Era Uma Outra Vez...
14 O que não mata...
Notas iniciais
POV Sofia ON
Ah... Mas eles me pagam! Todos eles. Aquela cadela da Amanda fez de propósito, veio me provocar já com o intuito de me tirar do sério e eu idiota caí no joguinho dela. E to aqui, sendo acusada por algo que eu só tive metade da culpa. E aqueles inúteis nem para falar a verdade para o mala do João. E agora eu tenho que ficar nessa droga de sala olhando para a Raissa enquanto ela fingi estar preocupada com o que eu sinto. Me enchendo com essa psicologia barata que deve ter aprendido num curso feito pelo correio! Ah... Faça-me o favor! Ela não é nada minha, não é ninguém para se importar comigo!
POV Sofia OFF
– No que está pensando?
– Que eu aqui nessa sala e toda essa situação são perda de tempo. Eu não fiz nada, foi ela quem veio me provocar. Eu não tenho sangue de barata, claro que eu reagi!
– Sofia... – Raissa cruzou os braços sobre a mesa e buscou usar um tom conciliador – A questão não é quem começou ou não, mas você agrediu uma colega. Violência não se justifica.
– E o que ela fez também não foi violência?! – Ser chamada de vadia diante de todos era mais do que ela podia suportar. Ninguém tinha o direito de tratá-la daquela forma – Ela, ela... Esquece!
Era muito esperar que a orientadora a entendesse. Ninguém a entendia, só a julgavam e condenavam sem levar em conta a sua versão da história, porque ela não tinha defesa. Sofia sentiu a raiva tomar conta do seu ser, a sua cabeça quase estourando de dor. Ela sempre tinha enxaqueca quando ficava muito nervosa, e agora não era diferente. Sofia pensava que se tivesse batido com a cabeça na parede não seria tão ruim. Ela queria sumir, dar um basta em todas as ofensas, desistir. Ela estava cansada, ferida e magoada com uma infinidade de pessoas.
– Me deixa te ajudar.
– Você não pode, será que não vê?! – A garota se levantou e começou a andar de um lado para o outro. Ela estava se sentindo sufocada, injustiçada por tudo o que estava lhe acontecendo – Nada vai mudar, nada. Todos me odeiam!
– Acha que isso não é muito forte? Porque todos te odiariam?
– Pelo o que eu fiz... Ou não sabe? É o assunto preferido de semanas. A ‘Irmonstra’ Sofia e o mal que ela fez a irmãzinha, a santa Anita. Já deu disso, tá? Se quiser pode chamar minha mãe, meu pai, o raio que o parta ou até me expulsar. Ser chutada para fora desse colégio vai ser a melhor coisa que pode me acontecer no momento.
“Não é justo!” Pensou a menina. É como se todas as coisas ruins que ela fez tivessem se multiplicado e voltado para ela com mais força. E sem nenhuma proteção, ela era alvejada constantemente e a muralha que ela construiu para suportar os ataques começava a ruir.
– Eu não vou fazer isso.
– Então a gente tá fazendo o que aqui? Sério, me explica, porque eu não vejo o sentido de nada disso.
– Senta, vamos conversar.
Relutante, Sofia fez o que Raissa pediu e sentou-se novamente. Que mal faria ela se abrir com a mulher? Desde que o que fosse dito permanecesse entre as duas, Sofia estava disposta a ouvir e compartilhar um pouco dos seus tormentos. Quem sabe não fosse Raissa o apoio que ela precisava? Porém, antes que elas engatassem qualquer conversação, Serguei se anunciou com batidas na porta e depois entrou.
– Raissa, eu vim saber daquele nosso assunto... – Serguei se interrompeu ao notar a presença de Sofia na sala da orientadora – Atrapalho?
– Não, bom, eu a Sofia estávamos...
– Tudo bem Raissa, fica pra uma próxima. É como dizem, o que não mata... Posso ir agora?
– Claro... Mas você sabe que pode me procurar a qualquer hora, não sabe?
