 Injustiçada
Notas iniciais
POV Sofia ON
O despertador começou a tocar o barulho infernal que tocava todas as manhãs. Ah... Como eu odeio! Mas também, o que se esperar de um troço comprado no mercado da esquina? Valeu mundo! Muito obrigada vida, por sempre ter a capacidade de me mostrar que o que tá ferrado pode ainda ficar pior. Como se o dia que eu tenho pela frente já não fosse suficiente, meu purgatório tinha que ser nesse bairro... Por falar em dia, acho melhor eu listar o que é que me espera fora desse quarto.
Ir à aula: OK. Ser hostilizada, odiada e desprezada: OK. Cagar para o que todos pensam de mim: ? É, o terceiro item já foi mais fácil. Não que eu dê ouvidos ao que aqueles idiotas invejosos do meu colégio pensam, mas... Sei lá, só queria ter um tempo não sendo o alvo preferido de onze entre dez rodas de fofoca, sabe? Ou não ter que ser indiferente o tempo todo ou fingir que não escuto as piadinhas que falam quando eu passo... Só por um dia não precisar me trancar no banheiro e chorar baixinho. É, me tornei uma pessoa patética. Mas nunca, nunca que eu vou dar o gostinho de alguém saber que eu faço isso. Bem, se é que temos pra hoje... Então, que seja.
POV Sofia OFF
Sofia saiu da cama e seguiu para o guarda roupas separando o ‘look’ do dia. Não era porque ela estava numa pior e completamente ferrada que ela não podia sofrer com estilo. A garota não tinha motivos para estar feliz, mas deixar que as pessoas soubessem disso não ia ajudar em nada.
Ela pegou uma camiseta branca simples, uma calça jeans preta e separou um scarpin preto. De acessórios, ela tirou da caixa de joias um max colar azul marinho, um anel de caveira e uma pulseira de taxas. Pôs tudo sobre a cama e foi para o banheiro. Como acontecia nos últimos dias, ela era a primeira a acordar e por isso era poupada de cruzar com qualquer outro morador do casarão. A casa estava silenciosa, e foi com alivio que ela se trancou no banheiro. Podia parecer bobagem ou exagero, mas era uma tática da garota de ter um pouco de paz ainda pela manhã. Uns minutos de tranquilidade que ela conseguisse já contavam muito para enfrentar o que lhe aguardava durante o dia.
Sofia tomou banho, escovou os dentes e retornou para o quarto. Vestiu as roupas e fez uma maquiagem leve, apenas rímel preto para destacar o verde dos olhos e um brilho labial, um pouco de blush para dar um aspecto saudável ao rosto. Após separar o material e a roupa que usaria na aula de educação física, ela pegou a bolsa e deixou o quarto em seguida. Já na cozinha, optou por comer uma maçã e tomar um iogurte como café da manhã.
– Acordou cedo.
Sofia levou um susto com a abordagem de Ben. Ela olhou para o rapaz de braços cruzados na saída da cozinha como se fosse o dono do mundo. Ele era tão seguro de si, tão diferente dela, como se não fosse afetado pela garota.
– Você me assustou.
– Não foi minha intenção.
– Por acaso foi o que eu disse? Eu só falei que me assustou. Da próxima vez tenta não andar de mansinho.
– Sabe que horas são?
– Não, só que eu to atrasada. Tchau! – Sofia caminhou para fora da cozinha. Ben a seguiu.
– Atrasada para quê? Eu notei que você tem saído cedo quase todos os dias.
– E daí? Eu te devo alguma explicação por quê? – Sofia deu de ombros. Quem ele pensava que era para lhe interrogar daquele jeito?
– Não, eu só... Esquece – Ben voltou para a cozinha. Dessa vez foi a vez de Sofia lhe seguir.
– Esquece o quê? O que ia me dizer?
– Nada... Quer dizer, eu queria pedir desculpas por ontem.
– Desculpas... – Repetiu ela absorvendo o significado da palavra, mas não conseguindo acreditar nela – Pelo quê? Têm acontecido tantas coisas que eu meio que tenho que me situar sobre o que você tá falando. Desculpas por me negar um beijo ou por me esfregar na cara que eu não sou tão digna de respeito e admiração quanto a minha irmã?
– Eu não quis atacar você, eu – O que ele queria? Perguntou-se o Ben. Ele não sabia, só que ao vê-la na cozinha sentiu necessidade de falar com ela – Porque não aceita as minhas desculpas e riscamos isso?