– É, to sabendo... Tchau.
A garota deixou o local sendo seguida com o olhar por Serguei e Raissa.
– O que foi que ela fez? – Questionou o ruivo sentando-se na cadeira antes ocupada pela loira.
– Se envolveu em uma briga com uma colega de classe. Eu tava tentando conversar, mas ela não deixa que eu me aproxime. É difícil, ela é muito contida, muito irônica... Usa o sarcasmo para me manter longe.
– Novidade... – Debochou o rapaz com um sorrisinho – Ela é assim com todo mundo.
– Você a conhece bem, Serguei? Quero dizer, você sabe se ela tá passando por algum problema? Eu quero ajudar a Sofia. É a segunda vez que ela vem aqui, mas não fala nada. Tudo o que deixou escapar é que todos a odeiam e que isso tem a ver com algo que ela fez com a irmã.
– Raissa, essa é, sem duvida nenhuma, uma longa história. E eu não me sinto muito confortável em falar, compreende? Só posso dizer que nada abala aquela garota, e quando eu digo nada é nada mesmo.
– Eu não sei se acredito nisso. Ninguém é assim tão inatingível, Serguei.
– Se ela é ou não, eu também não sei, mas sendo sincero, não tenho o mínimo interesse em descobrir. Eu vim aqui por outro motivo não para fazer uma análise da personalidade conturbada da Sofia. Então, vamos falar sobre o projeto?
– X –
– Tinta azul!
– Aqui!
– Assim que secar, eu passo uma tinta spray metálica por cima e pronto, o móvel para o quarto dos meninos fica pronto!
– Valeu Anita! – Agradeceu Pedro entregando a irmã um copo com suco que vera levou para os dois, momentos antes. Ela soltou o pincel após uma ultima demão e pegou o copo oferecido – Você entende mesmo desse negocio de restauração.
– Nossa, acho que vai chover! Você me elogiando, Pedrinho? Pensei que isso fosse algo que você reservasse só a Sofia, a sua ‘maninha’ preferida – Brincou a garota que logo se arrependeu depois de notar a expressão seria do caçula – Desculpa, eu tava brincando.
– Eu sei, não to com raiva de você, mas sim de mim e da Sofia também. Ela te fez mal e eu sempre tentei entender o lado dela, mas agora... Parece que eu não consigo, entende? É como se tudo o que eu pensasse sobre ela estivesse errado.
– Eu entendo como é... Também ainda não consigo apagar as burradas da Sofia. Ela é nossa irmã, mas não dá para amenizar tudo o que ela faz, né? O que eu mais lamento é que isso tenha afastado vocês dois... Acho que você deveria dar uma nova chance para a Sofia, ela sempre foi tão legal com você.
– Disse bem: comigo. Não quero que seja só comigo, quero que ela pense no que fez e passe a se comportar melhor com todos. E isso vale para você também, ela tem que te pedir desculpas.
Sem que Pedro e Anita percebessem, Sofia ouvia a conversa dos dois, próxima à porta da cozinha. Pedir desculpas para Anita? Esse era o preço que tinha que pagar para ter o afeto do irmão de volta? A garota não sabia se ria ou se chorava, era algo tão simples e ao mesmo tempo tão complicado. Pedro estava tão determinado e ela não sabia ser capaz de se humilhar perante Anita. A raiva que sentiu desde que deixou a sala de aula se intensificou e junto a ela, nasceu também uma agonia. Ela queria correr para Pedro, pedir perdão, garantir que nunca mais o decepcionaria, mas seus pés estavam presos ao chão. Ver o irmãozinho com Anita, feliz... Foi como se o único laço verdadeiro e puro que os unia tivesse se rompido. Ele nunca mais a veria da mesma forma, ela havia manchado a imagem boa que o menino tinha dela.
– O que é que tá fazendo escondida aqui?
Sofia sobressaltou-se com a chegada de Serguei logo atrás dela. Sem dizer nada, ela retornou para o interior da casa.
– Eu te fiz uma pergunta!
O rapaz a puxou com brutalidade pelo braço. Sofia sentiu lágrimas brotarem nos seus grandes olhos verdes, fato esse que assustou o ruivo e o fez soltá-la. Pela primeira vez, Serguei via Sofia demonstrar o que seria fragilidade, mas negando esse pensamento ela sorriu.
– Certo, certo... Eu não sei o porquê da sua obsessão comigo, mas sério, isso já tá chato. Você não tem mais nada importante para fazer, não? Sei lá, pintar um cabelo, tosar um cachorro, exaltar o amor que sente pela Anita... Algo que não me inclua nem me aborreça. Dá pra ser ou tá difícil?
– Para falar a verdade, não... Acontece que eu fiquei muito curioso com o que soube hoje de você. A Raissa acha que você tem alguma espécie de barreira emocional, impedimento ou sei lá o quê que te torna incapaz de ser uma pessoa boa. E eu andei pensando, é isso mesmo Sofia? No fundo, você é uma pessoa boa? – Debochou o rapaz para a raiva da loira.
– Serguei? Por que não disse que tinha chegado?
Anita apareceu na sala interrompendo a conversa. Ela foi até os dois, uma ruga de interrogação acentuada na sua testa.
– Ele tava aqui tentando ver o meu lado bom, acredita? – Sofia riu e olhou para os dois com expressão inocente – Eu tenho que confessar, eu... Ai cara, eu to tão arrependida pelo o que eu fiz. Tipo, eu choro toda noite, vivo em prantos, meu peito apertado com uma agonia que não dá pra explicar. Juro Anita, você é tão legal, tão boa que merece só o melhor. E eu, para mostrar o quanto eu te quero bem tenho que falar que sua felicidade é o Serguei. Ele te ama tanto, tanto... – A garota pausou propositadamente. Serguei não acreditou no que ouvia e Anita estava tão estática quanto ele – Eu super shippo um romance de vocês dois. Imagina que fofo, vocês vão ter filhos ruivinhos, ‘mana’. E covenhamos, ele é um gato. Tá bem servida, hein Anita? Bom, eu tenho uns lances para resolver, mas não se constranjam. O amor é lindo e vocês formam um casal mais lindo ainda!
E com essa deixa, Sofia deixou a sala em direção às escadas, um sorriso enorme iluminando o seu rosto.
– Des-Desculpa, Serguei... Eu não sei o que é que deu na Sofia. Ela não perde a oportunidade de infernizar a minha vida. É claro que ela quer estragar nossa amizade. Você, apaixonado por mim?! Nada a ver!
– Por que não? – Indagou o jovem tomado por uma coragem repentina – Seria tão impensável assim eu apaixonado por você?
– Você não tá falando serio, né? A gente é amigo, sempre foi... Nós nunca nos vimos assim, o carinho que eu sinto... Serguei é verdade?
– O que quer que eu diga? Que to brincando ou que sua irmã é mais baixa do que eu pensei? É, Anita, a mais pura e simples verdade é que... Eu te amo. É surpreendente, eu compreendo, você não esperava por isso. Seu melhor amigo apaixonado por você... Mas aconteceu. E se não falei nada antes é porque pensei que isso fosse passar, depois apareceu o Ben na sua vida e você estava tão feliz.
Serguei segurou as mãos de Anita nas suas como forma de enfatizar as palavras que dizia, a sinceridade do que sentia. Ela o olhou, dividida entre surpresa e amedrontada, sendo esse ultimo sentimento um pouco decepcionante para o rapaz. Ela nunca teve medo dele, nada sequer parecido com esse sentimento, mas era o que tava rolando. A garota não sabia o que falar para o até então amigo.
– E você não devia, não podia! Esse tempo todo, a gente foi só amigo, amigo entendeu? Eu gosto muito de você e não quero te magoar, mas tenta se por no meu lugar, Serguei... Eu preciso de um tempo.