– Por que eu deveria? Eu te peço desculpas, você não aceita... Por que eu tenho que fazer diferente? Só porque você é o Benjamim, o cara que nunca erra e que é legal com todo mundo? Me poupa, tá? Não to afim de ouvir suas mentiras. Claro que você não sente nada, só faz isso porque é o que caras como você fazem.
– Como assim caras como eu? E eu não minto!
– Foi o que eu falei, caras como você são bons demais para isso. Mas se você não acredita em mim, eu também tenho o direito de não acreditar em você. É a lei do retorno, tudo o que vai volta! – Sofia se virou para sair novamente, mas parou e ainda de costas disse – Eu tenho pensado sobre uma coisa, sabe? Cheguei à conclusão de apesar de você ser um cara tão ‘bacana’, você mente sim. Só que não é para os outros que você mente, é para si mesmo.
E após dizer isso, ela saiu de casa. Ben ficou parado por alguns minutos tentando entender o que ela queria dizer com aquilo.
– X –
– Aí, gostosa! – Junior sentou-se ao lado de Sofia. A garota olhou para o garoto intrometido, mas preferiu ignorá-lo. Ela aumentou o volume da musica que escutava no celular enquanto olhava para o nada – Hey, eu falei com você!
Ela ficou calada. O garoto perdeu a paciência e com brutalidade puxou os fones do ouvido dela. Sofia se pôs de pé e Junior também.
– Qualé a sua hein? Todo mundo sabe que ‘cê’ é facinha, Sofia, vai bancar a difícil para cima de mim? Até o namorado da tua irmã você pegou!
– Você tem dez segundos para vazar daqui! – A entonação da garota era desprovida de qualquer emoção. O verde dos olhos frios como uma pedra de gelo. Junior ignorou o aviso.
– Ah, vamos lá, seja carinhosa... AI!
O garoto caiu gemendo no chão após levar uma joelhada entre as pernas. Sofia sorriu de canto de boca, pegou a bolsa e saiu andando como se nada tivesse acontecido. Os demais alunos no pátio do colégio a observaram passar, risos foram ouvidos.
– Aí, não sabia desse seu lado dominadora, amiga – Brincou Flaviana puxando a loira para um canto. Sofia e a morena se recostaram na parede e riram – Aquele idiota bem que mereceu. Vamos para a aula de educação física ou quer dar uma fugida do colégio? Minha motorista está a postos!
– Não, é melhor evitar problemas por enquanto. Ah... E bem que eu sabia que fazer aquelas aulas de defesa pessoal com você ia me servir para alguma coisa.
– X –
– Souberam do que rolou no pátio? Parece que a Sofia deixou o Junior ‘impossibilitado’ de ser babaca por um tempo.
– A minha irmã é fogo, viu? Parece que atrai problemas! – Queixou-se Anita.
– O cara foi estúpido, natural ela reagir – Opinou Serguei sem interesse. Júlia e Anita se entreolharam. Serguei defendendo a Sofia?
– Você defendendo a Sofia? – Perguntou Júlia, direta.
– É, você nunca foi fã dela. – Falou Anita.
– Não é questão se ser ou não fã, eu nem gosto dela. Mas ela estava certa, fazer o quê? Nenhum cara tem o direito de chegar numa garota se ela não der abertura... Vem cá, a gente tá falando sobre ela porque mesmo? Que tal nos concentrarmos no que é realmente importante? O seminário é daqui a dois dias e a gente tem que mandar muito bem.
– É, você tá certo Serguei. A gente tá com uma grande responsabilidade, o tema ‘adoção’ é muito importante para ser tratado de qualquer jeito. Sem falar que o pessoal do colégio em peso vai estar presente né?
– É isso aí, amiga – Concordou Júlia – Nós temos que focar nesse projeto.
– Eu vou falar com a Raissa depois da aula, ela tem umas informações para dar. Ela tem muito conhecimento sobre o assunto – Informou o rapaz.
Anita e os amigos estavam bastante entusiasmados com o seminário que apresentariam para o corpo de professores e alunos. Os três estavam muito empenhados em fazer daquele projeto algo que marcasse a história do colégio Destaque.
– X –
– Graças a Deus essa tortura acabou! Me passa o batom, please!
– Toma – Sofia entregou o objeto a Flaviana enquanto terminava de pentear os cabelos de frente ao espelho do banheiro feminino. A aula de educação física tinha acabado e depois de levar inúmeras boladas no jogo de queimado, o que a loira queria no momento era ir para casa. Mas para seu azar, ela ainda tinha uma ultima aula do nada compreensivo João Luis.