– Se é o que você quer... Mas eu vou te dar algo para pensar bem no que vai decidir.
– O que?!
Sem que Anita esperasse, Serguei a puxou com delicadeza para um abraço, seus rostos bem próximos. Ele a olhou nos olhos, mas ela desviou o olhar. Anita respirava pesado, seu peito subindo e descendo depressa. Serguei não a beijou imediatamente, ele apenas observou cada traço do rosto da garota pelo o que pareceu uma eternidade para Anita. Com calma e a precisão de quem sabia o que estava fazendo, ele uniu os lábios aos dela, num beijo terno sem cobranças, uma comprovação de algo que ele precisava entender. Anita não reagiu, ficou imóvel enquanto o ruivo a prendia com mais força nos braços e da mesma forma que começou, o beijo acabou. Ele a soltou devagar, sua cabeça uma confusão assim como seu coração. Anita lhe deu as costas, a voz havia lhe fugido. Foram alguns minutos tensos até ela finalmente dizer.
– Você não devia ter feito isso.
– Agora eu sei. Desculpa.
Serguei passou as mãos nervosas pelos cabelos, uma certa mortificação tomando conta dele.
“Ela não sentiu nada.” Pensou ele sem conseguir desviar da visão de Anita de costas. Mas se fosse sincero, ele admitiria que o beijo não foi como ele esperava ou mesmo o que ele esperava... Foi só um beijo e ele não pensou que quando ele finalmente a beijasse fosse ser somente isso. Se bem que o que ele queria? Fogos de artifício, trilha sonora? Queria que ela desmaiasse por acaso? Certamente nada tão extremo, mas ainda assim uma reação diferente da total apatia de ambos.
– É melhor eu ir nessa... De novo, desculpa.
– X –
– Eu não acredito que você fez isso, Sofia!
– Pois, eu fiz. E teria feito tudo de novo... O Serguei já tava me devendo há muito tempo e quer saber de uma coisa, vai ver eu até ajudei ele, viu? Taí, digam o que for, mas ainda assim eu fiz uma boa ação. Já tava me enchendo a paciência aquele garoto rastejando pela sonsa da Anita o tempo todo a espera de migalhas... Tenha saco para isso, né?
– Se você está dizendo, mas algo me diz que ele não vai perdoar isso tão fácil. O que me preocupa é que eu não vou estar aqui para ajudar você... – Flaviana sentiu-se penalizada ao pensar na amiga sem sua companhia por uma semana inteira. Sofia era forte, mas a morena não estava certa de que ela segurasse a barra sozinha – Eu acho que eu vou cancelar. Nova York ainda vai estar no mesmo lugar e eu posso ir em outro momento.
– Nem pense nisso, Flaviana! – Protestou a loira elevando o tom de voz. Sofia apertou com força o celular e respirou fundo – Olha, nós duas sabemos que no seu lugar eu não pensaria nem uma vez e já tava embarcando, OK? Não quero que você se prenda por mim, ainda mais quando eu sei que esse é uma das raras ocasiões que você e sua mãe têm um tempo juntas.
– Comprar metade da cidade não é bem um tempo, né? Como se roupas de grifes fossem compensar os meses que eu mal a vejo... Prefiro ficar com você.
– E eu exijo que você curta essa viagem, tá me ouvindo? Eu vou ficar bem, eu prometo. E garanto que vai ser bem mais rápido se eu souber que quando você voltar vai trazer para mim aquela bolsa azul linda da Louis Vuitton que foi lançada mês passado.
– Então o seu interesse é simplesmente material? – Indagou Flaviana risonha.
– Claro! – Sofia riu – Eu tenho que desligar. E já que a gente não vai mais se ver até semana que vem: Boa viagem! Ah... E eu te amo.
Sofia desligou o celular sem esperar por uma resposta de Flaviana. Embora fossem muito amigas, era a primeira vez que a garota dizia a Flaviana que a amava e ter feito isso lhe proporcionou uma sensação maravilhosa.
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