– To até vendo o chato do João pegando no meu pé.
– Ele é mesmo um mala!
– E eu não sei? Viu como ele agiu comigo ontem? Estúpido, apenas.
– E como não é bom facilitar, melhor a gente ir logo para a sala antes que ele cisme com a gente.
Sofia acabou de prender os cabelos num coque frouxo, pegou a sua bolsa e saiu com a amiga. As duas caminharam apressadas até a sala de aula, por sorte o professor ainda não tinha chegado.
– UFA! Demos sorte – Falou Sofia ao entrar na sala logo após Flaviana. O restante dos alunos já estava sentado nos seus respectivos lugares e pareciam conversar sobre alguma coisa. Quando Sofia seguiu para a sua carteira notou os olhares sobre si.
– Impressão minha ou tá rolando algo muito estranho? – Perguntou a loira pondo a bolsa sobre a carteira.
– Ora, ora... – Falou Amanda se aproximado da loira. A garota era desafeto de Sofia há anos e não perdia a oportunidade de implicar com a menina – Soube do que você fez ao meu namorado. Tá pensando que eu ia deixar passar batido?
– Namorado? Sério? Meus pêsames... Para ele.
– Ah, mas você não perde a pose, né? Se faz de superior, mas é só uma garota ‘mixa’ que furou o olho da irmã e pensa que vai fazer o mesmo comigo. Mas não vai tá me ouvindo?
– Hey, quem você pensa que é para falar assim da minha amiga? – Flaviana se colocou entre as duas. Uma roda de alunos se formou em volta das três garota.
Sofia mirou a ‘rival’ com desprezo e com toda calma do mundo disse.
– Flaviana, deixa essa imbecil para lá. Tudo o que ela quer é aparecer, como se por acaso todos os chifres que ela tem na cabeça já não proporcionassem destaque o suficiente para ela. Sinto muito, mas eu não faço parte da lista de garotas que já te ferraram pelas costas e apesar de que talvez isso fosse me dar muito prazer, eu nunca ia me rebaixar a esse nível. Isso eu deixo para você.
– Não? E o que você fez com tua irmã foi o quê? – Amanda riu e recebeu o apoio dos demais presentes que vaiaram Sofia. A loira não se abateu
– Sabe o que você é, Sofia? Você é uma nada. Uma bitch!
Sofia tentou se controlar, mas o ataque da garota lhe tirou completamente do sério e sem ver nada na sua frente, ela ergueu a mão e acertou em cheio o rosto da outra que gritou em surpresa. Amanda passou a mão no rosto vermelho, o silêncio pairando sobre todos.
– Eu posso ate não ser muita coisa, mas ainda sou muito mais que você, sua idiota!
– Posso saber o que tá acontecendo aqui? – João Luis chegou no exato momento em que Sofia partia para cima da colega. E como era de se esperar, entendeu tudo errado.
– Ela me agrediu, João. Sem eu ter feito nada, ela veio para cima de mim! – Acusou a garota chorosa esfregando o rosto onde se podia ver a marca dos dedos de Sofia. –
É MENTIRA! Ela me xingou primeiro, eu só dei o que ela merecia!
– Ela é louca, professor! Ela tem que ficar longe de mim!
– Ah, sua vaca! – Esbravejou Flaviana indo para cima de Nanda. Sofia a segurou impedindo que a amiga se complicasse também.
– Hey, vocês três, parem agora! Sofia será que você não se emenda? A conversa de ontem com a Raissa não foi suficiente? Pois bem, pode pegar suas coisas e ir de novo para a orientação.
– Isso não é justo, ela quem começou! – Defendeu-se a garota. Ela olhou em volta, todos a condenando com o olhar, com exceção de Flaviana que era a única que estava do seu lado – Pergunta pra qualquer um!
Mas ninguém se manifestou em favor dela. Sofia deixou os ombros caírem em derrota. Todos estavam contra ela pelo o que havia feito a Anita e agora a sonsa da Amanda ia se dar bem enquanto ela pagava por tudo sozinha.
– João, acredita na minha amiga, ela tá falando a verdade!
– Não, esquece Flaviana. Eu não tava afim de assistir essa aula chata mesmo! – Sofia pegou a bolsa e saiu em disparada para fora da sala sem ver o sorriso triunfante de Amanda e olhar de pena de Flaviana.
Fale com o autor